HAKEMLİ YAZILAR REFEERED PAPERS
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4. SONUÇ VE DEĞERLENDİRME
Os registros de casamentos são os mais detalhados. De acordo com as
Constituições Primeiras, neles deveria constar:
Aos tantos de tal mês, de tal ano pela manhã ou de tarde em tal Igreja de tal Cidade, Vila, Lugar ou Freguesia, feitas as denunciações na forma do Sagrado Concílio Tridentino nesta Igreja, onde os contraentes são naturais, e moradores, ou nesta, e tal, e tais Igrejas, onde N. contraente é natural, ou foi, ou é assistente, ou morador, sem se descobrir impedimento, ou tendo sentença de dispensa no impedimento, que lhe saiu, como consta da certidão ou certidões dos banhos, que ficam em meu poder, e sentença que me apresentaram, ou sendo dispensados nas denunciações, ou diferidas para depois do Matrimônio por licença do Senhor Arcebispo, em presença de mim N. Vigário, Capelão, ou Coadjutor da dita Igreja, ou em presença de N. de licença minha, ou do Senhor Arcebispo, ou do Provisor N., e sendo presentes por testemunhas N. e N., pessoas conhecidas (nomeando duas ou três das que se acharam presentes) se casaram em face da Igreja solenemente por palavras N. filho de N., e de N., natural, e morador de tal parte, e freguês de tal Igreja, com N. filha de N., ou viúva que ficou de N. natural, e morador de tal parte, e freguesia desta ou de tal Paróquia: (e se logo lhe der as bênçãos acrescentará) e logo lhe dei as bênçãos conforme os ritos, e cerimônias da Santa Madre
Igreja, do que tudo fiz este assento no mesmo dia, que por verdade assinei.122
Mesmo sendo o registro no qual conseguimos identificar o maior número de informações acerca dos envolvidos, a forma adotada pela paróquia do Pilar é bem mais simplificada que a exigida pelo documento oficial.
Do mesmo modo que o batismo, o matrimônio não se restringia ao valor religioso; normatizava a nova família também perante a administração pública e a justiça. Além disso, regulava os direitos dos cônjuges e dos filhos advindos daquela união, que se tornavam legítimos descendentes e herdeiros. O pároco presidia a cerimônia na qual os nubentes se recebiam em sacramento, mas também era responsável pelo registro do consórcio em livro próprio. A Lei nº 46, de 18 de março de 1836, é exemplo, pois regia sobre o matrimônio, de acordo com a concepção já citada, outorgando deveres administrativos aos párocos. Segundo o art. 7º, “o termo de registro de Matrimônio deve ser feito pelo pároco com as testemunhas, que foram presentes, declarando-se os nomes, e idades dos contraentes, os nomes dos pais, a ocupação do marido, e qualquer oposição, e impedimento, que possa ter havido.123 Entretanto, nem
sempre a legislação era completamente cumprida e todas as informações solicitadas eram registradas. Em 1844, a responsabilidade do pároco era enfatizada pelo art. 12º da Lei 258, aprovada em 23 de março daquele ano, também citada anteriormente.
A composição do documento muda de acordo com a época e a condição social do casal e de sua família. Noivos ilustres mereciam registros mais completos de seu enlace. Em alguns casos, consta o nome de seus avós, numa possibilidade de estudo da
122 CONSTITUIÇÕES PRIMEIRAS DO ARCEBISPADO DA BAHIA, Livro I, Título LXIV, parágrafo 269. Os grifos na citação do assento de casamento não são do texto original. Prestam-se, aqui, a esclarecimentos feitos pela autora, para dar maior clareza ao conteúdo citado. Sendo assim, no que se refere ao primeiro destaque, é importante lembrar que, apesar de a Igreja prever uma série de impedimentos para o casamento, os noivos podiam ser dispensados dos mesmos, o que ocorria com relativa frequência no Brasil. No caso de laços de parentesco em diversos níveis, podia haver “dispensa” por uma autoridade eclesiástica superior, nos chamados tribunais eclesiásticos. Na falta de documentação necessária para os proclamas, esta podia ser substituída por processos nos quais, por juramento ou testemunhas, o noivo ou a noiva confirmavam já serem batizados ou não terem outro compromisso que impedisse o matrimônio. O termo “banhos”, por sua vez, refere-se aos proclamas do casamento. O banho é o ato de anunciar o casamento, por três vezes, com o fim de ver se alguém denuncia alguma obstrução. A expressão comum é “correr os banhos” (Cf. BARBOSA, Waldemar de Almeida. Dicionário da terra e da gente de Minas). Já no caso do casamento de viúva(o), os noivos não recebiam as “bênçãos”, por já terem sido dadas quando do primeiro enlace.
genealogia de famílias abastadas da região. Em outros casos, o assento é extremamente sucinto, não sendo contempladas as informações mínimas exigidas pelo direito canônico. As atas de casamentos dos escravos tendiam a essa simplificação, preservando-se, contudo, o registro detalhado do nome dos proprietários. No decorrer do tempo, ao nos encaminharmos para o final do século XIX, observamos a tendência ao registro mais conciso para todos os extratos sociais.
Entre 1836 e 1843, consta com grande frequência a idade dos noivos. A identificação da cor surge também em 1836, mas desaparece a partir de 1840. Em 1849, a cor e a idade dos nubentes voltam a ser registradas com regularidade, desaparecendo em 1851, devido, provavelmente, à Lei nº 510, de 10 de outubro de 1851, que liberava o pároco da obrigação de recenseamento da população.
Esses dados, presentes no período pós-Independência, referem-se à preocupação da jovem nação em conhecer seus cidadãos. As décadas posteriores à Independência política brasileira são caracterizadas pela elaboração de listas nominativas e mapas de população, nos quais os habitantes de cada vila ou termo eram listados para que a administração pudesse melhor cobrar seus impostos e alistar suas milícias. A unidade tanto religiosa como administrativa era a freguesia ou paróquia, e os clérigos seculares, funcionários reais. Por isso, na ausência de documentos cartoriais e de juízes de paz, os registros paroquiais tinham essa dupla função: religiosa e administrativa, especialmente quando os párocos encaminhavam semestralmente, para o presidente da província, mapas de batismos, casamentos e óbitos. O poder provincial utilizava-se da organização das igrejas para seus propósitos governamentais.
No final do século, a informação sobre idade dos noivos e sua condição de legitimidade passam a ser rigorosamente observadas, indicando que as preocupações específicas de cada época variavam. Podemos observar, também, para o período proposto em nosso trabalho, algumas referências às profissões e ocupações dos noivos, com destaque para os cargos militares, além da grande quantidade de noivos originários de outras localidades, províncias e até países.
Era função do pároco conduzir o casamento, e o local adequado era a igreja matriz. Entretanto, observamos, pelas Constituições primeiras, que, sob licença, os coadjutores ou capelães podiam realizá-lo. Da mesma forma, o local podia ser outro. Temos a celebração de casamentos em capelas da freguesia ou em capelas e oratórios
particulares. O documento deveria ser assinado pelas testemunhas, pelo pároco ou sacerdote que assistiu ao matrimônio. A presença da assinatura das testemunhas é pontual.
De acordo com o Catecismo Romano, o sacramento do matrimônio tinha como finalidade máxima a maternidade e a formação de novos fiéis: a mulher deveria conceber, dar à luz e educar seus filhos na fé cristã. Da mesma forma, organizava a família de acordo com o modelo católico de regramento sexual e comportamental, de acordo com os deveres conjugais. Cabia ao marido a obrigação de tratar com generosidade e com honra a sua mulher, e de prover com seu trabalho o sustento da família. Entre os deveres da mulher, estavam a educação dos filhos e a administração das coisas da casa. Além disso, ela devia amar, respeitar e obedecer ao marido, além de ter um caráter íntegro e honesto.124
No Brasil e, especificamente, em Minas Gerais, durante todo o período colonial e imperial, o número de casamentos foi reduzido. Para o século XVIII, observamos que questões como a tradição ibérica (em Portugal, principalmente na região do Minho, de onde veio grande número de imigrantes para as Minas, a taxa de nupcialidade era extremamente baixa), a instabilidade social e geográfica da população que se deslocava em busca de melhores condições econômicas, e o desequilíbrio entre o número de mulheres e homens de mesma situação social inviabilizavam o casamento como norma. A grande maioria da população, tanto livre como escrava, mantinha-se em concubinato, vivendo coabitadas ou em domicílios separados, constituindo a chamada família fracionada, podendo ser identificadas pelo grande número de mulheres chefes de domicílio e homens solteiros vivendo sozinhos. A chamada família patriarcal, para as Minas Gerais dos séculos XVIII e XIX, limitava-se à aristocracia agrária, de número extremamente reduzido.125
124 HERNANDES, Pedro Martin (Tradução, introdução e notas). Catecismo romano. Madri: La Editorial Católica, 1956.
125 Estudos detalhados sobre questões acerca da família mineira, ver: VAINFAS, Ronaldo. Trópico dos pecados: moral, sexualidade e inquisição no Brasil. Rio de Janeiro: Ed. Campus, 1989; FIGUEIREDO, Luciano. Barrocas famílias. São Paulo: Hucitec, 1997; BRÜGGER, Silvia Maria Jardim. Minas patriarcal: família e sociedade (São João del Rei – século XVIII e XIX). Niterói: Annablume, 2007.
Buscamos observar o comportamento conjugal da população ouro-pretana, na segunda metade do século XIX, interpretando, a partir das fontes, as novas forças culturais que se estabelecem com a menor presença do trabalho escravo, maior valorização da família burguesa, disseminação do discurso higienista, e acesso dos jovens e das jovens à literatura romântica.
A tendência da segunda metade do século XIX foi uma maior legitimação da família livre, enquanto houve diminuição acentuada dos casamentos dos escravos. Esse aspecto será um dos pontos desenvolvidos no capítulo que trata do matrimônio.
Todos os livros pesquisados guardam assentos tanto de livres como de escravos, e cobrem tanto as núpcias realizadas na matriz como nas capelas filiais. Com isso, podemos acompanhar o comportamento dos ouro-pretanos, de acordo com sua condição social, no decorrer do período proposto. As fontes são também preciosas para descobrirmos o quanto a legitimidade dos filhos passa a se constituir em valor social e como se davam as relações de sociabilidade travadas a partir das uniões entre famílias, bem como o convite para os apadrinhamentos. Para tanto, dispomos de 1.346 assentos de casamentos.
O volume 509, localizado no rolo 105, registra seu primeiro casamento em 07 de janeiro de 1834, e contempla as uniões até 09 de fevereiro de 1865. O livro número 6 dá continuidade aos assentos guardados no livro anterior, pois tem início em 19 de fevereiro de 1865. Possui termo de abertura assinado pelo vigário Joaquim José de Sant’Anna: “Em virtude do disposto no art. 12º da Lei Provincial Mineira nº 258 de 23 de março de 1844 rubrico este livro destinado para assentos de Casamentos desta freguesia de Nossa Senhora do Pilar [...] Ouro Preto, 05 de abril de 1865”. O livro está muito bem conservado e cobre até o início do ano de 1882. O livro número 7 também dá continuidade ao volume anterior, sendo que tem como primeiro assento o casamento entre Marcolina Ferreira Couto, liberta, e Francisco Antônio Penido, realizado em 03 de dezembro de 1881.
Tanto a data de abertura do livro número 6 (posterior à data do primeiro assento lançado), como o primeiro registro do livro número 7 (realizado em data anterior à abertura oficial do volume) nos indicam que, apesar das ordens episcopais sobre a necessidade de se assentar o casamento logo ao final da cerimônia, muitas vezes, anotava-se os dados principais em um pedaço de papel que, posteriormente, eram
transcritos para o livro paroquial. Esse procedimento deveria ser comum para o caso das núpcias se realizarem nas capelas filiais ou mesmo em oratórios ou residências particulares. Isso acontecia também com os batismos e óbitos, e abria possibilidade para que se perdessem alguns registros, o que, futuramente, poderia causar dificuldade para aqueles indivíduos. Afinal, os assentos de batismos deveriam ser apresentados para a abertura dos proclamas de casamento e, possivelmente, para o sepultamento em solo sagrado. Da mesma forma, o registro de casamento era necessário para se comprovar a união legítima do casal, e o óbito do cônjuge deveria ser comprovado para o caso de novo enlace do viúvo ou viúva. Para remediar essas dificuldades, a matriz tinha livro específico para as justificações, chamado Livro Suplementar, que será apresentado adiante. Como já relatamos, não foi possível encontrar o livro de número 8, que abarcaria os anos de 1891 a 1901.