Decidimos intitular nosso primeiro instrumento de coleta de dados como biografia profissional; no entanto, suas raízes são embasadas na história de vida, história oral e “biografia educativa” (JOSSO, 2004, p. 47). A história de vida se apreende ao levantarmos a forma como determinado profissional se constituiu ao longo do tempo, utilizando o relato das suas marcas existenciais, pontuando fatos, reconstituindo acontecimentos, participações, ações e eventos considerados significativos, que nos permitem compreender o processo de experiência adquirida. Queiroz et al. (1988, p. 20) reforçam o dito:
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A história de vida, por sua vez, se define como um relato de um narrador sobre sua existência através do tempo, tentando reconstituir os acontecimentos que vivenciou e transmitir a experiência que adquiriu. Narrativa linear e individual, dos acontecimentos que nele considera significativos, através dela se delineiam as relações com os membros de seu grupo, de sua profissão, de sua camada social, de sua sociedade global, que cabe ao pesquisador desvendar. Desta forma, o interesse deste último está em captar algo que ultrapassa o caráter individual do que é transmitido e que se insere nas coletividades a que o narrador pertence. Porém, o relato em si mesmo contém o que o informante houve por bem oferecer, para dar idéia do que foi sua vida e do que ele mesmo é. Avanços e recuos marcam as histórias de vida; e o bom pesquisador não interfere para restabelecer cronologias, pois sabe que também estas variações no tempo podem constituir indícios de algo que permitirá a formulação de inferências; na coleta de história de vida, a interferência do pesquisador seria preferencialmente mínima.
Para o nosso estudo, no qual a validação da constituição do profissional experiente pelos seus pares é muito importante, as mais diversas experiências vivenciadas ao longo da carreira, a história de vida por meio do que chamamos de biografia profissional contribui para que possamos levantar sua trajetória de vida e sua inserção na carreira profissional, considerando, assim, o tempo enquanto elemento determinante de seu desenvolvimento.
Concomitantemente, a biografia profissional provoca a reflexão pela busca dos acontecimentos e fatos marcantes e também a possibilidade de evocar a lógica da identidade e compreensão das fases e ciclos vividos, determinantes para o processo de transformação e desenvolvimento que hoje faz o professor experiente único, enquanto profissional.
Em uma de nossas visitas às escolas de nossos professores-colaboradores eles já haviam manifestado sua preocupação em colocar no papel sua biografia profissional e, por isso, solicitaram fazê-lo oralmente. Combinamos, então, como garantia, que elas fossem gravadas em uma primeira parte, tentando contemplar o todo dentro, é claro, de suas possibilidades; que fossem realizadas fora do período de aulas, para que eles pudessem ficar mais à vontade e ainda que, posteriormente à transcrição de cada uma, devolveríamos uma cópia para que, quando iniciássemos as entrevistas em um segundo momento, fosse possível se recorrer a alguns dados para que tanto nós quanto eles pudéssemos acrescer fatos e acontecimentos, solicitando mais ou menos esclarecimentos, entre outras coisas.
Esse fato mobilizou-nos na busca de fundamentos da história oral, como também contribuiu para a construção das entrevistas que, apesar de terem ocorrido após a observação participante, possibilitou que, em suas transcrições, levantássemos quatro grandes eixos de discussões e dez subtópicos que nortearam o roteiro de nossas questões nas entrevistas semi- estruturadas.
As buscas por fundamentos na história oral (NEIHY, 1996), agregada ao trabalho de biografia profissional de Josso (2004), foram feitas se pensando na possibilidade de contribuir
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com a nossa compreensão, a partir do instrumento de coleta de dados, para que, em razão dos professores solicitarem que suas histórias fossem narradas oralmente, elas pudessem ser consolidadas pelo nosso embasamento teórico, aqui apresentado como suporte referencial da escolha de nossa técnica de biografia profissional.
Desse modo, as origens tanto da história de vida quanto da história oral como técnicas de investigação qualitativa, surgem no início do séc. XIX, com trabalhos dos sociólogos preocupados, principalmente, com os problemas de urbanização e o impacto da imigração em massa nos Estados Unidos e com as condições de vida dos trabalhadores e desempregados na França. Acrescentem-se, também, os trabalhos dos antropólogos, com sua preocupação em descrever as culturas, recolher relatos e depoimentos de povos nativos, com o intuito de preservar seus hábitos, costumes e a memória da vida tribal.
Poderíamos dizer, citando Meihy (1996, p. 19), que dado o passado remoto de história oral, “é comum dizer que a história oral é tão velha quanto a própria história. Fala-se também que toda história antes de ser escrita passou pela oralidade”.
Esse argumento deve-se à descrença na utilização sobretudo da história oral como técnica de investigação, o que levou alguns autores a reverem em sua genealogia o que poderíamos chamar de “pré-história da história oral”. Para isso, basearam-se em pressupostos que vão até Heródoto, o pai da história, para compreender como era descrito o que se via, por meio do testemunho e da participação pessoal. Aí está exatamente o que compreendemos hoje como raiz da palavra história, que para os gregos representava “aquele que viu ou testemunhou”.
Com essa premissa que toma como fundamento o método de Heródoto, conhecido como história oral pura, podemos compreender, por intermédio de Meihy (1996, p. 20), como podemos caracterizá-la. “A história oral pura trabalha apenas com os depoimentos. Seja apenas uma ou várias narrativas, a história oral pode tanto revelar a entrevista ou a análise, desde que apenas sejam considerados os depoimentos como fontes”.
Apesar das regras rígidas vividas durante o século XIX, sob os domínios do positivismo - que legitimava o uso da história somente quando se baseava em documentos escritos, pois somente eles preservavam a verdade em si - teremos, no século XX, o grande salto da história oral, com a sociologia de Chicago, que sistematizou regras que foram e são até hoje capazes de dar toda a credibilidade às histórias de vida.
As histórias oral e de vida passaram, então, a ser incorporadas como uma técnica moderna por excelência, para “elaboração de documentos, arquivamento e estudos referentes à vida social de pessoas”. (MEIHY, 1996, p.13)
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Prosseguindo em nossas buscas e com a preocupação de garantir minimamente o levantamento da formação experiencial dos professores ao longo de sua carreira profissional, entramos em contato com o trabalho de Josso (2004, p. 47) que, para efeito desse estudo, tomamos como referência no processo de história de vida e autoformação presente na possibilidade de descrições que sejam “[...] compreensivas dos processos de formação, conhecimento e de aprendizagem do ponto de vista dos adultos aprendentes a partir das suas experiências formadoras [....]”.
Nosso desejo e nossa necessidade com essa técnica eram de que a biografia profissional fosse capaz de garantir que nossos sujeitos buscassem, em suas experiências significativas, presentes na lógica da construção narrativa, questionamentos como: Qual e o que é a minha formação? Como e de que maneira me formei e continuo me formando? Sabemos que são tipos de questionamentos que parecem nunca se esgotar, pois as experiências que levam em conta as nossas lembranças passadas mexem com o nosso presente e circunscrevem o nosso futuro.
No entanto, concordamos com Josso (2004, p. 47) de que o trabalho biográfico é, por sua força narrativa, um depoimento reflexivo, pois resulta de uma revisitação ao passado remoto para fornecer pistas de quem somos e continuaremos sendo como profissionais da educação.
A mediação do trabalho biográfico que leva à narrativa de formação dita “biografia educativa” (Dominicé, 1982, 1984; Josso, 1986) permite, com efeito, trabalhar com um material narrativo constituído por recordações consideradas pelos narradores como “experiências” significativas das suas aprendizagens, da sua evolução nos itinerários sócio-culturais e das representações que construíram de si mesmos e do seu ambiente humano e natural.
Com essa combinação de fundamentos metodológicos ousamos propor a nossa biografia profissional, que se iniciou logo após a apresentação do projeto para os professores de Matemática e, mediante o interesse manifestado, fomos, então, expondo sobre nossos instrumentos de coleta de dados. Considerando a preocupação de nossos informantes ao longo do mês de outubro, passamos a conversar a respeito da biografia e a responder aos seus apelos. E quando tudo parecia enfim superado, começamos a agendar nossos primeiros encontros. Todas as sessões foram feitas em ambientes escolhidos pelos mesmos, conforme as informações adicionais descritas abaixo:
a) O primeiro bloco de gravações da biografia profissional oral foi feito no dia 30 de outubro de 2007 com os professores Adriano M. da Silva, Antonio M. de Oliveira na E.E.E.F.M. “Carlos Drummond de Andrade”, no período da manhã, pois neste
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dia nenhum dos dois daria aulas. O depoimento do professor Adriano teve duração de 42’4”. Sua transcrição foi concluída no dia 23 de novembro de 2007. Em seguida registramos a biografia do professor Antonio, que teve duração de 38’2”, transcrita no dia 19 de novembro de 2007. Os dois depoimentos foram certificados por ambos, com o envio de uma cópia no dia 1° de dezembro do mesmo ano. b) As gravações da biografia profissional oral das duas professoras foram realizadas
no dia 3/11/2007, um sábado pela manhã, na E.E.E.F.M. “Cel. Aluízio Pinheiro Ferreira”. A professora Solange M. Borges12 foi a primeira e seu depoimento teve a duração de 54’59”. A transcrição foi finalizada no dia 27/11/2007; logo em seguida, fizemos com a professora Mariana A. da Costa12, com a duração de 26’12”. A transcrição foi finalizada em 20/11/2007. Ambas receberam uma cópia da transcrição e certificaram-na no dia 4/12/2007.
Destaque-se que, em razão da lotação do professor Antonio M. de Oliveira não ter ocorrido no ano letivo de 2008 - o docente é professor da rede municipal cedido para a rede estadual -ele teve de retornar, por solicitação da Secretaria Municipal de Educação, e acabou ficando lotado no ensino médio com Química e Física. Por isso resolvemos substituí-lo por outro professor. A dificuldade seria encontrar um professor com as mesmas características do professor Antonio, ou seja, com menos tempo de serviço. Depois de muita sondagem e já iniciando com nossa observação participante, encontramos o professor Marco A. de Andrade23 na E.E.E.F “Maria Comandolli Lira”. O docente havia sido transferido recentemente do distrito de Nova Estrela. Depois de termos apresentado o projeto e colocado a forma como iríamos levantar nossos dados, o professor concordou, mas adiantou que ainda naquele semestre poderia se afastar por motivos de saúde. Aceitamos e isso de certa forma atrasou um pouco o andamento da pesquisa, que no caso do professor se iniciou pela observação participante. Somente após o professor Marco ter a certeza sobre o seu afastamento é que agendou comigo a sua Biografia profissional.
O professor Marco marcou seu depoimento para o dia 21.7.2008, um sábado pela manhã, na sua escola, e, inicialmente, pediu muitas desculpas pelo atraso causado, justificado pelo seu estado de saúde. Seu depoimento durou 38’6” e foi transcrito no dia 28/8/2008. Em 4 de setembro recebeu uma cópia transcrita, à qual certificou.
Dessa forma, o processo de depoimentos da biografia profissional mostrou-nos o grande exercício do ouvir, pois a nossa presença e participação em suas histórias profissionais
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deixavam-nos ansiosos por poder estar colaborando com suas lembranças reflexivas. Ficávamos em muitos momentos mergulhados nos seus processos de construção de experiências, ora ouvindo coisas já sabidas, ora descobrindo muitas outras coisas desconhecidas, ou mesmo ficando estupefatos com toda a sua história e vivências, que os tornavam únicos em um universo que tende a naturalizar a heterogeneidade para aparentar homogeneidade.