İKİNCİ BÖLÜM BİR VAROLUŞ SÜRECİ OLARAK SOSYALLEŞME
2.5. Bir Kültürlenme Süreci Olarak Sosyalleşme ve İletişim Araçları
2.5.2. İnternet Bağlantılı İletişim Araçları ve Sosyalleşme Süreçler
2.5.2.1. Sanal Cemaatler
As ruas tinham a função primária de servir como canais de escoamento das águas das chuvas e das águas-servidas. Subsidiariamente, elas funcionavam também como via de circulação. Essa ordem de prioridades funcionais inverteu-se nas cidades modernas. Em espanhol, a palavra que se fixou para designar rua é calle,
que tem a mesma etimologia da palavra portuguesa ―calha‖, cuja origem é o latim canalis, que vai dar em ―canal‖, ― cano‖. Rua veio do latim rugae, que significa
caminho e depois via margeadas por casas. Rua tem a mesma etimologia da
palavra ―ruga‖ (dobra na pele em forma de sulco ou vinco)65
.
Do rio que tudo arrasta se diz que é violento Mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem Bertolt Brecht
Fig.43: A. F., Sobre o Córrego do Acaba Mundo, 2008.
65
Fig. 44: A. F., Sobre o Córrego do Acaba Mundo, 2008.
Fig. 45: Trabalhos de alargamento do canal do córrego Acaba Mundo em 1963 na Rua Professor Morais. Fonte: Arquivo Público da Cidade de Belo Horizonte.
Fig 46: A. F., Sobre o Córrego do Acaba Mundo, 2008.
Fig.48: A. F., Sobre o Córrego do Acaba Mundo, 2008.
O leitimotiv dos Poemas tratava de tornar visíveis elementos da natureza urbana desapercebida, exaltando ou questionando o que estava oculto e inferior. As pedras espalhadas pela horizontalidade do solo foram deslocadas ortogonalmente, levantadas e reunidas equilibradamente na vertical. Em um segundo Poema, a água, ou melhor, um curso d´água foi selecionado e recolhido com a intenção de fazer também uma homenagem (Sobre
o Córrego do Acaba Mundo, 2008), uma performance voltada para a rememoração da
paisagem fluvial e pluvial da cidade. Tratava-se da imaginação de ver nas ruas um rio, e num complexo de ruas um complexo de afluentes.
A ação foi realizada durante uma tempestade de dezembro, se iniciando numa praça do Bairro Mangabeiras na região sul da cidade. A partir da Praça JK até o fim da performance, na Avenida dos Andradas ao lado do Parque Municipal, percorri aproximadamente 4,5 Km carregando uma caneca. O trajeto que eu segui, previamente traçado num mapa que a chuva borrou, correspondia exatamente à cobertura de um antigo córrego chamado Acaba Mundo, cuja cabeceira ainda visível se encontra na Vila do Acaba Mundo. Atravessando a
tempestade e andando a pé eu seguia descendente o trajeto desse córrego invisível, submerso em uma praça, um parque, e uma série de ruas e avenidas. A água recolhida no percurso com a caneca foi depositada no curso de água que eu perseguia, depois de desaguar no Ribeirão Arrudas, num local onde este último rio canalizado também não fora tomado pelo asfalto.
Fig. 49: A. F., Mapa utilizado na ação. As linhas azuis a caneta que marcavam o caminho pelas ruas foi diluído pela ação da chuva.
Fig. 50: Mapa de Belo Horizonte. Córregos canalizados em vermelho. Fonte: Projeto Manuelzão.
A primeira coisa a dizer sobre os córregos e rios escondidos de Belo Horizonte é que eles podem estar onde menos se espera. Mesmo em trechos super adensados e urbanizados, os 150 Kms deles que cruzam a cidade podem ser pressentidos ao mínimo. Geralmente, nas pistas sob as quais passa algum córrego existem instalados respiradouros quadrados feitos de vigas de ferro, aberturas por onde sobe um cheiro e vapor de esgoto juntamente com o som de água corrente para quem se aproxima deles. Em 2013, um músico chamado Marco Scarassatti, juntamente com o artista Fernando Ancil elaboraram uma instalação sonora (rio, 2013) a partir da gravação do som de vários desses córregos de Belo Horizonte. O som dos rios captados abaixo das grades foi recordado e deslocado até alto-falantes colocados na calçada do Palácio das Artes, por ocasião da exposição Escavando o Futuro (2013-2014). Os artistas trabalhavam com a ideia de transbordamento sonoro do rio e a revelação da paisagem abafada pelo trânsito de carros, numa proposta muito consonante com a minha intenção de dar forma e visibilidade ao percurso do rio.
Fig. 51: Marco Scarassatti gravando rios enclausurados de Belo
Horizonte. 2012.
Historicamente, desde a fundação de Belo Horizonte, os cursos de água naturais foram pensados como empecilhos de uma urbanização que se queria moderna e eficiente. A malha
em xadrez das ruas e quarteirões, característica de Belo Horizonte, foram desenhados no plano do papel sem a devida consideração sobre o terreno e a forma como os cursos d´água naturais se dispunham no relevo acidentado. Desde projeto ideal do urbanista Aarão Reis, até atualmente, a urbanização de Belo Horizonte ―briga‖ com os córregos e rios, estes últimos que provocavam e provocam frequentes inundações, sobretudo em suas áreas originalmente brejeiras.
Os córregos, utilizados pelas primeiras populações como escoamento do esgoto sem tratamento, foram paulatinamente canalizados, seus cursos retificados, e, por último, tampados com cimento armado e asfalto, os transformando um a um em longas galerias de esgoto e escoamento das chuvas. Porém, a situação durante as chuvas mais intensas, e, dado a condição de extrema impermeabilidade da cobertura construída dos solos somado às interferências e assoreamento dos leitos dos canais, fazem com que ocasionalmente os córregos retornem à superfície alagando as ruas. O tempo escolhido da performance foi necessariamente estipulado em um momento de tempestade pois este era o momento mais próximo da vista de uma irrupção dos rios na paisagem da cidade. Durante a ação, ao seguir o rio foi especialmente notável que todas as enxurradas das ruas em torno desciam inevitavelmente pela mesma via que eu seguia, o meu trajeto mimetizava o deslocamento do rio.