Os professores que ora apresentamos são sujeitos que, como todos os demais cidadãos deste País, primam pela oferta de um serviço de qualidade e que deveriam ser compreendidos, na mesma lógica, como quem, dentro de suas possibilidades, oferece o seu melhor. Nem sempre, porém, os resultados de seus serviços dependem exclusivamente do seu trabalho individual. Os resultados da atividade docente não podem ser avaliados como os das demais profissões, em razão de seu trabalho ser eminentemente intersubjetivo, o que nos leva a concordar que um professor possa, individualmente, pela sua entidade de classe, conferir o seu desenvolvimento profissional, suas qualidades e competências para o exercício do magistério. Entretanto, dificilmente conseguirá mensurar dados que sejam capazes de determinar com precisão a força do seu trabalho individual, quando considerado o contexto geral onde atua, sua contribuição ou mesmo sua paralisação dentro do complexo cotidiano do sistema escolar.
Desconsiderar esse contexto interacional em que o professor atua seria a mesma coisa que não levar em conta a influência que sofre da diversidade representada em sua escola, em razão da grande heterogeneidade de culturas, conhecimentos, hábitos, costumes, regras, comportamentos, histórias, normas, entre outras tantas. Não é à toa que podemos dizer que a escola, o campo de atuação docente, é o enfrentamento de uma minirrepresentação da sociedade em tudo o que ela tem de melhor e, também o contrário.
Nas últimas décadas, inegavelmente, são profundas as transformações por que passa a profissão docente e, de acordo com Gatti (1996), isto se deve a inúmeros fatores que na verdade se conjugam: de um lado teríamos o crescente número de alunos nas escolas e sua heterogeneidade sociocultural, a evidente mudança da população, no tocante à cobrança da qualidade da escolarização e o impacto causado pelas novas formas científicas e metodológicas de conceber e mesmo agir com o conhecimento e o ensino. Teríamos, por outro lado, “a ausência de uma priorização político-econômica concreta da educação básica e
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o caráter hierárquico e burocrático, muitas vezes centralizador e pouco operante, das estruturas responsáveis pelos sistemas educacionais”. (ib., p. 30)
Os nossos professores integram, quase na totalidade, o relatório de pesquisa
apresentado pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura - UNESCO em 2004, “O perfil dos professores brasileiros: o que fazem, o que pensam, o que almejam...” e, devido à particularidade de nosso estudo ser com professores de Matemática, apresentaremos um breve perfil deles, com a função de auxiliar nossas configurações contextuais e o quadro de análises resultantes de seus contextos de atuação.
O perfil que passaremos a apresentar retrata nossa situação com o quadro de professores da rede oficial do Estado, na qual, do total de 22 professores de Matemática contratados, 12 são professores e 10 são professoras. Desse modo, nosso(a)s 4 professore(a)s colaboradore(a)s retratam um pouco o que pensam sobre algumas questões, principalmente sobre suas condições de trabalho e, também, sua consciência na caracterização mínima de seus alunos.
Carga horária de
trabalho Tipo de contrato Nome do(a) professor (a) Estado civil Idade Nº de filhos
Rede
públ. Rede priv. Rede públ. Rede priv.
Prof. Adriano M. da Silva –
E.E.E.F.M. “Carlos
Drummond de Andrade” Casado 45 3 40 20 Efetivo
Hora- aula Prof. Marco P. Andrade –
E.E.E.F. “Maria Comandolli
Lira”. Separado 51 2 40 - Efetivo -
Profª. Mariana A. da Costa – E.E.E.F.M. “Cel. Aluízio
Pinheiro Ferreira” Casada 44 2 40 + 20 -
Efetiva/ Emerg.
- Profª. Solange M. Borges –
E.E.E.F.M. “Cel. Aluízio Pinheiro Ferreira”
Casada 43 2 40 - Efetiva -
Quadro 1 - Professor pelo estado civil, idade, número de filhos, carga horária e tipo de contrato de trabalho
Fonte: Formulário intitulado “O docente e seu contexto de trabalho”, levantando entre julho e agosto de 2008.
Elaborado pelo autor deste estudo, integra os instrumentos da coleta de dados e antecede as entrevistas semi- estruturadas.
Os professores apresentam como característica pessoal mínima uma faixa etária compreendida entre 43 a 51 anos, a quase maioria é casada e tem entre dois e três filhos.
Com relação à carga horária de contrato, todos os professores possuem contrato de 40 horas com a rede oficial do Estado e são concursados efetivos. Sobrecarregam essa carga
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apenas a professora Mariana, que assumiu mais 20 horas de contrato com a rede oficial do Estado, porém com contrato do tipo emergencial, e o professor Adriano, que possui contratos de hora-aula com a rede privada, sendo um com uma escola particular de ensino fundamental e médio e outro com a Faculdade de Rolim de Moura. O próximo quadro nos informa a respeito de sua formação e tempo de serviço.
Formação no 2° grau
Nome do(a) professor (a) Normal Profission. Graduação Pós- grad. Lato
sensu Tempo de serviço Prof. Adriano M. da Silva21 – E.E.E.F.M. “Carlos Drummond de Andrade” - Contabilidade Magistério Lic. Em Mate- mática -Ensino de Matem. -Metodologia do Ens. Superior 22* Prof. Marco P. Andrade 11
– E.E.E.F. “Maria Comandolli Lira” - Contabilidade Magistério Lic. em Mate- mática Hist. e Geogr. c/ênfase em Educ. Ambiental. 21** Profª. Mariana A. da Costa11 – E.E.E.F.M.
“Cel. Aluízio Pinheiro Ferreira” - Contabilidade Magistério Lic. em Mate- mática. - Ensino de Matem. -Educação Matemática 25***
Profª. Solange M. Borges11 – E.E.E.F.M “Cel. Aluízio
Pinheiro Ferreira” - Contabilidade
Lic. Curta em Ciências com Hab.
em Matemática
- Ensino de Matem. -Educação
Matemática 23*
*Somente com os professores Adriano e Solange é que o tempo registrado corresponde efetivamente ao tempo dedicado com o ensino de Matemática.
** O prof. Marco registra 21 anos de tempo de serviço, porém 14 anos são dedicados às séries iniciais do ensino fundamental.
*** A profª. Mariana registra 25 anos de tempo de serviço, porém 17 anos são dedicados às séries iniciais do ensino fundamental
Quadro 2 - Professor por sua formação, graduação, pós-graduação e tempo de serviço
Fonte: Formulário intitulado “O docente e seu contexto de trabalho”, levantando entre julho e agosto de 2008.
Elaborado pelo autor deste estudo, integra os instrumentos da coleta de dados e antecede as entrevistas semi- estruturadas.
Quanto à formação no antigo 2° grau, todos os professores-colaboradores cursaram o profissionalizante em Contabilidade e justificam a escolha pela necessidade de ter de ajudar na renda familiar. Já o segundo curso profissionalizante em Magistério, feito por Adriano, Marco e Mariana, relaciona-se mais a uma opção profissional.
Outro destaque vai para a questão dos professores Adriano, Marco e Mariana terem cursado suas graduações na Universidade Federal de Rondônia - Campus de Rolim de Moura. Adriano graduou-se em Matemática em curso regular, já Marco e Mariana fizeram seus
21 Os nomes atribuídos aos professores Adriano M. da Silva, Antonio M. de Oliveira, Solange M. Borges e
Mariana A. da Costa são fictícios. Mantê-los no anonimato foi um pedido dos próprios, para que não ficassem expostos a eventuais represálias da parte dos superiores.
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cursos em serviço, pelo Programa de Habilitação e Capacitação de Professores – PROHACAP, desenvolvido pelo governo de Estado de Rondônia, em parceria com a Universidade Federal de Rondônia, por força da implantação da LDB 9394/96. Solange, que tem o maior tempo de serviço, fez seu curso de licenciatura em Ciências na cidade de Ourinhos e sua habilitação em Matemática na cidade de Jacarezinho – Estado do Paraná. Ainda em relação à formação, todos têm duas pós-graduações lato sensu em sua área de formação, com exceção do professor Marco, com apenas uma especialização, na área de História e Geografia, com ênfase em Educação Ambiental.
Quanto ao percurso profissional, foi perguntado há quanto tempo lecionavam de 6º ao 9º ano, se sempre haviam trabalhado nessa mesma escola e se durante o tempo de carreira já haviam lecionado outras disciplinas. Vejamos:
a) O professor Adriano foi o único a dizer que atua há 21 anos na mesma escola. Completou dizendo que também atuou por seis anos no Colégio Dedo Verde (rede privada) e hoje atua na Escola Clarice Lispector (rede privada - dois anos) e na Faculdade de Rolim de Moura (privada - dois anos). Também já lecionou Química por dois anos na escola da rede pública em que sempre atuou.
b) O professor Marco assumiu serem sete anos de trabalho com 6º a 9º ano. Passou por várias escolas e já lecionou Geografia na E.E.E.F.M “Carlos Drummond de Andrade” e na E.E.E.M. “Maria do Carmo de O. Rabelo.”
c) A professora Mariana diz serem aproximadamente seis anos de trabalho e que já atuou em pelos menos cinco escolas do Município, com 6º a 9º ano. Lecionou Ciências na E.E.E.F.M. “Nilson Silva” e também na própria escola, onde hoje atua. d) A professora Solange disse atuar os seus 22 anos com 6º a 9º ano, sendo que por três anos trabalhou na E.E.E.F.M. “Tancredo de Almeida Neves”, com as disciplinas História, Educação Moral e Cívica e Ciências; trabalha há 19 anos na E.E.E.F.M. “Cel. Aluízio P. Ferreira” e já lecionou Química, Artes e Ciências por dois anos.
Bastante interessante também o que disseram sobre suas condições de trabalho. Indagamos: a) se cada um tinha apenas um contrato de trabalho e de quantas horas era; b) se exerciam outra função remunerada e c) quais eram as condições de trabalho e como avaliavam o espaço físico e material da escola.
a) O professor Adriano disse ter contrato de 40 horas com a rede estadual, mas que possui 20 horas com a E.E.F.M. “Clarice Lispector” e que também atua com hora- aula na Faculdade de Rolim de Moura. Não respondeu no formulário, mas em
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conversa informal diz avaliar como precárias as condições de trabalho oferecidas por sua escola.
b) O professor Marco disse ter apenas um contrato de 40 horas com a rede estadual e, com relação ao espaço físico e material da escola, diz ser totalmente precário. c) A professora Mariana afirma ter apenas um contrato de 60 horas (sendo um de 40
horas efetivos e outro de 20 horas em caráter emergencial) com a rede estadual de ensino e, com relação às condições de trabalho, afirma que possui supervisoras legais, mas que não auxiliam quando necessita. Já quanto ao espaço físico e material, reclama de falta de espaço para refeitório, sala para reforço, além de uma sala para planejamento. No geral, afirma que os espaços físicos e materiais não estão em ótimas condições de uso.
d) A professora Solange também afirma possuir apenas um contrato de 40 horas com a rede oficial do Estado e quanto à condições de trabalho ofertado diz ser “razoável, pois a parte pedagógica nem sempre está presente para auxiliar. E fisicamente o espaço escolar é mal conservado e muito quente”. (20/8/2008) Por fim, solicitamos que nos descrevessem um pouco seus alunos no tocante a média de idade, a origem socioeconômica e ao interesse pela disciplina. Também pedimos que nos dissessem como eram seus alunos no plano de aprendizagem e comportamento.
a) O professor Adriano nos respondeu que a média de idade estava entre 13 e 15 anos, a origem socioeconômica variava entre média e baixa renda e que o interesse pela disciplina variava entre 25% a 30%. Com relação ao plano de aprendizagem e comportamento, o professor Adriano diz: “Em aprendizagem, há pouco acompanhamento pela família, daí resulta o alto índice de desinteresse (em torno de 70% a 80%), pois os mesmos não são cobrados, o que resulta numa aprendizagem fraca, e, em muitos casos o despreparo do profissional em sala de aula é também fator relevante, falando no geral, pois a Matemática depende de outras disciplinas, principalmente do Português na questão da interpretação, há uma forte correspondência ou dependência entre essas duas disciplinas”. (27/8/2008)
b) O professor Marco responde que a média de idade estava entre 12 e 16 anos, a origem socioeconômica é a de baixa renda e que o interesse pela disciplina é muito pequeno. Já quanto ao plano de aprendizagem e comportamento de seus alunos, ele afirma enfaticamente que existem alunos com grandes dificuldades de
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aprendizagem em Matemática, mas que são prejudicados pelo mau comportamento de uma maioria.
c) A professora Mariana nos respondeu que a média de idade estava entre 11 e 19 anos, a origem socioeconômica variava entre média e baixa renda e que o interesse pela disciplina variava de acordo com cada sala. Quanto ao plano de aprendizagem e comportamento de seus alunos, diz que considera normal alguns alunos terem mais dificuldades que outros. Já com relação ao comportamento, diz existir um grande número de alunos com problemas comportamentais que atrapalham muito o rendimento do restante da classe.
d) A professora Solange nos diz que a média de idade estava entre 10 e 25 anos ( incluindo o ensino médio), a origem socioeconômica é média baixa e que o interesse pela disciplina é mediano. Já no plano de aprendizagem e comportamento afirma que seus alunos são razoáveis, com aproveitamento de 60%, e no comportamento, 70%.
Com esse breve perfil apresentamos os nossos colaboradores com a finalidade de que possamos entendê-los no seu contexto de atuação, na sua forma natural de ser e construir cotidianamente o seu fazer; na intenção de compreender o papel que o tempo assume em seu desenvolvimento profissional e na constituição do professor experiente.
É preciso olhar para a profissionalização docente e enxergar que sua experiência construída diariamente não é referência de mera repetição da prática aplicada durante a vida toda, senão o resultado de uma miscigenação e amálgama de múltiplos saberes de naturezas diversas que, frente a determinadas situações e vivências inusitadas são testados, experimentados, adaptados e/ou readaptados num puro movimento reflexivo de aplicação num cotidiano. Este, por sua vez, não congela nem tampouco engessa para que se repitam os mesmos procedimentos, sem que nessa roda viva de acontecimentos diários nada se crie, modifique ou transforme. E assim, o seu desenvolvimento profissional diário afeta e também é afetado pela sua identidade e vida social.
Por fim, esperamos que esse breve perfil permita, juntamente com o campo de investigação, nos mostrar o cenário, o contexto de nossas escolas, de onde os sujeitos dessa pesquisa se esmeram diariamente para, ao longo de suas carreiras profissionais, aprenderem e se desenvolverem, se constituindo como professores experientes em seu ofício docente.
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