BÖLÜM 3: NEO-LİBERAL DEĞİŞİM SÜRECİNİN AKADEMİSYENLERİN
3.4. Analiz Kısım 2: Örnek Üniversite Yapılanmasının “Akademik Çalışma” Pratiği İle
3.4.1. İ stihdam Biçimi: Bir Esnek Çalışma Örneği
3.4.1.1 Tam Zamanlı Öğretim Üyesi Sözleşmesi
“O mesmo pé que dança o samba, se preciso vai à luta:
capoeira !”1
É óbvio, hoje, que o Brasil não foi achado, encontrado, muito menos descoberto, mas sim, como de forma apaixonada nos aponta Darcy Ribeiro, ele emerge como conseqüência do desenvolvimento de um processo de formação social que tem a sua origem no confronto inicial entre invasores e nativos de Pindorama, processo esse que prosseguindo com a participação, anos mais tarde, de negros africanos, principalmente, instalou-se, com a atuação de “brasilíndios”, “afro- brasileiros”, “neobrasileiros”, brasileiros e de um grande número de homens e mulheres de outras culturas, de outras etnias, de outras nações, que vêm realizando, efetivamente, a sua constante (re)construção2.
Mesmo que, ainda nos dias de hoje, encontrem-se os que, por várias razões, ainda reforcem o mito fundador da visão do paraíso e da origem e constituição de nossa história “como a realização do plano de Deus”3 e os que, pelas mesmas razões, acreditam na “fábula das três raças”4, divulguem-na e dela se utilizem como um dos meios para a busca da consolidação da ideologia dominante, é óbvio, também, que tal processo de formação social não se desenvolve, do seu início até
1
Viola enluarada, Paulo&Marcos Valle, 1968
2
Cf. Darcy Ribeiro, O povo brasileiro: a formação e o sentido do Brasil, São Paulo, Companhia das Letras, 1995
3
Cf. Marilena Chauí, Brasil: o mito fundador. Caderno Mais, n° 424, 26 de março de 2000, Folha de São Paulo, São Paulo, Folha de São Paulo, 2000 e, também, Brasil: mito fundador e sociedade autoritária. São Paulo, Editora da Fundação Perseu Abramo, 2.000
4
Cf. Roberto DaMatta, Relativizando: uma introdução à antropologia social, Rio de Janeiro, Rocco, 1987, p. 67-70
114
os dias atuais, na mais perfeita harmonia, como um sonhado congraçamento entre os povos de todo o mundo, como um encontro pacífico entre as diversas etnias e suas respectivas culturas, gerando um contexto de “democracia racial”, como interpreta, equivocadamente, Gilberto Freyre5, contexto esse irreal, no qual, para ele, questões como a do racismo, segregação e discriminação sócio-cultural não têm lugar.
Em todos os períodos, tradicionalmente estabelecidos pelos estudiosos da história desse processo de construção de nossa formação social, encontramos, de uma forma ou de outra, direta ou indiretamente, registros de interpretações que indicam a rica e complexa polissemia que caracteriza as diversas interpretações sobre “o que é” a Capoeira.
Por certo, no processo de ser-no-mundo, realizando o Dasein, definido por Heidegger, ao qual me referi no primeiro capítulo, é que alguns dos vários sentidos atribuídos, também, à Capoeira vêm, ao longo dos anos (ou melhor, dos séculos), perdendo a sua força e ficando quase que esquecidos; outros revigorando-se e, quase sobrepujando os demais, tornando-se uma referência; e, ainda, outros tantos novos sentidos surgindo, a cada dia que passa, como é possível identificar ao abordar-se as diversas interpretações desse fenômeno.
Como já admitiu Viriato Corrêa, é quase impossível descobrir as origens do fenômeno Capoeira, pois “nasceram com a cidade. Cresceram, aperfeiçoaram-se á
5
Dentre a extensa obra do autor, destacam-se, sobre esse tema, Casa Grande & Senzala, Sobrados e Mucambos e Ordem e Progresso, constantes da bibliografia deste estudo.
115
proporção que a cidade foi evoluindo e crescendo”6 e, tampouco, tal tentativa de descoberta está contida dentre os objetivos deste estudo. Ao buscar, porém, compreender o fenômeno Capoeira por intermédio da visão dialético- fenomenológica da relação homem-mundo-fenômeno, tendo em vista fortalecer a concepção materialista-dialética da realidade, faz-se necessário que sejam considerados os diversos sentidos atribuídos a Capoeira, tais como luta, dança, arma, brinquedo, defesa pessoal, atividade criminosa, arte, jogo, esporte, arte marcial, terapia, Educação Física, movimento político-social. Assim, com base, principalmente, nos pressupostos heideggerianos quanto à existência e ao ser-no- mundo e as concepções de Merlau-Ponty quanto à manifestação do fenômeno e ao mundo percebido, vejamos algumas das suas mais significativas perspectivas!
Mesmo que o vocábulo capoeira tenha sido registrado pela primeira vez em 1712, por Rafael Bluteau, em seu “Vocábulo Português e Latino”, apenas é em “Iracema” (1865) e no “O Gaúcho” (em 1870) que José de Alencar propõe estar a sua origem na Língua Tupi7. Importante ressaltar que, durante esses mais de dezoito anos que, com afinco, dedico-me ao estudo da Capoeira, encontro, até o momento, tal proposição alencariana, como a única unanimidade, nos dias de hoje, existente no Campo da Capoeira.8 “Capoeira é um vocábulo derivado do Tupi”, afirma, convictamente, a grande maioria de seus atores sociais. Além dessa afirmativa, tudo mais é um mar de interpretações que, como tal, nem sempre são convergentes ou banham as mesmas praias, a começar, por exemplo, pela discordância sobre qual
6
Viriato Corrêa, Casa de Belchior, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1936, p. 37
7
Cf. Waldeloir Rego, Capoeira Angola: ensaio sócio-etnográfico, Salvador, Itapuã. 1968, p. 17
8
Ao utilizar o conceito de campo, faço-o seguindo a concepção de Campo Social, de Bourdieu. Para aprofundamento do assunto, os interessados devem consultar, dentre outras estudos, Bourdieu, P. O campo científico, in: Pierre Bourdieu: sociologia, Renato Ortiz (org.), São Paulo, Ática, 1983, p. 122; O mercado de bens simbólicos, in: A economia das trocas simbólicas, São Paulo, Perspectiva, 1987, p. 99-181; Algumas propriedades dos campos, in: Questões de sociologia, Rio de Janeiro, Marco Zero, 1983, p. 89-94 e também Carlos Benedito Martins, Estrutura e ator: a teoria da prática em Bourdieu, Brasília, UnB, (mimeo), 1987
116
étimo do Tupi teria dado origem ao nosso vocábulo capoeira: seria caa-apuam-era (Alencar/1865) ? Teria sido có-puera (Baurepaire Rohan/1879) ou caá-puêra (Macedo Soares/1880) ? Será que não foi caapoêra (J. Barbosa Rodrigues/1890 e Visconde de Porto Seguro s/d) ou cocûera (Montoya/1640) ou, ainda, kopûera (Edeweiss/1955) ? Hoje em dia, a origem aceita pela maioria dos estudiosos do assunto é o vocábulo caá-puêra que é formada pela junção de caá — mato, floresta virgem — com puêra — o que foi, o que não existe mais —, donde, conforme define Macedo Soares, caá-puêra “significa mato virgem que já não é, que foi botado abaixo, e em seu lugar nasceu mato fino e raso”.9
Ainda discorrendo sobre o termo capoeira, Waldeloir Rego apresenta mais duas versões sobre a sua origem, as quais, também, são consideradas, por alguns poucos, como verdadeiras. Uma delas refere-se ao fato de que, conforme afirma Antenor Nascentes, os movimentos realizados pelos que jogam capoeira são semelhantes aos executados pelo macho de uma ave, do mesmo nome, encontrada em várias regiões do Brasil, ao defender o seu território dos ataques de seus rivais e, assim, preservar a posse de sua fêmea. A outra, advém da correlação feita entre alguns negros que levavam galináceos (capões), em grandes cestas (capoeiras), para vender no mercado e o jogo, constituído de “exercícios de destreza corporal”, que realizavam enquanto este não abria, ficando, assim, brincando (era essa a intenção inicial) e divertindo-se com tal jogo.
Waldeloir Rego, em seu clássico estudo sobre a Capoeira, referindo-se à questão semântica, ainda apresenta, após a consulta a diversas obras de vários autores, as acepções que se seguem:
9
117
• espécie de cesto feito de varas, onde se guardam capões, galinhas e outras aves;
• local onde fica a criação; • carruagem velha; • tipóia;
• termo de fortificação, designando a escavação no fundo de um poço seco, guarnecida de um parapeito com seteiras e de um teto de franchões, sobre que se deita uma grossa camada de terra; • espécie de cesto com que os defensores duma
fortaleza resguardam a cabeça; • uma peça moinho;
• mato que foi cortado;
• lenha que se retira da capoeira, lenha miúda; • uma ave (Odontophus capueira, Spix), também
conhecida pelo nome de Uru;
• o que pertence ao jogo da capoeira; • indivíduo desordeiro;
• ladrão de galinha;
• espécie de veado existente no Nordeste; • matuto, indivíduo na capoeira;
• espécie de jogo atlético10
Na manifestação do fenômeno Capoeira, mais uma vez o homem e a ação se complementam no processo de ser-no-mundo e essa inter-relação é tão intensa que se encontra, em qualquer das perspectivas de sua origem, a mesma denominação atribuída tanto ao seu praticante como ao próprio fenômeno!
É importante ressaltar, também, que os negros escravos que fugiam de seu cativeiro, buscavam, na maioria das vezes, como seu primeiro abrigo os “capões de
10
118
mato” que, por sua constituição, os escondiam de seus donos e capatazes, donde o “negro fujão” passa a ser chamado como “negro das capoeiras”, “negro de capoeira”, “negro capoeira”, “capoeira”! Assim define Renato Almeida:
“Quanto ao nome — capoeira — parece uma metonímia. Os negros fugidos à perseguição dos capitães-de-mato, se ocultavam nas capoeiras, matos enfezados, nascidos onde se fez derrubada da floresta virgem. Quando esses escravos eram descobertos, não dispondo de armas, defendiam-se com um jogo agilíssimo e violento que, sendo travado nas capoeiras, ficou com esse nome”.11
De forma semelhante, considerando que capoeira é também o nome que é dado a uma pequena clareira na mata (caá-puêra) e, conforme relatam os estudiosos do período da escravidão, era para lá que os negros fugitivos atraíam seus perseguidores procurando (e muitas vezes conseguindo) vencê-los por intermédio de uma luta corporal que, com extrema coragem, inimaginável agilidade, surpreendente astúcia, aplicavam, como relata Annibal Burlamaqui, “um jogo extranho de braços, pernas, cabeça e tronco, com tal agilidade e tanta violência, capazes de lhe dar uma superioridade estupenda”12, o que leva, alguns poucos Mestres de Capoeira, a afirmar, confiante e romanticamente, que “foi Zumbi dos Palmares, exímio capoeirista como todo o seu exército”13.
Esse mesmo “jogo extranho”, citado por Burlamaqui, Donald Pierson a ele se refere afirmando que “era uma forma de combate altamente complexa,
11
Cf. Renato Almeida, Tablado Folclórico, São Paulo, Ricordi Brasileira, 1961, p. 125-126
12
Annibal Burlamaqui, Gymnastica Nacional (Capoeiragem): methodisada e regrada. Rio de Janero, o Autor, 1928, p. 12
13
119
originariamente desenvolvida pelos escravos fugitivos, estamos informados, a fim de se adestrarem para lutar mais eficientemente com os armados capitães-do-mato (...)”14
Relato semelhante é feito por Johann Moritz Rugendas, no início do século
XIX, com a introdução, em sua obra intitulada Viagem Pitoresca Através do Brasil, de
duas gravuras que têm como tema a Capoeira, sendo que uma delas traz o título de
Jogar Capöeira ou Danse de la guerra, acompanhada do comentário que se segue:
“Os negros têm ainda outro folguedo guerreiro muito mais violento, a capoeira, que consiste em dois contendores se jogarem um contra o outro, como dois bodes, procurando dar marrada no peito do adversário, para derrubá-lo. Neutralizam o ataque por meio de paradas, ou fogem-lhes com o corpo em hábeis saltos. Por vezes, entretanto, acontece chocarem-se terrivelmente as cabeças e, não raro, a brincadeira degenera em conflito sangrento”.15
Não é possível deixar de inferir que tal tipo de clareira, surgida após a queima, proposital ou não, do mato alto ali existente, fosse, com segurança, utilizado, também, como lugar para a realização de atividades de cunho religioso, político ou de lazer, as quais não alcançariam seus objetivos caso acontecessem na mata cerrada ! A Capoeira, desta forma, era não apenas espaço de luta pela sobrevivência como também, dentre outras possibilidades, lugar de celebração, comemoração, diversão e doutrinação !
14
Cf. Donald Pierson, Brancos e pretos na Bahia: estudo de contacto racial. São Paulo, Editora Nacional, 1971, p. 285
15
120
Cabe aqui ressaltar que, contrariando a opinião de alguns atores do campo da Capoeira, os negros escravos tinham, sim, os seus momentos de folga, de lazer. Sabe-se desse fato por intermédio, dentre outros estudiosos, de Gilberto Freyre quando afirma que os Senhores de Engenho, bem conhecidos como um dos principais sustentáculos do regime de escravidão do negro africano no Brasil, “tiveram um arremedo de taylorismo” e, assim, administravam a força de trabalho de forma a obter “o máximo de força útil e não simplesmente o máximo rendimento”, principalmente pelo alto custo de cada “peça” de escravo16. Desta forma, nada mais lógico que, seguindo essa premissa, os donos de escravos ao administrar a relação “máximo esforço útil/máximo rendimento”, não apenas autorizassem, ao negro cativo, o acesso a uma alimentação “farta e reparadora” como também permitissem a realização de festas e divertimentos, ocasiões essas — que, hoje, podemos ironicamente chamar de tempo “livre” — nas quais, então, aproveitavam o máximo do Lundu, da Capoeira, do Samba-de-Roda, do Jongo etc.17 Quanto a um desses momentos, Gilberto Freyre, assim relata:
“No dia da botada — primeiro dia de moagem das canas — nunca faltava o padre para benzer o engenho; o trabalho iniciava-se sob a benção da Igreja. O sacerdote primeiro dizia a missa; depois dirigiam-se todos para o engenho, os brancos debaixo de chapéus de sol, lentos, solenes, senhoras gordas, de mantilha. Os negros contentes, já pensando em seus batuques à noite”18.
16
Cf. Gilberto Freyre, Casa-grande & senzala. Rio de Janeiro , Record, 2.000, p. 116
17
Idem, ibid. p. 158
18
121
Considerando que os escravos eram “as mãos, e os pés do senhor de engenho; porque sem elles no Brazil não he possível fazer, conservar, e augmentar fazenda, nem ter engenho corrente”, de forma semelhante relata João Antônio Androni (sob o pseudônimo de André João Antonil) em sua obra intitulada Cultura E
Opulência Do Brasil Por Suas Drogas e Minas, publicada em Lisboa em 1711, ao
afirmar, no capítulo intitulado Como Se Ha De haver O Senhor Do Engenho Com
Seus Escravos, que
“negar-lhes [aos escravos] totalmente os seus folguedos, que são o único allivio do seu captiveiro, he querel-los desconsolados, e melancholicos, de pouca vida, e saúde. Portanto não lhes extranhe os senhores o criarem seus reis, cantar, e bailar por algumas horas honestamente em alguns dias do anno, e o alegrarem-se honestamente à tarde depois de terem feito pela manhã suas festas de N. S. do Rozario, de S. Benedicto, e do orago da capella do engenho, sem gasto dos escravos, acodindo o senhor com sua liberalidade aos juizes, e dando-lhes algum premio do seu continuado trabalho”.19
Informação semelhante encontramos em Luís Edmundo, ao comentar sobre os folguedos populares e diversão nas ruas do Rio de Janeiro, no início do século
XIX: “Que faziam os negros escravos após o labor que os matava, a surra do
19
Cf. José Ramos Tinhorão, Música popular de índios, negros e mestiços, Petrópolis, Vozes, 1972, p. 36. Quanto à ocupação do tempo livre do trabalho do negros escravos, e seu gosto pelas festas, ver também, do mesmo autor, Os sons dos negros no Brasil: cantos, danças, folguedos, São Paulo, Art Editora, 1988 e As festas no Brasil colonial, São Paulo, Editora 34 Ltda., 2000
122
vergalho, ao viramundo e a polé, pelo terreiro das senzalas, quando dormiam os feitores ? Cantavam! Dançavam!”.20
Importante também é o relato que Charles Ribeyrolles faz, em meados do século XIX, em sua obra intitulada Brasil Pitoresco, apontando mais um dos sentidos
atribuídos à Capoeira:
“No sábado, à noite, finda a última tarefa da semana, e nos dias santificados, que trazem folga e repouso, concedem-se aos escravos uma ou duas horas para a dança. Reúnem-se no terreiro, chamam-se, agrupam-se, incitam-se e a festa principia. Aqui é a capoeira, espécie de dança pírrica de evoluções atrevidas e combativas, ao som do tambor do Congo. Ali é o batuque, com suas atividades frias ou lascivas, que o urucungo acelera ou retarda. Mais além é uma dança louca, com a provocação dos olhos, dos seios e das ancas. Espécie de convulsão inebriante a que chamam lundu”.21
Pela transmissão oral dos acontecimentos e fatos históricos que permeiam o fenômeno Capoeira, tanto em sua constituição como em sua manifestação, Carybé, transcrevendo o que ouviu dos Velhos Mestres da Bahia, atribui, também, a esses momentos de folga a ocasião em que, camuflando, os negros escravos praticavam a “luta da capoeira” como uma forma de dança, acompanhada de música e de pantomimas. Assim relata o famoso artista plástico:
“Formavam rodas em que os lutadores se exercitavam ao som dos berimbaus e das palmas. O feitor passava, apreciava os negros
20
Cf. Luís Edmundo, Recordações do Rio Antigo. Rio de Janeiro, Conquista, 1956, p. 93-94
21
Cf. Jair Moura, Capoeiragem: arte & malandragem, Salvador, Secretaria Municipal de Educação e Cultura/Departamento de Assuntos Culturais/Divisão de Folclore, 1980, p. 17
123
‘brincando Angola’. Achava bonito. Batia palmas também, e os jogadores continuavam suas pantomímas, jogavam-se no chão, olhavam-se de cabeça para baixo, riam e dansavam uma dansa exquisita de gingados e pulos, ou rolavam no chão que nem cobras. Os Senhores e Sinhás gostavam de ver”.22
Por serem os negros escravos os primeiros a serem vistos, pelos “Senhores e Sinhás”, praticando a Capoeira, muitas afirmações sobre a sua origem africana foram veiculadas, precipitadamente, não apenas pela elite branca que os apreciava nos dias de festa, ou pelos capitães-do-mato e capatazes que os enfrentavam nas pequenas batalhas pelo seu resgate, de um lado, pela sua liberdade, de outro. Não apenas ouve-se, através dos anos, que a “Capoeira é africana”, tanto de seus praticantes, dos mais ingênuos aos mais críticos, como também de algum repórter menos avisado23, ou de alguns estudiosos de renome que, direta ou indiretamente, atuam, interferem, interagem no Campo da Capoeira. Dentre esses “africanistas” destacam-se Edison Carneiro, Câmara Cascudo, Inezil Penna Marinho, Mestre Pastinha (no início, pois, em entrevista concedida a Antonio Tourinho, em 1963, o Mestre nega a origem africana da Capoeira, declarando: “os meus Mestres nunca disseram que na África tinha capoeira”)24, Mestre Noronha, João Lyra Filho, Fernando de Azevedo, Alceu Maynar de Araújo25.
Subjaz percebe-se, a essa afirmação sobre a origem africana da Capoeira, a concepção cartesiana da dicotomia corpo/mente que, também, se realiza com relação ao negro africano, na condição de escravo no Brasil e, assim, as
22
Carybé, O jogo da capoeira. Coleção Recôncavo, n°3. Salvador , Livraria Progresso Editora, 1955, p. 3
23
Exemplo disso é Márcia Lobo que divulga sua “reportagem” intitulada Capoeira: a revolta dos negros, no Livro de Cabeceira do Homem, Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1968, p. 183197
24
Cf. Antonio Tourinho, Tipos e coisas da Bahia, Diário de Notícias, Salvador, 27 de outubro de 1963
25
124
manifestações culturais surgidas nos momentos de festa, de ócio, de celebração ou comemoração, são concebidas, pelos brancos dominadores, da época, e estudiosos do assunto, de hoje — não só os brancos e nem tão dominadores assim ... —, como importantes tentativas do encontro corpo-mente. José Bonifácio, o moço, por exemplo, concebe tal sentimento de fragmentação do ser humano, de tentativa de separação do corpo da consciência, como demonstrado em seu poema intitulado Lamento do Escravo, que se segue:
“Nas minhas carnes rasgadas, Nas faces ensangüentadas Sinto as torturas de cá; Deste corpo desgraçado Meu espírito soltado Não partiu — ficou-me lá!
Naqueles quentes areais, Naquela terra de fogo, Onde livre de cadeias Eu corria em desafogo ...
Lá nos confins do horizonte ... Lá nas planícies ... no monte ... Lá nas alturas do Céu ...
De sobre a mata florida Esta minha alma perdida Não veio — só parti eu.
A liberdade que eu tive Por escravo não perdi-a; Minh’alma que lá só vive Tornou-me a face sombria.
125
O zunir do fero açoite Por estas sombras da noite Não chega, não, aos palmares Lá tenho terra e flores ...
Minha mãe ... os meu amores ... Nuvens e céus ... os meus lares.”26
Desta forma, para muitos que concebem ser a Capoeira africana, dentre outros motivos políticos mais profundos (os quais não cabe aqui, por hora, citá-los), afirmam que a sua origem está em uma ou outra dança religiosa, de caráter litúrgico, ou de lutas usadas em suas tribos no cotidiano guerreiro e religioso de além mar, ou, ainda, como uma forma de evitar o banzo e buscar, nos dias de folga e de festa, revigorar sua identidade e resgatar “a alma perdida”, de que fala o poeta. Porém, se tais afirmações são verdadeiras, emerge uma dúvida, até hoje não esclarecida satisfatoriamente: por que, então, não temos conhecimento da manifestação da Capoeira em todos os locais, sem exceção, onde existiam negros africanos no Brasil?
Ultimamente, no entanto, cada vez mais percebe-se que, como afirma Waldeloir Rego, “deve-se andar com bastante cautela” ao tratar da questão sobre a origem de manifestações que trazem em sua constituição a presença do negro