2. ARSA VE ARAZİ DÜZENLEMESİ
2.6. Türkiye’de İmar Planı Uygulama Araçları
2.7.2. AAD’nin Mülkiyet Hakkı İle İlişkisi
Nesse tópico, abordo a metodologia do PGE, alguns aspectos de sua elaboração, da execução dos planos e inicio uma análise crítica a respeito do tema. Como introdução ao objeto de estudo, uma das referências adotadas é o PGE Morro das Pedras que, consequentemente, discute sobre a Antena, uma das vilas do Morro. Durante a pesquisa, fiz a leitura de alguns Planos Globais Específicos, entre eles o do Aglomerado da Serra, da Vila Acaba Mundo e do
60 Morro das Pedras45. Inicialmente, considerava o PGE um documento puramente técnico, no qual
a empresa contratada pela URBEL se concentraria em levantar dados, diagnosticar problemas e propor soluções projetuais. De fato, essa é a ordem dos acontecimentos, mas apenas a primeira etapa é essencialmente técnica.
A elaboração do PGE se divide basicamente em três etapas: levantamento de dados, diagnóstico da situação sócio-organizativa, físico-ambiental e jurídico-legal e, por último, a fase propositiva, na qual são elaborados projetos genéricos de intervenção física, jurídica e social.
A primeira etapa ocorre com o levantamento dos dados sócio-econômicos, jurídicos e sociais; elaborada por um corpo técnico multidisciplinar, do qual participam arquitetos, engenheiros, assistentes sociais, geólogos, sociólogos, advogados, entre outros profissionais. Os dados sócio-econômicos envolvem pesquisas amostrais com a população local, definição do nível de renda, escolaridade e outras informações que definam a população das vilas em estratos, além da coleta e tratamento de dados produzidos pelo IBGE e outras fontes. O mapeamento jurídico analisa a situação fundiária dos loteamentos, a partir de dados cartorários, levantamento da documentação de posse dos moradores in loco e pesquisas na própria prefeitura. Quanto à análise social, seu papel é mapear a existência de organizações não-governamentais (ONGs), associações, cooperativas, lideranças nas vilas e registrar como esses agentes atuam no desenvolvimento local, para, posteriormente, propor melhorias na atuação desses grupos. Por exemplo, no Aglomerado da Serra foi mapeada a existência de uma cooperativa de costureiras; como forma de incentivo, na etapa de proposições, o PGE previu a contratação dessa mão-de-obra para confecção dos uniformes dos trabalhadores das obras do Vila Viva.
Na segunda etapa é elaborado o diagnóstico da situação físico-ambiental, jurídico- fundiária e social, os dados técnicos coletados na primeira etapa embasam a determinação dos problemas existentes em cada vila, seja em relação à precariedade habitacional, falta de infra-
45 Durante esta pesquisa entrei em contanto com a URBEL (Companhia Urbanizadora de Belo Horizonte) para ter acesso aos outros PGEs elaborados. No entanto, após uma série de idas e vindas, incluindo cartas de apresentação da universidade, obtive como resposta que não poderia acessar nenhum PGE ou gravar qualquer arquivo. Embora as informações sejam públicas, há uma restrição clara ao acesso, sempre com o argumento de que é preciso ter “cuidado com esse trabalho”, “os PGEs estão disponíveis para as comunidades” ou “estarão disponíveis em breve no site”. Na prática, há uma grande burocratização e inacessibilidade a dados que são de direito público, garantidos inclusive pela Constituição Brasileira.
61 estrutura, irregularidade fundiária, risco geológico, entre outras questões. Esses dados comparecem em mapas, tabelas, e são também explicitados em textos.
Em nenhum momento do levantamento ou do diagnóstico comparece a voz dos moradores. Figurantes do processo, sobressaem apenas como dados quantitativos ou nas raras ocasiões em que o grupo de referência é mencionado. O levantamento e o diagnóstico feitos pelos técnicos partem do pressuposto de que existe uma série de problemas na favela e, grande parte pode ser solucionada com reparos urbanísticos, sociais e jurídicos que elevem as vilas à formalidade.
A terceira etapa do plano, chamada de Propostas e Hierarquização, parte das análises apontadas no levantamento e no diagnóstico para apontar soluções às questões anteriormente colocadas. Os PGEs de diferentes vilas variam na organização das etapas, incluindo as propostas, afinal, são confeccionados por empresas diferentes; conquanto, a metodologia e a estrutura definidas pela Urbel se mantém. Em geral, as proposições são acerca da reestruturação pela qual as vilas devem passar, e englobam planos de reestruturação viária, habitacional, drenagem, distribuição de energia e água, sistema de esgoto, coleta de lixo, regularização fundiária, controle de risco geológico e ação social (Tonucci & Ávila, 2010). As propostas de intervenção são representadas por textos explicativos, mapas específicos para cada tipo de intervenção e tabelas com dados quantitativos e especificações do padrão de vias, materiais e outros aspectos pormenorizados, relacionados a cada plano.
A elaboração dos planos é coordenada pelo poder executivo, aprovada pelo Conselho Municipal de Habitação (CMH) e analisada pelo Conselho Municipal de Política Urbana (COMPUR). Embora as proposições abordem também ações sociais, as principais obras previstas nos PGEs e executadas pelo Vila Viva são de infra-estrutura: saneamento básico, remoção de famílias, construção de unidades habitacionais, erradicação de áreas de risco, reestruturação do sistema viário, urbanização de becos, e implantação de parques e equipamentos para a prática de esportes e lazer; leia-se quadras poliesportivas ou espaços de “lazer ativo”, que significa áreas de não permanência também (Tonucci & Ávila, 2001). Apenas após o término da urbanização ocorre a legalização da área com a emissão dos títulos de propriedade aos
62 ocupantes. Por ora, os programas não chegam a essa fase, e os títulos permanecem como promessas.
O PGE não funciona apenas como diretriz projetual. São também objetivos essenciais a captação de recursos municipais, estaduais, federais e internacionais, bem como a licitação das obras. Ter um plano em mãos é uma premissa legal e não apenas uma necessidade executiva técnica e projetual. O plano legitima intenções e abre portas para captação de parceiros e recursos públicos. Independentemente do seu conteúdo, há a importância de um documento que legitime investimentos, expediente incontornável na burocracia pública.
Outra utilidade similar dos Planos Globais é a captação de verbas também nos Orçamentos Participativos (OPs)46. A comunidade disposta a disputar alguma obra no OP pode fazê-lo propondo a execução de projetos priorizados no PGE47. Contudo, alguns entraves surgem nesse momento: grande parte das comunidades não tem acesso ao PGE porque os documentos permanecem em poder da URBEL para consultas eventuais. Além disso, os PGEs têm um conteúdo bastante extenso e uma linguagem técnica cuja leitura exige tempo, dedicação e capacidade de decodificação, o que não está ao alcance da maioria das pessoas supostamente interessadas nos relatórios técnicos.
Portanto, os PGEs atendem a uma demanda técnica, enquanto instrumento que prevê, de maneira genérica, as diretrizes projetuais e principais obras que poderão ser executadas pelos programas de intervenção e, dado seu caráter participativo, serve também como documentação que impõe à população, democraticamente, sua legitimidade.
No Morro das Pedras, a equipe da URBEL, Casa do Movimento Popular e ORBIS48
afirmam ter feito vistorias in loco com a participação do GR, além de consultar algumas lideranças da região. No entanto, as propostas de intervenção foram elaboradas e discutidas no escritório da URBEL com participação apenas dos técnicos da ORBIS. Durante alguns trechos da
46 O Orçamento Participativo começa em BH no ano de 1993, durante a gestão Patrus Ananias, pela “Frente Popular”, as inspirações são experiências no Vale do Aço e Porto Alegre. O objetivo central foi pulverizar obras menores e promover a participação popular através da co-gestão. Em 10 anos houve um Investimentos médio de 50 milhões por ano. (AZEVEDO & FERNANDES, 2005)
47 Os Planos Globais Específicos são elaborados com recursos do Orçamento Participativo da Habitação. 54 PGEs já foram concluídos, 5 estão em execução e mais 7 estão previstos.
48 O PGE Morro das Pedras foi elaborado por duas empresas, em momentos distintos. O Movimento da Casa Popular foi contratada para elaborar o plano, mas após alguns conflitos foi substituída pela ORBIS que, finalizou a execução do plano, considerando parcialmente os estudos já elaborados pelo Movimento da Casa Popular.
63 leitura desse PGE, especificamente, tem-se a impressão de que a população esteve envolvida no processo decisório, mas o próprio texto a desfaz, ao indicar que a elaboração do projeto esteve restrita aos técnicos:
As propostas foram elaboradas e discutidas em reuniões na SMAHAB/URBEL com a participação dos técnicos de arquitetura e urbanismo, sociologia e saneamento da ORBIS e da Prefeitura após a leitura e análise do Levantamento de Dados, Diagnóstico e Propostas preliminares elaborados pela Casa do Movimento Popular. Foram também realizadas vistorias ao aglomerado para complementação do conhecimento. Durante as visitas, as equipes puderam aprofundar o conhecimento da área e discutir em campo possíveis soluções de maneira integrada. (PGE Morro das Pedras, Vol. 1 de 3. Proposta Texto, 2004, p. 06)
Os dados quantitativos e o parecer de técnicos de várias disciplinas são suficientes para legitimar uma análise metódica dos problemas apontados pelo diagnóstico integrado (feito pelos mesmos técnicos), bem como as soluções propostas num terceiro momento. Embora os saberes sejam fragmentados, o discurso sobre integração e totalidade é recorrentemente apresentado. Como recorda Lefebvre (1999), a técnica invoca a síntese e a totalidade no planejamento moderno; é papel dos técnicos apontar todos os problemas e propor soluções que parecem se encaixar perfeitamente, integradoras, totalizantes e racionais, portanto, legítimas49. Levantamento- diagnóstico- solução parece uma sequência de encaixe perfeito,
exceto por um detalhe: a realidade concreta e cotidiana que tentam definir não é um objeto. O espaço é um meio. Não há globalidade social ou espacial, mas relações entre pessoas e grupos que compõem a sociedade e ocupam esse espaço, numa pseudo “comunidade”, termo constantemente evocado. Argumento relevante, ao nos recordarmos que a massificação feita pelos projetos de intervenção urbana não é apenas em relação ao espaço, mas também às pessoas: comunidade, bairro, “os moradores do Morro das Pedras”. De fato, eles só existem como abstração. Tanto no discurso dos técnicos, quanto nos discursos do Grupo de Referência e do Conselho de Moradores, a massificação é construída para reforçar uma coletividade inexistente na prática. Afinal, os moradores de uma favela são formados por grupos bastante heterogêneos, cujos interesses e anseios giram em órbitas distintas. O fato de residirem no
49 Para Lefebvre, a solução adotada pelo urbanismo é fruto de uma prática comum no meio industrial, que adquire um alto grau de coerência e eficácia, transportada para os técnicos do urbanismo, que seguem a mesma lógica, adotando pesquisas interdisciplinares analíticas, evitando imprudências no caminho da síntese. (LEFEBVRE, 1969, p.62)
64 mesmo espaço geográfico não caracteriza uma comunidade, mas colabora para a construção de falsos consensos, ratificados nas propostas de intervenção supostamente integradoras.
De acordo com Lefebvre (1969, 1999a, 1999b), é necessário observar que as demandas encontradas no espaço dito urbano ultrapassam as possibilidades de solução colocadas pelo conhecimento especializado, fragmentado:
Desses conhecimentos fragmentários (especializados), sabemos que tendem ao global, que a eles aspiram abusivamente e que engendram práticas parciais, as quais também pretendem ser globais (por exemplo, o urbanismo viário e de circulação). Ora, tais conhecimentos fragmentários resultam da divisão social do trabalho. No domínio teórico (científico e ideológico), a divisão do trabalho tem as mesmas funções e níveis que na sociedade. (LEFEBVRE, 1999a, p.63)
Todo discurso do urbanismo tecnocrático tende a colocar os técnicos como médicos do espaço urbano. Essa analogia não é nova, e Lefebvre não é o único a mencioná-la; os técnicos separam o urbano da prática social, de sua base morfológica, gerando uma correspondência imediata entre significante-significado. O urbanismo e, por consequência, o racionalismo pretendem reinstaurar a coerência no “caos”, com apoio da ideologia do desenvolvimento. Construir milhares de habitações e empregar a população local, gerar renda e desenvolvimento, abrir vias de trânsito que “integram” aglomerados são algumas das premissas presentes nos PGEs que, vistas mais de perto, revelam o conteúdo ideológico do discurso:
Uma abordagem tecnocrática típica preconiza o primado dos “especialistas”, pretensamente neutros e imparciais, a eles cabendo tanto a elaboração da proposta de intervenção quanto do diagnóstico que, muitas vezes, antecede a elaboração da proposta (ainda que o diagnóstico seja, frequentemente, superficial, e não considere a percepção e a vivência dos usuários no espaço.(LOPES SOUZA, 2006, p. 182)
Milhares de habitações construídas geram empregos para os moradores locais, mas certamente são mais rentáveis para as empreiteiras que as produzem com subsídios estatais. O argumento economicista, como afirma Jessé Souza (2009), adquire cada vez mais espaço na sociedade atual; é como se todos os problemas sociais e por conseguinte as soluções se baseassem no crescimento econômico, fazendo com que nos esqueçamos que há também outras formas de transferências de privilégio e manutenção da desigualdade:
Onde reside, no raciocínio acima, a “cegueira” da percepção economicista do mundo? Reside literalmente não “ver” o mais importante, que é a transferência de “valores imateriais” na reprodução das classes sociais e de seus privilégios no tempo. Reside em não perceber que, mesmo nas classes altas, que monopolizam o poder econômico,
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os filhos só terão a mesma vida privilegiada dos pais se herdarem também o “estilo de vida”, a “naturalidade” para se comportar (...)” (SOUZA, 2009, p. 19)
O economicismo se tornou uma “ideologia dominante no mundo moderno”, culminando no surgimento do homo economicus, segundo Souza (2009) “50. O crescimento econômico é tido como uma possibilidade real de diminuição das injustiças sociais, quando na realidade ele as maximiza. Ademais, como Souza enfatiza no trecho acima, é preciso atentar ao fato de que a desigualdade social têm raízes imateriais, iniciadas historicamente pelo berço ao qual a pessoa pertence e reforçada pela condição social, cultural e educacional vivenciada ao longo de sua vida.
Para os moradores, a construção de milhares de habitações, representa apenas uma melhoria temporária nos rendimentos do grupo familiar durante o período da obra, caso eles sejam empregados. Além disso, empregar a população local é um esquema de cooptação efetivo. Em diversas conversas, durante essa pesquisa de estudo de caso, ouvi de moradores da Vila Antena, no Morro das Pedras, casos de amigos que foram empregados por órgãos da prefeitura ou empreiteiras e, para não perder o trabalho, pararam de participar de movimentos de resistência; ouvi casos semelhantes no Aglomerado da Serra. É legítimo que as empresas contratem pessoas do local, há diversas vantagens nisso. Assim como é idôneo que os pais de família trabalhem em obras que acontecem à porta de suas casas, ainda que discordem da necessidade ou legitimidade do projeto. No entanto, parece não haver separação entre trabalhar para a empresa e poder reivindicar contra as intervenções. Os vínculos se entrelaçam de uma maneira que parte dos trabalhadores se vê impelida à anomia social, contradizendo o pressuposto da democracia e da liberdade de expressão.
Além das obras pontuais colocadas pelos planos, existem as obras estruturais (ou estruturantes), que são os projetos de grande porte previstos para as favelas. Em grandes aglomerados, como o Morro das Pedras e o Aglomerado da Serra, as obras estruturantes definidas são avenidas de grande porte, que cortam as respectivas áreas. Na Serra, a Avenida do
50 “A visão redutoramente econômica do mundo, que estou chamando de ‘economicismo’, não é privilégio de economistas (que
efetivamente substituíram os antigos bacharéis de direito do século 19 como ‘cientistas do poder’) e de cientistas sociais de todos os matizes em sua imensa maioria também de todas as “pessoas comuns” no sentido de ‘não-especialistas’, ou seja, das pessoas que não são ‘autorizadas’, pelo seu capital cultural e jargão técnico, a falar com autoridade sobre o mundo social. É isso que faz do economicismo a ideologia dominante do mundo moderno.” (SOUZA, 2009, p.18)
66 Cardoso já está pronta, no Morro das Pedras, parte das famílias já foi removida e as obras da Via de Ligação estão em andamento. A implantação de grandes avenidas é defendida nos PGEs como elemento para desenvolvimento da região e também como elo “integrador” das vilas.
Figura 4: Intervenção no Aglomerado da Serra, avenida do Cardoso, implantada durante o Programa Vila Viva é divisor de águas entre as vilas. Fonte: Google Earth, acesso em 30/08/2010
Quanto à abertura de vias que integrem aglomerados, cabe algumas pontuações. A primeira é que os aglomerados não são integrados, e essa não é uma exigência da população local, cujas necessidades são muito mais imediatas. Aliás, é difícil imaginar que o termo integração ou qualquer sinônimo compareça no discurso dos moradores. Cada vila, grupo de famílias e moradores tem sua dinâmica interna e se relaciona com outras vilas de diferentes maneiras. Desfazer essa lógica é impor algo que os técnicos julgam benéfico, ou afirmam julgar, apenas para embasar objetivos pouco evidentes: as obras estruturantes funcionam, a princípio, para desafogar o tráfego da região e valorizar edifícios e lotes vagos próximos às novas avenidas, e não como elementos integradores.
Certamente, há boa intenção em tentar redefinir as relações de vizinhança, mas isso deveria partir da própria população, afinal, as relações se estabelecem de maneira pessoal. Partindo da hipótese de que seja correto intervir no espaço dos moradores, e tentar integrá-los com “uma grande intervenção estrutural”; ainda é contestável crer que uma avenida com 20 metros de largura possa ser a solução, quando ela mesma cria dois espaços radicalmente
67 segmentados fisicamente, uma linha de tráfego quase intransponível, exceto pelas faixas de pedestre. A abertura de uma grande via pode articular um aglomerado aos bairros do entorno, mas não integra espaços na escala local e micro-local. A Via de Ligação entre a Raja Gabaglia e Barão Homem de Melo beneficiará a população da região Oeste, assim como a avenida do Cardoso, aberta no Aglomerado da Serra, trás benefícios à população da região centro-sul. A abertura dessas vias também é positiva para os moradores que permanecem e conseguem extrair potencial econômico e social das facilidades geradas pela nova situação. No entanto, entre o argumento suposto de que a avenida integra a população local e a realidade de beneficio ao tráfego e aumento das possibilidades especulativas da região existe uma disparidade que devemos sublinhar.
Figura 5: mapa de intervenções do PGE Morro das Pedras, apresentado durante o MOM Debate PGE, 2009. A linha preta cortando o mapa é a Via de Ligação, que deverá interligar as avenidas Raja e Barão Homem de Melo. Em amarelo as áreas destinadas à implantação de edifícios habitacionais para reassentamento. Em verde escuro as áreas consideradas como vegetação/praças. No meio do mapa é possível notar o Parque do Lixão e acima o Centro Esportivo. Também é possível visualizar a linha das Antenas (verde claro) que deverá ser alvo de remoções. Fonte: arquivo pessoal
No caso do Morro das Pedras, a construção da Via de Ligação é a obra que mais gera remoções em todo Morro, inclusive na Vila Antena: o elemento integrador é também o mais danoso à permanência da população e, portanto, um contra-senso evidente. Como o próprio PGE enfatiza, não há risco geológico, ambiental ou habitações precárias que expliquem tantas
68 remoções, apenas a Via de Ligação e as remoções da CEMIG culminam na saída de centenas de famílias em todo Aglomerado das Pedras.
Além do fetichismo e ideologia construídos sobre o desenvolvimento econômico e integração social, o PGE coloca a participação popular e os projetos de intervenção como elementos fundamentais para que a população conquiste autonomia e se aproprie dos espaços nas vilas:
Articular as ações promovidas para ajustes e melhorias das condições físicas do assentamento em questão com aquelas promovidas para a constituição de mecanismos de gestão autônoma do espaço ali construído parece-nos imprescindível para que, ao menos, a própria intervenção se faça legitimar enquanto objeto de plena apropriação daqueles que, aqui, se constituem como “sujeitos da ação”.
Tal expediente implicaria numa abordagem diferenciada da atividade de planejamento, impondo também a remoção dos limites entre os campos de conhecimento aplicado. Isto significa necessária a compreensão efetivamente transdisciplinar do fato urbano em questão. Um Plano de caráter compensatório ou provedor, como anteriormente caracterizamos, teria como mérito apenas o atendimento a demandas por intervenções locais, ‘cirúrgicas’, altamente invasivas e desarticuladas, concebidas a partir de abordagens funcionais (física/jurídica/social) também desarticuladas. (PGE Morro das Pedras: Texto Diagnóstico, 2004, p.02)
A apropriação do espaço das intervenções pode ser uma das consequências geradas pelo projeto, mas não como algo planejado ou produto direto da alteração espacial: causa e conseqüência, existe o elemento espontâneo e não planejado para que isso ocorra. O sentimento de pertencimento e a coletividade se constituem nas dinâmicas sociais. Quanto à autonomia, se o processo de elaboração, decisão e execução do projeto é totalmente