2.4. TEDARİK ZİNCİRİ YÖNETİMİ VE DEĞİŞİM MÜHENDİSLİĞİ
2.4.2. Tedarik Zincirinin Yeniden Oluşturulması
Os imortais da Literatura Universal, As grandes óperas, Conhecer, Os pensadores, Os cientistas, Enciclopédia Abril, Grandes personagens da nossa história, Novo conhecer, Nosso século. Foram estas as obras mais destacadas da Abril Cultural durante o tempo de duração deste segmento da Editora Abril, que foi de 1966 a 1982.
A partir dessas publicações, o conhecimento erudito clássico ocidental era ―democratizado‖, segundo alegava o editor. Tratava-se de, num primeiro momento, aumentar a acessibilidade a esse conhecimento para um público
letrado e com razoável poder aquisitivo que fazia parte de uma camada média emergente beneficiada pelo processo de expansão do capitalismo, industrialização e urbanização no Brasil.59
Nesse sentido, a cultura erudita adquirida através da leitura passava a ser valorizada como status60 e também como patrimônio61 pelas camadas
médias nascidas do processo de expansão do capitalismo. Nesse contexto, existia um significativo contingente que, embora tivesse adquirido uma relativa ascensão social e econômica, não havia tido necessariamente um contato com a cultura erudita clássica.
Assim, esse tipo de conhecimento passava, através da cultura de massa, a não estar mais restrito às grandes bibliotecas ou coleções no seu formato tradicional, nem aos estratos sociais que até então haviam se diferenciado dos demais por deterem esse tipo de saber formal. Portanto, a partir daquele momento, inaugurava-se no país uma nova forma de transmissão da cultura erudita. Através do formato jornalístico, colorido, ilustrado, e das coleções em fascículos publicadas pela Abril Cultural, essas formas de cultura começaram a adentrar também o cotidiano das camadas médias emergentes.
No entanto, esse processo de ―democratização‖ da cultura erudita inaugurado pela Abril Cultural não pode ser confundido com uma ―popularização‖ dessa cultura. Afinal, comprar revistas e livros – mesmo quando estes últimos atingiam preços mais acessíveis que das encadernações tradicionais – continuava não sendo um hábito acessível a uma grande parcela da população. Dessa forma, a cultura erudita não se
59 Sobre este tema ver ALMEIDA, Maria Hermínia Tavares de.; WEIS, Luiz. Carro-zero e pau-
de-arara: o cotidiano da oposição de classe média ao regime militar. In: NOVAIS, Fernando.; SCHWARCZ, Lilia Moritz. História da Vida Privada no Brasil: contrastes da intimidade contemporânea. v. 4. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.; GONÇALVES, Cleber Augusto; MELO, Victor Andrade de. Lazer e Urbanização no Brasil: notas de uma história recente (décadas de 1950/1970). Movimento, Porto Alegre, v. 15, n. 3, p. 249-71, jul.-set. 2009.
60 PEREIRA, Mateus. Op. cit. p. 241.
tornou popular, mas sim um bem ao qual um contingente um pouco maior da população, mediante o seu crescente poder aquisitivo, passava a ter acesso. Assim, passava-se a ampliar o rol de produtos postos no mercado pela Abril. No entanto, para além dos fatores mercadológicos, também havia um componente ideológico forte nesse processo. A ação da compra desses produtos indicava também adesão desse público aos valores contidos na visão de mundo expressa nessa proposta.
O segmento de classe62 atingido por esse processo foi fundamentalmente um segmento de classe média, que como característica principal era letrada e possuía um poder aquisitivo suficiente para adquirir mediante compra o status que o saber, a informação e a cultura erudita representavam naquele projeto de sociedade expresso através da Abril Cultural. Estes segmentos eram muito férteis no que dizia respeito à adesão a uma nova proposta político-ideológica para o país.
A maleabilidade encontrada nesses segmentos médios urbanos se dava fundamentalmente devido ao fato de se tratar de um grupo social em formação naquele momento. Esse grupo era composto basicamente por indivíduos que ascenderam socialmente como comerciantes ou funcionários públicos num período em que tanto a industrialização e a urbanização, quanto a formação da burocracia estatal, cresciam no país. Conforme Cleber Augusto Gonçalves e Victor Andrade de Melo,63 entre as décadas de 1950 a
1970, devido ao processo de industrialização e urbanização, ocorreu no Brasil a ampliação do mercado de bens culturais e de lazer.
62 A noção de classe utilizada neste trabalho converge com a seguinte perspectiva de E. P.
Thompson: ―Por classe, entendo um fenômeno histórico, que unifica uma série de acontecimentos díspares e aparentemente desconectados, tanto da matéria-prima da experiência como da consciência. Ressalto que é um fenômeno histórico. [...] a classe acontece quando alguns homens, como resultado de experiências comuns (herdadas ou partilhadas), sentem e articulam a identidade de seus interesses entre si, e contra outros homens cujos interesses diferem (e geralmente se opõem) dos seus. [...] A experiência de classe é determinada, em grande medida, pelas relações de produção em que os homens nasceram – ou entraram involuntariamente‖. THOMPSON, E. P. A formação da classe operária inglesa. v. 1. São Paulo: Paz e Terra, 1987. p. 9-10.
Portanto, consistia num grupo de raízes heterogêneas que naquele momento emergia socialmente mediante um processo de capitalização, e que estava se constituindo enquanto uma nova fração de classe. Dessa forma, consistia em um segmento em processo de consolidação e homogeneização e, por isso, com características peculiares em relação aos já estabelecidos.
Assim, através das publicações da Abril Cultural, ao ter sua acessibilidade sócio-cultural aumentada, esse grupo passava a fazer parte de um público que, mesmo não possuindo uma origem comum, passava a unir- se em torno de uma linguagem e interesses comuns.
Com isso, além da ascensão econômica, também ocorreu um processo de ascensão intelectual que serviu para ir consolidando essa fração no cenário sócio-histórico do país. Dessa forma, esse grupo médio ia-se incorporando a uma classe média intelectualizada,64 e assim consolidando
um público-alvo capaz de interagir com o discurso e a ideologia preconizados na editora em diferentes níveis como a política, o consumo, os hábitos de sociabilidade, etc.
Todavia, naquele contexto, essa ideologia não permaneceu restrita aos planos político e sócio-cultural. Na esfera da economia, esse caráter iluminista reverberou de várias maneiras. Nessa direção, destaca-se a produção de novos bens culturais. A impressão de obras literárias clássicas pela Abril Cultural, dando origem a objetos materiais de cultura – como livros, fascículos colecionáveis e discos –, e transformando o conhecimento também em um bem material e comercializável, movimentaram o mercado editorial daquele período, em que iniciava ainda timidamente a sua expansão por essa vertente.
No entanto, no período de 1965 a 1982, foi a Editora Abril – através da Abril Cultural – que dominou esse espaço do mercado no Brasil. Dessa forma, o conhecimento ilustrado acabou se tornando tanto um bem material
64 Com base na obra Brasil Nunca Mais de Marcelo Ridenti, Maria Hermínia Almeida e Luiz
Weis destacam que este segmento de classe média intelectualizada foi bastante significativo no contexto de oposição durante o regime militar no Brasil. ALMEIDA, M. Op. cit. p. 326.
quanto simbólico, adquirindo inclusive o poder de um status, sobretudo no contexto das camadas médias urbanas que ascenderam e se consolidaram durante os governos militares no Brasil, a exemplo dos funcionários do setor público estatal em suas diversas variações, bem como das classes médias cultas compostas geralmente por profissionais liberais e estudantes.
Contudo, esse material não permaneceu restrito ao contexto literário ou musical clássico, mas dessa ilustração também fazia parte a esfera da ciência moderna e da tecnologia. O que configurava mais um elemento da ideologia liberal presente na linha editorial do Grupo Abril. Assim, ao lado da cultura erudita, ―as ciências‖ passaram a ocupar um lugar de destaque nas obras veiculadas através da Abril, sobretudo através da publicação das enciclopédias como Os cientistas, Enciclopédia Abril, Novo conhecer, entre outros.
No entanto, esta associação entre o caráter iluminista presente na visão liberal de Civita e o iluminismo presente na doutrina Esguiana, não serve da mesma maneira de base interpretativa para os demais governos militares posteriores a Castelo Branco, sobretudo aqueles que não eram diretamente ligados a essa perspectiva.
No entanto, salvo as peculiaridades ideológicas de cada governo do período militar, vale destacar que o crescimento da Abril enquanto empresa foi ininterrupto e ascendente. De modo que, de uma maneira geral, este período representou para a editora o seu momento de consolidação no mercado. Aliás, conforme apontado por Hellewell,65 a década de 1970 – mais
especificamente a partir de 1967 – foi quando o mercado editorial de livros no Brasil teve o seu maior período de crescimento até então, o que representou outra face dessa particularidade.
Paixão66 sublinha esse momento a partir do paradoxo representado
pelo amplo aumento das publicações culturais num contexto de Estado ditatorial onde a censura se fez presente também nesse âmbito de forma bastante efetiva.
Compreendo que tal situação possa ser entendida a partir de dois fatores essenciais. O primeiro deles é, como apontado em Pereira,67 o projeto
de caráter iluminista posto em prática pela Editora Abril, via Abril Cultural, onde além de vender um novo produto, a editora também investia em disponibilizar elementos para a criação de novos interlocutores no nível intelectual. O que mais tarde, nos anos 1980, veio a contribuir para a consolidação das opiniões de cunho político-ideológico manifestas por intelectuais nas páginas de suas publicações, como correu em Veja.
No entanto, foi nos anos do governo Médici que a Abril Cultural colocou um maior número de títulos no mercado. Entretanto, naquela conjuntura, essas publicações adquiriram um caráter mais técnico- científico, didático e de entretenimento. Portanto, mesmo com o recrudescimento da censura, a editora permaneceu no mercado dessas publicações. Naquele contexto, a leitura e aquisição dessas obras, desde que previamente selecionadas, passou a ser uma das formas permitidas de lazer e entretenimento.68 Entretanto, para se tornarem permitidas naquele
momento, essas publicações deveriam tratar de temas que passassem pelo crivo da censura.
Dessa forma, o volume das produções nessa direção continuou aumentando, e o mercado editorial brasileiro se consolidando em plena ditadura. Nesse contexto, as editoras alinhadas ao governo, como foi o caso
66 PAIXÃO, Fernando.; MIRA, Maria Celeste. Momentos do Livro no Brasil. São Paulo: Ática,
1998.
67 PEREIRA, Mateus. Op. cit.
68 Gonçalves e Melo, ao abordarem a questão do lazer e da urbanização no Brasil nas
décadas de 1950 a 1970, se utilizam da revista Veja como fonte de pesquisa. Este fator mostra a ênfase conferida na revista às formas de entretenimento em ascensão no período. Em relação aos textos analisados, observa-se que a própria revista era constituída como um produto deste novo segmento de mercado. GONÇALVES, C. Op. cit.
modelar do Grupo Abril, encontraram um espaço para expandir enquanto empresas.
Abaixo gráfico da produção da Abril Cultural:
Figura 1: Produção da Abril Cultural de 1965 a 1982.
Fonte: Gráfico confeccionado com base nos dados fornecidos em PEREIRA, Mateus H. F. A trajetória da Abril Cultural. Em Questão, Porto Alegre, v. 11, n. 2.
Conforme o gráfico acima, as publicações da Abril Cultural atingiram o seu ápice nos anos do governo Geisel, já considerado um governo de transição. Todavia, foi no período anterior que o volume dessas publicações teve o seu primeiro aumento significativo. Atribuo este último às considerações que teci anteriormente. Mas igualmente sublinho que esse primeiro crescimento ocorreu nos anos do chamado ―Milagre Econômico‖ que foi de 1969 a 1973.
Assim, ao longo dos governos militares, fosse como uma proposta de emancipar, atualizar ou entreter o leitor, as enciclopédias, fascículos e coleções veiculados através da Abril Cultural, continuaram a ser produzidas e disponibilizadas a baixo custo em um formato atraente para o público
leitor. Dessa forma, demonstrou-se, a adaptação e as formas de alinhamento da Abril no período anterior ao contexto de redemocratização ocorrido na década e 1980.
No entanto, é no tocante à identificação do público leitor/consumidor que este fator ganha uma maior amplitude nas décadas seguintes na editora. Nessa direção, a revista Veja foi um veículo destacado ao promover uma identificação do público leitor/consumidor com a linguagem e os valores da cultura erudita e científica, de modo a definir uma parcela de público para representar, interagir e persuadir quando necessário. Essa representação ficava a cargo dos interesses que, dos pontos de vista político, econômico e ideológico, eram representados na revista. A interação, por sua vez, ocorria através da linguagem utilizada na revista, que muitas vezes era baseada em vocabulário técnico-científico e/ou construções discursivas que demandavam conhecimento prévio para serem compreendidas pelo público. Já a persuasão, pode ser remetida aos momentos em que este público leitor/consumidor passava a representar, igualmente, uma fatia do eleitorado.
2 O PERFIL AUTOCONSTITUÍDO EM VEJA
Neste capítulo, me detenho em traçar um perfil da revista Veja baseado fundamentalmente na análise qualitativa de um conjunto de editoriais, selecionado previamente, totalizando 20 editoriais que compreendem o período de 1979 a 1988.
A fim de delinear um perfil da linha seguida pela revista Veja no período que vai de 1979 a 1988, foram inicialmente analisados os seus principais editoriais. O critério de relevância que permitiu a escolha do material foi determinado levando-se em conta o caráter qualitativo contido no primeiro e último editoriais de cada ano.
O primeiro era de uma relevância um pouco menor em relação ao último, uma vez que era publicado com o intervalo de uma semana daquele. No entanto, de uma forma geral, este primeiro editorial do ano vinha no intuito de reforçar a mensagem de encerramento do ano anterior. Imbuído da significação que a data já trazia por si mesma, nele continha uma mensagem do editor, endereçada aos seus leitores, para o novo ano. Identifiquei esta como sendo uma forma dotada de grande persuasão, por ser a mensagem de Ano Novo do Editor aos leitores da revista. Por isso a escolha desses editoriais como parte do material de análise para compor este corpus de análise.
No entanto, considero os últimos editoriais de cada ano como os mais relevantes. Isso porque era através deles que o Editor fazia um ―balanço‖ do ano que passou, colocando-se como uma figura capaz de apontar os ―erros‖ e ―acertos‖ cometidos, naquele momento, principalmente por parte do governo e em contrapartida a isso, apontava o caminho que deveria ser seguido pelos seus leitores no ano seguinte. Esses editoriais também eram, normalmente, mais extensos que aqueles publicados no inicio de cada ano.
Mediante essas características, o material não possuía apenas o caráter de saudação ou informação. Tratava-se, sobretudo, de uma mostra de material de cunho claramente político e ideológico que permite analisar a revista Veja como um locus da nova vanguarda liberal oposicionista, que se consolidou entre 1979 e 1988 na cena política brasileira. Via de regra estes editoriais eram apresentados como a ―Carta ao Leitor‖ ou ―Carta do Editor‖, assinada pelo editor e/ou diretor da revista.
Analisando qualitativamente a totalidade do material selecionado mediante essa regularidade, foi possível identificar as linhas fundamentais do perfil da revista. A partir deste ponto, foi possível identificar igualmente, como Veja era constituída frente ao seu público leitor.