4.2. ARAŞTIRMANIN KAPSAMI
4.4.2. Türkiye’de Otomotiv Yan Sanayi
Maria da Conceição Tavares foi um dos intelectuais pertencentes à categoria ―intelectuais A‖, entrevistados com recorrência no período estudado. Em Veja, ela foi representada como uma força de oposição, dotada da credibilidade necessária para analisar e propor alternativas à situação vivida no país naquele período.
Na entrevista de 1980, intitulada como ―O importante é o debate‖,234
essa credibilidade provinha da autoridade de uma economista, professora universitária renomada e autora de livros na área:
Professora titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro e da Universidade de Campinas, onde coordena cursos de pós-graduação. Crítica severa da política econômica posta em prática no Brasil desde 1964, Conceição marcou época também com livros e artigos, escritos em pesada linguagem técnica, alvejando o governo e tecnocratas no dialeto que eles entendem – o economês.
No entanto, embora não apareça ao longo de toda a entrevista nenhuma menção a qualquer filiação partidária da entrevistada, há também a referência na entrevista à postura de oposição de Maria da Conceição Tavares:
A mais crítica e polêmica economista de oposição acha que o Brasil se encontra em uma encruzilhada, e que é preciso conversar. É ótimo que a oposição tenha propostas políticas, como a convocação de uma Constituinte, com que concordo, mas é preciso que tenha propostas de política econômica também. [...] Num país onde se eliminou, e ainda não se reabilitou, a possibilidade de a oposição vir a ser governo, tudo fica mais difícil.235
Além dessa menção específica, isso se torna claro na medida em que, conforme apontam os trechos destacados na primeira entrevista, ela se coloca contrária predominantemente em relação a três pontos específicos. O primeiro deles é a crítica à política econômica do governo e, consequentemente, à deficiente e arcaica gestão por parte do mesmo, que já não estaria conseguindo acompanhar as demandas da sociedade através do seu modus operandi. O segundo é a crítica ao autoritarismo e à sua forma estatal, então representada pelo governo da época. E, por último, é criticada de forma direta a organização política do país, que não permitia a ascensão da oposição ao governo através de meios legais.
Como proposta de ação, além das prescrições de ordem econômica, o ponto enfatizado pela economista é o diálogo, ou seja, a via pacífica e a negociação como recomendação de conduta:
O mais importante, repito, é o debate. Trata-se de saber, e dramaticamente, se vai existir uma nação, depois de várias décadas de existência de um Estado nacional, com todas as perversidades de um Estado autoritário. Precisamos é estar preparados para responder a desafios como: como administrar a crise, como desenvolver a dependência energética e os problemas de balanço de pagamentos, como resolver as questões agrícola e habitacional. Estas perguntas não estão sendo formuladas de forma inteligível, quanto mais adequada. E é preciso não dar a elas respostas antigas. Conceição quer se envolver no debate econômico, que, segundo julga, precisa ser o mais amplo possível. E isso para que não se contenha em fazer só denúncias. Propõe alternativas.236
Assim, embora Maria da Conceição Tavares não representasse a ideologia liberal preconizada em Veja, essa credibilidade construída em torno
235 Ibidem. 236 Ibidem.
da sua figura e a veiculação de suas opiniões de oposição, serviam para fortalecer a postura de oposição ao governo defendida na revista.
Essa construção de sentido permaneceu na entrevista de 1985, intitulada como ―Os riscos do trimestral‖,237 onde a economista critica outro
ponto sempre muito enfatizado nos discursos formulados em Veja: ―Acho que se criou um vício em relação às personalidades carismáticas. Não há como esquecer que o Delfim da época do milagre econômico, no começo da década de 70, era muito apreciado‖.
Nessa direção, Tavares faz críticas à cultura personalista que se desenvolveu no país em torno de personalidades carismáticas, e aponta como exemplo Delfim Netto. Este é um ponto que remete a uma crítica ao populismo e a todos os demais valores embutidos nesse conceito, inclusive o modelo de Estado e consequentemente de política econômica, que vinha sendo enfaticamente criticado em Veja.
Nesta segunda entrevista, as opiniões da entrevistada continuaram a ser justificadas pela sua autoridade intelectual e de professora universitária. No entanto, este aspecto foi acrescido de um componente de maior peso, quando a economista foi referida como uma liderança intelectual em relação a uma corrente do pensamento econômico brasileiro:
Líder histórica dos economistas de esquerda do PMDB. A economista do PMDB [...] Nesses trinta anos em que vive no Brasil, Conceição, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro e da Universidade de Campinas, foi mestre e líder de uma legião de economistas ligados à chamada ―esquerda não-marxista‘ – a corrente de pensamento que mais combateu a política econômica desde 1964.238
Nessa direção, as opiniões manifestadas pela entrevistada ganharam o peso de serem emitidas pela líder de uma corrente de pensamento e de oposição. Contudo, é na ênfase ao termo ―não-marxista‖ que se observa um critério fundamental da oposição que foi valorizada positivamente em Veja. Embora nesse momento a oposição ainda estivesse organizada de forma
237 Veja – Entrevista, São Paulo, n. 893, p. 3-6, 16 out. 1985. 238 Ibidem.
difusa, e fortemente unida pelo objetivo de antagonizar com o governo, sempre que possível era reforçado em Veja que a oposição ―legítima‖ na revista, era a oposição considerada não-marxista.
Ainda, nesta segunda entrevista, foi ressaltado o vínculo partidário da entrevistada com o PMDB, que até esse momento era o partido mais enfatizado em Veja como representante dessa oposição que estava se constituindo e consolidando no Brasil naquele momento.
De acordo com o tom que predominou na entrevista por parte de Tavares, as suas recomendações ocorreram em relação a possíveis medidas que poderiam ser implementadas na área econômica: ―A economista do PMDB propõe reajustes de salários sempre que a inflação atingir o nível de 30%, seja em três, seja em dois, seja em só um mês‖.239
Portanto, não compreendo Maria da Conceição Tavares como um sujeito representativo da ideologia liberal em Veja. Mas compreendo que a forma como ela foi constituída no discurso da revista a tornou um sujeito representativo de oposição e as suas opiniões, dirigidas aos pontos em que destaquei, ajudaram a referendar um conjunto de acepções e posicionamentos que eram igualmente constitutivos da postura de oposição representada em Veja.