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Muito do que hoje é tido como uma novidade inaugurada pelo emergente campo da sociologia da infância no cenário acadêmico (como por exemplo, a relevância das ações sociais das crianças e o reconhecimento dos modos de produção simbólica das mesmas) se encontram presentes nos pressupostos teóricos de Walter Benjamin. Desse modo, a teoria crítica da cultura que esse autor desenvolveu ao longo de sua conturbada vida (pessoal e acadêmica) se mostra sensível à experiência de meninos e meninas.

Sônia Kramer (1998, p. 211) considera que o projeto benjaminiano consistia em encontrar o todo “numa obra, num objeto, num indivíduo, num fragmento, numa insignificância”. Na visão de Pereira (2012), encontramos nos texto de Benjamin algumas “pistas metodológicas”. Segundo essa autora, um programa de pesquisa produzido com base nas formulações teóricas desse autor, possibilita recolher os fragmentos constitutivos do cotidiano, pormenores que, de forma miniaturizada, são partes das grandes transformações. Segundo Pereira (2012, p. 28), são esses fragmentos, muitas vezes despercebidos, esquecidos ou banalizados, que “aguçam a percepção humana e demandam a esta, intermitentes questões”.

Entretanto, a crítica que Benjamin vai construindo, ao longo da arquitetura de seus escritos, em relação à modernidade é incontestável. O conjunto de suas análises apresenta uma crítica apurada acerca do discurso de progresso que marca a modernidade, o que na perspectiva benjaminiana, nada mais é do que um discurso de barbárie (SANTOS, 2015b).

Assim, buscamos, a seguir, compreender as contribuições desse autor no que diz respeito à criança e à infância e, em seguida, analisaremos a densidade do conceito de experiência por ele formulado e como tal conceito nos auxilia a compreender as especificidades da experiência infantil. Sabemos que existe uma distância que separa a época que Benjamin viveu – e que lhe era tão frutífera em termos de questões de ordem ética, estética e política – da atualidade, do mesmo modo como as produções culturais atuais são bem diversas em relação às observadas por ele, ao buscar compreender a experiência naquelas circunstâncias. Para Pereira (2012, p. 28), “isto implica dizer que, se por um lado a produção teórica de Benjamin se apresenta [...] como uma referência fundamental; por outro, não podemos exigir que responda àquilo que somente se apresenta como questão aos

contemporâneos do século XXI”. Nesse sentido, o esforço teórico conceitual aqui apresentado objetiva buscar subsídios teóricos para identificar e analisar as contradições existentes em torno da infância contemporânea e de suas experiências sociais.

Nos escritos de Walter Benjamin, encontramos uma noção de criança forte, potente e que se encontra envolvida pelas questões sociais de seu tempo, ideia que refuta veemente a noção de infância como período preparatório e ou como devir. Em Infância em Berlim por

volta de 1900, um livro escrito para seu filho Stefan, do mesmo modo em que Benjamin, no alto de seus 40 anos, mergulhado em suas próprias memórias de infância, recobra o mundo cultural da época, rememorando o modo de ver das crianças, suas sensibilidades, suas percepções e seus valores, numa espécie de relato de criança que assiste e descreve a cultura e a história de seu tempo à margem do mundo social adulto. Nesse texto, o autor realiza importantes relações entre diferentes dimensões temporais e culturais, construindo um quadro sócio histórico amplo, sem abrir mão de sua singularidade (GALZERANI, 2002). Nesse texto, o autor,

Traz à tona o perfil cultural de uma classe burguesa em relação com outras personagens de outras classes sociais. Produz, pois, uma transformação radical da visão clássica da autobiografia, já que focaliza não apenas lembranças pessoais, mas a vibração de uma memória pessoal e coletiva. Não fala dele apenas. Fala de um nós, na relação com os outros. Rememora a criança que foi articulada a outros personagens. Criança na relação com crianças, com adultos, situados em diferentes categorias sociais (GALZERANI, 2002, p. 59).

Nesse texto (assim como em vários outros em que trata da questão da infância e de sua educação), Benjamin demonstra conceber a criança como ser implicado nas problemáticas sociais de seu tempo, capaz de relatar o mundo (natural e simbólico) que a circunda. Desse modo, o autor acaba se distanciando da visão romântica e ingênua que a modernidade produziu sobre a criança demonstrando que ela “está inserida na história, pertence a uma classe, é parte da cultura e produz cultura” (KRAMER, 2008, p. 20). Sua concepção de infância, portanto, evidencia que é preciso não infantilizar as crianças. Em textos como Uma

pedagogia comunista (1929) e Programa de um teatro infantil proletário (1928), por exemplo, percebe-se que Benjamin não vê a criança de maneira romantizada, referindo-se a ela como um ser envolvido pelas questões culturais e históricas, implicado, portanto, na problemática social de seu tempo. Nos dizeres do autor: “a criança proletária nasce dentro de sua classe. [...] Desde o início, ela é um elemento dessa prole, e aquilo que ela deve tornar-se não é determinado por nenhuma meta educacional doutrinária, mas sim pela situação de

classe” (BENJAMIN, 1984 [1929], p. 90). No caso da educação das crianças, Benjamin (1984 [1928], p. 88) aponta severas críticas aos processos educacionais que as concebem como meros receptáculos de informações – o que apresenta certa conformidade com o discurso educacional de nossa época. O autor afirma que “as crianças [...] ensinam e educam os atentos educadores”. E ainda, que a criança deve ter o direito, principalmente quando inserida em contextos educacionais, de viver a plenitude de sua infância, pois “a pedagogia proletária demonstra sua superioridade ao garantir às crianças a realização de sua infância” (BENJAMIN, 1984 [1928], p. 87).

Isso pode ser constatado em textos nos quais Benjamin trata da questão dos brinquedos e do brincar. Ele analisa a história cultural dos brinquedos e enfatiza que, a partir do século XIX, os brinquedos artesanais vão paulatinamente dando lugar aos brinquedos industrializados. Em ambos os casos (com brinquedos artesanais ou manufaturados), as crianças brincam ao seu modo e, na maioria das vezes, alteram a função dos brinquedos (BOLLE, 1984) – entendidos como um suporte para a brincadeira e não o seu determinante.

O autor também afirma com aguçada sensibilidade, que as crianças “são especialmente inclinadas a buscarem todo local de trabalho onde a atuação sobre as coisas se dê de maneira visível” (BENJAMIN, 1984 [1926-1928], p. 77). E segue afirmando que elas se sentem seduzidas pelos destroços provenientes da construção, dos restos do trabalho realizado tanto no jardim quanto em casa, pelos detritos que surgem do ofício do alfaiate ou do marceneiro. É desse ponto de vista que “as crianças fazem história a partir do lixo da história”. Para Sônia Kramer, esta frase sintetiza a especificidade da infância na teoria benjaminiana. Segundo ela, na perspectiva de Walter Benjamin, “próxima dos mágicos e loucos, contra a racionalidade instrumental, a criança refaz a história com cada peça, cada pedra, retalho, pedaço, toco, resto” (KRAMER, 2008, p. 20). De acordo com Walter Benjamin (1984 [1928], p. 69):

Nada é mais adequado à criança do que irmanar em suas construções os materiais mais heterogêneos – pedras, plastilina, madeira, papel. Por outro lado, ninguém é mais sóbrio em relação aos materiais do que as crianças: um simples pedacinho de madeira, uma pinha ou uma pedrinha reúnem em sua solidez, no monolitismo de sua matéria, uma exuberância das mais diferentes figuras.

A pedagogização da infância, da cultura e da educação é severamente criticada pelo autor. Em textos como Programa de um teatro infantil proletário, Walter Benjamin critica, além da didatização dos objetos e da cultura, o autoritarismo dos adultos, aos quais as crianças estão submetidas (KRAMER, 2008). Nesse mesmo texto, o autor assume uma postura

reflexiva em relação à criança e à sua educação enfatizando que é contra a todo tipo de autoritarismo etário (isto é, se coloca contra a postura que na atualidade é denominada como o

adultocentrismo, presente nas relações entre adultos e crianças e, dentre elas, destacamos as práticas educativas). Em Brinquedos e jogos: observações sobre uma obra monumental, ele defende que “o mundo da percepção infantil está marcado, por toda parte, pelos vestígios da geração mais velha, com os quais a criança se defronta” (BENJAMIN, 1984 [1928], p. 72). O autor advoga ainda que as crianças produzem uma forma simbólica de relação com o mundo a sua volta e que lhes é própria, e que, tal produção é arquitetada num fecundo diálogo no qual as crianças garimpam significados na cultura dos adultos. Em Canteiro de obras, Benjamin (1984 [1926-1928], p. 77-78) defende que

As crianças formam seu próprio mundo de coisas, mundo pequeno inserido em um mundo maior. Dever-se-ia ter em mente as normas desse pequeno mundo quando se deseja criar premeditadamente para crianças e não se prefere deixar que a própria atividade – com todos os seus requisitos e instrumentos – encontre por si mesmo o caminho até elas.

Nesse sentido, no momento da brincadeira, quando estão entre si, as crianças se sentem convidadas a explorar vários objetos e demais aspectos do mundo cultural, sem depender de qualquer autorização para se relacionar com eles. Com isso, o autor nos incita a pensar que “as crianças não constituem nenhuma comunidade isolada, mas sim uma parte do povo e da classe de que provém. Da mesma forma, seus brinquedos não dão testemunho de uma vida autônoma e especial; são, isso sim, um mudo diálogo simbólico entre ela e o povo” (BENJAMIN, 1984 [1928], p. 70). Isso pressupõe que entre si, brincando e nas diversas formas de relações com seus pares, as crianças criam para si um pequeno mundo cultural próprio. Mundo esse produzido num criativo exercício dialógico pelo qual elas não apenas esquadrinham, no amplo mundo sociocultural dos adultos, aspectos a serem reproduzidos, mas oferecem-nos inovadoras formas ativas, genuínas e interpretativas com as quais percebem e recriam as relações sociais e a cultura. Desse modo, muitas vezes aquilo que os adultos preparam – julgando ser mais adequados a elas – é o que menos lhes desperta interesse.

Cumpre explicitar que, na perspectiva de Benjamin, “grande” e “pequeno” são conceitos que não expressam apenas relações de grandeza, mas de poder, provocadas pelas contradições que caracterizam a modernidade. Segundo Pereira:

Há que ponderar que para Benjamin os conceitos de “pequeno” e “grande” são desenhados e significados a partir de relações éticas, estéticas e epistemológicas. Expressam não apenas relações formais de grandeza, mas, sobretudo, relações de valor e de poder. Assim, “pequenos” não são apenas os fragmentos e os detalhes supostamente banais do cotidiano; são também os sujeitos excluídos pelas politicas sociais ou pelos grandes sistemas explicativos. “Pequenos” são também as crianças – seja em termos de estatura, seja em termos políticos – uma categoria social então com pouca visibilidade e autonomia (PEREIRA, 2012, p. 29 – 30, grifos no original).

Outros elementos presentes na obra de Benjamim (1984 [1928]) também contribuem para o exercício de diferenciação da experiência social dos mais velhos – que segundo esse autor é uma experiência que definha na atualidade e que, portanto, está em vias de extinção – e a dos pequenos. Ele alega que a repetição tem um lugar fundamental na experiência da criança. Para ele, “a repetição é a alma do jogo, nada a alegra mais do que o mais uma vez [...] e de fato toda experiência mais profunda deseja insaciavelmente até o final das coisas, repetição e retorno” (BENJAMIN, 1984 [1928], p. 74). Nesse sentido, enquanto o adulto narra sua experiência com êxito, a criança a recria incessante e intensamente: “O adulto, ao narrar uma experiência, alivia seu coração dos horrores, goza novamente uma felicidade. A criança volta para si o fato vivido, começa mais uma vez do início.” (BENJAMIN, 1984 [1928], p. 75).

O autor parte do pressuposto de que “toda e qualquer experiência mais profunda deseja insaciavelmente, até o final de todas as coisas, repetição e retorno, restabelecimento de uma situação primordial da qual nasceu o impulso primeiro” (BENJAMIN, 1984 [1928], p. 74-75). Nesse sentido, a experiência infantil segue o princípio da repetição, pois, de acordo com o autor:

“Es liesse sich alles trefflich schliten könnt mann die Dinge zweimal verrichten”

(tudo ocorreria com perfeição, se se pudesse fazer duas vezes as coisas): a criança age segundo esse pequeno verso de Goethe. Para ela, porém, não basta apenas duas vezes, mas sim, sempre de novo, centenas e milhares de vezes. Não se trata apenas de um caminho para tornar-se senhor de terríveis experiências primordiais, mediante o embotamento, juramentos maliciosos ou paródias, mas também de saborear, sempre com renovada intensidade, os triunfos e vitórias (BENJAMIN, 1984 [1928], p. 75).

A teoria crítica da cultura de Walter Benjamin apresenta grande sensibilidade para as potencialidades e especificidades das experiências das crianças e, dentre elas destaca-se o princípio da repetição – entendida como exercício de apreensão do real – por parte de meninos e meninas no momento da brincadeira. Contudo, o autor também desenvolve uma

teoria da experiência que, indubitavelmente, pode contribuir para a compreensão acerca da experiência social das crianças.

O conceito de experiência, embora receba contornos distintos em cada uma das fases de produção teórica de Walter Benjamin, é um tema que perdura e atravessa toda a sua complexa e multifacetada28 produção. Em um de seus primeiros trabalhos, um texto de 1913, intitulado “Experiência” – título esse que já sugere a importância desse conceito para sua teoria – Benjamin encara a questão da experiência como um problema proveniente do conflito entre gerações. Para Benjamim (1984 [1913]), os adultos costumam subestimar a experiência de jovens e crianças. Nas palavras do autor:

A máscara do adulto chama-se “experiência” [...] ele sorri com ares de superioridade [...] de antemão ele já desvalorizava os anos que vivemos, converte-os em época de doces devaneios pueris, em enlevação infantil que precede a longa sobriedade da vida séria (BENJAMIM, 1984, p. 23).

Nesse texto, o autor apresenta uma severa crítica aos adultos que desdenham da capacidade juvenil – e também das crianças – de intercambiar as próprias experiências. Não há, segundo Lima e Baptista (2013), um conceito de experiência preciso e bem definido nesse ensaio. Segundo os autores: “ela [a experiência29] não parece ser mais que uma oposição a um

modo de vida que Benjamin não suporta ou acredita. O filósofo, portanto, escusa-se de dar precisão sobre a qualidade de experiência que ultrapassaria a do ‘adulto30’ em seu alcance da

verdade” (LIMA e BAPTISTA, 2013, p. 455). Esse texto, publicado no início da trajetória acadêmica de Benjamin, configura-se como “uma crítica de como a experiência adulta é divorciada do espírito, introduzindo um conceito que se tornará cada vez mais complexo no decurso da escrita crítica de Benjamin31” (FERRIS, 2008, p. 42). Benjamim considera que, na visão dos adultos, quanto mais jovem é o sujeito, mais desmerecida é a qualidade da experiência de suas vivências. Entretanto, o autor demonstra clareza de que os anseios e os

28 Multifacetada na medida em que, na produção teórica desse autor, encontramos uma diversidade de formas

literárias – tais como textos ensaísticos, monográficos, aforismos, críticas, resenhas e cartas, para citar apenas algumas das principais formas textuais (MEINERZ, 2008). Igualmente, ela é uma obra complexa e densa em função das bases epistemológicas de seus pensamentos, pois se trata de um filósofo de extensa capacidade reflexiva e pouco (ou nada) ortodoxo, um marxista com densa inspiração humanista, que apreciava a ponderação teológica (KRAMER, 1998; 2008).

29 Grifos meus.

30 Cumpre esclarecer que adultez e juventude, nesse ensaio, se configuram como metáforas para ilustrar

respectivamente: o conformismo e comodidade (adultez) que se contrapõe à atitude e inconformismo (juventude) na produção de suas experiências (LIMA e BAPTISTA, 2013).

31

This early essay, a critique of how adult experience is divorced from spirit, introduces a concept that will become increasingly complex in the course of Benjamin’s critical writing (FERRIS, 2008, p. 42 – livre tradução nossa).

interesses das crianças e dos jovens são distintos daqueles que norteiam a maturidade. Atrelado a isso, ainda questiona o fato de que os adultos se esquecem de seus devaneios juvenis, “o que leva a um empobrecimento do diálogo entre gerações uma vez que, se o adulto esquece a criança que foi, a relação que estabelece com as crianças com as quais convive tende a se pautar na premissa da exterioridade” (PEREIRA, 2012, p. 44).

O problema geracional da experiência não aparece apenas no texto de 1913, mas, persiste em outros escritos do autor como em Jogos e brinquedos de 1928, obra na qual Benjamin (1984 [1928]) nos apresenta uma precisa diferenciação entre a experiência dos(as) mais velhos(as) e a dos(as) pequenos(as). Enquanto o adulto descreve sua experiência, a criança se fundamenta na repetição típica da brincadeira e dos jogos como forma de elaboração de suas experiências.

No ensaio Sobre o programa de filosofia futura, de 1918, Benjamin trata a experiência com mais complexidade. Fundamenta-se em Kant para pensar as possibilidades de construção de uma experiência mais ampla (transcendental) que possa ser concebida como forma de conhecimento (GAGNEBIN, 2011). Nesse texto, a questão da experiência não é mais vista como um conflito geracional: “Pelo contrário, como o título [...] indica, o conceito de experiência é tomado como a questão central a ser estudada na filosofia moderna, para resolver o problema que se coloca no caminho do seu desenvolvimento futuro32” (FERRIS, 2008, p. 42). Nesse artigo, conforme sugerem Lima e Baptista (2013) Benjamin não apenas apresenta uma revisão do conceito de experiência (e sua relação com o conhecimento) na obra de Kant, outrossim, expõe sobre as tarefas que seriam destinadas à filosofia futura na empreitada de integrar a teoria da experiência à do conhecimento. Segundo os autores, no

Ensaio sobre o programa de filosofia futura, Walter Benjamin demonstra-se “extraordinariamente aberto ao pensamento kantiano, a ponto tal que supõe a filosofia do futuro como uma revisão ou elaboração do sistema filosófico de Kant. Nem por isso, todavia, deixará de entrever suas limitações epistemológicas” (LIMA e BAPTISTA, 2013, 457).

Nesse ensaio, Benjamin encara a questão das potencialidades e dos limites da produção do conhecimento por meio da experiência, tendo em Kant sua principal fonte de

32 Here, experience is no longer viewed as a source of intergenerational conflict. Rather, as this essay’s title indicates, the concept of experience is taken up as the central question to be examined in modern philosophy if it is to resolve the issue that stands in the way of its future development (FERRIS, 2008, p. 42 – livre tradução nossa).

interlocução. Também se ocupa de uma questão que, como ele mesmo afirma, continua sem solução no pensamento kantiano e pós-kantiano: a relação entre conhecimento e experiência (FERRIS, 2008). Para Lima e Baptista (2013) Benjamin considera que Kant, em função do momento histórico em que viveu (iluminismo), não pode perceber outras qualidades da experiência. Segundo os autores:

Uma das grandes realizações desse ensaio é posicionar historicamente o próprio conceito de experiência em Kant (Matos, 1993, p. 130), ao afirmar que “para o Iluminismo, não havia autoridades, no sentido de não haver apenas autoridade a quem se deveria submeter incondicionalmente, mas também forças intelectuais que poderiam direcionar a fim de dar um contexto maior à experiência” (Benjamin, 2000, p. 101). A ambição kantiana de estabelecer as bases epistemológicas para toda a experiência é, segundo Benjamin, frustrada pela sua própria condição histórica, que simplesmente não o permitia considerar outras qualidades de experiência (LIMA e BAPTISTA, 2013, p. 458).

No mesmo ensaio, Benjamin acusa os filósofos que seguiram a linha de Kant de não atentarem para um elemento necessário a toda experiência, a sua continuidade: “no entanto, e no melhor interesse da continuidade da Experiência, a sua representação como sistema de ciências, como aparece nos neokantianos, sofre de graves deficiências33” (BENJAMIN, 1989 [1918], p.168-169). Isso não quer dizer que Benjamin “desejava dispensar todos os elementos do sistema kantiano, mas sim desprezar apenas aqueles que eram impeditivos para a constituição de uma experiência que levasse em conta as diferentes exigências da história – e não apenas as do seu próprio tempo” (LIMA e BAPTISTA, 2013, p. 458), ou melhor, aqueles elementos que não permitiam a Kant (e nem tão menos aos neokantianos) perceber as dimensões centrais que sustentam experiência: a continuidade e a linguagem. Desse modo, para o próprio Benjamin “é de grande importância para a filosofia do futuro reconhecer e resolver quais elementos da filosofia kantiana devem ser adotados e cultivados, e quais devem ser retrabalhados, e quais devem ser desprezados34” (BENJAMIN, 1989 [1918], p.164).

A falha em reconhecer a continuidade das experiências leva a uma relação entre experiência e conhecimento na qual a primeira é sempre considerada inferior ao segundo. Já na visão de Benjamin (1989 [1918], p. 167), “a estrutura da experiência se encontra na

33 Sin embargo, y en el mejor interés de la continuidad de La experiencia, su representación como sistema de

ciencias, tal como aparece em los neo-kantianos, adolece de grandes carências (BENJAMIN, 1989, p.168-169 – livre tradução nossa).

34 “Es en todo caso de la mayor importancia para la filosofia venidera averiguar que elementos del pensamiento

kantiano hay que acoger y cultivar, que elementos hay que transformar, y que elementos hay que rechazar” (BENJAMIN, 1989 [1918], p.164 – livre tradução nossa).

estrutura do conhecimento, e se desdobra a partir desta última35”. Ao término do ensaio, o autor ressalta que “a experiência é a pluralidade uniforme e contínua do conhecimento36” (BENJAMIN, 1989 [1918], p. 172), Para Solange Jobim e Souza (2002, p. 146 grifos no original), o que está em voga nesse texto é que

a compreensão do conceito de experiência é colocada nos termos de uma