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Tanımlar

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1.8. Tanımlar

Na esteira do quanto foi visto no final do subitem anterior, deve-se chamar a atenção para o fato de que a Carta Magna de 1988 elegeu a dignidade da pessoa humana como princípio fundante, conforme consta em seu art. 1º, III, conferindo unidade e sentido à ordem constitucional alusiva aos direitos fundamentais.

Ingo Wolfgang Sarlet refere que a Constituição brasileira pode ser considerada como sendo a Constituição da pessoa humana, cuja dignidade, uma vez reconhecida e protegida, legítima a ordem jurídica, que é tida por justa. Assim, os direitos e garantias fundamentais encontram seu fundamento e razão de ser na dignidade da pessoa humana, traduzindo-se em concretizações dela37.

Essa concepção acerca da importância do princípio da dignidade da pessoa humana e dos direitos fundamentais que visam a assegurá-la tem por consequência inarredável uma nova hermenêutica constitucional, focada justamente nesse modelo de proteção do ser humano. Ingo Wolfgang Sarlet revela essa ideia acerca do princípio da dignidade da pessoa humana com clareza ímpar38:

37 Dignidade da pessoa humana e direitos fundamentais, p. 83. 38 Ibidem, p. 84.

(...) impõe-se seja ressaltada a função instrumental integradora e hermenêutica do princípio, na medida em que este serve de parâmetro para aplicação, interpretação e integração não apenas dos direitos fundamentais e das demais normas constitucionais, mas de todo o ordenamento jurídico. De modo todo especial, o princípio da dignidade da pessoa humana – como, de resto, os demais princípios fundamentais insculpidos em nossa Carta Magna – acaba por servir de referencial inarredável no âmbito da indispensável hierarquização axiológica inerente ao processo hermenêutico-sistemático (...).

Em outras palavras, as regras de direito infraconstitucional devem ser interpretadas à luz do princípio da dignidade humana, que passa, assim, a servir como critério hermenêutico. A seguinte decisão do TST revela a aplicação prática dessa linha interpretativa da Constituição Federal:

TRANSPORTE DE VALORES. ADICIONAL DE RISCO. PRINCÍPIO DA DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA. O fato de o reclamado ter se valido do seu poder de mando para obrigar o reclamante a fazer tarefas além das suas responsabilidades e com grau considerável de risco a sua integridade constitui prática de ato ilícito, que fere o princípio da dignidade da pessoa humana e enseja o adicional pleiteado. Com efeito, o adicional de risco consiste em plus salarial, que cumpre a função de restabelecer o equilíbrio das prestações do contrato de trabalho. É a aplicação do princípio da comutatividade, segundo o qual, a cada obrigação de prestar o serviço deve haver a correlata contraprestação, que por parte do empregador consiste na obrigação de pagar. Frise-se que o exercício de atividade alheia às funções do reclamante, impondo-lhe iminente risco, até mesmo à sua integridade física, milita contra o princípio da dignidade humana (artigo 1º, III, da CF/88), porquanto o conceito da dignidade da pessoa humana passa pelo prisma filosófico, ético, sociopolítico e jurídico, no qual se inserem a integridade e a inviolabilidade da pessoa humana. Acerca do tema, pertinente é o

magistério de Alice Monteiro de Barros, verbis: ‘A dignidade ocupa posição de destaque no exercício dos direitos e deveres que se exteriorizam nas relações de trabalho e aplica-se em várias situações, principalmente, para evitar tratamento degradante do trabalhador. (...) A justiça deverá promover a dignidade do ser humano, impedindo abusos em todos os sentidos’ (in Curso de Direito do Trabalho, Editora LTr, 5ª Edição, pag. 191-193). Recurso de revista parcialmente conhecido e provido (TST, 3ª Turma, RR, Processo n. 266500-85.2002.5.02.0043, Rel. Min. Horácio Raymundo de Senna Pires, DEJT 21-5-2010, v.u.).

Outro desdobramento que decorre daí reside no princípio da

interpretação conforme a Constituição. Por esse princípio, preserva-se a validade das normas acusadas de inconstitucionalidade, mas também se atribui sentido às normas infraconstitucionais, a fim de que melhor cumpram os mandamentos da Constituição.

Segundo o constitucionalista Luís Roberto Barroso, o princípio abriga, simultaneamente, uma técnica de interpretação e um mecanismo de controle de constitucionalidade, importando para o presente estudo aquela primeira função39.

Pela aplicação do princípio da interpretação conforme a

Constituição deve o intérprete ler a legislação ordinária de forma a fazê-la cumprir os valores constitucionais. Havendo mais de uma possibilidade de

39 Curso de direito constitucional contemporâneo, p. 325. Importa salientar que a Lei n. 9.868, de

10-12-1999, em seu art. 28, parágrafo único, contempla a última função referida, de controle da constitucionalidade: “A declaração de constitucionalidade ou de inconstitucionalidade, inclusive a interpretação conforme a Constituição e a declaração parcial de inconstitucionalidade sem redução de texto, têm eficácia contra todos e efeito vinculante em relação aos órgãos do Poder Judiciário e à Administração Pública federal, estadual e municipal”.

interpretação, ele deve escolher aquela que melhor promova os postulados constitucionais. É o que afirma com maestria Daniel Sarmento40:

(...) além de atuar como limite para o legislador, a Constituição também projeta relevantes efeitos hermenêuticos, pois condiciona e inspira a exegese das normas privadas, que deve orientar-se para a proteção e promoção dos valores constitucionais centrados na dignidade da pessoa humana. Destaca-se, neste particular, o princípio da interpretação conforme a Constituição, segundo o qual o operador, dentre várias exegeses possíveis de uma norma, tem de optar por aquela que mais prestigie a Constituição, mesmo que não seja ela a mais evidente.

Por esse critério de interpretação, as normas legais devem ser lidas não somente em conjunto com outras regras da mesma lei ou da ordem legislativa. Elas devem ser consideradas no contexto da ordem constitucional, que possui uma energia irradiante e dinamizadora das demais normas da ordem jurídica. Além de dar o sentido mais conforme a Constituição, dentre outros tantos possíveis, o princípio em questão impõe um sentido à norma que, mesmo não aparente, seja o correto e, portanto, o necessário, por força da ação conformadora da Lei Magna. Nesse sentido, a CF determina inclusive o conteúdo das leis ordinárias, o que também se aplica à própria CLT41.

Essa regra hermenêutica exige que a interpretação das normas legais se dê sob a ótica dos direitos fundamentais, garantidoras da dignidade da pessoa humana, posto que, como visto acima, esta foi elevada à categoria de

40 Direitos fundamentais e relações privadas, p. 77.

41 Jorge Miranda, Manual de direito constitucional, v. 2, p. 312-313. Esse mesmo autor ainda revela,

nessa mesma obra, que a única ressalva que se deve fazer a respeito dessa afirmação diz respeito ao direito internacional convencional, por dois motivos: primeiro, porque ele possui regras hermenêuticas próprias; segundo, porque há o risco de se quebrar a boa-fé nas relações internacionais, pois os tratados devem ser interpretados em harmonia entre os diferentes Estados partes.

princípio norteador da legislação constitucional, enquanto aqueles – os direitos fundamentais – gozam de aplicação direta e imediata, exigindo concretude.

Sobre esse assunto, Paulo Gustavo Gonet Branco é enfático ao asseverar que na aplicação dos direitos fundamentais os juízes podem inclusive contrariar a lei caso ela não se conforme ao referido primado constitucional42:

Os juízes podem e devem aplicar diretamente as normas constitucionais para resolver os casos sob a sua apreciação. Não é necessário que o legislador venha, antes, repetir ou esclarecer os termos da norma constitucional para que ela seja aplicada. O art. 5º, § 1º, da CF autoriza que os operadores do direito, mesmo à falta de comando legislativo, venham a concretizar os direitos fundamentais pela via interpretativa. Os juízes, mais do que isso, podem dar aplicação aos direitos fundamentais mesmo contra a lei, se ela não se conformar ao sentido constitucional daqueles.

No sentido de intepretação dos textos legais à luz da Constituição Federal e, assim, dos direitos fundamentais ali previstos, tem-se o seguinte julgado:

ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA - RESPONSABILIDADE SUBSIDIÁRIA - ART. 71 DA LEI 8.666/93. ADC 16 DO STF. INTERPRETAÇÃO CONFORME A CONSTITUIÇÃO. O tomador de serviços, ainda que seja o ente integrante da administração pública, responde, de forma subsidiária, pelas obrigações trabalhistas inadimplidas pela empresa fornecedora da mão de obra, conforme entendimento já pacificado através da Súmula 331 do c. TST. Neste sentido, é importante ressaltar que o entendimento aqui esposado não viola a Súmula Vinculante nº 10 e nem esvazia a força vinculante da

ADC nº 16, uma vez que a decisão da mais alta corte não teve por escopo excluir a responsabilidade do ente integrante da Administração Pública, mas sim orientar no sentido de que, para a sua responsabilização, o julgador deve, no caso concreto, perquirir se o ente público agiu com esmero, de forma a fiscalizar o contrato de prestação de serviços. Desta forma, não se está negando aplicação a dispositivo de lei, mas tão só conferindo interpretação em conformidade com o recente entendimento do STF. Isso porque o art. 71 da Lei nº 8.666/93 não isenta a responsabilização do poder público pela quitação de encargos inadimplidos pela empresa contratada sob o regime de licitação, vez que entendimento contrário afronta os artigos 1º, III e IV, 170 e 193, todos da Constituição da República, que refletem os princípios da dignidade da pessoa humana e da valorização do trabalho. Ademais, o referido artigo 71 apenas regula a relação entre as partes contratantes, não podendo ser invocado como óbice à satisfação do crédito alimentar do trabalhador que labora em benefício de qualquer ente federado (TRT-3, 8ª Turma, RO, Processo n. 0000014-07.2012.5.03.0114, Rel. Juíza Convocada Ana Maria Amorim Rebouças, DEJT 7-2-2013, v.u.).

A tarefa de interpretar ainda implica necessariamente na de aplicar o direito, ou seja, na concretização da norma em cada caso, inserindo o direito na realidade. Essa função a cumpre o juiz ao sentenciar, como intérprete autêntico, mas também a perfaz aquele que se vê obrigado a dar sentido ao texto legal aplicável a determinado caso43, inclusive o particular, pois todos, afinal, são obrigados a cumprir o comando proveniente da Carta Magna.

Outra ferramenta útil ao intérprete para dar máxima efetividade aos direitos fundamentais consiste na teoria do diálogo das fontes, que será vista a seguir.

43 Disponível em: <http://www.tjrj.jus.br/c/document_library/get_file?uuid=d4d29181-ba2a-42f1-

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