a Kant na história do pensamento ocidental, pois diz respeito à própria essência da modernidade”.164 Não é, para Ternes, a quantidade de palavras dedicadas a Kant em Les Mots e les choses, que o torna importante mas o modo como Foucault assume a proposta da Crítica:
Que Kant pretenda investigar as condições de possibilidade do conhecimento em geral não é nenhuma novidade (...). O problema [está] em se levar a sério a afirmação kantiana de que a Crítica se constituiria numa verdadeira revolução copernicana nessa área do pensamento humano (...). Foucault nada mais fez do que assumir fielmente a interpretação que Kant fez de sua própria Crítica.165 Mesmo não se referindo à TC, nem a QC?, e usando pouco QL?, Ternes ressalta a importância do papel que Kant desempenha na obra de Foucault: “A novidade da leitura de Foucault, (...) perceber que Kant não mais pertence à era da representação (...). Foucault não acrescentando nada à Crítica166, percebe o alcance da denúncia do dogmatismo feita por Kant”.167 É a leitura que Foucault faz de Kant que lhe possibilita, segundo Ternes, desnudar o antropologismo do pensamento moderno, com sua finitude; retomando a distinção de Kant entre o empírico e o transcendental, “Foucault faz da dualidade kantiana uma das chaves para decifrar a modernidade”.168
162 Ibid., p. 175. A citação sobre a confusão entre o empírico e o transcendental é referida por Terra a As Palavras e as coisas (1995, p. 357-358).
163 Ibid., p. 176–177.
164 TERNES, José. Michel Foucault e a Idade do Homem. Goiânia: Ed. UCG: Ed. UFG, 1998, p. 112.
165 Ibid., p. 112-113.
166 A afirmação de que Foucault “não acrescenta nada à Crítica” é semelhante, embora em outras palavras, à idéia de que a leitura que Foucault faz de Kant não contribui para os estudos de Kant, conforme Terra, citado acima e Candiotto citado abaixo.
167 TERNES, J. Michel Foucault e a Idade do Homem. Op. Cit., p. 116 168 Ibid., p. 157.
Segundo Ternes “o pensamento moderno é essencialmente polêmico, cindido em seu próprio interior. Foucault aponta o motivo dessa cisão: a finitude, como ponto de partida, isto é, o próprio homem, como fundamento”.169 Para Ternes, o tema da finitude toma a precisão de uma crítica de Foucault à modernidade, justamente no fechamento desta para a temática do Outro, do Impensado: “Kant (...) estabeleceu a dualidade do mundo fenomênico, dado à experiência, e do mundo numênico, tarefa de uma investigação transcendental, (...). Somente a primeira, a da experiência sensível, pode ser objeto de ciência”. Ternes ressalta a polêmica posição de Kant com relação ao pensamento moderno, e que Foucault teria feito ver com extrema precisão: “A partir desse ponto (...) a questão kantiana se desdobra em quatro segmentos: o da verdade, o da natureza, o da possibilidade do conhecimento e o da crítica ao dogmatismo filosófico”.170
Em 1999 ocorreu, na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), o Seminário sobre Michel Foucault. Os trabalhos apresentados neste
Seminário foram publicados apenas no ano de 2000, sob o título Retratos de Foucault.171 Segundo a “Apresentação” , “o ponto de partida desse livro foi o seminário que aconteceu em 1999, na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (...), pois este livro não procurou seguir estritamente as pegadas do evento” (p. 8). Este dado ajuda a entender por que o artigo de PORTOCARRERO, no evento de 1999, cita o livro de Machado, de 2000. Também Machado, no artigo “Arqueologia, filosofia e literatura”, cita seu livro de 2000. Dos trabalhos apresentados e publicados, quatro abordaram a relação de Foucault com Kant, conforme segue abaixo.
7) Vera Portocarrero,172 no artigo “Representação e constituição do sujeito”, discute o tema da épistémê, da finitude, da crítica, do a priori, da questão antropológica e do saber moderno, nas relações de Foucault com Kant. Portocarrero faz também uma exposição resumida do livro de Beatrice Han (L’ontologie manquée de Michel Foucault), considerando que nele
169 Ibid., p. 156.
170 Ibid., p. 159.
171 PORTOCARRERO, Vera. CASTELO BRANCO, Guilherme (Orgs.). Retratos de Foucault. Rio de Janeiro: Nau Editora, 2000.
172 PORTOCARRERO, Vera. “Representação e constituição do sujeito”. In.: Retratos de Foucault. Op. Cit., 29-53.
diversos argumentos são utilizados para levar as análises de Foucault a posições de contradição, retirando-lhes o poder explicativo (...). Prendendo-se a um tipo de questionamento que insiste na questão da unidade do projeto ao longo de toda a obra, ela busca o fracasso do método arqueológico. (...) as análises de Han não contribuem para as questões suscitadas pelo tema da representação e constituição do objeto, específico da arqueologia. De um modo geral, o problema da análise de Han é não admitir, em filosofia, a perspectiva da trajetória, fundamental para a compreensão de uma das maiores contribuições de
As Palavras e as coisas para o pensamento filosófico.173
Como contraponto ao livro de Han, Portocarrero cita os trabalhos de Roberto Machado, que toma como “a melhor forma de elucidar o problema da interpretação de Foucault sobre o papel de Kant”. Pois, segundo ela, Machado o faz “a partir da dupla inspiração de Foucault, no pensamento da epistemologia francesa, particularmente no de Canguilhem, e no de Nietzsche”.174 Assim Portocarrero conclui que,
ao contrário do fracasso da arqueologia proposto por Han, esta análise conduz à afirmação da radicalidade do pensamento de Foucault que busca, fundamentado na história da representação e da constituição do objeto, para a questão kantiana ‘o que é o homem?’, a resposta da morte do homem”.175
Para Portocarrero, “o ponto mais enigmático da tese foucaultiana sobre o tema da representação e da constituição do objeto” estaria na “distinção entre o empírico e o transcendental”, operada por Kant, que também “teria formulado a questão antropológica ‘o que é o homem?’, a partir da qual (...) surge a confusão entre o empírico e o transcendental, que confere ao pensamento moderno seu caráter ambíguo e antropológico”. Embora diga que, para elucidar o “ponto mais enigmátido”, pretende analisar “o papel de Kant em
As Palavras e as coisas, (...) considerando a arqueologia (...) como uma etapa
na trajetória do pensamento de Foucault”,176 acaba concluindo que “é difícil explicitar a relação desta tese com o pensamento kantiano e, sobretudo, o papel atribuído a Kant em As Palavras e as coisas”.177
173 Ibid., p. 45.
174 Ibid., p. 45-46. 175 Ibid., p.52. 176 Ibid., p. 31.
177 Ibid., p. 42. A tese a que Portocarrero de refere não é a Tese complementar, mas à “tese foucaultiana do surgimento, no início do século XIX, do saber moderno” (p. 29).