• Sonuç bulunamadı

2. ARSA VE ARAZİ DÜZENLEMESİ

2.13. İmar Parsellerinin Oluşturulması Ve Dağıtım Esasları

2.13.3. İmar Uygulaması Sırasında Aynı Yerden İmar Parsel Verilmesin

2.13.3.2. Teknik Zorunluluk

No Capítulo 2 mencionei o Programa Profavela, seu surgimento e trajetória, abordando principalmente os aspectos quantitativos do programa. Ressaltei também que o programa foi extinto e que suas atribuições hoje são parte de diversos programas de regularização, entre os quais o Vila Viva, o “maior programa de urbanização de favelas de Belo Horizonte”, como diz o slogan da administração municipal. Na realidade, o Vila Viva é também o único programa, não apenas de urbanização, mas também de remoção massiva de famílias para a urbanização.

Não existem dados precisos sobre o mercado informal de terras e habitação em Belo Horizonte. Se quiséssemos saber quantas famílias saíram de favelas belo-horizontinas entre as décadas de 1980 e 2010, teríamos que nos apoiar em pesquisas de campo, baseadas em amostras. De fato, a regularização prometida pelo Profavela há mais de vinte anos – posse individual e irrestrita pela titulação – permanece como carro-chefe do Programa Vila Viva e consta nas diretrizes de vários PGEs. É sabido que o pioneirismo do qual a gestão belo- horizontina se orgulha tem sido posto em cheque constantemente por Movimentos Populares, juristas, arquitetos e parte da sociedade civil belo-horizontina. Os programas de regularização mantêm a postura de impor uma solução única: desapropriar, despejar ou regularizar com a emissão de títulos.

Embora este item seja sobre regularização fundiária, grande parte da discussão está centrada no que antecede a suposta regularização: as desapropriações, as remoções, os despejos, as formas de reassentamento e os instrumentos jurídicos propostos nos PGEs. O Vila Viva têm apenas cinco anos (se considerarmos as obras no Aglomerado da Serra como marco inicial). Portanto, pode-se dizer muito pouco sobre os resultados das regularizações fundiárias feitas até o momento. No entanto, várias vilas estão em processo de “urbanização”, entre elas, a Vila Antena, localizada no Morro das Pedras, a partir da qual faremos esta analise.

A regularização fundiária é um dos três pontos prioritários dos Planos Globais Específicos, junto às intervenções físicas (infra-estrutura e melhorias urbanas) e sociais (geração

121 de emprego e renda, cursos profissionalizantes, entre outros). Uma das premissas inseridas em todos os PGEs é “regular os processos de urbanização e de regularização fundiária das Zonas de Especial Interesse Social” (Lei 8137/2000).

Quantitativamente, o caso do Morro das Pedras merece atenção especial, já que milhares de famílias foram e estão sendo removidas para dar lugar às obras do Vila Viva – Morro das Pedras. De um total de 5048 famílias, estima-se que 1425 sejam removidas, ou seja, 28% dos moradores do aglomerado sairão de suas casas para que se faça a reestruturação urbana. O quadro de remoções apresentado no segundo capitulo evidencia que o maior número de remoções ocorrerá em razão da reestruturação viária e da existência de habitações em áreas consideradas de risco geológico. Em relação a esse alto número de remoções cabe pelo menos duas perguntas: a reestruturação viária seria de fato imprescindível? As habitações em áreas de risco geológico seriam tratadas da mesma forma se pertencessem à cidade formal? Parte dos moradores faz essas duas perguntas, colocando em dúvida as boas intenções das quais o PGE e o Vila Viva se revestem.

No final de 2009 vários movimentos populares assinaram o “Manifesto Vila Morta”, contestando a forma como o processo de remoção, reassentamento e indenização vem ocorrendo nas intervenções do Vila Viva. Um dos aspectos criticados pelos manifesto é o fato de que os recursos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) estão contemplando principalmente favelas consolidadas e centrais, que não correspondem às áreas de maior precariedade, mas sim às de maior valorização imobiliária; o que, ao contrário do que pregam os PGEs e a política municipal, corresponde mais a interesses especulativos do que aos interesses da população em geral. Milhares de famílias vêm sendo removidas para dar lugar às obras estruturais sem que haja indenização prévia e justa; o processo de remoção ocorre sem diálogo entre as partes; pichações e demolições parciais são feitas nas residências; e parte das famílias sofre pressão para aceitar acordos que as indenizam apenas pelas benfeitorias, desconsiderando a posse da terra. Segundo Fernandes (2009), a Procuradoria do Município se

122 baseia no pressuposto do antigo Código Civil, utilizando o argumento moral de que aqueles que se apropriam de áreas públicas estão usando de má-fé e, portanto, não devem ser indenizados.

Já os movimentos sociais e a Defensoria Pública têm argumentado, com base no princípio constitucional da função ambiental da propriedade e da gestão democrática da cidade, que o programa Vila Viva deve adotar instrumentos em acordo com o Estatuto da Cidade e a Medida Provisória número 2.220/2001: “os moradores desses assentamentos têm direitos subjetivos à regularização fundiária, direitos esses que podem ser reivindicados judicialmente e mesmo opostos à vontade do Poder Público” (Fernandes, 2009, p.04). Fernandes (2009) compreende que o Código Civil Brasileiro, utilizado na argumentação da PBH, propõe uma leitura tendenciosa, com enfoque civilista e fora de contexto, sendo uma “manobra jurídica rasteira”. O autor prossegue a argumentação exemplificando a discrepância entre a indenização proposta pela Prefeitura e o valor estimado do metro quadrado em algumas regiões de Belo Horizonte. Em trechos do Manifesto Vila Morta há inclusive referências à Vila Antena: enquanto a PBH estima o valor das indenizações na Vila em R$ 107,00 por metro quadrado, a poucos metros dali, na Avenida Raja Gabaglia, o valor mínimo estimado do metro quadrado é de R$ 2.000,00. Uma entrevista com um filho de antigos moradores da Vila Antena, também integrante do Grupo de Referência Local (ou Conselho de Moradores), permite constatar como as ações da prefeitura são percebidas pela população local:

Ela [a PBH] chegou aqui no inicio de 2009, com uma abordagem assustadora, através de coação, marcou as casas, marcou as casas de vermelho e, intimidando as famílias que assinassem o acordo. Quem não assinasse o acordo, entre áspas acordo, porque acordo tem que ser entre duas partes... E a partir do momento que esse acordo está imposto só por uma parte não precisa da outra parte, então ela impôs isso e as pessoas temendo aquela antiga forma de desapropriação ou você aceita, ou vai pra justiça e perde e aí vem caminhão, polícia, arromba a porta da sua casa...Põe seus móveis num caminhão e te leva pra um abrigo. Tal abrigo, se fosse tão bom as pessoas não temiam. E essa ameaça levou muitas famílias aqui a entregarem as suas casas, tendo perdas assim de cinco, dez, quinze, vinte, trinta, quarenta mil reais... Pra você ter uma noção, esses valores são valores que pra classe A são interessantíssimos, quanto mais pra uma pessoa que passa a vida toda trabalhando pra ter a sua casa... E na maioria das vezes já aposentada tem uma perda tão grande, de uma instituição que foi posta na vida do cidadão... A prefeitura, o Estado pra facilitar a vida do cidadão e a ai vem com uma postura dessa. Impor, intimidar, coagir e induzir você a fazer isso, né. (Gilberto F.G, dezembro de 2009).

123 Parte da população, principalmente a que está engajada no Conselho de Moradores da Vila Antena, reconhece na postura dos técnicos da URBEL e demais agentes da prefeitura ações que não correspondem aos “interesses da comunidade”. Essa expressão – “interesses da comunidade” – não significa, obviamente, que haja uma comunidade coesa cujos interesses sejam sempre comuns. Qualquer intervenção atende melhor a alguns grupos do que a outros. Também é evidente que sempre existem interesses e posturas díspares entre moradores de favelas, órgãos públicos municipais e demais setores envolvidos num processo de urbanização. Mas a expressão “interesses da comunidade”, tal como comparece na fala dos moradores, sintetiza a premissa básica do direito de permanência para todos e do direito à regularização e à urbanização por meio de processos efetivamente democráticos e não-excludentes. Nesse sentido, o depoimento acima transcrito se alinha com as críticas de Fernandes (2009) e também com as reivindicações do manifesto lançado em 2009, as Notas Taquigráficas e o processo da Defensoria Pública. A importância do relato é identificar como as obras estruturantes de grande impacto físico, social e econômico são apreendidas na escala local e alteram a vida dos moradores.

No caso da Vila Antena, o conflito se agrava pelo fato de a área ter passado por um processo de regularização na década de 1980, com o programa Profavela. Segundo o PGE– Morro das Pedras, nessa época “foram elaborados e aprovados os parcelamentos que deram origem às Vilas Santa Sofia, São Jorge I, II, III e Antena. (PGE Morro das Pedras, Volume Completo, 2004, p.73). Além disso, parte da população local alega que a área não é de propriedade do Município, mas sim do Estado. Já segundo a PBH, existem áreas públicas municipais e áreas de propriedade particular na Vila Antena. Áreas públicas podem ser desapropriadas sem indenização dos terrenos, e áreas privadas devem ser negociadas: essa é uma das condições que tem permitido a vários moradores resistir ao assédio dos técnicos. De fato, se uma área é pública, seja do Município ou do Estado, uma das soluções é estabelecer a Concessão Real do Direito de Uso, já que o usucapião não se aplica. Conquanto, atualmente a

124 prefeitura têm preferido as desapropriações e remoções, em diversos casos, de maneira litigiosa.

A maneira como as remoções e reassentamentos são executadas pelo Vila Viva se estende também ao conflito fundiário enfrentando pelos ocupantes de várias outras áreas em Belo Horizonte. Casos como as ocupações Camilo Torres, Dandara, Irmã Dorothy I e Irmã Dorothy II comprovam que o embate entre Prefeitura e Defensoria Pública acontece seguindo um padrão: a Prefeitura move ações de despejo contra os moradores, enquanto a Defensoria procura impetrar ações que protelem a estadia dos moradores nessas áreas. Mesmo em casos de terrenos abandonados há décadas ou que tenham contraído grande dívida com o poder público, a gestão municipal tem sido irredutível quanto à recusa de uma negociação em favor da permanência dos ocupantes.

Essa presença da Defensoria Pública nos conflitos em ocupações e junto aos grupos de resistência às remoções do programa Vila Viva tem sido fundamental. Embora existam mobilizações e pressão sobre os governantes por parte da população, conquistas efetivas são possíveis somente pelas ações jurídicas. No caso da Vila Antena, essa via possibilitou a algumas famílias a obtenção valores de indenização mais justos, enquanto outras famílias permaneceram na vila porque houve uma mediação de juristas frente aos técnicos da prefeitura para que o projeto fosse alterado e o direito a permanência fosse garantido.

Nas Notas Taquigráficas (2009), um integrante da Defensoria Pública depõe sobre as condições de indenização na Pedreira Prado Lopes, favela na qual também acontece o Programa Vila Viva:

Estávamos hoje na Pedreira Prado Lopes. Vimos de tudo lá em cima. Ninguém estava mentindo; ninguém está recebendo indenização justa nem prévia - aliás, ninguém não, mas pelo menos os que procuraram a Defensoria Pública. Então deve ter algo errado. Muitas pessoas aqui estão reclamando, todavia o representante da Prefeitura diz que é o melhor projeto do mundo e que está respeitando as favelas. O que nunca foi discutido? A alma da favela. (- Manifestação nas galerias.) Estão acabando com o patrimônio e querendo fazer verticalização onde a maioria não quer. Normalmente o que está acontecendo no Vila Viva é que o dinheiro do chão vale mais, como, por exemplo, na Pedreira, no Aglomerado, e tudo mais. Foi dito pela própria Prefeitura que, depois, haverá regularização fundiária. Isso é um absurdo. Realmente essa questão ou não do êxodo rural... Pessoas foram criadas, moram ou moraram e já têm

125

netos na favela. Dar um preço justo ao chão e à regularização fundiária seria o mais normal, sagrado, digno e uma questão de cidadania, pois as pessoas criaram a favela. A Pedreira Prado Lopes foi uma das que construiu a cidade de Belo Horizonte (...). Pelos depoimentos, os moradores estão sendo arrancados da Pedreira Prado Lopes, que é uma das favelas que ergueu BH. Essa é a palavra. Quando não se respeita o Direito Constitucional, qualquer adjetivo serve. Na verdade, eles estão sendo arrancados.

Na Pedreira Prado Lopes, tive hoje o desprazer de conhecer um cidadão que trabalha para a Prefeitura e que me disse uma pérola. Se eu não conhecesse nada de Direito Constitucional, como infelizmente a maioria das pessoas não conhece, até poderia acreditar: disse que é melhor a pessoa receber o dinheiro da Prefeitura, porque, se entrar na Justiça, diminui e, se tiver que contratar advogado, diminui mais ainda. Repito: quem me disse isso foi alguém da Prefeitura. (- Manifestação nas galerias.) Esse cidadão se esqueceu de que existe Defensoria Pública. (Notas Taquigráficas [relato do Defensor Público Hélio da Gama e Silva], 2009, p.48-49)

Moradores da várias vilas reforçam nas Notas Taquigráficas o argumento da Defensoria, e esclarecem que há mecanismos de desapropriação nos quais a família sequer recebe informações sobre como serão as remoções e a indenização, sendo obrigada a deixar o imóvel de maneira litigiosa e sem uma indenização prévia que possibilite encontrar uma nova moradia:

Existe hoje uma desapropriação compulsória - e isso é um perigo -, publicada no “Diário Oficial do Município” e declarada de utilidade pública, e, quando o morador assusta, estão na sua porta o Oficial de Justiça e a Polícia Militar, para tirar vocês contra a força de uma resistência. Então devemos tomar cuidado. Outro ponto é a questão da desocupação. O morador opta pela indenização, que tem um critério: recebe a indenização somente quando mudar. Mas, para mudar, a pessoa deve ter dinheiro para comprar outro imóvel. Isso deve ser revisto. (Notas Taquigráficas [relato do Sr. Jairo Nascimento Moreira] 2009, p.71)

Outras passagens das Notas Taquigráficas poderiam ser incorporadas a este texto: não há só críticas negativas ao Vila Viva, há também relatos positivos sobre as habitações e melhorias nas vilas. No entanto, a crítica à regularização fundiária é fundamentalmente negativa e demonstra a indignação da maioria ao ser usurpada do direito à permanência e em seguida do direito a uma indenização justa e prévia.

Apesar dos marcos jurídico-urbanísticos fornecerem instrumentos para uma política urbana pautada em pressupostos igualitários, os programas e instrumentos adotados em Belo Horizonte ainda não têm dado a devida atenção a essas possibilidades. Ressalto aqui a forma

126 como remoções e reassentamentos são feitos, produzindo uma regularização fundiária que não atenta ao peso das titulações dentro da dinâmica imobiliária e nem sequer concede à população o direito de receber por um bem que lhe pertence. Tudo isso ocorre à revelia dos instrumentos jurídicos que permitiriam regularizar a posse e negociar um valor justo antes de se desapropriar e despejar milhares de famílias. A população que deveria ser beneficiada, moradores de vilas e favelas, está em muitos casos subjugada pela implantação de obras estruturantes de grande porte, gerando um prejuízo econômico e social enorme para os supostos beneficiados.

Nas várias vezes em que perguntei a moradores da Vila Antena sobre o destino de vizinhos removidos tive como resposta outros municípios da Região Metropolitana de Belo Horizonte: Ibirité, Igarapé, Betim, Ribeirão das Neves e outras localidades que, em relação à região Oeste da capital, se caracterizam como periferias das periferias. Também não são poucos os relatos sobre moradores removidos que “entraram em depressão” ou que “ainda não se acostumaram à nova vida” e se entristecem quando reencontram os antigos vizinhos.

Figuras 32 e 33: Algumas casas da Vila Antena foram demolidas apenas parcialmente. Na segunda imagem é possível ver a marcação numérica em vermelho, que define as casas a serem demolidas. Fonte: Grupo MOM

As atas do processo participativo do PGE – Morro das Pedras não mencionam em nenhum momento quais famílias serão removidas e em virtude de quais obras especificamente, assim como não houve uma discussão com os moradores para saber quais famílias desejavam se mudar e quais gostariam de permanecer em suas casas. Ora, presenciando uma das reuniões entre moradores da Vila Antena e técnicos da URBEL, em agosto de 2009, pude observar que, anos após a finalização do PGE, nem mesmo os membros do Conselho de Moradores haviam

127 tido acesso ao projeto executivo das intervenções. Nenhum morador presente sabia se sua casa seria removida ou não; razão pela qual grande parte demonstrava enorme descontentamento na ocasião. Consta no PGE – Morro das Pedras que as famílias relocadas em razão da abertura de vias devem ter assegurada moradia dentro da própria Vila, preferencialmente próxima ao local de origem. Bem, para aqueles que querem permanecer na região, a única opção é aceitar um dos apartamentos construídos pela Urbel, afinal, as indenizações não são suficientes para comprar um terreno ou uma casa próximos ao Morro das Pedras.

3.5 Pela função social da propriedade ou uma política urbana a La Hernando de