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1. BÖLÜM

8.3. Ses değişmesi

IV.1. Contexto sociopolítico do acto eleitoral

Estas eleições foram efectuadas no âmbito da Grande Guerra. Este ano foi iniciado sob o signo do Governo da União Sagrada (Março de 1916 a Abril de 1917), presidido por António José de Almeida que, ao contrário do que a nomenclatura indiciava, não era um Ministério nacional, face à recusa dos unionistas em participarem sem a presença dos socialistas e monárquicos, mas era constituído por quatro evolucionistas, cinco democráticos e um independente. Os seus objectivos foram a união dos portugueses em torno dos valores republicanos e patrióticos, bem como a preparação da nação para o esforço de guerra.

Compenetrado nesta missão nacional o Governo criou a Comissão Central de Subsistências e ordenou a inspecção militar a todos os homens com idade inferior a 45 anos para a mobilização geral que iria constituir o Corpo Expedicionário Português (CEP), cujo primeiro contingente partiria para Flandres em 19 de Janeiro de 1917, que seria conhecido pelos anti-guerristas como “Carneiros Exportados de Portugal”556. Apesar da propaganda patriótica e da censura à imprensa, muitos portugueses não compreendiam esta participação na guerra, nomeadamente os oficiais conservadores, que conheciam as debilidades do exército português. Ao contrário, os intervencionistas, deputados, vereadores557, médicos, jornalistas e outros simpatizantes dos democráticos (que lideravam a corrente guerrista), ofereceram-se como voluntários para a Guerra, com a devida propaganda nos jornais558.

Os motins e greves que ocorreram em 1916 culminariam a 13 de Dezembro com a revolta de Machado Santos, que acabou sendo preso, ficando detido em Fontelo. A

556

Vasco Pulido Valente, A «República Velha»..., p. 92.

557

Um antigo edil e um vereador em exercício participaram na Grande Guerra, a saber: António Aurélio da Costa Ferreira, alferes-médico miliciano, vereador na primeira câmara republicana da capital; e António dos Anjos Corvinel Moreira, oficial-médico na marinha, edil em exercício (vereação de 1914- 1917).

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Em Setembro de 1917 anti-guerristas e monárquicos colocariam em circulação, em Lisboa, o famoso panfleto anónimo “Rol da Desonra”, denunciando que os propagandistas democráticos em vez de estarem nas trincheiras, se passeavam por Paris, no tranquilo quartel-general. Cf. Armando Malheiro da Silva, Sidónio e sidonismo: história de um caso político, Vol. II, Coimbra, IUC, 2006, p. 51; Miguel Dias Santos, A contra-revolução na I República (1910-1919), Coimbra, IUC, 2010, p. 361.

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este pronunciamento seguir-se-ia a tentativa de golpe do coronel Botelho Moniz, em 22 de Janeiro de 1917. Era por demais evidente o mal-estar contra o Governo e António José de Almeida demitiu-se, em Abril, passando os evolucionistas a apoiar no Parlamento o novo Ministério democrático chefiado por Afonso Costa (Abril de 1917 a Dezembro de 1918), este Governo seria o último a ser presidido por este caudilho republicano e, como sugeriu José Adelino Maltez, sofreu os efeitos “dos três cavaleiros do Apocalipse, da fome, da peste e da guerra”559, num tempo de desmedida agitação social. O isolamento e o cerco aos democráticos eram por demais evidentes.

Em Maio de 1917 o Governo estava completamente afastado “da nação, do exército, do partido que o devia sustentar e até do seu fiel «povo republicano» ”560. Neste mês, no dia 13, a falta de pão em Lisboa originou o encerramento de algumas padarias; nesse dia duas delas foram assaltadas pelo povo que levou todo o pão existente. No dia seguinte, a maioria destes estabelecimentos estavam encerrados, por falta de farinha e, os que estavam abertos, foram objecto de assaltos populares. A partir do dia 15 foi proibido o fabrico de bolos e pastéis na capital.

Perante o açambarcamento e a especulação que resultaram na continuada falta e carestia de géneros alimentícios, principalmente do pão, base da alimentação, os lisboetas, no sábado, dia 19, procuraram a batata, utilizada em sua substituição; nesse dia este tubérculo foi vendido pelo dobro do preço usual (de 6 para 12 e 14 centavos)561; à noite iniciaram-se os assaltos às lojas de comestíveis. Neste dia e no seguinte, a designada «revolta da batata», atingiu o seu zénite: o povo esfomeado (mulheres e crianças inclusive) assaltou padarias, armazéns e mercearias, levando tudo o que encontrou. Na zona da Baixa escaparam ao assalto popular poucos estabelecimentos, estendendo-se a revolta a Campo de Ourique, Campo Grande, Alcântara e à zona de Xabregas e Beato562. A GNR e a polícia cívica foram incapazes de conter os inúmeros

559

José Adelino Maltez, Tradição e revolução…, Vol. II, p. 231.

560

Vasco Pulido Valente, A «República Velha»..., p. 101.

Como bem definiu este autor o «povo republicano» do 5 de Outubro era uma massa heterogénea que ia desde a elite intelectual da pequena burguesia urbana, aos lojistas, funcionalismo público, empregados de serviços, caixeiros, trabalhadores especializados, operários fabris, rendeiros, proprietários rurais e todos os que por algum motivo se queixavam contra o «existente», veja-se Vasco Pulido Valente, “«A revolta dos abastecimentos»: Lisboa, Maio de 1917”, in Tentar Perceber, Lisboa, Imprensa Nacional, 1981, p. 175 e segs.

561

Cf. “A falta de pão”. A Capital, 13-05-1917, p. 2; “A questão do pão”. Ibidem, 14-05-1917, p. 2; “A falta de pão”. Ibid., 15-05-1917, p. 2; “Idem”. Ibidem, 16-05-1917, p. 2; “A questão do pão”. Ibid., 19-05- 1917, p. 2.

562

181 assaltos populares por toda a cidade e no Beato e no Poço do Bispo os revoltosos tiveram ao seu lado a guarda-fiscal. Os proprietários de lojas e armazéns assaltados entregaram queixas pelos prejuízos no Governo Civil, também foram assaltadas ourivesarias, alfaiatarias e sapatarias. No dia 20 os sindicatos fizeram um comício de protesto no Parque Eduardo VII, o confronto com a GNR provocou mortos e feridos. Foi declarado o estado de sítio em Lisboa que perduraria até ao dia 31 deste mês. No dia 21, repetiu-se o cenário e nas zonas dos grandes armazéns do Poço do Bispo, Beato e Xabregas via-se «na rua, por todos os lados, restos de arroz, feijão, grão e outros géneros. Anda-se a custo, porque as ruas estão cheias de azeite»563. Três dias de revolta que tragicamente resultaram em 22 mortos e mais de 50 feridos, segundo dados oficiais564. A partir deste ano tornou-se rotineiro o uso de armas de fogo contra os protestos sociais; o comportamento da GNR que agrediu crianças à coronhada bem como pessoas ordeiras, nas ruas de Lisboa, foi desaprovado por muitas pessoas565.

No Parlamento, José da Costa Júnior, deputado socialista, atacou o Ministério pela brutalidade da repressão sobre o que classificou de “movimento de famintos”, também Brito Camacho, perante as justificações de Afonso Costa que alegou motivos políticos para a revolta, defendeu que “o movimento foi de famintos, porque o pão escasseou em Lisboa até ao ponto de deixar sem alimentos milhares de famílias”566. As actas das sessões da Comissão Executiva do município (relativas às reuniões dos dias 17 e 24 de Maio) estranhamente, ou não, pois a maioria dos seus membros eram democráticos, não registaram qualquer menção a esta revolta.

Como bem mencionou Pulido Valente eram desmedidas as divisões no seio dos republicanos. O «povo republicano» confrontou-se em Maio de 1917 nas ruas de Lisboa: “os homens das profissões liberais não apareceram nas ruas, excepto no papel de responsáveis pela ordem. Os funcionários públicos também não. Os omnipresentes lojistas da propaganda e do terror apareceram: eram eles os donos das 186 lojas Já mencionámos que numa tentativa de colmatar esta situação o jornal O Século, em colaboração com as juntas de paróquia, tinha inaugurado a primeira «Sopa dos Pobres», em Abril; iniciativa que se estendeu a outras freguesias onde “os gritos de fome” já começavam a “incomodar” a capital e lhe podiam “perturbar o sossego”, in “A «Sopa para os Pobres»”. Ilustração Portuguesa, S. 2, n.º 581 (1917), p. 297.

563

Ver “A questão das subsistências”. A Capital, 21-05-1917, p. 2; “Última hora…”. Ibid., 22-05-1917, p. 2.

564

António José Telo, Primeira República: I: do sonho…, p. 342.

Segundo o embaixador britânico em Lisboa teriam morrido “pelo menos duzentas pessoas”, Cf. Douglas L. Wheeler, História política…, p. 155.

565

Diego Palacios Cerezales, Portugal à coronhada: protesto popular e ordem pública nos séculos XIX e

XX, Lisboa, Tinta da China, 2011, p. 239.

566

182

assaltadas, que resistiram a tiro aos seus velhos companheiros e cúmplices e de cujo bolso saíram 1500 contos de presumíveis prejuízos. O «povo» dos assaltantes resumia- se aos trabalhadores e aos empregados mais pobres, a quem o PRP deixara de servir de protecção”567. O Governo tinha-se revelado inapto para resolver o problema das subsistências, da carestia de vida e da desmedida repressão das forças da ordem. A falta de unidade dos democráticos também foi visível no Congresso anual do PRP, que decorreu no teatro de S. Carlos, de 1 a 3 de Julho, onde se ouviram vozes discordantes com a política do partido; o director do jornal Portugal, órgão dos democráticos de esquerda, chegou a ser expulso do Congresso568, evento a que não deve ser alheio o facto de ser através deste periódico que os democráticos esquerdistas apelavam aos seus correligionários para abandonarem o PRP e criarem um partido radical-socialista569.

Em Lisboa, dois meses após a «revolta da batata» agudizou-se a contestação social ligada à luta sindical pelo aumento dos vencimentos. De 7 a 18 de Julho houve uma greve dos trabalhadores da construção civil; do dia 12 para 13 os grevistas resistiram ao cerco da GNR e da polícia à sua sede, na Calçada do Combro, com tiros e bombas que provocaram vítimas; efectuaram-se mais de 1.200 prisões e foi novamente declarado o estado de sítio570; por fim, o Ministério cedeu libertando os presos e aceitando os aumentos salariais. Em Agosto ocorreu a greve dos trabalhadores da Companhia das Águas, e a cidade ficou sem água vários dias. No dia 1 de Setembro a paralisação dos correios-telégrafos levou à substituição dos seus funcionários por escoteiros e alistados das Sociedades de Instrução Militar Preparatória571, resultando no caos com os telegramas e a correspondência a não serem entregues. Muitos grevistas foram presos.

No dia 8 de Setembro, após reuniões infrutíferas com o Governo, a União Operária Nacional, revigorada pela luta operária, convocou uma greve geral solidariedade. Os trabalhadores da Carris, os condutores de trens e de caleches paralisaram os transportes. O comércio quase fechou, somente no dia 11 as lojas reabriram (excepto ourivesarias) e alguns eléctricos circularam. Dos dias 7 a 11 do mesmo mês os tipógrafos aderiram à greve e os lisboetas ficaram sem jornais, isolados,

567

Vasco Pulido Valente, A «República Velha»..., p. 106.

568

Cf. “Ecos do Congresso”. A Capital, 2-07-1917, p. 2; “No paraíso”. Ibidem., 3-07-1917, p. 2; “Uma moção curiosa”. Ibid., 4-07-1917, p. 1.

569

Douglas Douglas L. Wheeler, op. cit., p. 163.

570

“A greve da construção civil”. Ilustração Portuguesa, S. 2, n.º 596 (1917), p.67.

571

183 sem notícias do país e do mundo em guerra. O Ministério desta vez não cedeu e a UON acabou por recuar. No dia 12 de Setembro a situação tendia a normalizar-se com alguns funcionários dos correios-telégrafos a retomaram o serviço, mediante a condição do Governo libertar os colegas que se encontravam presos572. No dia 16 todos os funcionários estavam ao serviço. Porém, os prejuízos causados pelo extravio, violação e roubo de correspondência provocados por esta greve foram incomensuráveis, numa época em que as encomendas postais chegavam à capital em número crescente. O Ministério afonsista deixava transparecer a ideia de que os movimentos operários se relacionavam com os inimigos do regime; aliás, durante a guerra, segundo Alice Samara, “chegou a ser referido que os operários eram pagos com ouro alemão. De inimigos do regime, os operários passaram a traidores”573.

Neste horrendo ano de 1917, a entrada no palco de guerra, a «questão das subsistências» e o clima de revolta social e repressão governamental afastou ainda mais a população do Governo. Dos anarco-sindicalistas, passando por alguns membros do Partido Democrático, até aos monárquicos integralistas574, a oposição ao Ministério era efectiva e progressiva. O prenúncio desta falta de apoio político iria traduzir-se no resultado das eleições municipais de Novembro de 1917; em que, ao contrário do que era habitual, o partido do Poder não venceu a nível nacional.

O receio de qual seria o resultado eleitoral das eleições administrativas tinha levado o Ministério da União Sagrada (depois de as ter convocado, em Setembro de

572

“O conflito telégrafo-postal”. A Capital, 11-09-1917, pp. 1-2.

573

Maria Alice Samara, “A questão social: à espera da «Nova Aurora»”, in Fernando Rosas; Maria Fernanda Rollo (Coord.), História da Primeira República…, p. 159.

574

Integralismo Lusitano (1914-1922). Grupo constituído por jovens monárquicos, exilados depois das incursões de 1912. Em 1913 surgiu na Bélgica a revista Alma Portuguesa, a primeira a reivindicar-se deste movimento intelectual e político. A sua actividade em Portugal alargou-se depois do regresso dos exilados monárquicos, após a amnistia de 1914, lançando-se neste ano A Nação Portuguesa. Entre 1914 e 1917 o Integralismo difundiu-se rapidamente, em especial entre os estudantes universitários de Coimbra. Em 1916 fundou-se a primeira Junta Central do Integralismo Lusitano, constituída por António Sardinha, Alberto Monsaraz, Hipólito Raposo, João do Amaral, Luís de Almeida Braga, Pequito Rebelo, Rui Ulrich e Xavier Cordeiro. Alfredo Pimenta era outro dos nomes que se juntou desde o início ao Integralismo (1915). Nunca foi um movimento de massas, mas sim de elites; uma organização que uniu elementos da antiga nobreza, latifundiários e os seus filhos universitários. Os seus objectivos eram um regresso ao Portugal pré-liberal, opondo-se ao Estado moderno, advogavam o regresso ao período áureo dos descobrimentos. Em 1922 a Junta Central declarou a auto-dissolução deste movimento, porém, a sua influência perdurou durante alguns anos. Cf. António José Telo, Decadência e queda da I República…, Vol. I, pp. 52-60.

A sua proposta política era a da “monarquia orgânica, tradicionalista e antiparlamentar, articulando uma tendência centralizadora, que incidia sobre a economia, a família e a justiça, concebidas como um todo orgânico enquanto «nação organizada»”, in Miguel Dias Santos, A contra-revolução…, 2010, p. 210.