3. BÖLÜM: ARAŞTIMANIN YÖNTEMİ
3.4. VERİLERİN ANALİZİ
3.4.2. Nitel Verilerin Analizi
Para uma melhor compreensão do atual texto constitucional, convém realizar uma breve digressão sobre as constituições que o antecederam, notadamente no que diz respeito aos direitos fundamentais de primeira e
segunda gerações e à sua destinação específica à classe trabalhadora.
Além da Constituição Federal de 1988, o passado brasileiro contemplou outras seis constituições a partir de sua independência de Portugal e subsequente instituição do Império do Brasil, em 1822.
A primeira delas foi a Constituição Política do Império do Brazil, de 25 de março de 1824. Seu texto foi outorgado pelo Imperador Dom Pedro I e previa uma série de direitos fundamentais em seu texto, tais como a liberdade, a igualdade, a vedação de penas cruéis como as de açoites, tortura e marca de ferro quente, a livre manifestação de pensamento e o direito de petição. No entanto, pouquíssimos direitos sociais dirigidos à classe trabalhadora foram dispostos entre seus 179 artigos. Dentre esses direitos, destacava-se aquele contido no art. 179, XXIX: “Nenhum genero de trabalho, de cultura, industria,
ou commercio póde ser prohibido, uma vez que não se opponha aos costumes públicos, á segurança, a saude dos Cidadãos”.
Havia, desde então, uma previsão constitucional de proibição do trabalho que comprometesse os costumes da sociedade, a segurança e a saúde dos cidadãos. Veja-se que aí, porém, não existia uma preocupação com o trabalhador propriamente dito, como pode parecer num primeiro momento. A defesa da Constituição referia-se à sociedade. O trabalho que a colocasse em risco é que era vedado. O trabalhador enquanto tal, ainda que pertencente a essa mesma coletividade, não era sujeito de proteção constitucional, pois seu trabalho poderia ser degradante somente para ele, e não para a sociedade...
Já em 24 de fevereiro de 1891, passados pouco mais de 15 meses do fim da monarquia e da proclamação da República (15-11-1889), o Congresso Constituinte promulgou a Constituição da Republica dos Estados Unidos do
Brasil, com seus 91 artigos, além de outros 8 referentes às Disposições Transitórias. Foi a segunda da história.
O novo texto constitucional, contudo, demonstrou certa timidez na defesa dos direitos sociais da classe trabalhadora, mantendo, ainda que sob outra redação, a mesma proteção contida na Constituição de 1824, tal como reproduzido acima. Nesse sentido, é digno de nota tão somente seu art. 72, § 24: “É garantido o livre exercicio de qualquer profissão moral, intellectual e industrial”.
No campo dos direitos fundamentais em geral, o mesmo art. 72 referido no parágrafo anterior manteve praticamente todas as previsões da Constituição de 1824, merecendo destaque o fato de ter abolido a pena das
galés, o banimento judicial (§ 20) e a pena de morte (§ 21) e previsto o direito de ampla defesa, com todos os recursos e meios essenciais a ela (§ 16).
A terceira constituição brasileira veio na sequência da Revolução Constitucionalista de 1932 e foi a que menos tempo vigorou. Em 16 de julho de 1934 a Assembléa Nacional Constituinte promulgou-a com 187 artigos e outros 26 correspondentes às Disposições Transitórias. Em seu preâmbulo constavam como objetivos assegurar à Nação a unidade, a liberdade, a justiça e o bem-estar social e econômico.
A respeito da Constituição de 1934, Alexandre de Moraes observa o seguinte28:
A tradição de as Constituições brasileiras preverem um capítulo sobre direitos e garantias foi mantida pela Constituição de 16-7-1934, que repetiu – em seu art. 113 e seus 38 incisos – o extenso rol de direitos humanos fundamentais, acrescentando: consagração do direito adquirido, ato jurídico perfeito e coisa julgada; escusa de consciência, direitos do autor na reprodução de obras literárias, artísticas e científicas; irretroatividade da lei penal; impossibilidade de prisão civil por dívidas, multas ou custas; impossibilidade de concessão de extradição de estrangeiro em virtude de crimes políticos ou de opinião e impossibilidade absoluta de extradição de brasileiro; assistência jurídica gratuita; mandado de segurança; ação popular (art. 113, inc. 38 – Qualquer cidadão será parte legítima para pleitear a declaração de nulidade ou anulação dos atos lesivos do patrimônio da União, dos Estados ou dos Municípios).
Essa nova Constituição, especialmente em seu Título IV, que tratava Da Ordem Economica e Social, foi a primeira a fazer menção expressa a
direitos tipicamente trabalhistas em seu texto, tanto no âmbito coletivo como no individual. Seus artigos 120 e 121 previam vários direitos aos trabalhadores, destacando-se os seguintes: reconhecimento dos sindicatos e associações profissionais; pluralidade sindical; autonomia dos sindicatos; proteção social do trabalhador; proibição de diferença de salário para um mesmo trabalho, por motivo de idade, sexo, nacionalidade ou estado civil; salário mínimo; jornada de trabalho de 8 horas; proibição do trabalho a menores de 14 anos; proibição de trabalho noturno a menores de 16 anos; proibição de trabalho insalubre a menores de 18 e a mulheres; repouso semanal; férias anuais remuneradas; indenização por despedida sem justa causa; assistência médica e sanitária à gestante, assegurado a esta o descanso antes e depois do parto sem prejuízo do salário; previdência social; reconhecimento das convenções coletivas de trabalho.
Não é demais acrescentar que o art. 122 da Constituição Federal de 1934 instituiu a Justiça do Trabalho, como mecanismo de proteção da classe trabalhadora e dos direitos então reconhecidos29. Eis a redação do dispositivo constitucional:
Art. 122. Para dirimir questões entre empregadores e empregados, regidas pela legislação social, fica instituida a Justiça do Trabalho, á qual não se applica o disposto no Capitulo IV do Titulo I.
Paragrapho unico. A constituição dos Tribunaes do Trabalho e das Commissões de Conciliação obedecerá sempre ao principio da eleição de seus membros, metade pelas associações representativas dos empregados, e metade pelas dos empregadores, sendo o presidente de livre nomeação do Governo, escolhido dentre pessoas de experiencia e notoria capacidade moral e intelectual.
29Apesar do nome “Justiça do Trabalho”, esta nova instituição não se incorporava ao Poder Judiciário,
pois o próprio art. 122, caput, da Constituição de 1934 fazia essa exclusão expressamente. Seu vínculo, à época, dava-se com o Poder Executivo federal.
Como se pode ver, a Constituição Federal de 1934 representou um passo imenso na direção do reconhecimento dos direitos da classe trabalhadora, dando-lhes uma perspectiva semelhante àquela que já haviam dado as constituições mexicana, de 1917, e alemã, de 1919. Sua vigência, porém, foi curta.
Em 1937, após o golpe de estado que liderou, o então presidente da república Getúlio Vargas outorgou a quarta constituição brasileira, datada de 10- 11-1937, mesmo dia em que implantou o regime que passou a ser denominado Estado Novo e que perdurou até 1945.
No art. 122 dessa Constituição foram dispostos 17 incisos acerca dos direitos e garantias individuais, que repetiram as clássicas disposições passadas, mas, por outro lado, também ampliaram as possibilidades de aplicação da pena de morte (13, “a” a “f”).
No texto da Constituição de 1937 verificam-se mais avanços no campo dos direitos sociais. O trabalho, por exemplo, passou a ser considerado um dever social e um direito enquanto meio de subsistência. Era isso que dispunha o art. 136 dessa Carta:
Art. 136. O trabalho é um dever social. O trabalho intelectual, técnico e manual tem direito a proteção e solicitude especiais do Estado. A todos é garantido o direito de subsistir mediante o seu trabalho honesto e êste, como meio de subsistência do indivíduo constitui um bem que é dever do Estado proteger, assegurando-lhe condições favoraveis e meios de defesa.
Sua redação ainda garantia vários direitos trabalhistas mínimos, que poderiam ser ampliados pela legislação ordinária (art. 137, caput). A lista dos principais direitos trabalhistas, individuais e coletivos, referidos pela ordem constitucional de então era a seguinte: reconhecimento dos contratos coletivos de trabalho; repouso semanal e em feriados civis e religiosos; férias anuais remuneradas; indenização por despedida sem justa causa; salário mínimo; jornada de trabalho de 8 horas; adicional noturno; proibição de trabalho a menores de 14 anos e de trabalho noturno a menores de 16 anos e, em ambiente insalubre, a menores de 18 anos e a mulheres; assistência médica e higiênica ao trabalhador e à gestante, assegurado a esta, sem prejuízo do salário, um período de descanso antes e depois do parto.
A instituição da Justiça do Trabalho foi referida no art. 139 da Constituição de 1937, que paradoxalmente também declarava a greve e o lock- out recursos antissociais, nocivos ao trabalho e ao capital e incompatíveis com os superiores interesses da produção nacional.
Tudo indica, porém, que o grande feito da Constituição Federal de 1937 residiu em seu art. 136. O reconhecimento do trabalho enquanto dever social e do Estado, digno de proteção, alçou esse direito a um patamar até então desconhecido pelas Cartas antecedentes, mostrando-se com sendo o primeiro passo para sua qualificação como direito fundamental.
A quinta constituição brasileira foi promulgada em 18-9-1946, quase um ano após a deposição do presidente Getúlio Vargas pelo movimento militar que compunha seu ministério. Era o fim do Estado Novo e o nascimento de uma nova constituição.
O Capítulo II de seu Título IV tratava dos direitos e garantias individuais, sendo inaugurado pelo art. 141, cujos 38 parágrafos discorriam sobre direitos fundamentais que iam da igualdade perante a lei ao direito de petição perante os órgãos públicos.
A Constituição de 1946 ainda integrou a Justiça do Trabalho ao Poder Judiciário, pois até então ela estava integrada à estrutura do Poder Executivo, e reconheceu expressamente seu poder normativo (art. 123, § 2º).
Outros avanços são dignos de nota no campo do direito do trabalho, conforme rol de garantias mínimas contido no art. 157 da Constituição de 1946: salário mínimo capaz de satisfazer as necessidades normais do trabalhador e de sua família; proibição de diferença de salário para um mesmo trabalho por motivo de idade, sexo, nacionalidade ou estado civil; adicional noturno; participação nos lucros e resultados; jornada de trabalho de 8 horas; repouso semanal remunerado e nos feriados civis e religiosos; férias anuais remuneradas; higiene e segurança do trabalho; proibição de trabalho a menores de 14 anos e a menores de 18 anos em horário noturno e em ambiente insalubre, onde também era vedado o trabalho das mulheres; direito da gestante a descanso antes e depois do parto, sem prejuízo do emprego e do salário; estabilidade e indenização; reconhecimento das convenções coletivas de trabalho.
A greve, por sua vez, passou a ser considerado um direito (art. 158), ficando assegurada a livre associação profissional ou sindical (art. 159).
Mas essa nova Carta Política foi muito além. Ela foi a primeira a relacionar diretamente o trabalho à dignidade, apontando para o caráter fundamental desse direito social. Foi isso que revelou seu art. 145:
Art. 145. A ordem econômica deve ser organizada conforme os princípios da justiça social, conciliando a liberdade de iniciativa com a valorização do trabalho humano.
Parágrafo único. A todos é assegurado trabalho que possibilite existência digna. O trabalho é obrigação social.
O progresso obtido pelo direito do trabalho com a Carta Magna de 1946 não cessou e foi com a Constituição Federal de 1967, a quinta da República e a sexta do Brasil, decretada e outorgada em 24 de janeiro daquele ano, que sua vinculação com os direitos fundamentais foi aguçada, apesar de se viver em pleno regime militar e de sua elaboração por força do Ato Institucional nº 4 (AI-4), baixado pelo então presidente Humberto de Alencar Castelo Branco30.
O art. 157, II, da Constituição Federal de 1967 rezava o seguinte:
Art. 157. A ordem econômica tem por fim realizar a justiça social, com base nos seguintes princípios:
I – (...);
II – valorização do trabalho como condição da dignidade humana;
Os direitos conquistados pela classe trabalhadora por meio dos textos constitucionais anteriores foram mantidos e uma vez mais houve melhorias nessa área. Direitos que até então não haviam frequentado o topo da pirâmide normativa passaram a ocupar essa posição, destacando-se os seguintes: salário-família aos dependentes do trabalhador; proibição de critérios de admissões por motivo de sexo, cor e estado civil; participação dos trabalhadores
30 O presente Capítulo estuda tão somente a evolução dos dispositivos constitucionais sob a ótica dos
direitos dos trabalhadores. Não se ignora, obviamente, que o regime de exceção surgido em 1964 restringiu severamente as garantias fundamentais do povo brasileiro. Apesar disso, deve-se ressaltar que o art. 150 da CF de 1967, que tratava dos direitos e garantias individuais, muito se assemelhava aos textos constitucionais anteriores.
na gestão da empresa; intervalo para descanso; estabilidade ou fundo de garantia equivalente; colônias de férias e clínicas de repouso, recuperação e convalescença, mantidas pela União; aposentadoria para a mulher aos 30 anos de trabalho, com salário integral (art. 158).
O direito de livre associação profissional ou sindical foi mantido, bem como o direito de greve, este restringido no tocante aos serviços públicos e atividades essenciais.
Sem dúvida alguma, os avanços do legislador constituinte de 1967 no campo dos direitos sociais foram imensos, especialmente ao elevar a valorização do trabalho como condição para o alcance e manutenção da dignidade da pessoa humana. As bases contidas na Constituição de 1946 foram consideravelmente ampliadas e o caminho para a consolidação do direito do trabalho enquanto direito fundamental da classe trabalhadora estava pavimentado. Bastava percorrê-lo31.
Alterada substancialmente pelo Ato Institucional nº 5 (AI-5), de 13- 12-1968, e pela Emenda Constitucional nº 1, de 17-10-1969, a Constituição Federal de 1967 recebeu um texto praticamente novo outorgado pelos Ministros da Marinha de Guerra, do Exército e da Aeronáutica Militar32. A estrutura dos direitos trabalhistas, porém, permaneceu praticamente a mesma e chegou a ser ligeiramente ampliada com a inserção dos seguintes direitos na Carta: seguro- desemprego; aposentadoria para o professor após 30 anos e, para a professora,
31 O descompasso do texto revelava-se, porém, na diminuição da idade mínima para o trabalho, que
passou dos 14 para os 12 anos de idade (art. 158, X).
32 A Emenda Constitucional n. 1, de 1969, “promulgada” sob a vigência do Ato Institucional n. 5 (AI-
5), foi o equivalente a uma nova constituição em virtude de sua estrutura e fixação de quais dispositivos continuariam em vigor. No entanto, como assevera Alexandre de Moraes, “a Emenda Constitucional nº 1, de 17-10-1969, que produziu inúmeras e profundas alterações na Constituição de 1967, inclusive em relação à possibilidade de excepcionais restrições aos direitos e garantias individuais, não trouxe nenhuma substancial alteração formal na enumeração dos direitos humanos fundamentais” (Direitos humanos fundamentais, p. 15).
após 25 anos de efetivo exercício em funções de magistério, com salário integral.
Já em 5-10-1988 foi promulgada a atual Constituição Federal, concretizando o regime democrático na República Federativa do Brasil que se vive atualmente. Seu texto, o sétimo da história brasileira, foi inovador e estabeleceu uma nova ordem constitucional no País, especialmente no campo dos direitos sociais, como será visto a seguir.