1. BÖLÜM
4.6. Cumhuriyet Dönemi
ANOS 1911(a) % 1920 (b) % 1925 (c) % 1.º Bairro 129.571 29,8 134.863 27,7 138.758 26,2 2.º Bairro 81.595 18,7 97.706 20,1 105.036 19,8 3.º Bairro 92.441 21,2 115.231 23,7 130.514 24,7 4.º Bairro 131.752 30,3 138.572 28,5 155.216 29,3 Total 435.359 100 486.372 100 529.524 100
% - Percentagem em relação à população total.
Fontes: (a) Censo da população de Portugal…1911. Parte I: 336; (b)Censo da população…1920, Vol.
1: 116-118; (c) Censo extraordinário…1925: 5.
Se fizermos uma análise pormenorizada por cada Bairro Administrativo constatamos que, entre 1911 e 1925, o 2.º Bairro (Baixa Pombalina, Bairro Alto e Arroios) teve um acréscimo comedido de habitantes, se bem que aí tivesse surgido a nova freguesia da Penha de França (1918), devido ao crescimento de S. Jorge de Arroios; as restantes freguesias integradas neste Bairro já revelavam uma tendência para o predomínio dos serviços (sedes de empresas, seguradoras e bancos) e comércio, com a consequente diminuição de população, exemplo disso era o Bairro Alto onde se instalaram casas impressoras, redacções e tipografias de jornais, em antigos palácios. Deste modo, os jornalistas ficavam perto do Parlamento, dos cafés167 da Baixa e do Chiado, onde circulavam os boatos, e do Terreiro do Paço centro nevrálgico do poder político, com os seus ministérios, em cujas arcadas se encontravam os seus apaniguados (e os pretendentes a tal). A Baixa era o centro do comércio, e local onde se situavam os principais hotéis; a rua do Ouro era a “artéria mais movimentada da cidade”, era aí, e no
166
Fernando Rosas, 1910 a duas vozes: porque venceu…, p. 58.
167
Na época os cafés e as farmácias eram locais de sociabilidade política, aí discutia-se política e preparavam-se revoltas. Ver Maria Alice D. de A. Samara, As Repúblicas…, p. 150 e segs.
A presença dos farmacêuticos só não se fez sentir numa vereação e numa comissão administrativa do Município de Lisboa, o que é um dado comprovativo da intervenção deste grupo socioprofissional na política local da capital, durante a I República.
54
Chiado, que se exibia a “«vida de rua» de Lisboa”, que se reuniam às 17 horas “grande parte dos passeantes e badauds da capital”168.
Foi o 3.º Bairro Administrativo que apresentou o maior aumento de residentes (3,5%), entre 1911 e 1925. Era a zona por excelência de expansão urbanística (que englobava as Avenidas Novas) devido ao crescimento da alta e média burguesia; mas também de freguesias rurais como a Charneca e Lumiar. O 1.º Bairro que englobava os bairros históricos (Castelo, Sé, Alfama, etc.) e a zona industrial a oriente (de Xabregas ao Poço do Bispo) foi o que revelou a maior descida de população (3,6%), verificando- se somente um aumento moderado de população, entre 1920 e 1925, nas freguesias de S. Cristóvão, Anjos e Socorro, e mais acentuado na freguesia limítrofe dos Olivais. Ao contrário, o 4.º Bairro (Alcântara, Ajuda, Belém, Lapa, Santa Isabel, Santos-o-Velho) continuou o mais povoado em 1911 e 1925, embora sofrendo um pequeno decréscimo populacional (1%) entre estas datas, porém recuperando relativamente ao censo de 1920169.
Como resposta à elevada concentração urbana existia uma construção de prédios de rendimento (para a classe média) em que a autoria dos arquitectos – marcante nos palacetes, nos prédios luxuosos das Avenidas e nas “obras mais emblemáticas de maior prestígio ou inovadoras”170 –, era habitualmente desusada, sendo substituídos por mestre-de-obras, alcunhados de “gaioleiros”, que utilizavam processos de construção inspirados na técnica pombalina anti-sísmica em “gaiola”, mas por forma a reduzir os custos, ou por desleixo e inexperiência, colocavam menos madeiramento, tendo como resultado o seu desmoronamento171.
O projecto de construção dos primeiros bairros sociais (do Arco do Cego e da Ajuda/Boa Hora) incorporou as preocupações sociais e os ideais republicanos com o alojamento das classes populares. Aliás, as preocupações com a higiene e salubridade
168
Raúl Proença, Guia de Portugal. I generalidades: Lisboa e arredores. Apresentação e notas de Sant’Anna Dionísio, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 1924, p. 204.
169
“Distribuição da População por freguesias e respectivos acréscimos relativos à população de 1920: Lisboa”, in Portugal.MF.DGE, Censo extraordinário da população das cidades de Lisboa e Porto: 1 de
Dezembro de 1925, Lisboa, Imprensa Nacional, 1927, s.p.
Sobre este tema ver A. H. de Oliveira Marques, História da 1.ª República Portuguesa: as estruturas de
base, Lisboa, Iniciativas Editoriais, [1978], pp. 21-28.
170
Michel Toussaint, op. cit., p. 50.
171
Por exemplo, em 1921 desabaram vários prédios em Campo de Ourique, veja-se “O desastre de Campo de Ourique”. Ilustração Portuguesa, S. 2, n.º 818 (1921), p. 283. E em 22 de Março de 1924 um prédio em construção caiu em Campolide, provocando a morte de 4 pessoas, ver “Desmoronamento em Campolide”. Ibidem, S. 2, n.º 945 (1924), pp. 398-399.
55 levaram muitos contemporâneos a defender a demolição dos velhos bairros da Mouraria e de Alfama; e a edilidade republicana aprovou o projecto de melhoramento do Casal Ventoso, que assim seria o novo bairro operário periférico da capital; porém, estas iniciativas ficariam no papel.
No final de 1925 foram estimadas em “25.000 a 30.000 habitações as que deviam faltar à população de Lisboa”172, esta escassez de alojamento aliada ao aumento das rendas de casa teve como consequência a proliferação de barracas nas zonas industriais, bem como o aluguer de quartos e a promiscuidade nas habitações do operariado, que (sobre)vivia sem condições de higiene, sem água, esgotos e luz, em pátios ou vilas ou ainda, muitas vezes, em antigos palácios transmudados para habitação das classes pobres. Em 1910 existiam cerca de 260 pátios e 117 vilas operárias na capital, em 1926 o seu número tinha ascendido a cerca de 615 e 365, respectivamente173; em quinze anos o número de pátios aumentou 42 por cento e o das vilas em 32 por cento, cifras que traduzem sobremaneira o aumento da população que, na sua grande maioria, vivia em condições miseráveis e insalubres. Espaços à parte na capital onde imperava a sociabilidade operária, mas que também eram guetos de segregação social vistos, por muitos, como antros de “selvagens”, indigentes e criminosos.
A ocupação profissional dos lisboetas durante a República (Quadro 5), segundo o modelo científico de classificação de Jacques Bertillon174 aplicado nos Censos, no que diz respeito à população activa (excluindo os improdutivos, os que não indicavam profissão e os que viviam dos rendimentos) incidia, em 1911, maioritariamente na indústria (37,9%); seguindo-se, por ordem decrescente, o comércio (19,5%), em terceiro lugar surgiam as profissões ligadas aos transportes terrestres, marítimos, fluviais, correios, telégrafos e telefones (8,7%); depois os que pertenciam à força pública (6,4%), seguidos dos profissionais liberais (4,6%); e na sexta posição surgiam os funcionários públicos (4,5%). Porém, se à administração pública adicionássemos as forças públicas
172
“Relatório da Comissão nomeada em 1926 para propor as Bases da Reforma Tributária”, in As
reformas tributárias de 1911 a 1929, Lisboa, 1964, pp. 96-97. Citado por A. H. de Oliveira Marques
(Coord.), Portugal da Monarquia para a República…, p. 64.
173
Delminda Rijo; Eunice Relvas, “Lisboa republicana: dados e números”, in Lisboa. Câmara Municipal,
Lisboa republicana: espaço..., pp. 14-15.
174
Jacques Bertillon (1851-1922) desenvolveu um modelo reconhecido (última versão 1893) a nível internacional e adoptado por muitos países nos seus censos, durante muitas décadas. Em Portugal este método foi utilizado desde o censo de 1890 (inclusive) ao de 1930, exceptuando o de 1920 que não incluiu nenhuma referência profissional. Cf. António Pinto Ravara, “A classificação sócio profissional em Portugal (1806-1930) ”. Análise Social, Vol. XXIV, n.º103-104 (1988), pp. 1161-1184.
56
esta passaria a ocupar a terceira posição (10,9%); isto para não referir os profissionais liberais, pois alguns seriam empregados públicos. As profissões ligadas à exploração da superfície do solo (agricultura, pesca e caça) não atingiam os 3 por cento, valor que desceu 1 ponto percentual no final da República, em 1925.
Neste ano a preponderância pertencia aos que se dedicavam aos trabalhos domésticos175 (35%), destronando do primeiro posto a indústria, que passou para a segunda posição (14,7%); depois, surgiam os profissionais do comércio (6,6%), que incluíam os bancos, seguros e correctores; na quarta posição vinha a força pública (5%); em seguida, as profissões liberais (2,3%); depois os trabalhadores nos transportes (2,2%); e em seguimento os empregados públicos (2,1%), estes últimos, surpreendentemente, comparativamente a 1911 – em face da ideia aceite pelos historiadores, e propagandeada na época, de “benefício” de empregos públicos por
Quadro 5 – População agrupada por grandes divisões profissionais no concelho de Lisboa, em 1911 e 1925
DIVISÕES PROFISSIONAIS ANOS
1911 (a) % 1925 (b) %
Trabalho agrícola 12.321 2,8 7.389 1,4
Pesca e caça 585 0,1 3.415 0,6
Extracção de materiais minerais 38 - 266 0,1
Industria 164.991 37,9 77.977 14,7 Transportes 37.778 8,7 11.497 2,2 Comércio 84.961 19,5 34.987 6,6 Força pública 27.994 6,4 26.712 5,0 Administração pública 19.396 4,5 11.007 2,1 Profissões liberais 20.128 4,6 12.286 2,3
Pessoas vivendo de rendimentos 34.830 8,0 8.021 1,5
Trabalhos domésticos 9.158 2,1 185.321 35,0
Designações gerais sem indicação profissão - - 30.619 5,8
Improdutivos 23.179 5,3 120.027 22,7
Total população cidade de Lisboa 435.359 100 529.524 100
% - Percentagem de população em relação á população total do concelho.
Fontes: (a) Censo da população de Portugal…1911. Parte V: 118; (b) Censo extraordinário…1925: 13-14.
parte dos sucessivos governos aos “heróis” e outros apaniguados republicanos – registando uma descida de 2,4 por cento no cômputo total da população activa lisboeta. Uma explicação para este facto pode encontrar-se na não contabilização dos professores do Estado, dos médicos e profissões judiciais na administração pública; contudo,
175
Esta classificação era muito lata, englobando além dos “serviçais empregados no serviço doméstico” (Censo, 1911), outras categorias profissionais, por exemplo, no Censo de 1930 foram aí incluídas todas as mulheres que não puderam ser integradas nos outros grupos profissionais, assim como as foram consideradas chefes de família. Vd. Portugal.DGE, Censo da população de Portugal: no 1.º de Dezembro
57 mesmo que contabilizássemos todos os profissionais liberais (2,3%), acrescidos dos elementos das forças públicas, verificava-se um decréscimo percentual seis por cento relativamente a 1911.
No que diz respeito à população não activa registou-se uma diminuição acentuada dos que viviam de rendimentos: em 1911 eram 8 por cento e no ano de 1925 somente 1,5 por cento. Quanto aos improdutivos, atingiam quase um quarto da população de Lisboa no final da República com uma taxa de 22,7 por cento; o Censo de 1925 classificou-os em quatro categorias: os “indivíduos não classificados” (velhos, mulheres domésticas e menores de 20 anos), mas também 1.381 homens entre os 20 e os 39 anos (seriam desempregados e/ou doentes?) que constituíam a maioria dos não activos com 101.6691 (84,7%); de seguida, mas bastante distantes em números, os “indivíduos sem profissão” que perfaziam 9.353 (7,8%); depois estavam os “mendigos, vagabundos e meretrizes” com 8.651 pessoas (7,1%); e, por último, nos “indivíduos momentaneamente sem emprego” (desempregados) foram arrolados apenas 422 (0,3%)176.
Sabemos que no período temporal em análise a massa constituída por vagabundos e pedintes abrangia em grande parte o proletariado urbano sem profissão definida, muitos deles imigrantes, na sua maioria trabalhadores rurais, que tinham vindo para a capital em busca de trabalho e melhores condições de vida, mas que sem qualquer tipo de qualificação profissional se empregavam em trabalhos braçais e sazonais incertos (na estiva, construção civil, na venda ambulante, venda de lotaria, etc.). Sendo sujeitos a uma maior instabilidade laboral e despedimento arbitrário177 experienciavam um quotidiano de miséria que os levava, muitas vezes, à mendicidade e à pequena delinquência178.
176
Cf. Portugal.MF.DGE, Censo extraordinário…1925, p. 14.
177
A designação oficial de “desempregado”, a quem se reconheceu o direito ao trabalho, surgiu pela primeira vez em Portugal com a República, na Lei de 20 de Julho de 1912, que estabeleceu medidas para a repressão da vadiagem e mendicidade. Embora, esta “categoria” social surgisse, desde 1886, nos relatórios e orçamentos do Congresso Municipal de Beneficência Pública; e, já na legislação anterior tivesse havido referências aos “sem trabalho” entre os mendigos e vadios. Cf. Eunice Relvas, Esmola e
degredo: mendigos e vadios em Lisboa (1835-1910), Lisboa, Livros Horizonte, 2002, p. 36; Idem,
“Congresso municipal de beneficência”, in Maria João Vaz; Eunice Relvas; Nuno Pinheiro (Org.),
Exclusão na história: actas do colóquio internacional sobre exclusão social, Oeiras, Celta, 2000, pp.
239-246.
178
Sobre esta temática veja-se Eunice Relvas, Esmola e degredo…; Lisboa. Câmara Municipal,
Excluídos: memórias de (sobre)vivências (1836-1933) / Coord. Eunice Relvas, Lisboa, CML/GEO, 1999.
[Catálogo de Exposição]; Maria de Fátima Martins Pinto, Os indigentes: entre a assistência e a
58
Apresentada a evolução demográfica e a distribuição profissional dos habitantes de Lisboa, analisemos sucintamente o seu nível de alfabetização. O índice de analfabetismo registou uma diminuição acentuada no sexo masculino nos maiores de 7 anos durante a Primeira República, em 1911 eram 51.147 e em 1925 completavam 45.087 (valor mínimo registado desde 1890); quanto ao sexo feminino continuou a aumentar no período em análise, correspondendo a 82.962 analfabetas em 1911 e a 92.936 no ano de 1925 (num movimento contínuo desde 1890), deste modo, a iliteracia era acentuadamente maior no sexo feminino, quase o dobro do sexo masculino179.
Podemos afirmar que sendo manifestamente positivos para o sexo masculino estes resultados ficaram aquém das esperanças dos republicanos. No entanto, na escola republicana introduziram-se métodos e sistemas de ensino modernos e actualizados. E foi ainda na vigência da Monarquia que estes tomaram a iniciativa de criarem escolas primárias para crianças e adultos, de ensino laico, nos centros republicanos existentes em Lisboa. Nos anos que antecederam a implantação da República existiam 35 escolas primárias nos centros republicanos e outras organizações republicanas e paramaçónicas180, às quais se juntaram outras durante o regime republicano. Estes centros, além da componente escolar, ofereciam a quem os frequentava bibliotecas e alguns possuíam cantinas escolares e balneários; além disso, muitos organizavam passeios de estudo, conferências e palestras livres sobre os mais variados temas, das ciências às artes, sobre a condição da mulher, etc., num trabalho contínuo e dedicado de educação para a cidadania.
Ao abordar a educação popular e de adultos durante a Primeira República temos de destacar a criação da Universidade Livre para a Educação Popular (1912), e da Universidade Popular Portuguesa (1919), considerada de “utilidade nacional” e financiada por subsídio público (Dec. de 10 de Maio de 1919)181. Estas instituições que tinham por objectivo a educação geral do povo, apostando na sua valorização e
179
Cf. Portugal.MF.DGE, Censo extraordinário…1925, p. 7.
180
Um exemplo maior destas instituições, que perdura na actualidade, é o da Sociedade Promotora de Educação Popular, no bairro de Alcântara. Aliás, analisando os Censos de 1900 e 1930, conforme escreveu Frédéric Vidal, “sendo ou não, um efeito da acção da Promotora, a melhoria do nível de instrução foi mais sensível em Alcântara do que no resto da cidade”, in Frédéric Vidal, “O bairro de Alcântara e a Sociedade Promotora de Educação Popular no tempo da I República”, in Colóquio Nacional Lisboa e a República, Lisboa, 2008, Lisboa e a República…, p. 65.
Para o estudo da importância da escola e da educação cívica nos centros republicanos veja-se Maria Alice D. de A. Samara, As Repúblicas…, pp. 130-143.
181
59 aproximação às elites intelectuais, também possuíam bibliotecas e, igualmente, ofereciam cursos temáticos ou palestras, para além de excursões e visitas de estudo.
Foi notável o esforço desenvolvido pelas vereações republicanas para o incremento educacional e cultural da população alfacinha. Existiram quatro bibliotecas municipais, uma em cada bairro administrativo da capital182. Algumas funcionaram em edifícios escolares, o que se enquadrava na concepção republicana de complementaridade da instrução e da educação cívica, numa visão iluminista, tendo por objectivo a formação do “homem novo”. Uma medida inovadora foi a instituição do horário de leitura nocturno, em 21 de Maio de 1923, na Biblioteca Municipal do 3.º Bairro e, a 15 de Outubro do mesmo ano, na Biblioteca Municipal Central. Ainda em Novembro de 1923, inaugurar-se-ia a Biblioteca Popular do Beato, na vila Zenha, que incluía uma hemeroteca; facto que era revelador do sinal dos tempos, um tempo onde se tornava indispensável a informação diária. Esta hemeroteca funcionava 3 horas por noite, como conviria a esta zona da cidade, um centro fabril onde abundava o operariado183. No ano anterior a edilidade republicana respondera afirmativamente a um pedido da Universidade Livre, para instalar no Jardim da Estrela, “a primeira biblioteca popular, permanentemente ao dispor do povo de Lisboa”, porque a câmara municipal “tem sempre dispensado a maior solicitude ao desenvolvimento da instrução popular, base essencial da nossa regeneração educativa”184.
A educação do espírito aliada à preocupação do futuro da raça conduziu os republicanos, a partir de 1908, a promoverem os banhos de mar, através das juntas de paróquia, com o apoio do jornal O Século. Esta iniciativa era dirigida aos filhos dos operários que habitavam, na sua maioria, em casas lúgubres e sem higiene necessitando de sol, mar e ar puro, para crescerem robustos. Esta actividade foi apoiada pelo Município de Lisboa, de 1908 a 1916, e passou, de 1924 a 1926, para a sua responsabilidade185. Analogamente as edilidades republicanas, entre 1914 e 1926, apoiaram a infância, através da concessão de subsídios a 123 instituições da capital:
182
Em Julho de 1926, depois da dissolução da última vereação republicana, estavam assim localizadas: do 1.º Bairro, na travessa de S. Vicente, 5; do 2.º Bairro, na rua do Saco, 1; do 3.º Bairro, na rua da Boavista, 9-1º e do 4.º Bairro na calçada da Tapada, 64-A.
183
Sessão de 7 de Novembro de 1923. Actas das Sessões da Comissão Executiva…1923, p. 389.
184
Sessão de 13 de Abril de 1922. Actas das Sessões da Comissão Executiva… 1922, p. 214.
185
Cf. Nuno Campos, “Os primeiros banhos de mar infantis nas praias do rio Tejo: uma iniciativa da câmara municipal de Lisboa da Primeira República”. Cadernos do Arquivo Municipal, n.º 2 (1998), pp. 128-143.
60
internatos, cantinas escolares, centros republicanos, colectividades com escolas, lactários e instituições de assistência186.
Relativamente ao ensino feminino liceal e superior verificou-se um incremento na capital durante a República, correspondendo a um maior interesse da classe média burguesa na educação feminina e, também, ao novo papel social da mulher, propagandeado por associações femininas como a Liga Republicana das Mulheres Portuguesas. Como paradigma da educação feminina existia o Liceu Maria Pia (denominado Liceu Central de Garrett, 1919), onde no ano lectivo de 1913/1914 estavam matriculadas 924 alunas. Também no ensino superior o número de alunas subiu exponencialmente, em 1910/1911 eram apenas 6 a nível nacional e só em Lisboa, no ano lectivo de 1919/1920, o número de alunas atingiu as 120 discentes (6,6% do total da população estudantil) distribuindo-se pelos seguintes cursos: Letras (54,3%) superando os alunos, Direito (2,3%) Ciências (11%), Farmácia (11,7%), Medicina (7%) e Agronomia (1,7%)187. Cifras muito superiores aos das Universidades do Porto e de Coimbra, especialmente desta última o que, como assinalou Maria Cândida Proença, remete “para um maior conservadorismo da academia coimbrã”188.
Para concluir devemos acautelar que Lisboa detinha uma posição privilegiada no panorama cultural do país. A cultura e as instituições de índole cultural eram essencialmente um fenómeno urbano, mas tal facto não deve escamotear o interesse genuíno dos republicanos na educação cívica do povo, através da escola republicana e das universidades populares, que aliado ao ambiente de liberdade que se vivia levou à dinamização do associativismo cultural e educativo, à enorme difusão de jornais e revistas, e, ainda, à realização de inúmeros congressos, num amplo movimento de participação e pluralidade cultural numa visão demopédica de acesso de todos os portugueses ao Conhecimento/Saber, tendo em vista o exercício pleno da cidadania.
O movimento associativo tinha-se desenvolvido em Portugal a partir do triunfo do Liberalismo, se bem que a proliferação de associações e sociedades tivesse ocorrido na segunda metade do século XIX e no primeiro quartel do século XX. O convívio mundano, a defesa de interesses comuns e a solidariedade levou à criação de inúmeras e
186
Ver Eunice Relvas, “A actuação cultural das vereações lisboetas republicanas”, in Colóquio Nacional A Vida Cultural de Lisboa na I República, Lisboa, 2010, A vida cultural…, pp. 118-127 (Anexo - “Relação das instituições subsidiadas pela CML (1914-1925)”.
187
A. H. de Oliveira Marques (Coord.), Portugal da Monarquia…, p. 562.
188
Maria Cândida Proença, “A Educação”, in Fernando Rosas; Maria Fernanda Rollo (Coord.), História
61 múltiplas agremiações: agrícolas, de beneficência, civilizadoras, comerciais, educativas, de classe, industriais, liberais, patrióticas, de socorros mútuos, etc. na capital. Para as elites o clube era o local de cosmopolitismo burguês e possuía normalmente uma biblioteca ou gabinete de leitura, sala de festas ou salão de baile e sala de fumo onde se organizavam saraus literários e musicais, bailes, teatro, conferências sobre temas variados, garden party, etc. Com efeito, é na vertente dedicada ao recreio e ocupação dos tempos livres que o movimento associativo revelou maior vitalidade, mormente no espaço urbano.
Em Lisboa um associativismo pujante reflectiu as diferenças de estatuto social e bairristas dos alfacinhas. A legislação nacional sobre o horário de trabalho, com determinação de um dia de descanso semanal, aprovada em 1911, criou condições para novas formas de lazer, onde a diversão e o desporto tinham particular relevância. No ano de 1919 registou-se a existência de 164 clubes na capital189; destas colectividades (se excluirmos as associações musicais, desportivas, de beneficência e, até de cariz político) eram de recreio, dramático, grémios e grupos excursionistas ao todo 95 (57,9%), como por exemplo: a Sociedade Recreativa Filhos do Trabalho, a Academia Recreativa Operária Beatense, a Academia de Recreio Operário, o Grupo Recreativo Familiar do Areeiro, o Grupo Familiar «O Invencível», o Grupo Recreativo «Os Bons Amigos», o Grupo Recreativo Familiar Aurora Chelense, o Grupo Excursionista «Os Vinte Amigos», o Grupo «Os 10 Unidos», o Grupo Excursionista «Os Venenos», a «União Familiar», o Ajuda Club, o Campolide Club, o Rato Club, o Belém Club, o Braço de Prata Club, o Club Belga, entre muitos outros. Estes clubes, agremiações, academias e grupos associativos desempenharam para além de uma função recreativa, um papel importante na cultura, educação cívica e solidariedade dos seus associados, aliás patente nalgumas designações adoptadas, como por exemplo o Grupo Dramático Aurora Social ou o Grupo Dramático «Os Auxiliadores».