DİN VE VİCDAN ÖZGÜRLÜĞÜ AÇISINDAN ALMANYA ÖRNEĞİ
2.2. ALMAN ANAYASASINDA BİREYSEL DİN VE VİCDAN ÖZGÜRLÜĞÜ İkinci Dünya Savaşı sonrası 1949 yılında kabul edilen Alman anayasası Din ve Vicdan
2.2.1.1. Alman Anayasasında Bireysel Din ve Vicdan Özgürlüğü
2.2.1.1.4. Vicdani Ret
O 1º entrevistado foi aluno no período de 1976-79, fato que culminou com a oficialidade do trote. Seu relato é um testemunho sobre os tipos de trotes mais recorrentes como o apelido, o banho de lama e a privação dos pratos mais apetitosos aos ingressantes no refeitório, dinâmicas das quais participou de forma direta, como aluno do 1º ao 3º ano.
(...) Esse trote, o aluno seria batizado por um apelido né, raspava né, cortava a cabeça, o cabelo, e todos os dias tinha uma chamada, todos os dias no decorrer do primeiro ao quadragésimo quinto dia, todo dia tinha né, nos dias letivo [...]. Bom, e aí o trote iria acontecendo né? (risos) ... O outro aqui é, nós tínhamos aqui poço de água sulforosa, a mina. E essa mina era revestida de parede, né? Era um buraco né? E esse buraco tinha revestimento nas laterais. E tinha uma profundidade aí de uns três metros. O que faria, jogava os alunos todos lá, aquele que iria primeiro pegava muitas vezes pegava água limpa e porque virava barro (...) Mas eu sei que naquela ocasião tinha um doce, sobremesa, o governo mandava doce, aí eles cortava as marmelada vinha nuns caixotinhos e dava um pedaço, mas naquele período de novato você não comia doce, não, os cara tomava né. Um chegava entretia o outro e outro vinha e puxava o doce. Então era complicado né? (E 1).
No relato de E1, são mencionados trotes encontrados na literatura, tais como os apelidos e raspagem dos cabelos (MATTOSO, 1985; ALMEIDA JR; QUEDA, 2003; 2006). A raspagem dos cabelos, conforme já explicitado por Mattoso (1985) representa um ato de segregação do ingressante em relação à comunidade acadêmica, tal como era realizado desde a Idade Média, nas Universidades Europeias.
O banho de lama encontra ação idêntica ao “batismo” encontrado na AMAN (CASTRO, 2004).
A transcrição de risos (4ª linha) e a riqueza de detalhes dos fatos relatada pelo participante atestam que o entrevistado foi um ator ativo do fenômeno analisado. O riso pode ser sinal do sadismo vivenciado enquanto aluno do 2º ano. Para Freud (2011b), o sadismo aparece como um dos instintos libidinais voltados para o objeto, em oposição ao amor autodirigido. O sadismo se junta aos instintos do eu, mas em outros momentos destaca-se por sua meta agressiva, apresentando-se afim com instintos de dominação sobre o outro. Na fala de E1, o sadismo apresenta-se como instinto contra o aluno ingressante, favorecedor do sentimento de amor para consigo, enquanto indivíduo identificado com o aluno trotista. O fato de o entrevistado pertencer ao grupo de docentes do Ensino Profissional torna a postura de dominação descrita no contexto do trote marcante, uma vez que as atitudes trotistas possuem um papel decisivo na formação técnica do aluno que será absorvido pelo mercado de trabalho na área da Agropecuária. No trecho a seguir, E1 considera outro tipo de trote, o de tornar o aluno de 1º ano empregado do aluno de 2º ano nas aulas práticas realizadas nos setores de produção da instituição.
Naquela época tinha aluno aí que tinha projeto naquela época, tinha lá na horta projeto de pimenta. Então, ele aproveitava o período de trote, e colocava os novatos pra ir lá apanhar pimenta e colocava eles lá na frente do prédio pra tirar os cabinho, como se diz (E 1).
Almeida Júnior e Queda (2003; 2006) abordam o trote da empregada transcorrido na ESALQ, em Piracicaba, SP. Segundo Castro (2004), na AMAN, os soldados também são submetidos a servirem aos estudantes dos anos superiores (arrumar- lhes as camas, limpar os sapatos, fivelas, etc.). Observa-se que o trote relatado por E1 tem semelhança com os comportamentos dos trotistas da ESALQ e da AMAN.
O Entrevistado Nº 7 confirma de forma clara esse pensamento:
Sim. Na verdade você tinha uma exploração do trabalho, você ia fazer o seu trabalho e do outro (E 7).
Nota-se uma diferença de postura ideológica entre os entrevistados (E1 e E7). Enquanto E1 concorda com o trote, E7 questiona acerca da opressão que este tipo de atitude representa para os alunos de 1º ano. A posição crítica de E7 é confirmada pelo fato deste ter desistido do curso no final do 1º ano (Quadro 1), motivado não pelos trotes, mas pela ausência de afinidade com o curso técnico (veja entrevista de E7 em Apêndice).
Se E7 teve o privilégio de evadir-se da escola por uma escolha pessoal, para alunos com intenso sofrimento físico e psicológico decorrentes dos trotes, a evasão configura uma alternativa para escapar dos trotistas, uma forma de acabar com o sofrimento, como ilustra a fala de E3:
Quando dava o trote Rosiane, muitos alunos que chegavam no primeiro ano, adoecia por levar trote, outros desistiam da escola, do primeiro ao segundo dia ... porque era um trote muito sem graça, muito selvagem, eles desistiam da escola, outros ficavam inimigos, e gerava briga, o primeiro ano , brigava com o segundo, porque o segundo não podia dar trote, porque o terceiro não deixava, o segundo brigava com o terceiro, porque queria dar trote e o terceiro ano não deixava, o terceiro ano queria mandar, na parte de alunos, e mandava! Por exemplo, no refeitório, se essa fila aqui é do terceiro ano, o segundo ano não podia nem sentar, porque dava até briga no refeitório, o primeiro ano nem falava, se essa fila fosse do segundo ano, o terceiro e o primeiro ano, não podia sentar pra tomar refeição, na hora da fila para fazer as refeições, o terceiro ano era na frente de tudo, se algum aluno do terceiro ano quisesse passar algum aluno do primeiro ano na frente, ele passava tranquilo e não tinha nada e depois veio o professor Alci, como coordenador de internato, ficou muitos anos, acabou com isso também (...) de terceiro ano passar menino do primeiro ano na frente e brigar com o segundo ano. Mesmo assim havia briga, os dormitórios eram separados, dormitório do segundo, dormitório do terceiro, dormitório do primeiro, e o dormitório do segundo aonde ficava em baixo do primeiro ano no meio e do terceiro ano lá em cima, ai o terceiro ano quando descia mandando em tudo, até o professor Alci, conseguia acabar e com aspas, porque escondido, eles davam o trote , mais se pegasse um aluno dando um trote, por exemplo, o aluno A recebia o trote do aluno B, e ele fosse lá e reclamasse, o aluno A ou era repreendido, teve casos de ser mandado até embora, por desrespeito ao estatuto, do estudante (E 3)
O relato de E3 endossa a crença de que o trote fez com que muitos alunos ingressantes adoecessem ou desistissem dos cursos. A fala do entrevistado demonstra muitos detalhes interessantes sobre o trote nesta instituição, não quanto aos tipos, mas sobre o clima de intimidação e conflitos entre alunos de 1º e demais anos em função da dinâmica trotista. O trote demarcava uma linha divisória entre dominados e dominadores, havia a identificação entre primeiranistas e terceiranistas, uma vez que os primeiros eram protegidos por seus “padrinhos” do ataque dos alunos segundanistas que aplicavam os trotes. A fala de E3 refere-se também aos locais em que os trotes mais ocorriam: nos alojamentos, nas filas de ônibus e do refeitório. A coibição do trote por autoridades escolares com base em um regulamento após final da década de 1980 não impediu a continuidade deste no interior dos alojamentos, o que aponta um arraigamento da cultura trotista na instituição. E3 confirma esta situação em seu relato:
Então acabou o trote por volta de 1989, 1990, mais enfraqueceu muito, não era permitido, mais eles davam o trote escondido, nos alojamentos, no refeitório e principalmente nos alojamentos (...) havia sempre os engraçadinhos que queriam aparecer... (E 3).
Do mesmo modo que E3, E7 também abordou o ambiente de ameaças que envolvia os trotes na fase mais plena de conflitos sociais e afetivos entre alunos de 1º e 2º ano:
Eram os apelidos, meu apelido era “Bolinha”, por causa do Batata, que era parecido comigo... Os outros tipos de trote eram mais ameaças... não cheguei a presenciar nenhum trote, mas o que a gente via era um pessoal muito agitado... um aluno chegou a morder o pescoço do colega... aí houve uma atitude dramática da diretora Lílian, ela era uma atriz, reuniu todos os alunos na frente da escola e fez aquele discurso, de que quem não se comportasse ia ser expulso. Quem deu a mordida era um aluno com jeito de bobão, era de Lagamar. O aluno que levou a mordida e que fazia as ameaças foi suspenso. (E 7).
O entrevistado 7 descreve com clareza os traços agressivos dos colegas como mecanismo de defesa diante de levar trotes, descreve também o clima de ameaça que circundava esses eventos: se o aluno mais novo não obedecesse, era ameaçado física ou moralmente a sofrer alguma consequência; entretanto, alguns colegas respondiam às ameaças com agressões físicas, como o aluno do caso descrito acima que deu uma mordida no pescoço do colega que queria pressionar-lhe a submeter-se a suas ordens.
Quanto aos tipos de trotes mais recorrentes, novamente o relato de E3 confirma o exposto anteriormente por E1 e E7 e acresce algumas informações.
Era o apelido né!? E fazer os alunos medir parede, contar os passos , arrumar a cama do colega, era mais dos “divertido” que tinha , no início teve até rapar a cabeça, mais sem agressão física, mesmo que o aluno não quisesse rapar a cabeça, tinha que rapar, mais sem agressão física, sem nada (E 3).
Aqui, E3 mistura o caráter doloroso do trote do qual falou com o do prazer quando define alguns trotes em que se “pregam peças” nos ingressantes como divertidos. A noção equivocada de que há trotes que são apenas brincadeiras sem uso de violência obscurece o sentido de barbárie do trote.
Para Huizinga (2007), o jogo consiste em um elemento que, do ponto de vista cultural, caracteriza-se principalmente por ser livre. Ou seja, quando um tipo de jogo
submete-se a ordens, perde esta característica fundamental. Outra característica do jogo, para o mesmo autor, é seu caráter desinteressado e de escape da realidade. Tal como descrito por E3, os trotes não possuem nada de liberdade, embora sejam adjetivados como divertidos. A prática trotista como divertida é uma visão do opressor, nunca do oprimido.
Almeida Júnior (2011) expõe que uma brincadeira genuína consiste em igualdade de participação entre os indivíduos. Entretanto, a coordenação cooperadora entre os pares não é observada no trote que, embora feito com a justificativa da integração, nunca será genuinamente livre, desinteressado e respeitoso em relação aos ingressantes.
Do ponto de vista histórico, o entrevistado 3, durante sua última fala, remete a uma fase da instituição em que o trote teve algumas interrupções ou limites (vide categoria 2 sobre existência ou ausência de apoio institucional ao trote). Muito embora não existam trotes leves ou considerados brincadeira, alguns tipos de trote (como apelidos, banho de lama, servir de empregado a outrem) de fato definem-se por menor grau de comprometimento físico, mas não psíquico. O Corredor-Polonês envolve um grau de alto risco para saúde física e psíquica das vítimas, uma vez que aplicam tapas na região do cérebro. Este trote também foi encontrado no meio militar, como apresentado anteriormente (CASTRO, 2004).
Abaixo um relato ilustrativo desse tipo de trote:
Ah, tinha também o “Corredor-Polonês” (...) O “Corredor- Polonês” era os alunos da 2ª série ficarem na entrada do refeitório, e obrigar o aluno da 1ª série a passar e levar tapa na cabeça! (E 4). Em seguida, E 4 relata outros detalhes sobre o trote do “Corredor-Polonês”: “Nos ônibus, sim, impedir aluno da 1ª série de entrar; e também no ônibus esse negócio
de dar tapa na cabeça dos alunos”.(E 4).
Além da carga de prejuízos físicos, os prejuízos morais e psíquicos para os ingressantes envolvidos são relevantes. E5 apresenta um relato extenso em detalhes e expressivo em sentimentos de pesar por ter sido agredido moral e fisicamente, narra os trotes de sua época de aluno de 1º ano na 3ª pessoa do plural. A identificação com aluno ingressante vítima de trotes foi bem clara:
Então aquilo fazia parte do calendário da instituição, então, nós todo dia, a primeira coisa ... o primeiro dia que nós chegamos aqui, os alunos que já estavam aqui, que nós chamávamos de alunos mais antigos da instituição, eles nos
pegou e nos levaram pra quadra de esportes e a primeira coisa que eles fizeram foi raspar nossa cabeça, raspar não, fizeram caminho de rato de tudo o quanto é natureza... faziam um corte e danificavam nosso cabelo de toda natureza e falavam pra nós que nós tínhamos que permanecer com esse corte durante 3 dias, pra nós não mexermos no cabelo, como muitos professores não aceitavam a gente entrar na sala de aula com aquele cabelo, foram onde os professores falaram assim: “não, nós não aceitamos vocês entrarem na sala com esse cabelo”, e foi aí que nós raspamos a cabeça! E outra coisa, todo dia à tarde, eles nos pegavam e levavam ali pros poço da horta, aqui tinha uma espécie de poço, onde tinha peixes e... fazia uma irrigação, e por nome, eles levavam a gente em fila indiana, por nome eles chamavam, e a gente tinha de pular naquela lama e saia de lá todo enlameado e isso aí todo o pessoal da instituição acompanhava, inclusive os professores e os funcionários, todos, estavam lá, e os alunos acompanhava nós. Sem contar as brincadeiras de mal gosto, caçar petróleo, são coisas que aconteciam com frequência. E outra situação também é que nós nunca almoçávamos nem jantávamos nem tomávamos café na frente de ninguém. A fila era fila única, no refeitório, nós poderíamos chegar primeiro na fila, mas o pessoal da 2ª e 3ª série, que na época só existia o curso técnico, eles amontoavam lá na frente, e nós que éramos os novatos, e ai de nós se chegássemos e achasse ruim com eles, que eles estavam passando na nossa frente, à noite eles nos batiam nos alojamentos, apanhávamos, sim, às vezes assim, naquela época serviam um doce no refeitório, era muito raro a gente comer doce, eles chegavam e nos tomavam o doce, a carne, e não podia achar ruim não, e isso aí era oficial, durante 30 dias, e depois desses 30 dias, isso não parava até o final do ano!(E5)
A fala do entrevistado 5 expressa grande frustração por não poder descontar nos colegas ingressantes os trotes quando tornou-se aluno do 2º ano, pois no ano seguinte o trote foi proibido pela instituição
A minha turma foi muito prejudicada, Rosiane, porque quando no ano seguinte nossos colegas falaram: “Agora nós vamos descontar tudo que nós sofremos!”, eles falaram: “Agora nós vamos proibir o trote!” Aí pronto, o pessoal revoltou! (E 5).
A perseguição enquanto ingressante que E5 sofreu por parte de alunos de 2º e 3º ano não teve a vingança no ano seguinte. A vivência do trote pelos alunos de 1º ano gera situações internas de ativação de mecanismos de defesa na eminência de uma ameaça ao psiquismo, com o surgimento de uma neurose traumática, como vimos na teoria psicanalítica explanada por Costa (1984) e Endo (2005). Este evento neurótico pode
justificar que alguns indivíduos, no contexto do trote, após a ocorrência da agressão, tentem repetir o fato traumático e mobilizem defesas egoicas, por meio da própria atuação como trotistas no ano seguinte. Será que o sujeito que sofreu com o trote ao atuar no papel de agressor tem a neurose traumática amenizada, à medida que repete no exterior o que viveu em seu interior, de maneira a superar os sentimentos inconscientes de ódio despertos pelos alunos mais antigos da instituição que lhe aplicaram os abusos no passado?
Aqui cabe uma problematização para uma reflexão mais profunda sobre as “alternativas” e riscos dessa condição.
A vingança pelo trote sofrido e o passar para o papel de trotista, não existiu oficialmente para o Entrevistado 5, nem para seus colegas, uma vez que esta turma foi proibida de dar trotes no 2º ano. Entretanto, tal impedimento não fez com que a camada de ódio se mantivessecompletamente reprimida. Também não há garantias de que o trote que E5 e os colegas tanto desejaram vingar não tenha acontecido na calada da noite do alojamento, que não conta com funcionários suficientes para fiscalização dos alunos internos. Porém, a expressão verbal de E5 “o pessoal revoltou” denota o sentimento de fracasso da evacuação da raiva e de defesas do ego para elaborar a neurose gerada, que ora pode ter se voltado contra o próprio Eu, ora para os objetos externos. Com as defesas voltadas para o exterior, o entrevistado pode ter agido como um trotista, mesmo que não autorizado pela instituição, caso o caráter violento e sádico tenha sido fortalecido por essa mesma negação pelo exterior, instância de Supereu internalizada por ele.
Recordar fatos marcantes, repetir para elaborar (FREUD, 1989b) não pôde ser realizado de forma efetiva por E5 no 2º ano. Ou seja, é possível que o professor não tenha elaborado a dificuldade emocional decorrente dos fatos rememorados, pois este participante não pôde ir à forra de forma permitida pela instituição, após ser perseguido no ano anterior. A não elaboração do trauma traduz-se em longa descrição sobre os aspectos de barbárie do trote no relato de E 5.
Outra modalidade de evento que faz parte do Calendário institucional de trote é a Formatura, esta dinâmica foi explicitada por uma porta-voz da fase de “ouro” do trote no Colégio Agrícola, E 6:
Quando nós chegamos é...o trote...ele existia né? Inclusive nós tínhamos a Formatura31, sabe? Era durante um mês, que o trote, ele
fazia parte da ambientação do aluno, entendeu? Aí por exemplo, durante um mês eu mesmo tive que carregar um cordão, com um papelãozinho desses de colgate com um pedaço de cabelo dos meninos, porque eles cortavam o cabelo dos meninos, não iam cortar o meu, né (risos)? O meu apelido era Branca de Neve, e eu tinha meus sete anãozinhos bem. É interessante porque os apelidos né, era uma forma também assim, deles... de aproximar, sabe como é que é? Tinhas uns apelidos que você olhava assim, e parece mesmo, sabe assim? Era uma coisa assim, uma forma de ambientar, porque todo mundo tinha apelido. E a festa, nós tivemos a nossa festa. Era a formatura né? Dos novatos que tavam chegando. E essa festa quem fazia, na época tinha o grêmio Estudantil, e era o pessoal do terceiro ano que fazia. E era uma festa aberta, que chamava a comunidade, era uma festa mesmo. E hoje a gente vê assim, tem muita gente que extrapola, né? E...algumas vezes a gente viu coisas assim que, a gente ficava triste. Aquilo que era passado do limite a direção puxava!. (E 6)
E6 descreve o ato da Formatura, que era um momento cívico e de festividade que tinha como coordenadores os alunos do 3º ano que estavam à frente do Grêmio Estudantil. Rizzini e Rizzini (2004) explicam que a Formatura foi um recurso utilizado por inspetores dos internatos brasileiros, como a FUNABEM, até 1990, com objetivo de disciplinamento das crianças.
Na ESALQ/ USP, , Almeida Júnior e Queda (2003) descrevem o trote da Passeata do Ingressante, que ocorre no dia 13 de maio, considerado o Dia da Libertação dos Bixos, período em que se encerram os trotes aos ingressantes. Na realidade, os trotes tendem a continuar após esses marcos temporais acadêmicos. No Colégio Agrícola, continuaram ocorrendo nos alojamentos.
Sobre a concepção de manutenção do trote pelos membros da comunidade acadêmica, tanto a entrevistada 6 quanto o entrevistado 8 apresentam relatos muito próximos no tocante à definição de trote como processo de integração social entre os estudantes. Nesse processo, os risos e a menção aos trotes como brincadeiras são exemplos dessa concepção de trote como integradora. Abaixo, o relato de E8:
O trote toda vida existiu, né? Eu estava no papel de aluno e no papel de professor. Eu acredito que o trote é uma forma de familiarização da comunidade, este era o primeiro passo. Então tem o trote de brincadeira, que a pessoa sabia, familiarizando e criando novos amigos, a maneira de adaptar o aluno lá dentro. Não, só mesmo brincadeiras. O trote é um negócio, se o que está recebendo o trote, pega o negócio na brincadeira, ele familiariza logo com a turma, se ele não
31 A Formatura caracterizava-se pela formação de uma fila para acompanhar a execução do Hino Nacional, durante a Hora Cívica, por uma banda; também era uma finalização do período de trotes entre alunos.
tem aquela vivência, e começa a entrosar, começa a ter uma rejeição na turma. (E8).
O Entrevistado 8 reforça o sentido de integração entre alunos que em sua opinião é favorecido pelo trote e nega a possibilidade de violência com a justificativa: “Então tem trote brincadeira..., familiarizando e criando novos amigos... não (não havia trote violento), só mesmo brincadeiras”.
Obviamente, o ato de aplicar trotes a que ele se referiu não consistiu em um ato