4. BÖLÜM: BULGULAR
4.2. İLKÖĞRETİM SINIF ÖĞRETMENLERİNİN İLKÖĞRETİM I. KADEME
4.3.2. Ekonomik Boyut
Para a formação da relação de emprego, ou seja, para o surgimento das figuras do empregado e do empregador, como foi visto, é essencial que em um dos polos haja uma pessoa física, um ser humano. Mais precisamente, é necessário que haja ali um ser humano dotado de capacidade civil para contratar. Mas até mesmo nos casos em que essa capacidade não existe, poder-se-á estar diante de uma relação dessa natureza, porque as normas proibitivas de contratação de incapazes devem ser interpretadas como sendo de proteção, posição essa que prestigia os direitos fundamentais e a dignidade da pessoa humana.
Em verdade, a previsão do art. 3º, caput, da CLT, não autoriza a formação de contratos de emprego por toda e qualquer pessoa física. Sua leitura deve ser realizada à luz do art. 7º, XXXIII, da Constituição Federal, que proíbe qualquer trabalho a menores de 16 anos, salvo na condição de aprendiz, a partir de 14 anos. Ela também deve se orientar pelo disposto no art.
3º do Código Civil, segundo o qual são absolutamente incapazes os que, por enfermidade ou deficiência mental, não tiverem o necessário discernimento para a prática dos atos da vida civil e os que, mesmo por causa provisória, não puderem exprimir sua vontade (incisos II e III).
Porém, a proteção dada ao menor de 16 anos por meio da regra do art. 7º, XXXIII, da Constituição Federal, de acordo com o qual ele não poderá trabalhar, salvo na condição de aprendiz a partir dos 14 anos, bem como atuar em ambientes perigosos, insalubres ou em horário noturno, não pode ser lida sem uma visão protetiva. Como salienta Paulo Gustavo Gonet Branco, “(...) toda limitação de ordem etária a um direito fundamental deve ser compreendida como medida direcionada à proteção do menor, visando à melhor fruição pelo próprio menor do bem juridicamente tutelado”80.
Havendo trabalho nessas condições e a inserção do menor na categoria de empregado, todos os direitos daí decorrentes, como adicionais, reflexos e as verbas advindas de um contrato de emprego, deverão ser conferidos ao pequeno trabalhador, porque nulidades de ajustes dessa natureza são do tipo ex nunc, ou seja, não retroagem.
Interpretar as normas de proteção de outra forma faria delas regras de punição, permitiria uma vantagem excessiva e um incentivo ao mau empregador e, por fim, ofenderia a dignidade da pessoa humana e a Constituição Federal.
Esse ponto de vista ainda pode ser atribuído ao trabalho do menor em ambiente residencial, em serviço doméstico. De acordo com a
Convenção n. 182 da OIT81, regulamentada pelo Decreto n. 6.481, de 12 de junho de 2008, esta é considerada uma das piores formas de trabalho infantil, mas nem por isso uma relação de emprego dessa natureza poderia deixar de ser reconhecida, porque uma norma internacional que surgiu com o intuito claro de proteger não pode ser utilizada para agravar a situação do trabalhador.
O mesmo se diga em relação ao trabalho do civilmente incapaz. Mesmo essas pessoas, caso firmem um contrato de trabalho, deverão ter seus direitos trabalhistas e fundamentais reconhecidos, pois a condição defesa pela lei jamais poderia se sobrepor à qualidade humana que ostentam.
Nesse âmbito, não se devem discutir as diferenças entre capacidade de direito e capacidade de fato, mas sim qual é a interpretação que melhor favorece o prestígio da dignidade da pessoa humana contemplada pela CF, sendo aquela esposada nos parágrafos anteriores a que aparenta melhor correção nesse desiderato.
Outra questão que deve ser salientada dentro do conceito de vulnerabilidade da pessoa física diz respeito ao trabalho do estrangeiro.
Ao fazer referência à pessoa humana, a CLT não autorizou o trabalho de todo e qualquer imigrante. A observância de regras de imigração para trabalho no território nacional, na forma da lei, deve ser acatada pelo estrangeiro, princípio esse que encontra inspiração no disposto pelo art. 37, I, da Constituição Federal e que é retratado pelo Estatuto do Estrangeiro (Lei n. 6.815, de 19 de agosto de 1980)82.
81 A Convenção n. 182 da OIT foi aprovada pelo Decreto Legislativo n. 178, de 14 de dezembro de
1999, e promulgada pelo Decreto n. 3.597, de 12 de setembro de 2000.
82 A matéria relativa ao trabalho do estrangeiro em território nacional também é disciplinada pelas
Todavia, direitos que residem na dignidade da pessoa humana, tais como os direitos trabalhistas, não podem ser excepcionados por uma questão circunstancial de nacionalidade, sendo o caso de o caput do art. 5º da CF ser observado em sua inteireza83:
Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade (...).
Enfim, o objetivo do legislador trabalhista foi o de reconhecer e conferir direitos aos trabalhadores que venham a firmar contrato de emprego, desde que sejam pessoas naturais civilmente capazes e/ou maiores de 16 anos84 e vivam legalmente no País. Entretanto, uma vez existente uma relação de emprego na qual figure como empregado um trabalhador vulnerável que não atenda a essas condições, obviamente deverá ter seus direitos trabalhistas e fundamentais preservados, posto que referidas normas que tratam da menoridade, da capacidade civil e do trabalho do estrangeiro não podem se sobrepor à soberania da Constituição Federal, que tem por núcleo valorativo a dignidade da pessoa humana85.
de Imigração, sendo exemplos disso as Resoluções ns. 74, de 9 de fevereiro de 2007, e 77, de 28 de janeiro de 2008, dentre outras. Também não se pode ignorar que o art. 21 da Lei n. 6.815/80 autoriza o natural de país limítrofe, domiciliado em cidade contígua ao território nacional a exercer atividade remunerada no Brasil, sendo-lhe fornecido para tanto documento especial, que o identifique e caracterize a sua condição, e, ainda Carteira de Trabalho e Previdência Social, quando for o caso.
83 Em sentido contrário, vide Paulo Gustavo Gonet Branco, Curso de direito constitucional, p. 351. 84 Ressalvada a condição do aprendiz a partir dos 14 anos de idade.
85 Não se faz aqui uma apologia ao trabalho infantil ou ao trabalho ilegal do imigrante. Este trabalho
reconhece que a proteção da infância é um valor constitucional (art. 6º da CF), bem como os efeitos deletérios da imigração ilegal e da exploração a que se sujeitam essas pessoas. O que se quer destacar é que havendo trabalho apesar das proibições constitucional e legal, a melhor maneira de perseguir e alcançar o respeito à dignidade da pessoa humana passará, necessariamente, pelo reconhecimento dos direitos advindos da prestação realizada.
O trabalho realizado não poderá ser anulado e as partes não poderão voltar ao status quo ante, remanescendo tão somente a opção de reconhecimento do direito ao trabalho e das suas consequências naturais, como se aqueles óbices relacionados à idade, à capacidade civil e à imigração ilegal não existissem.
É assim que deve ser lida e aplicada a expressão “pessoa física” contida no caput do art. 3º da CLT no contexto de uma interpretação constitucional desse pressuposto caracterizador da figura do empregado.
Por tudo quanto foi visto, pode-se concluir que o requisito ser
pessoa física disposto pelo art. 3º da CLT quer significar que empregado é o ser humano apto a exercer atividades laborativas de acordo com as normas constitucionais e legais86, titular de direitos fundamentais e que, em maior ou menor grau de vulnerabilidade, presta serviços pessoais e de natureza não eventual a empregador, sob a dependência deste e mediante salário.
86 Ainda que isso não seja essencial para a conformação legal, conforme visto anteriormente no estudo