A presente categoria teve como imagem escolhida para ilustrar este tema de análise duas mãos que nos passam a ideia de estarem em processo de autoconstrução, sendo que uma desenha a outra. Neste sentido, a metaforização refere-se neste estudo a uma forma de simbolização de desejos, fantasias bem como demais questões relativas ao sujeito. É a possibilidade para que os sujeitos possam caminhar rumo ao conhecimento de si a partir da leitura do outro.
No diário de campo escrevo assim: “no quarto encontro iniciamos o enredo do texto coletivo(texto 722), partindo de um pássaro perfeito, que acha tudo lindo e maravilhoso, e que percebe que há um mundo fora dele, que existe um outro”. Enfim por meio deste outro, o homem é suscetível a troca de conhecimentos, porém é necessário ser olhado, para olhar.
A árvore feita por Cs é comentada pelo grupo conforme o diário: “aquela árvore era que nem ela forte e protetora e tem um pássaro capaz de cuidar e proteger sua ninhada”. No enredo da história a passarinha necessitou sair do seu lugar, necessitou a troca. A escolha de sair da árvore proporcionou o encontro com o espelho, com sua imagem, permitiu um olhar- se.
Mosquera (1979) ressalta que “o desenvolvimento da autoimagem acontece através de um processo contínuo que está determinado pela vida individual e que se estrutura na ação social”. Completa-se a idéia do autor, com o propósito do homem ser entendido como um texto, uma vez que é lido e construído pelo olhar do outro que o lê, que o narra, formando um texto para este, formatado na lógica do sentimento associado a uma representação que constituirá um mundo interno. Enfim a passarinha fora construir sua autoimagem, bem como diz o Texto: “Uma passarinha morava em uma casinha de barro em cima de uma árvore, lá ela se sentia segura, mas ao mesmo tempo se perguntava como era o mundo lá fora. Então ela decidiu voar em busca de suas respostas...Decidiu descer da árvore, encontrou um espelho jogado no chão. Assustada viu sua imagem refletida, pensou que... era glamurosa, mas viu não era tudo o que pensava.” Enfim a autoimgem é resultado daquilo que o outro dirige sobre sujeito por meio da linguagem, bem como o grupo colocou para Cs.
A passarinha segue seu voo após se assustar consigo mesma, pois o espelho produzia sua imagem real, a qual não reconheceu. As questões de Jb perpassam pelo desejo de compreender as crianças, bem como fortalecer-se, pois sua imagem demonstra pouco daquilo que realmente é. O comentário descrito no diário demarca que: “aquela boneca era ela mesma, e que ao seu lado era um espelho, que servia para se ver melhor, as bolinhas representam suas buscas, seus desejos”. Por sua vez a passarinha encontra uma nova imagem para si, uma imagem distorcida, após um vôo conforme o texto:
Então que decidiu voar e se deparou com um avião e deicidiu voar tão alto quanto... voou para alcançar o avião, porém percebeu suas asas congelarem e começou a cair em queda livre...acabou caindo na piscina descongelando suas asas...conseguiu sair da piscina...onde ela viu refletida sua imagem distorcida... a partir disso percebeu que sua vida poderia ser diferente criando novas expectativas e novas buscas em suas descobertas.
Mosquera(1978) diz que a consciência de si, ocorre por meio de interrelações que se estabelece com o ser, estando este como o centro de uma situação social, uma vez que é determinada pela qualidade de experiências. Portanto a experiência ou vivência no GSC permite que o ser redefina um novo texto para si, pois escuta o outro, este o escuta, auxilia neste processo de reconhecimento de si, moldado pela linguagem que modifica a realidade.
Ss produziu uma ilha na qual tornou-se na história o lugar que contemplava a beleza e paz de espírito, sendo este um lugar encontrado após um árduo caminho, produzindo uma supervalorização para este lugar. No diário escrevi sobre sua produção: “as três pessoas ali na ilha, era a sua própria família, ilha que gostaria que existisse uma vez que, lhe faz falta”. A falta de estar com a família passa a ser uma das motivações para superar o árduo caminho. Segundo o Texto: “Ao chegar na ilha ela descobre de onde vinha a musica e percebe que, a luminosidade e a beleza do lugar era apenas o começo do novo mundo que ela descobriu ao enfrentar seus maiores medos. Viu que ali ela também tinha acesso livre a novos recursos”. Fg também data existência de um novo lugar para compartilhar e dividir após uma caminha, acrescida de uma escuta que a insere e produz um laço e uma identidade. Fg, produzira uma casa com piscina palmeira, um lugar para curtir, porém diz de um lugar distante, contudo muito especial para estar com as pessoas , bem como relembro no diário: “Este lugar é um lugar distante onde eu gostaria de estar às vezes, repartindo com meus amigos, este lugar também me diz sobre estas pessoas, lugar que eu gostaria que todos tivessem”. Logo, a questão da autoimagem, surge com a atualização continuada do processo de interação, que envolve a noção de grupo, contudo a identidade humana consubstancializa na autoimagem
uma vez que é um processo claramente interativo que leva a níveis de reflexão e de comunicação.
Sobre a produção de Ea registrei desta forma: “Ea produziu, colocou suas iniciais marcando assim sua autoria. E reforça que se deixou levar pelo inconsciente, pelo nada a ver, e que o inconsciente produz uma outra lógica, não racional, mas de sentimentos e emoções”. Ea fortaleceu-se ao encontrar respostas para si, respostas que foram reforçadas pela leitura do grupo, desdobrando o conhecimento de si, o qual mobilizou sua autoria e a possibilidade em acreditar e sonhar. A natureza da autoimagem reside no conhecimento individual de si mesmo e no desenvolvimento das próprias potencialidades. Na percepção dos sentimentos, atitudes e idéias que se referem a dinâmica pessoal (Mosquera, 1977). O sonho da passarinha representa o GSC, uma vez que este permite produzir um sonho, uma possibilidade, um acreditar, por meio da produção criativa e metafórica. Enfim Ea tem sonhado, como no sono, onde o que predomina é o inconsciente, e sonhado acordado onde conscientemente se percebe pelo olhar do outro. A penúltima frase do texto, data a questão dos sonhos. “Ainda deitada na cama ela percebeu que tudo não havia passado de um sonho onde ela era uma passarinha que havia vivenciado todo aquele processo”.
Na última frase do Texto a passarinha tornou-se uma menina: Voltando à realidade a menina reflete em sua vida e percebe que é capaz de enfrentar seus medos e ser feliz para sempre! Relembro a anotação sobre Mg: “Mg retoma um pouco do seu dia-dia, sua casa que acabou de adquirir e das suas conquistas...este trabalho com o grupo vem ajudando a se ver, pensar sobre si, e sobre seu cotidiano”. O estudo de Mosquera (1978) sobre o sentimento do próprio valor, como a possibilidade de registrar a existência humana, a qual o referido autor incita, como: “... do próprio valor teríamos a autoimagem e sua conseqüente autoestima. Elas se estabelecem através da luta pela existência, conservação e realização de si mesmo” (p.73).
Segue o quadro referente às produções dos participantes no encontro 5: PARTICIPANTES MODELAGEM REPRESENTAÇÃO DO
TEXTO DINAMIZADOR/DIÁRIO LEITURA DO DE CAMPO
Ea Três totens Autorizar-se Crer em si
Fg Uma casa com piscina,
palmeiras e canoas
Ter uma escuta Afirmar-se,
Ep Não compareceu
Cs Uma árvore e um pássaro Olhar para o outro Olhar-se
SS Uma ilha com coqueiros e
três pessoas Caminhar e historiar-se Valorizar-se MG Uma casa, um avião e um
rádio. Ver conquistas Pensar-si
ILUSTRAÇÃO IV – O espelho
4.4 QUARTA LEITURA – AUTOIMAGEM COMO RESULTANTE DA