O Tractatus de Wittgenstein teve uma profunda influência na corrente filosófica que posteriormente veio a ser conhecida como positivismo lógico. Ele serviu como catalisador para o movimento que ficou conhecido como Círculo de Viena77, que buscava uma alternativa às correntes neokantianas e
fenomenológicas dominantes no campo da filosofia da ciência da época. A tese de Wittgenstein sobre o critério empirista de verificação das proposições, abria um novo e promissor caminho de investigações no campo da filosofia da ciência, cujo programa girava basicamente em torno das questões do Tractatus: o estatuto epistemológico da lógica e da matemática; o problema da verificação empírica das proposições científicas; a carência de significado das proposições metafísicas e qual o papel que poderia se atribuir à filosofia nesse contexto. Para os empiristas lógicos, a validade do conhecimento não pode assentar-se, como queria Kant, em sentenças sintéticas a priori por considerarem inconsistentes as demonstrações deste último sobre os fundamentos da matemática e sobre a existência de uma física pura, baseada em princípios inteiramente a priori, que serviria de fundamento para física empírica78. Em conseqüência disso, a
pergunta central da Crítica da razão pura de Kant sobre a validade das sentenças
77
O Círculo de Viena tem início em 1907 com o matemático Hans Hahn, o economista Otto Neurath e o físico Philipp Frank que começaram a se reunir formalmente para discutir problemas de filosofia da ciência. A partir de 1922 Moritz Schlick passou a ser o principal organizador do grupo e atraiu filósofos e cientistas como Herbert Feigl, Friedrich Waismann, Kurt Gödel, Carl Menger, Victor Kraft entre outros. Em 1926, Rudolf Carnap junta-se ao grupo tornando-se, ao lado de Wittgenstein, uma das figuras mais influentes desse círculo. Apesar de sua extraordinária produção com publicações como a revista
Erkenntnis, que posteriormente passou a se chamar The Journal of Unified Science, o grupo começou a
desintegrar-se a partir de 1930 com a morte de seus principais fundadores e com a perseguição do nazismo sobre outros que se viram forçados a imigrar principalmente para os Estados Unidos fazendo com que o grupo de Viena perdesse sua singularidade.
78
Como aponta Stegmüller: “Os defensores do moderno empirismo não discutem a correção da teoria de Kant; recusam-se a acolher o ponto de partida a partir do qual ela passa a ter sentido: a existência de conhecimentos sintéticos a priori. Nem na matemática, nem no domínio das ciências naturais encontramos, segundo afirmam, sentença alguma desse tipo, sendo falsos todos os exemplos citados por Kant. No que diz respeito aos conhecimentos matemáticos, eles apóiam-se em princípios que não vão além dos limites da lógica formal. Se Kant chegou a outros resultados, isso deve-se a ter ele subestimado fortemente a potência do pensamento lógico (como Frege observou), interpretando, além disso, equivocadamente, o método demonstrativo do matemático. Quanto às ciências empíricas, a afirmação kantiana de que elas careceriam de fundamentos sintéticos a priori repousa sobre um engano: nem para esclarecer a formação de conceitos das ciências empíricas, nem para o problema da confirmação de teorias empíricas é preciso recorrer a pressupostos apriorísticos do tipo daqueles aceitos por Kant”. STEGMÜLLER, Wolfgang. A filosofia contemporânea: introdução crítica. Volume I. São Paulo: EPU, 1977, pp. 281-282.
sintéticas a priori carece de sentido, o que desqualifica todas as tentativas de elaborar uma teoria segundo o modelo de Kant para responder à pergunta acerca da validade. Em termos kantianos, todo conhecimento ou é analítico ou sintético a posteriori, o que fixa uma nova base para o problema da validade do conhecimento. Carl G. Hempel assim resumiu as bases programáticas do positivismo lógico:
O princípio do empirismo moderno é a idéia de que todo conhecimento não analítico se baseia na experiência. Chamamos a essa tese de o princípio do empirismo. O empirismo lógico contemporâneo lhe acrescentou a máxima segundo a qual uma oração constitui uma afirmação cognoscitivamente significativa e pode, portanto, ser considerada verdadeira ou falsa unicamente se é: 1) analítica ou contraditória, ou 2) capaz, pelo menos em princípio, de ser confirmada pela experiência. De acordo com este critério, chamado critério empirista de significado cognoscitivo, ou de significatividade cognoscitiva, muitas das formulações da metafísica tradicional e grande parte da epistemologia são carentes de significado cognoscitivo – independentemente de quão frutíferas algumas delas resultem em suas conotações não cognitivas em virtude do seu atrativo emocional ou da inspiração moral que oferecem.79
A partir do critério empirista de significado cognoscitivo, Rudolf Carnap postulou a tese de que a maioria dos problemas da filosofia são pseudoproblemas fruto de um uso indevido da linguagem, como no caso dos problemas da metafísica. Dessa forma, uma analítica da linguagem poderia demonstrar que muitas questões filosóficas não são falsas, mas pseudoproblemas que podem ser evitados através da aplicação do método analítico. Em um texto clássico publicado na revista Erkenntnis, volume II (1932) intitulado “A superação da metafísica mediante a análise da lógica da linguagem”, Carnap pretende demonstrar como não é possível fundamentar a metafísica, e como as questões da metafísica são na verdade pseudoproblemas. Com isso, polemizando diretamente contra Heidegger, como indicam os exemplos por ele escolhidos, pretende demonstrar que as proposições metafísicas são carentes de sentido e, portanto, pseudoproposições.
79
HEMPEL, Carl G. Problemas y câmbios en criterio empirista de significado. In: AYER, A. J. El
Existem, segundo Carnap, dois tipos de pseudoproposições: “aquelas que contêm uma palavra à que erroneamente se supôs um significado ou aquelas cujas palavras constitutivas possuem significado, mas que por terem sido reunidas de um modo anti-sintático não formam uma proposição com sentido”80. As pseudoproposições metafísicas são de ambos os gêneros, ou seja,
apresentam problemas tanto semânticos quanto sintáticos.
Os problemas semânticos surgem quando uma palavra possui um significado meramente aparente, tratando-se na verdade de um pseudoconceito. Segundo Carnap, isso acontece quando uma palavra perde seu significado original sem contudo adquirir um novo. Para conhecer o significado de uma palavra deve ser possível remetê-la a uma proposição protocolar, ou seja, aquelas que podem obedecer à condições de verdade e de verificação.
O segundo tipo de pseudoproposições é o das palavras que apresentam problemas de sintaxe, ou seja, em que estas possuem significado mas são reunidas de tal maneira que o conjunto não faz sentido. Nesse caso, os problemas de sintaxe se devem à não correspondência das regras da sintaxe gramatical e da sintaxe lógica. “Se a sintaxe gramatical tivesse uma exata correspondência com a sintaxe lógica, as pseudoproposições não poderiam ser formuladas”81. A busca da correspondência entre a sintaxe gramatical e a
sintaxe lógica tem uma longa tradição na história da filosofia que remonta a Leibniz e sua utopia de construir uma lingua universalis como um calculus rationator capaz de firmar a semântica a priori82. Carnap é um continuador desta
tradição ao propor-se, juntamente com outros filósofos do Círculo de Viena, a tarefa de elaborar uma sintaxe lógica, ou melhor, de uma linguagem artificial em que fosse possível eliminar os mal-entendidos da linguagem comum. Dessa forma, poderíamos reconhecer apenas três classes (que poderiam ser reduzidas em analíticas e empíricas) de proposições com sentido:
80
CARNAP, Rudolf. La superación de la metafísica mediante el análisis lógico del lenguaje. In: AYER, A.J. El positivismo lógico. México: Fondo de Cultura Económica, 1965, p. 67.
81
Ibidem, p. 74.
82
Cf. APEL, Kart-Otto. A radicalização filosófica da “hermenêutica” proposta por Heidegger e a pergunta quanto ao “critério de sentido” da linguagem. In: ______. Transformação da Filosofia 1:
Primeiro, as proposições que são verdadeiras exclusivamente em virtude de sua forma (“tautologias” de acordo com Wittgenstein, e que correspondem aproximadamente aos “juízos analíticos” de Kant); estas não dizem nada acerca da realidade. As fórmulas da lógica e da matemática pertencem a esta classe. Por si próprias não são enunciados empíricos mas servem para a transformação de tais enunciados. Em segundo lugar, existem as formas inversas de tais proposições (“contradições”). Estas são contraditórias e, por conseguinte, falsas em virtude de sua forma.
Para todas as demais proposições a decisão sobre sua verdade ou falsidade reside nas proposições protocolares, que são “proposições empíricas” (verdadeiras ou falsas) e pertencem ao domínio da ciência empírica. Qualquer proposição que se queira construir e que não se encaixe em nenhuma destas classes deveria automaticamente considerar-se sem sentido.83
Disso resulta para Carnap que “todo suposto conhecimento que pretenda colocar-se acima ou por trás da experiência carece de sentido”84. Tal fato
amplia consideravelmente para além da metafísica o campo das áreas da investigação filosófica consideradas como sem sentido.
O mesmo ditame pode aplicar-se também a toda filosofia de normas ou filosofia do valor assim como à ética ou a estética como disciplinas normativas, já que a validade objetiva de um valor ou de uma norma não é (e isto também de acordo com a concepção dos axiólogos) empiricamente verificável nem dedutível de proposições empíricas e não pode, portanto, ser afirmada de nenhuma maneira (e por meio de uma proposição com sentido).85
As ciências normativas como a ética e a estética só se tornariam válidas se pudessem transformar-se de juízos de valor em juízos de fato, atribuindo um conteúdo empírico para conceitos como “bom”, por exemplo. Mas nesse caso, igualmente deixaria de ser uma ciência normativa já que, como Hume, não se pode derivar um “dever-ser” de um “ser”. Eliminada a possibilidade de constituição de uma metafísica, de uma ética ou estética, cabe perguntar: o que sobra como domínio próprio à filosofia, já que todas as proposições válidas são aquelas que pertencem ao campo da ciência empírica? Carnap responde: “o que sobra não são proposições, não é uma teoria nem um sistema, mas
83
CARNAP, Rudolf. Op. Cit., p. 82.
84
Ibidem, p. 82.
85
exclusivamente um método, isto é, o da análise lógica”86. Cuja função é, além da
eliminação das pseudoproposições, a fundamentação lógica da ciência empírica. A metafísica, segundo o positivismo lógico, só pode ser explicada em termos behavioristas como uma “atitude emotiva ante a vida” que não encontrou sua forma correta de expressão: a arte.