2.6. TEDARİK ZİNCİRİ YÖNETİMİNİN GELECEĞİ
3.2.1. İşletmelerde Oluşan Maliyet Unsurları
3.2.1.1. Üretim Öncesi Oluşan Maliyetler
3.2.1.1.1. Tedarik Maliyetleri
No entanto, apesar da importância da forma assumida por esse discurso em Veja destaca-se, em nível de conteúdo, um componente de ordem político-ideológica que teve grande relevância na sua construção de sentido. Trata-se de um posicionamento em que o ponto principal reside na oposição aos governos instituídos nesse período.
Assim, ao ser constituído enquanto um bloco de oposição às práticas e ideias do governo instituído, o ―nós‖ que corresponde a um todo formado por Veja e seus leitores, passou a se consolidar de forma mais enfática no contexto político-ideológico da época.
Esta postura opinativa, baseada na relação dicotômica entre governo instituído e sociedade civil pode ser observada em Veja em vários momentos dentro desse período. Mediante o estabelecimento dessa relação, as menções ao governo destacavam a sua incompetência, intransigência e as medidas tomadas nesse âmbito eram tratadas como punições e entraves ao ―livre desenvolvimento da sociedade‖:
E até agora, apesar de todas as informações já colocadas à disposição do público em geral pelas reportagens desta revista, o trabalho das autoridades não mostrou um único resultado que
prestasse. Mostrará, enfim, daqui em diante?110
Na política, o país viu o governo chegar ao fim do ano fechado sobre si mesmo e sitiado pela má vontade geral, a começar pela dos que sempre se beneficiaram dele, de empresários a senadores biônicos.111
É como se fosse uma guerra civil. Na verdade, um princípio de anarquia começa a tomar forma nestas áreas conflagradas, diante do silêncio do Estado. Jamais houve, no país, um problema de segurança nacional mais genuíno que esse. Jamais tantas pessoas
110 Veja – Carta ao Leitor, São Paulo, n. 539, p. 19, 3 jan. 1979. 111 Veja – Carta ao Leitor, São Paulo, n. 643, p. 19, 31 dez. 1980.
foram tão flagrantemente oprimidas em seus diretos mais fundamentais. Mas, em vez de estar entre as primeiras preocupações do poder, a questão, na prática, está entre as últimas. Após perder o controle sobre as ruas – são os criminosos, hoje, que mandam nelas -, o Estado brasileiro parece conformar-se com isso. É uma das marcas mais deprimentes que o país tem a exibir.112
Todo ano tem seu estoque de bons e maus momentos e 1983, sobretudo para o Brasil, foi indiscutivelmente sombrio. [...] A palavra “crise”, presente desde o primeiro dia do ano, acompanhou a vida brasileira até estes últimos dias de dezembro. Aberto sob o impacto de que o Brasil pedira uma moratória de fato de sua dívida externa, 1983 se encerra com o anúncio do lançamento da nota de 50.000 cruzeiros, ilustração eloquente da inflação que varou os 200%. Entre o começo e o fim, e sempre no ritmo deste descalabro inflacionário sem paralelo, viveu-se sob o impacto dos saques, da explosão da criminalidade, de escândalos políticos [...] e
financeiros [...], de uma seca no Nordeste.113
Num tom apropriado para o que foi 1986, um ano quase inteiramente dominado por questões econômicas, dezembro chega ao fim com o governo mais uma vez às voltas com o fantasma da inflação e tomando medidas para conviver com ela. Estão de volta a correção monetária de acordo com o INPC e a caderneta de poupança com rendimentos pagos todos os meses.114
1987 será conhecido como o ano em que o Brasil não resolveu
problema algum – simplesmente adiou para 1988 as questões
pendentes. Com o seu ministério permanentemente à deriva, e um escândalo-mor no colete – o da Ferrovia Norte-Sul -, o presidente José Sarney governou aos sobressaltos. Na memória do país, as imagens que ficam de 1987 não são empolgantes.115
No apagar das luzes de 1987, Mailson Nóbrega anuncia o novo pacote fiscal, penalizando mais uma vez o contribuinte, em meio a uma intensa troca de acusações entre o ex-ministro Bresser Pereira, o presidente Sarney e seus colaboradores, que lavam em público a roupa suja do governo e deixam para o ano que vem as
promessas de austeridade.116
Note-se, portanto, que para além dos problemas de gestão que os governos dessa época tiveram do ponto de vista político, as críticas erigidas
112 Veja – Carta ao Leitor, São Paulo, n. 644, p. 13, 7 jan. 1981. 113 Veja – Carta ao Leitor, São Paulo, n. 799, p. 35, 28 dez. 1983. 114 Veja, São Paulo, n. 956, p. 35, 31 dez. 1986.
115 Veja, São Paulo, n. 1008, p. 35, 30 dez. 1987. 116 Ibidem.
em Veja em relação à estrutura estatal foram construídas basicamente a partir da ênfase à crise econômica vivida pelo país naquele período, sobre argumentos que denotavam um claro interesse de classe. Mesmo que continuasse falando em nome de ―todos‖ que não faziam parte da estrutura estatal - e para isto se utilizando de expressões como ―má vontade geral‖, ―contribuintes‖, ―cidadãos‖, etc – era claro que, do ponto de vista político- ideológico, ia-se constituindo em Veja, de forma cada vez mais clara uma vanguarda em defesa de um Estado aos moldes de sua concepção liberal, com as características necessárias para garantir o livre desenvolvimento dos setores aos quais se colocava como um representante.
Dessa forma, foi constituído em Veja um programa a ser defendido. De acordo com Carla Silva,117 onde a autora baseia-se em Muniz Sodré,118 a
revista passa a ter uma ação partidária e, em consonância com Emiliano José,119 a autora diz não se tratar da necessária filiação a um partido
político, mas conforme Emiliano, ―a imprensa é partidária, não no sentido de defender este ou aquele partido, mas no de ter um programa a defender‖. O que, no caso de Veja nos anos 1980, esteve claramente vinculado a um programa internacionalista-liberal. Como destacarei ao longo deste trabalho, nesse percurso, em alguns momentos observou-se algum tipo de associação com partidos formais e seus representantes. No entanto, o que define Veja como um órgão partidário é, fundamentalmente, sua clara filiação ao programa liberal. Contudo, é fundamental sublinhar que a filiação e defesa deste programa ocorre na revista conforme as características observadas por Gramsci como uma das formas de partido existentes, que, segundo ele,
fazem abstração da ação política imediata: o partido constituído por uma elite de homens de cultura que têm a função de dirigir, do ponto de vista da cultura, da ideologia geral, um grande movimento de
117 SILVA, Carla. Op. cit. p. 33.
118 SODRÉ, Muniz. Antropológica do espelho: uma Teoria da Comunicação Linear em Rede.
Petrópolis: Vozes, 2002. Apud SILVA, Carla. Op. cit.
119 JOSÉ, Emiliano. Imprensa e poder: ligações perigosas. São Paulo, Salvador: HUCITEC,
partidos afins (que são, na realidade, frações de um mesmo partido orgânico).120
Nessa direção, poder-se-á compreender enquanto essas ―frações de um mesmo partido orgânico‖, os grupos e atores que serão referidos nos próximos capítulos deste trabalho.
Assim, embora o discurso veiculado na revista tenha sido constituído em nome de um ente universal como ―a sociedade‖, ―os cidadãos‖ ou ―os brasileiros‖, Veja tornou-se um partido que agia por meio da cultura e ideologia gerais em defesa de um tipo de Estado, e consequentemente, de um conjunto de interesses de classe.121
No entanto, o que figura na revista de forma visível é a dissimulação desses interesses de classe mediante a sua substituição, no âmbito do discurso, por um conjunto de interesses pretensamente universais.
Esses interesses universais aparecem de diferentes maneiras, e em relação a critérios distintos como, por exemplo, a questão da segurança urbana, conforme o trecho destacado na sequência anterior. No entanto, a forma predominante em que os interesses de classe defendidos em Veja podem ser identificados reside na ênfase em trabalhar em seu discurso de forma política e ideológica as questões de ordem econômica:
O ano político brasileiro se encerraria sob o signo do “pacote de novembro”, uma ríspida demonstração de forças do governo, que
lança longas sombras sobre 1982 e suas cruciais eleições.122
Com o aumento das alíquotas de contribuição mensal para a Previdência Social, enfim decretado na semana passada, o governo chegou ao final do ano encerrando uma das discussões mais notáveis a que o país já assistiu. Seis meses atrás, quando membros do próprio governo passaram a clamar que havia um déficit monumental no sistema, a primeira ideia foi aumentar as
contribuições mensais de empresas e empregados – enfeitada,
paralelamente, com vagas promessas de reformas capazes de dar mais eficiência às estruturas previdenciárias. Depois, rejeitou-se
120 GRAMSCI, Antonio. Cadernos do Cárcere. v. 3. p. 351.
121 Sobre a tese de Veja como um partido ver SILVA, Carla. Op. cit. 122 Veja – Carta ao Leitor, São Paulo, n. 695, p. 19, 30 dez. 1981.
expressamente este caminho e tentou-se uma série de remendos que, com a decisiva participação do Congresso, acabariam por desembocar na patética “lei dos supérfluos”. No fim, após meio ano de perda de tempo, o governo volta exatamente ao ponto de partida e dispara mais uma de suas derramas contra o contribuinte. O governo argumenta que os benefícios da previdência se têm ampliado de forma maciça, que isso gera despesas extraordinárias e que é preciso arranjar dinheiro para pagá-las. Perfeito. Acontece que nada, absolutamente nada, tem sido feito no sistema previdenciário que não seja de responsabilidade direta e exclusiva desse mesmo governo, com o acordo dos políticos que o apóiam. Nenhum contribuinte jamais teve qualquer coisa a ver com as decisões ali
tomadas – e, se a Previdência chegou a seu déficit monstruoso, o
único responsável por isso é o governo que administra. Foi ele, e
ninguém mais, que admitiu despesas maiores que as receitas –
assim como é ele quem gere desastrosamente esse dinheiro todo. Confrontado com sua própria incompetência, o sistema sai agora a cobrar mais, como sempre faz nesses casos. O governo, é bem sabido, tem uma capacidade ilimitada de assinar papéis que
aumentam a arrecadação – e uma capacidade limitadíssima,
frequentemente nula, quando se trata de administrar o que toma. Esta é, no fundo, a pior opressão a que são submetidos os cidadãos. O voto vinculado e outras engenhocas políticas do mesmo gênero podem ofendê-los. Mas aquilo que realmente os oprime no dia-a-dia é a existência de uma administração incapaz de gerir o país.123
Naturalmente, 1984 foi um ano que também teve grandes dificuldades – nenhum país com uma inflação superior a 200% pode considerar-se em boa situação, e para todos os brasileiros que não recuperaram os empregos perdidos pela crise econômica, nem o padrão de vida achatado por ela, este ano encerra com um sabor igualmente amargo.124
A economia, numa arrancada que os problemas não conseguiram
conter, cresceu à taxa de 8,5%, uma das maiores do mundo – em
compensação, o país viveu a mais desvairada inflação de sua história, rompendo a barreira dos três dígitos para superar os
110%.125
O país, é verdade, enfrentou com competência o desafio das eleições de novembro, que devolveram aos brasileiros o direito de escolher diretamente seus governadores, e saiu das urnas com suficiente saúde política para perseguir sem sobressaltos a consumação do processo de abertura política. Mas terminou o ano às voltas com a
123 Veja – Carta ao Leitor, São Paulo, n. 696, p. 19, 6 jan. 1982. 124 Veja – Carta ao Leitor, São Paulo, n. 851, p. 35, 26 dez. 1984. 125 Veja – Carta ao Leitor, São Paulo, n. 643, p. 19, 31 dez. 1980.
mais grave crise econômica das últimas décadas, que promete atravessar o próximo ano e figurar na edição especial de 1983.126
Dessa forma, a instância político-institucional aparecia como sendo condição sine qua non para a implementação do projeto de sociedade, dentro dos moldes liberais pregados no discurso veiculado em Veja. Esta premissa é básica para a identificação de uma vanguarda política nascente naquele momento, fortemente apoiada em Veja, conforme apontado pela pesquisa empírica.
Em relação aos interesses de classe contidos no discurso que apoiou a formação dessa nova vanguarda, estes podem ser identificados através dos elementos peculiares à visão liberal, conforme já foi aqui destacado. No entanto, em especial, no trecho a seguir fica clara a oposição entre duas frações de classe antagônicas:
A câmara [Federal] que emerge da pesquisa de VEJA é basicamente conservadora, grandemente influenciada por deputados com origem ou interesses na área rural e disposta, ao mexer na Constituição, a extrair uma reforma tributária que entregue mais recursos aos Estados e municípios.127
A desta passagem é possível identificar a oposição entre Veja e o grupo denominado conservador. Nessa direção, a instância político-institucional e os cargos representativos, são mais uma vez colocados como fundamentais à esfera econômica. Além disso, ao identificar o conservadorismo com os interesses da área rural, é reforçado por oposição, o caráter de Veja como representativa de um grupo não-conservador e ligado a interesses urbanos como comércio e industrialização.
De acordo com esses critérios, outra característica relativa a esse grupo de oposição seria a defesa dos princípios constitucionais e democráticos e a diminuição dos tributos destinados a instâncias interligadas à estrutura estatal. Em contrapartida, eram reivindicados
126 Veja – Carta ao Leitor, São Paulo, n. 747, p. 19, 29 dez. 1982. 127 Veja – Carta ao Leitor, São Paulo, n. 748, p. 13, 5 jan. 1983.
incentivos fiscais e tributários destinados à iniciativa privada, conforme pregam os preceitos liberais que, na medida em que a pesquisa avança, tornam-se mais claros no material analisado.
De acordo com a perspectiva gramsciana, de onde parto para analisar essa questão, isto demonstra o caráter de classe do Estado. Segundo Gramsci, através do conceito de estado ampliado,128 este é composto pela
interação entre a sociedade política e a sociedade civil. Diferenciando-se, assim, da interpretação liberal que prega que Estado é sinônimo de sociedade política e o oposto de sociedade civil, e que corresponde à perspectiva presente nos apelos discursivos constituídos em Veja.