• Sonuç bulunamadı

1. BÖLÜM

3.8. Terim Sorunu

É consensual entre os estudiosos que a “governamentalização” e manipulação do recenseamento eleitoral pelos magistrados administrativos348 foram habituais durante a Monarquia Constitucional e persistiram na República. Parater o estatuto de eleitor não bastava reunir as condições/capacidades, era necessário o recenseamento prévio. Este acto não obrigatório era revisto e actualizado anualmente, ficando ao cuidado dos secretários da administração de cada um dos quatro Bairros de Lisboa, apoiados pelos regedores, párocos e oficiais do registo civil, sob a fiscalização do administrador de

348

No direito administrativo português estes magistrados eram os delegados do Governo nas circunscrições administrativas. Segundo o Código de 1878 estas funções eram exercidas pelo governador civil no distrito; pelo administrador do concelho no concelho e pelo regedor na paróquia (art.º 6.º).

110

Bairro (que na capital desempenhava as funções atribuídas aos administradores de concelho349), detendo um voto consultivo.

Os regedores eram escolhidos entre os cidadãos alfabetizados da freguesia, sob proposta do da Câmara Municipal (a partir do Código de 1836) e nomeados pelo governador civil (Lisboa e Porto), incorporando a autoridade do Estado. O regedor detinha a capacidade de nomear os cabos de polícia, entre os fregueses alfabetizados e de bom comportamento, como seus ajudantes, segundo a necessidade do serviço. Os regedores e cabos de polícia desempenharam um papel de destaque como galopins eleitorais, durante a Monarquia350. Numa crónica, datada de Agosto de 1910, António José de Almeida distinguiu dois tipos de galopins: o prático, “espécie de criado privado do cacique da sua freguesia”; e o diplomado, “que estudou, trabalhou para exercer a sua função”; e defendeu que já não fazia sentido a distinção entre cacique e galopim. Acrescentava que em Portugal “não se discutem influências legítimas, nem a propaganda dos partidos, nem o prestígio da ideia. Tudo está em ter ou não quem saiba falsificar um recenseamento, manobrar os respectivos cadernos e roubar urnas”351.

Os administradores dos Bairros – propostos pelo governador civil e nomeados por decreto – eram os agentes do governo que mais influenciariam os preparativos das eleições, através do controle dos recenseamentos, porque nomeavam os oficiais de diligências (funcionários recenseadores) que procediam à execução do recenseamento352. Assim, entende-se que para o regime republicano fosse de grande

349

O cargo de administrador de concelho, criado pelo Código Administrativo de 1836, persistiu mais de um século até 1937. Ao longo do tempo foi-se alterando a sua nomeação, inicialmente era eleito localmente, designando o Governo o escolhido de entre os candidatos mais votados. Foi depois comutado em delegado do Governo (o art.º 183º do Código Administrativo de 1878 atribuía esta categoria ao governador civil); mais tarde a Portaria n.º 4.529, de 23 de Novembro de 1925, viria a repor a sua designação como delegado do governador civil e do Governo (art.º 269º do Código Administrativo de 1896). Ver MJM, “1910-1926”, pp. 255-256.

350

Cf. Fernando Catroga, “O poder político das paróquias…”, pp. 189-194 e pp. 212-222.

No jargão político, o galopim era subalterno ao cacique, executante das suas ordens. Conforme descrição da época: “Cada galopim eleitoral é um pretendente às ordens de outros pretendentes, que, inchados de bazófia, promessas e mando local, espalham dinheiro, mercadejam votos, já se vê à custa do erário público, prometem cargos, tomam compromissos, falseiam votações e actas, roubam urnas, cimentam discórdias.”, in V. de S. de F., Os partidos que se partem e repartem, Lisboa, Viúva Tavares Cardoso, 1908, p. 37. Um relato de um dia de votação eleitoral numa aldeia, com a descrição de todas as maquinações e falsidades perpetradas, pode ler-se nesta mesma obra na pág. 38 e segs. Interessante é também o testemunho de um “velho cacique” sobre as iniquidades do acto eleitoral no regime monárquico ver Eduardo Frias, “Como se roubam eleições”. ABC. A. 2, n.º 52 (1921), p. 2.

351

António José d’Almeida, “Galopins”. Alma Nacional, n.º 28 (1910), p. 444 e 446.

352

Os membros da comissão recenseadora e os secretários das administrações dos bairros recebiam um pagamento da câmara municipal, correspondente ao trabalho desenvolvido no recenseamento. Ver Anexos – A.2. Custos dos trabalhos de recenseamento e eleições de 1913; onde se indica a renumeração dos secretários das administrações dos bairros e as gratificações ao pessoal da CML.

111 pertinência a nomeação (no período de transição após o 5 de Outubro, enquanto não houve eleições) de pessoal da sua confiança para o exercício de cargos administrativos. É certo que os republicanos reintroduziram, em 1911, as comissões de recenseamento (que tinham sido extintas pelo Decreto de 8 de Agosto de 1901), o busílis residiu no facto de estas serem constituídas, em exclusivo, por membros dos corpos administrativos.

A República retomou assim uma prática iniciada pela Monarquia na penúltima década de oitocentos, em que a “relação entre a manipulação do recenseamento e o êxito eleitoral tornou-se gritante na sequência do Decreto de 18 de Março de 1895, o qual colocou as comissões de recenseamento sob a influência mais ou menos imediata das autoridades locais”353. Da mesma opinião é Pedro Tavares de Almeida defendendo que era prática usual as comissões recenseadoras manipularem o resultado eleitoral: “quase sempre controladas por representantes de uma das parcialidades locais, recorriam habitualmente a expedientes ilícitos para afeiçoarem a composição do eleitorado às suas conveniências políticas – ora sonegando o direito de voto a cidadãos que lhes eram adversos, ora concedendo-o a «amigos» que não preenchiam as condições para serem recenseados”354. Na capital a presidência desta comissão pertencia a um vereador escolhido pelos seus pares e, à semelhança do resto do país, era composta pelos presidentes das juntas de freguesia.

Interessa-nos principalmente a Lei eleitoral de 1913 – porque como aludimos não se realizou nenhuma eleição administrativa sob a vigência da legislação de 1911 – que aboliu as comissões recenseadoras, colocando o recenseamento na dependência dos Nesta eleição os secretários recenseadores dos 4 Bairros Administrativos de Lisboa enviaram ofícios à CML, no mês de Setembro, queixando-se que a sua renumeração para estes trabalhos era exígua (4 centavos por nome definitivamente inscrito), abaixo do que tinha sido pago às juntas de paróquia para o recenseamento de 1911. O vereador Rodrigues Simões encarregue de tratar do recenseamento eleitoral e em nome da Comissão de Finanças, não concordou com este pedido defendendo que nas eleições de 1911 as juntas de freguesia fizeram recenseamentos completamente novos e no de 1913 os secretários basearam-se no recenseamento de 1911. Cf. Sessão de 9 de Outubro de 1913. Actas das Sessões da

Câmara…1913, pp. 666-667.

Em 1916 os funcionários recenseadores das administrações dos Bairros da capital, conforme estipulava a Lei n.º 3 (art.º 12.º), auferiam meio centavo, por cada nome, que inscreviam nos respectivos cadernos e mais um centavo por cada eleitor inscrito. Ver Sessão de 25 de Maio de 1916. Actas das Sessões da

Comissão Executiva…1916, pp. 297-298.

No recenseamento de 1919, o mais falacioso da I República, os funcionários recenseadores e demais empregados que estiveram incumbidos desta tarefa tiveram direito a uma gratificação, cujo valor total de 1.000$00, foi proposto pelo vice-presidente da Comissão Executiva e aprovado por unanimidade. Sessão de 18 de Dezembro de 1919. Actas das Sessões da Comissão Executiva…1919, p. 521.

353

Fernando Farelo Lopes, Poder político..., p. 114.

354

112

chefes de secretaria das administrações dos Bairros em Lisboa e Porto (Lei n.º 3, art.º 10.º) e, no resto do país, dos chefes de secretaria das câmaras municipais; estes funcionários recenseadores seriam ajudados pelos funcionários da secretaria do municipal (art.º 12.º). Ao chefe da secretaria, ao presidente da câmara municipal e à respectiva Comissão Executiva estava reservado a abertura e encerramento dos livros de recenseamento, não podendo nenhuma alteração ser feita no livro por ordem de autoridade alguma (art.º 27.º).

Resumindo, e secundando Fernando Farelo Lopes, no “sistema caciquista aqueles órgãos [administrativos] desempenharam um papel relevante, não só na execução formal das regras estabelecidas, como também no fornecimento de recursos e serviços indispensáveis para a manobra eleitoral dos caciques”355. Escudadas neste Código resultaram grandes irregularidades, com especial relevância no recenseamento de analfabetos, troca de atestados de residência, troca de atestados por atestados sem assinatura e cortes de recenseados, em suma as corriqueiras práticas de burla herdadas da Monarquia356.

A inscrição mediante requerimento escrito pelo cidadão tinha por base as condições previstas na Lei (sexo de masculino, maior de 21 anos de idade, saber ler e escrever e residir no bairro em que se recenseava há, pelo menos, 6 meses). Desta forma, o legislador de 1913 considerou as especificidades das grandes urbes de Lisboa e Porto, onde existia uma grande mobilidade populacional, para o estabelecimento desta regra diferenciadora relativamente aos outros concelhos nacionais357. O pretendente à inscrição tinha de apresentar uma certidão de idade; um requerimento com assinatura reconhecida por notário, comprovando que era alfabetizado; e um atestado de residência, passado pela junta de paróquia.

Como salientou Maria Cândida Proença, se saber assinar era a única condição prévia para o recenseamento, tal atributo poderia levar os partidos políticos a uma prática caciquista, com os seus militantes mais diligentes a promoverem o ensino da assinatura aos seus plausíveis votantes358. Não descurando esta premissa, devemos ter em atenção que o recenseamento eleitoral republicano, em analogia com as leis

355

Fernando Farelo Lopes, A I República portuguesa..., p. 318.

356

Idem, “Clientelismo...”, p. 409.

357

No resto do país o prazo era o de residência no concelho. Até esta data as Leis eleitorais eram imprecisas, devendo os cidadãos inscrever-se nos concelhos ou bairros (Lisboa e Porto) onde residissem na maior parte do ano.

358

113 monárquicas, colocava numerosas condições difíceis de transpor para a esmagadora maioria da população recenseável quando não envolvesse o apoio de um partido ou de uma associação política.

Em Abril de 1924 foi publicado o decreto que criava a cédula pessoal359, três meses depois desta data nenhum serviço público podia ser requisitado nos registos civis (excepto registos de óbito) sem este documento; e, entre outros actos consignava que sem este não podia “ser feita a inscrição no recenseamento eleitoral” (art.º 9.º) o que configurava mais um entrave ao recenseamento dos trabalhadores (cada cédula custava 5 ou 7 escudos), como salientaram os socialistas, ainda neste ano, no seu X Congresso Nacional, em que pediram a revogação desta disposição ao Congresso da República360.

Com efeito, se o Código Eleitoral estipulava que os documentos a apresentar no recenseamento eleitoral eram gratuitos, esta disposição sobre a cédula pessoal contrariava o espírito da legislação. A entrada em vigor desta lei viria a ser adiada por mais um mês, sendo posteriormente prorrogada para o mês Novembro. Finalmente, perante as dificuldades impostas para a obtenção de documentos necessários à sua feitura, a Câmara dos Deputados, em Novembro de 1924, aprovou um projecto-lei determinando que a cédula pessoal só seria obrigatória para os indivíduos que nascessem depois de 14 de Abril de 1924, na prática resultando na não aplicação da apresentação da cédula pessoal no recenseamento eleitoral durante a Primeira República361.

A actualização do recenseamento (com base no último recenseamento existente) tinha em conta as certidões de óbito, os atestados de demência ou indigência, as eliminações por decisão judicial (condenados a pena maior, interditos com perda de direitos políticos, etc.) e as declarações de mudança de residência. Quanto à morada

359

Decreto n.º 9.591. Diário do Governo, I Série, n.º 82, de 14 de Abril de 1924, p. 530.

360

Vd. César Nogueira, Resumo..., pp. 81-82.

Efectivamente daria entrada na Câmara dos Deputados uma representação da Junta Directiva do PS pedindo a revogação do art.º 9.º deste Decreto. Cf. Sessão de 15 de Julho de 1924. Diário da Câmara dos

Deputados, p. 3.

Para além da Junta Directiva outros agrupamentos do PS (Federação Socialista do Porto; Centros Socialistas de Bonfim, de Paranhos, de Faro, de Ermesinde; Socialistas de Coimbra e União Socialista de Braga) e alguns deputados (Jaime de Sousa e Velhinho Correia, ambos democráticos) pediram a revogação da obrigatoriedade da apresentação da cédula pessoal no recenseamento político. Ver Sessão de 16 de Julho de 1924. Diário da Câmara dos Deputados, p. 1 e 4; Sessão de 21 de Julho de 1924.

Ibidem, p. 4; Sessão de 22 de Julho de 1924. Ibidem, p. 3; Sessão de 24 de Julho de 1924. Ibidem, p. 3 e

Sessão de 31 de Julho de 1924. Ibidem, p. 4.

361

Cf. Sessão de 21 de Maio de 1924. Diário da Câmara dos Deputados, p. 19; Sessão de 6 de Novembro de 1924. Ibidem, pp. 4-7.

114

estipulava o Código Eleitoral de 1913 que “Em caso algum podem ser considerados domicílio eleitoral os quartéis, navios, arsenais, estabelecimentos militares, postos fiscais, fábricas, oficinas e quaisquer escolas, asilos, hospitais, e em geral todos os edifícios e repartições dependentes do Estado ou dos corpos administrativos onde residam, ou exerçam as suas funções indivíduos ao serviço das mesmas entidades” (art.º 17.º), se bem que como veremos no decurso do nosso trabalho este artigo da legislação nem sempre fosse aplicado.

Para verificação da capacidade eleitoral era enviada uma relação dos funcionários alfabetizados e sua residência aos chefes de secretaria das administrações dos Bairros, pelos chefes dos serviços públicos do concelho de Lisboa; e pelos comandantes das forças militares uma relação dos seus oficiais (Lei de 14 de Março de 1911, art.º 19.º, §2.º e 3.º). Os ministérios e os organismos públicos forneciam os dados dos empregados públicos (recenseamento oficioso). Os cidadãos deveriam fiscalizar a sua inscrição nos cadernos de recenseamento. Qualquer erro ou omissão era passível de reclamação escrita dos interessados ao juiz competente.

Os cadernos de recenseamento (um por cada bairro da capital e respectivas freguesias) eram ordenados alfabeticamente pelo primeiro nome dos eleitores e averbavam para cada um: número de ordem; nome; idade; estado [civil]; profissão; residência; condição de elegível (cargos legislativos e cargos administrativos) e observações. Depois de preenchidos, todas as folhas eram numeradas e rubricadas pelo presidente da câmara municipal, com termos de abertura e de encerramento, rubricados pelo secretário da administração do respectivo Bairro Administrativo, pelo presidente da câmara e pelos vereadores queintegravam a Comissão Executiva do município.

Eram depois executadas cópias autenticadas destes livros, que no prazo de 26 dias após o arrolamento, seriam enviadas ao governador civil e ao juiz competente. Por último, cumpria ao secretário-geral do Governo Civil a autenticação das cópias impressas. Estava concluído o processo eleitoral que, para as eleições legislativas e administrativas, se iniciava com um recenseamento único (Código Administrativo de 1878, art.º 270.º), fazendo-se posteriormente a distinção entre os elegíveis e inelegíveis para cada acto eleitoral. As operações de recenseamento (inscrição, reclamações, alterações, editais, organização do livro de recenseamento e envio de cópias ao Governo

115 Civil) iniciavam-se a 2 Janeiro prolongando-se até 31 de Maio (Lei n.º 3, art.º 15.º)362. Todas as despesas com o acto eleitoral (urnas, cofres e outros objectos imprescindíveis) eram do encargo das câmaras municipais363.

Revelador da importância que os recenseamentos detinham no resultado eleitoral foi a mudança que o Governo ditatorial de Pimenta de Castro lhes introduziu. Invocando o não cumprimento do Decreto n.º 1.352 (que convocava as eleições gerais)364 no que respeitava ao recenseamento eleitoral, por parte de funcionários das câmaras municipais e juntas paroquiais, determinou-se que, em Lisboa e Porto, seriam responsáveis pela revisão do recenseamento, os secretários gerais dos governos civis365; pois estes funcionários seriam mais confiáveis para o poder central. Igualmente Sidónio Pais exonerou as autoridades administrativas, incumbindo os novos membros nomeados de importantes funções eleitorais. O Decreto Eleitoral sidonista reinstituiu as comissões de recenseamento que seriam compostas pelo vereador indicado pela Câmara Municipal de Lisboa, que serviria de presidente e pelos secretários das administrações dos Bairros e das finanças e pelo secretário da câmara municipal ou outro empregado municipal nomeado366. A Comissão Administrativa sidonista no cumprimento do dito decreto nomeou, por unanimidade, para presidentes das comissões de recenseamento eleitoral dos 1.º, 2.º, 3.º e 4.º Bairros de Lisboa, respectivamente Álvaro Raimundo Lopes Valadas, independente; Manuel Emídio dos Santos Rebelo, que tinha sido (1913) antigo presidente da Comissão Paroquial do PRP de Santa Justa; José Tavares de Araújo e Castro, sidonista; e Franklin Lamas “amigo político” de Machado Santos (1875-1921)367.

Sem assombramento logo após o derrube do sidonismo, ainda em guerra civil, os republicanos (democráticos, evolucionistas, unionistas e centristas) acordaram com a exoneração das autoridades administrativas e consequente nomeação de novas (também com consideráveis missões eleitorais), distribuídas consoante a situação das

362

Pela Lei n.º 294, de 1915, o prazo de apresentação de requerimento para a inscrição no recenseamento de 2 a 21 de Janeiro, seria alargado passando de 2 de Janeiro até ao último dia de Fevereiro (art.º 1.º). Cf. Lei n.º 294. Diário do Governo, I Série, n.º 15, de 20 de Janeiro de 1915, p. 112.

363

Nas actas das sessões do Município tivemos acesso às despesas, material e trabalho executado pela CML para o recenseamento eleitoral e eleições de 1913. Veja-se Anexos – A.2. Custos dos trabalhos de recenseamento e eleições de 1913; A.3. Material adquirido pela CML para o recenseamento eleitoral e eleições de 1913 e A.4. Documentos passados e autenticados para as eleições de 1913.

364

Decreto n.º 1.352. Diário do Governo, I série, n.º 35, de 24 de Fevereiro de 1915, pp. 191-192.

365

Pelo art.º 2.º do Decreto n.º 1.377. Suplemento do Diário do Governo, I Série, n.º 40, de 2 de Março de 1915, s/p. Nos restantes concelhos o respectivo administrador incumbiria os respectivos secretários do recenseamento (art.º 1.º).

366

Decreto n.º 3.907. Diário do Governo, I Série, n.º 47, de 11 de Março de 1918, p. 178.

367

116

organizações políticas em cada distrito. Contudo, mesmo antes da queda da Monarquia do Norte já os democráticos esqueciam o acordo e tomavam de assalto todas as freguesias, concelhos e distritos. Assim, o Partido Democrático refez a sua máquina eleitoral e a rede clientelar de interesses que dominava, afastando os republicanos conservadores368.

Como veremos mais pormenorizadamente adiante também nas eleições de 1919 a Comissão Administrativa da CML que organizaria o recenseamento político desse ano (o mais fraudulento da capital), sob proposta do seu presidente, um democrático, nomeou para esse efeito dois vogais (um democrático e outro socialista) da referida Comissão, e também foram democráticos e socialistas que presidiram às assembleias de apuramento, partidos que conquistaram a maioria e minoria nas eleições municipais e legislativas deste ano no concelho de Lisboa.

Os estudos efectuados sobre as eleições republicanas são unânimes ao considerarem que, desde o primeiro recenseamento político da República, as críticas da oposição (republicana ou monarquista) se fizeram sentir nos periódicos da época, ao defenderem que os recenseamentos eram pertença do PRP e, assim, não podiam existir eleições livres. Porém, esta não era uma nova realidade do regime republicano. Com a publicação de legislação eleitoral de 1895 e 1901, a fraude no recenseamento eleitoral tinha-se multiplicado nas últimas décadas da Monarquia369. Sabemos que no recenseamento de 1911 se praticaram ilegalidades se bem que, como defendeu Fernando Farelo Lopes, investidas de “certa legitimidade revolucionária”370, procurando coarctar o acesso ao voto aos inimigos da jovem República, num país onde ainda predominava o tradicional caciquismo monárquico ou de novos convertidos republicanos, ex- monarquistas.

Em Lisboa, as comissões republicanas promoveram a inscrição dos cidadãos, seus correligionários, que solicitaram a sua “ajuda” para se recensearem, uma prática republicana já habitual durante o regime monárquico, como expusemos anteriormente. A importância da execução do recenseamento é reconhecida para o jornal republicano A

368

Veja-se António José Telo, Decadência e queda…, Vol. I, pp. 114-115.

369

O fenómeno de manipulação do recenseamento eleitoral era comum durante o século XIX na Europa. Vd. Pedro Tavares de Almeida, Eleições e caciquismo..., p. 44 (nota de rodapé).

370

Fernando Farelo Lopes, Poder político..., p. 119.

A consciência de que o país ainda não estaria republicanizado e a urgência da eleição das Constituintes levaria a que às primeiras reacções contrárias à Lei Eleitoral de 1911, se seguisse uma segunda fase, onde houve lugar ao apoio ao Governo Provisório e à defesa da unidade do PRP. Veja-se António Pinto Ravara, “Acerca das eleições de 1911”, pp. 128-129.

117

Capital, na véspera do dia em que este teve início, ao ler-se no seu editorial que “É no

recenseamento que se ganham eleições”; vai ainda mais longe ao apelar a todos os cidadãos que reuniam condições para serem eleitores que solicitassem a sua inscrição; e, às comissões republicanas exorta-as a que continuem o trabalho patriótico do tempo da

propaganda quando “distribuíam os seus boletins pelas casas dos cidadãos sem indagar

das suas opiniões políticas”371. O exercício desta acção pelas comissões republicanas e paroquiais (em Lisboa e no Porto) teve como resultado o recenseamento de cidadãos