3.7. ĠLETĠġĠM DOYUMUNUN KURUMSAL ÇIKTILARI
3.7.3. ĠletiĢim Doyumu ve Örgütsel Ġklim
Após os atentados de 11 de Setembro, os Estados Unidos aprovaram a lei Ato Patriota. Essa norma foi editada pelo Departamento de Justiça e aprovada pelo congresso americano. O regulamento permite a investigação e a espionagem do governo a suspeitos de terrorismo, sejam eles americanos ou estrangeiros, sem a necessidade de autorização judicial para violação do sigilo telefônico, bancário, de informações publicadas na internet, entre outros. Essa lei foi estendida no governo Obama e está válida até julho de 2015 (EUA, 2015)28.
Essa nova legislação surgiu no contexto do medo e da indignação do povo causados pelos atendados às torres gêmeas. Suas diretrizes são a vigilância e o monitoramento eletrônico de qualquer cidadão, americano ou estrangeiro, com a justificativa de que as ações terroristas são planejadas de maneira inteligente e organizada. Assim, até que se consiga um mandato para rastreamento de celular, por exemplo, os terroristas já mudaram o número do celular, nome e identificação. Portanto, o governo deve estar à frente para prevenir novos ataques (EUA, 2015).
O Ato Patriota define terrorismo como “ações criminosas que ameaçam a vida com o objetivo de influenciar a política do governo mediante a coerção” (COSTA; WUNDER, 2011, p. 30). Porém, como essa definição é ampla, o que se percebe é uma tentativa de limitar os direitos civis, com consequências tão abrangentes que poderia ser utilizado contra qualquer forma política de oposição ao governo americano. Isso fere não somente os direitos civis, mas também os direitos humanos, na circunstância de terem sido autorizadas detenções de cidadãos sem acusação prévia ou julgamento legalmente determinado. Entendemos que esse Ato, portanto, não visa a proteção dos cidadãos, mas objetiva uma afronta contra as liberdades individuais. É, assim, uma tentativa de assumir o controle interno e externo com a justificativa de guerra ao terror (COSTA; WUNDER, 2011).
Junto com o Ato Patriota, a Nacional Security Agency (NSA), que hoje se configura como a maior agência de inteligência do mundo, ganhou cada vez mais poderes. Essa agência foi fundada em 4 de novembro de 1952, no contexto da Guerra Fria, e é responsável por analisar os dados oriundos de dispositivos tecnológicos com o objetivo de prevenir ameaças aos Estados Unidos (CANALTECH, 2014)29. A finalidade da NSA é coletar e armazenar cada vez mais dados. Isso inclui chamadas telefônicas, meta-dados, e-mails, mensagens de texto, enfim, todo
28 EUA. DEPARTAMENT OF JUSTICE. . The USA PATRIOT Act: Preserving Life and Liberty. 2015.
Disponível em: <http://www.justice.gov/archive/ll/highlights.htm>. Acesso em: 12 jan. 2015.
29 CANALTECH (Ed.). O que é a NSA? 2014. Disponível em: <http://canaltech.com.br/o-que-e/espionagem/O-
tipo de dado que é produzido no mundo. Assange (2013) explica que a estratégia de vigilância e interceptação de dados é mais eficiente do que os sistemas de armas convencionais, pois o custo de um armazenamento de grande escala é mais barato e mais funcional do que uma aeronave militar, por exemplo30.
O armazenamento em massa e ao longo do tempo, permite que o governo colete todos os dados e analise na hora que quiser. Assim, é fácil saber qualquer informação sobre qualquer pessoa, empresa ou país em qualquer momento. O jornalista americano Grenwald, a quem Snowden entregou todos os documentos que comprovavam a espionagem da NSA, acredita que essa estratégia é uma forma de o governo americano eliminar a privacidade eletrônica no mundo inteiro. No seu livro Sem lugar para se esconder (2014, p.96), ele afirma que a finalidade desse
Estado de vigilância é “coletar, armazenar, monitorar e analisar todas as comunicações
eletrônicas de todas as pessoas ao redor do mundo”.
Para coletar todos esses dados, a NSA utiliza várias estratégias. A metodologia da coleta pode ser dividida em três categorias de programas. O primeiro é por meio de captação de dados, através de invasão à infraestrutura, como por exemplo: a interceptação direta dos cabos de fibra óptica (inclusive os marítimos) usados para transmitir comunicações internacionais e a cooperação com fornecedores de infraestrutura como a Dell e empresas que têm acesso a roteadores de larga escala no mundo (GRENWALD, 2014).
Não é segredo algum que, na Internet, todos os caminhos que vão e vêm da América Latina passam pelos Estados Unidos. A infraestrutura da internet direciona a maior parte do tráfego que entra e sai da América do Sul por linhas de fibra óptica que cruzam fisicamente as fronteiras dos Estados Unidos. O governo norte-americano tem violado[...] as próprias leis para mobilizar essas linhas e espionar seus cidadãos. E não há leis contra espionar cidadãos estrangeiros. Todos os dias centenas de bilhões de mensagens vindas de todo o continente latino americano são devoradas por órgãos de espionagem norte americanos e armazenadas para sempre em depósitos do tamanho de cidades. Dessa forma, os fatos geográficos referentes à infraestrutura da internet têm consequências para a independência e soberania da América Latina (ASSANGE, 2013).
O segundo método de conseguir dados é através da parceria com as maiores empresas de internet e telecomunicações, as quais dão total acesso aos seus servidores. Entre essas
30 No livro, o autor compara o preço de uma aeronave militar que custa em média 100 milhões de dólares e um
sistema de armazenamento com capacidade de 50 Pb, o que daria parra armazenar todas as telecomunicações da Alemanha em um ano, que custa 30 milhões de Euros. Nesse valor já está incluso toda a infraestrutura e manutenção.
companhias estão: Facebook, Yahoo!, AOL, Google, PalTalk, Skype, Youtube, Apple e
Microsoft. Essa parceria faz parte do programa PRISM. Isso significa que todos os dados de
todos os clientes dessas empresas estão à disposição do governo americano (CANALTECH, 2014)31.
Por último, a NSA consegue muitas informações através de parcerias estratégicas com países estrangeiros, essa união é intitulada de “Aliança dos cinco olhos”. Ela é composta pelos países: Reino Unido, Canadá, Austrália e Nova Zelândia. Entre esses países o Reino Unido e o Canadá são os que possuem relações mais estreitas com a agência. Inclusive, foi com ajuda do Canadá que o programa OLYMPIA, espionou o Ministério de Minas e Energia do Brasil. Além desses países, a agência mantém parceria com a Unidade Nacional de Inteligência de Sinais Israelenses, com quem compartilha diversos dados. No grupo dos países que sofrem espionagem estão não só países considerados adversários dos americanos (como: Rússia, China, Irã, Venezuela e Síria), como também aliados, entre os quais: Brasil, México, Argentina, Indonésia, Quênia e África do Sul (GRENWALD, 2014).
Toda essa coleta de dados com objetivo de combate ao terrorismo é facilmente questionada ao analisar os documentos que Snowden vazou sobre a espionagem de caráter puramente econômico como foi o caso do ocorrido no Brasil. A NSA tinha como alvos de espionagem a Petrobrás, o sistema bancário SWIFT, a petrolífera russa Gazprim e a empresa aérea também russa Aeroflot. Essa conjuntura permite a reflexão sobre que tipo de vantagens políticas e econômicas esses países obtêm com essa invasão (GRENWALD, 2014).
Ao contrário de proteção e segurança, podemos entender a vigilância como prática de uma sociedade – nacional ou global - de controle que prima pela manutenção de uma dada ordem política, social e econômica, ainda que, para isso, necessite violar direitos
civis conquistados ao longo de séculos de lutas do “terceiro estado” contra os
avoengos direitos aristocráticos de nascimento. Desse modo, é a proteção do capital (e não da vida ou do indivíduo) que aparece como prioridade e finalidade última da vigilância e da ideologia a ela correlata (COSTA; WUNDER, 2011, p. 30).
Durante a Guerra Fria o grande temor dos Estados Unidos eram os comunistas. A corrida armamentista, o incentivo a ditaduras em países latino americanos e ausência de privacidade eram atitudes que diminuíram os direitos individuais em nome do bem maior, a nação americana. Era uma luta entre o bem e o mal. Esse mal, era algo fictício e ao mesmo tempo presente no inconsciente da população. Sua denominação era tão ampla que poderia se encaixar
31 CANALTECH (Ed.). O que é a NSA? 2014. Disponível em: <http://canaltech.com.br/o-que-e/espionagem/O-
muito bem ao eliminar pessoas dissidentes das ideias do governo, mas que não eram criminosos. Essa guerra entre o bem o mal agora assume uma nova reconfiguração, os comunistas são os terroristas. A guerra ao terror submente os cidadãos ao estado de vigilância, um sistema panóptico, em que qualquer reação suspeita poderia ser denominada de terrorismo.
4 ANÁLISE DA CIRCULAÇÃO MIDIÁTICA DO CASO SNOWDEN: TEMATIZAÇÃO, DIVULGAÇÃO DE DADOS E DESVIOS
Esse capítulo irá abordar as estratégias utilizadas na análise de conteúdo referente ao estudo de caso: circulação midiática brasileira do vazamento de dados da NSA por Edward Snowden. Para isso, serão elencadas as três etapas da análise de conteúdo de acordo com Oliveira (2008), Bardin (2006) e Meireles e Cedón (2010), sendo elas: 1) pré-análise, 2) exploração do material e 3) tratamento dos resultados, inferências e interpretação.
Esse trabalho analisou 256 notícias publicadas na internet por sites, blogs e portais de notícias brasileiros, no período entre 1 de junho a 31 de julho de 2013. Os procedimentos adotados nessa pesquisa, principalmente os relacionados à terceira etapa da análise de conteúdo, estão embasados no modelo de estudo de caso em paradigma indiciário proposto por Braga (2008).