• Sonuç bulunamadı

1. BÖLÜM

8.2. Ünsüz

Na primeira votação administrativa da República a participação eleitoral em Lisboa atingiu os 31,2 por cento, menor que esta percentagem de votantes só tinha ocorrido nas eleições de 1879, com 11,9 por cento; em 1899, com 29,8 por cento e nas últimas eleições municipais monárquicas, em 1908541. A vitória do abstencionismo nas eleições suplementares foi sustentada pelo candidato evolucionista Alfredo Pimenta (1882-1950), que discorreu sobre a “aparente vitória do governo” que radicava na abstenção, destacando as suas causas: “O descontentamento geral, a falta de confiança na política e nos políticos, o reconhecimento da inutilidade de quaisquer esforços, e, acima de tudo, a intimidação exercida pelos agentes governamentais”542. Era nos constrangimentos democráticos – ameaça de opositores nas ruas e/ou em reuniões políticas e a censura jornalística – que a oposição radicava o incremento da abstenção eleitoral, mormente na capital543.

O PRP também tinha sido acusado de ter controlado as eleições gerais parciais de 1913. Contudo, é necessário considerar, como sugeriu Douglas Wheeler, que esta vitória radicou em três razões inatas: a sua maior e mais eficaz organização política; as revoltas monárquicas de Outubro desse ano tinham-lhe granjeado mais simpatizantes; e, o eleitorado português tinha por hábito votar no partido que ocupava o Poder, porque este representava empregos e compadrio544.

540 “As eleições de ontem”. República, 1-12-1913, p. 1.

541 Cf. Portugal.MF.DGE, Censo eleitoral da cidade de Lisboa…, p. 49 e 57. 542

“As últimas eleições”. República, 25-11-1913, p. 1.

543

Cf. Machado Santos, A ordem pública..., p. 35; “Realizam-se ontem em Lisboa e na província as eleições suplementares...”. República, 17-11-1913, p. 1.

544 Douglas L. Wheeler, História política de Portugal (1910-1926), [ed. inglesa 1978], 2.ª ed., Lisboa,

176

Além disso, a nível nacional a organização partidária dos evolucionistas era débil, mesmo quando viveram o seu período mais forte, em 1914-1915, conseguiram apenas ter seis juntas distritais, e num único distrito (Viana do Castelo) possuíam juntas municipais em todos concelhos. No distrito de Lisboa, em 1914, tinham nove juntas municipais (37,5%), entre estas figurava a da capital, onde também quase conseguiam o pleno com 41 em 42 juntas paroquiais (97,6%)545. Quanto ao Partido Unionista no seu apogeu teria tido 4.000 a 5.000 militantes, era constituído em parte por um grupo da elite da classe média e da classe alta, entre os oficiais e o funcionalismo público546; possuía também uma base de apoio no Alentejo, espaço dos grandes proprietários rurais, donde era natural Brito Camacho.

Os partidos da oposição republicana não possuíam uma implantação eleitoral forte a nível regional e local. A comprová-lo o facto de nas eleições municipais de 1913 os democráticos terem assegurado, logo à partida, a vitória em 70 concelhos, porque foram os únicos que neles apresentaram listas547. Ainda na véspera do escrutínio A

Capital discorria sobre a força insignificante da oposição contra a hegemonia dos

democráticos; que ficava atestada no facto do PRP apresentar as suas listas, sozinho, em 193 concelhos, ao passo que os evolucionistas apresentaram-se sós, em 29, e os unionistas em 12 municípios. Os dois coligados, em 6. Os evolucionistas, unionistas e socialistas unidos, em 3. Os evolucionistas com os socialistas, em 1. Os evolucionistas associados com os unionistas e monárquicos, em 41. Os socialistas sozinhos, em 4. Os monárquicos sós, em 10 concelhos. Os evolucionistas em conjunção com monárquicos, em 10, e os unionistas com idêntico acordo, em 3. Apareceram listas de independentes em 20 concelhos.

Somente em 47 municípios, os partidos evolucionista e unionista, sozinhos ou coligados, conseguiram apresentar uma lista da oposição contra o PRP. De realçar o surgimento de listas retintamente monárquicas em 10 concelhos, e mais 20 de independentes que, para este diário da noite, eram monárquicos que ainda hesitavam em apresentar-se “de fronte descoberta”. Em face desta situação considerava-se urgente a organização dos partidos da oposição, através do robustecimento das relações

545 Por exemplo, no concelho do Porto só detinham quatro juntas paroquiais (26,6%). Cf. Fernando Farelo

Lopes, “Partidos e representação política no período liberal em Portugal”, in Portugal.AR/BNP,

Respublica: cidadania…, p. 266; Fernando Farelo Lopes, A I República portuguesa..., p. 465 [Quadro

12].

546 Douglas L. Wheeler, op. cit., p. 174. 547

177 partidárias, da congregação de princípios e esforços para criar “não a aparência de uma força, mas uma força real que é absolutamente indispensável ao equilíbrio do regime”548.

Não é assim surpreendente que nas eleições administrativas o Partido Democrático tenha conquistado a maioria em 204 (70,1%) dos 291 concelhos de Portugal (metrópole); quanto aos restantes concelhos 57 (19,6%) foram entregues aos evolucionistas e unionistas e 30 (10,3%) ficaram nas mãos das listas de concentração

ou neutras, a maioria listas republicanas, sendo raríssimas as monárquicas que, por

exemplo, venceram em Barcelos. Das 21 capitais de distrito do continente os democráticos venceram em 19 (90,5%), somente Coimbra e Vila Real549 ficariam nas mãos da oposição550.

Em Lisboa como vimos a vitória dos democráticos nas eleições locais foi estrondosa e expectável face aos resultados do sufrágio dos deputados. Os grandes derrotados foram os evolucionistas, não por terem conquistado a minoria, mas por não a conquistarem sozinhos, redundando num erro estratégico a sua coligação com os unionistas e com independentes. A aliança entre o PRE e a UR nunca poderia suplantar a votação do PRP que ficaria com a maioria; assim sendo os evolucionistas que eram a segunda força partidária na capital (e a nível nacional) tinham assegurada a eleição dos catorze edis da minoria. Só o desconhecimento do mecanismo do sistema eleitoral (ou a incúria) poderia ter levado o Directório evolucionista a sancionar a lista de coligação, que resultaria na eleição de cinco vereadores evolucionistas, o mesmo número de unionistas, mais os quatro independentes. Sabemos que este acordo de conjunção foi efectuado antes de se saber o resultado das eleições de deputados, todavia, depois de conhecido este sufrágio os evolucionistas deveriam ter apresentado uma lista com

548 “A situação dos partidos”. A Capital, 29-11-1913, p. 1.

549 Em Vila Real, nas eleições administrativas a vitória eleitoral coube à Lista Neutra (evolucionistas,

unionistas e independentes) com 1.333 votos contra 1.023 da Lista Democrática. Cf. Joaquim Ribeiro Alves, “A República em Vila Real (III)”, pp. 262-263.

Ao inverso, em Anadia os democráticos venceram com uma maioria de 140 votos contra a Lista monárquica. Ver Nuno Rosmaninho, Anadia durante a Primeira República..., p. 48.

550

Veja-se “A propósito das eleições realizadas em 1913”. Boletim do Partido Republicano Português, n.º 2 (1915), pp. 416-419 e 440.

O concelho de Sintra foi um dos que o PRP conquistou a maioria, feito que repetiria em todos os actos eleitorais, excepto nas eleições municipais de 1922. Cf. Maria Cândida Proença, Eleições municipais..., pp. 42-52.

178

catorze candidatos (e não quarenta), dos quais a maioria fossem do seu partido, cedendo alguns lugares aos unionistas e independentes551.

Relativamente ao PS já verificámos que apesar de não ter conseguido a minoria municipal a sua votação aumentou consideravelmente em Lisboa, assim como a nível nacional em que os resultados alcançados nas eleições administrativas foram muito melhores do que os conquistados nas eleições de deputados, obtendo o seguinte escrutínio: juntas distritais - 1.224 votos, 2 eleitos efectivos e 23 substitutos; câmaras municipais - 3.021 votos, 33 efectivos e 50 substitutos; juntas de freguesias - 22 efectivos552; a este aumento de votos não terá sido alheia a eleição de deputados e senadores socialistas.

A Comissão Administrativa de 1913, composta por apoiantes do Partido Democrático não só superintendeu as eleições administrativas de Lisboa deste ano, como a maioria dos seus membros foram candidatos eleitos, pela maioria, na vereação que lhe sucedeu na gerência dos destinos camarários. A Lista do PRP também venceu a eleição para a Junta Geral de Distrito na capital ficando a minoria pertença da Lista Neutra. No que concerne as eleições para as juntas paroquiais de 14 de Dezembro de 1913, o nível de abstenção foi mais elevado situando-se nos 73,5 por cento553. A vitória, mais uma vez, pertenceu ao PRP, conquistando nalgumas freguesias a maioria e a minoria, através do desdobramento e noutros casos porque não houve oposição554. A hegemonia incontestável deste partido, a partir das eleições de deputados e locais de 1913, tornar-se-ia numa verdadeira «ditadura de partido»555 para o campo político da oposição.

551

Em 1915 Leão Azedo defendeu que esta era a estratégia que o PRE deveria ter seguido; e também sustentou que o PRP deveria ter desdobrado parcialmente, para “arrancar 3 ou 4 vereadores” à minoria. Este autor indica erroneamente que foram eleitos dois vereadores unionistas. Cf. Leão Azedo, op. cit., pp. 26 e 118.

552

César Nogueira, Notas para a história do socialismo..., p. 112.

553 Portugal.MF.DGE, Censo eleitoral da cidade de Lisboa…,p. 81.

554 Ver “As eleições de ontem: novas juntas de paróquia”. O Mundo, 15-12-1913, pp. 1-2. 555

179

CAPÍTULO IV