• Sonuç bulunamadı

SÜLEYMAN MABEDİ VE YAHUDİ TOPLUMU

Marina nasceu em Tupaciguara-MG, local em que morou com seu pai, sua mãe e uma irmã até os dezessete anos de idade. Estabelecia laços de amizade consistentes no ambiente escolar e nos grupos de prática esportiva cujas relações se estendiam também às famílias desses/as amigos/as. Apesar de ter-se descoberto homossexual entre os treze e dezessete anos, em meio à adolescência, sua identidade sexual não era visível para esses/as amigos/as:

Foi nessa fase de treze aos dezessete a descoberta, mas, depois, a gente passa por um processo muito lento, da descoberta, da aceitação, de você ver o que via em outro em você. É um processo muito lento até você superar todas essas fases e chegar um ponto em que você tenha uma tranqüilidade com a sexualidade. É uma fase demorada (agosto de 2007).

Sua relação com a sexualidade tornou-se tranqüila por volta dos vinte anos de idade, período em que vivenciou seu primeiro relacionamento afetivo homossexual:

Quando eu morava em Tupaciguara, eu praticamente nunca havia tido um relacionamento homossexual. Não havia manifestado para as pessoas o meu desejo homossexual, então, eu não era tida como homossexual. Quando eu fui manifestar o meu desejo, quando fui me aceitar, me reconhecer como homossexual, eu já estava aqui em Uberlândia. O círculo de amizades de Tupaciguara foi um círculo de amizades como se eu fosse heterossexual (agosto de 2007).

Marina mudou-se para Uberlândia em 1987, ano em que ingressou na universidade. O distanciamento da cidade de origem e a independência financeira foram os fatores que possivelmente evitaram conflitos com sua família quando sua identidade sexual tornou-se visível.

No período em que cursou sua primeira graduação, Estudos Sociais, mantinha restritas relações com as/as colegas de turma, era um curso noturno e passava pouco tempo de sua vida na universidade, sendo sua identidade sexual pouco visível naquele espaço. Estabelecia contatos pessoais com suas colegas de trabalho que faziam parte de seu ciclo de amizades. Não se recordava de ter passado por qualquer forma de constrangimento em nenhuma das graduações em função de sua identidade sexual:

A Educação Física foi outra fase da minha vida. Eu já era homossexual assumida, já sabia o que eu queria, tinha o meu círculo de amizades, fiz um círculo de amizade com as colegas que também eram homossexuais dentro da faculdade, aí, foi bem diferente. Eu nunca vivenciei nenhum tipo de constrangimento ou de problema. Sempre fui muito bem tratada. Não me lembro de ter tido nenhum problema com relação à sexualidade dentro da faculdade (agosto de2007).

Apesar de ter primeiramente se graduado em Ciências Sociais habilitando-se para atuar na disciplina Geografia, Marina sempre desejou fazer o curso de Educação Física. As questões econômicas exigiram-lhe que administrasse seu sonho com sua necessidade, mas conseguiu entrecruzar as duas questões:

O meu sonho era ser professora de Educação Física. O curso era integral e muito difícil para manter. Aí, eu fiz Estudos Sociais primeiro, em seguida, dava aula à noite e fazia Educação Física durante o dia. Na verdade, fiz Geografia nos Estudos Sociais para chegar até a Educação Física, mas, quando eu entrei na Educação Física eu já estava envolvida na área de Geografia. Já havia feito o concurso, conseguido progressão e estava no nível alto da carreira. Se eu voltasse para a Educação Física, teria que começar do zero (dezembro de 2008).

Marina atuou em alguns momentos de sua vida profissional como professora de Educação Física, mas optou em prosseguir na área da Geografia. Não se sentia frustrada por não atuar na área que a motivou tornar-se docente, principalmente, porque sabia que poderia fazê-lo a qualquer momento e, também, por acreditar que a atuação em áreas distintas comprometeria seu profissionalismo:

É muito complicado, hoje em dia se exige cada vez mais especialização, então, se você abranger um leque muito grande, acaba que não faz nada bem feito. A minha habilitação me permite dar aulas de História, Geografia e Educação Física. Mas quem consegue dar aulas de três conteúdos? Você acaba

169

sendo péssima em todos, pois não conseguirá acompanhar nem um nem o outro. Eu procuro focar bem num ponto e melhorá-lo. Eu estou com Geografia e trabalho com sexta, sétima e oitava. Você reduz o foco e consegue abranger melhor esse universo. Uma vez eu tentei. Peguei aulas de História, Geografia, Educação Física e OSPB. Por fim, eu arrumei uma confusão na minha cabeça até que me perguntei: “O que eu estou fazendo? O que eu estou fazendo com meus alunos? (dezembro de 2008).

As histórias de vida de Brenda, Fernando e João ressaltaram o ingressar na universidade como um momento em que suas identidades sexuais e de gênero puderam aflorar mais livremente. De certa forma, Marina vivenciou esse aspecto com relação à sua segunda graduação, Educação Física, quando pôde se identificar e conviver de forma tranqüila com outras pessoas que partilhavam da mesma identidade sexual. Seus relatos evidenciaram o ensino superior como o momento em que assumiram o papel de autores e criadores de si mesmos, o que Silva (1979) define como significado de “ser sujeito na educação”, fator considerado o ponto de partida e o termo imediato da ação educativa.

Renato não apontou o curso de Educação Física como um momento importante de sua vida na construção de sua identidade sexual, mas foi um marco em que legitimou um transitar pelas fronteiras do gênero ao realizar as práticas de futebol de salão junto ao grupo feminino. Essa mesma atribuição pode ser direcionada a Rogéria quando foi discriminada na universidade pelo fato de assumir uma imagem transgressora comparada ao que se esperaria de um estudante universitário. Dessa forma, podemos avaliar que o ensino superior foi um marcador de vivências representativas na construção identitária dos seis sujeitos da nossa pesquisa.

Parker (2002) constatou em seus estudos que na última parte do século XX os processos de industrialização, urbanização e desenvolvimento socioeconômico foram representativos na estruturação de identidades gays e lésbicas na sociedade brasileira contemporânea, uma vez que, aliada à necessidade de melhoria de vida, a migração de jovens para cidades de maior desenvolvimento econômico e com maiores possibilidades de educação, proporcionavam-lhes também a liberdade de vivência das sexualidades. Essa constatação foi evidenciada por Brenda, Fernando, João e Marina que ao se mudarem de cidades menores para ingressarem na universidade em Uberlândia, considerada um pólo de desenvolvimento do Triângulo Mineiro, consolidaram também suas identidades gay, lésbica e travesti. Fernando, ao contar-nos como seria assumir-se gay vivendo em sua cidade de origem, exalta os elementos elencados nessa discussão:

Eu sabia que lá na minha cidade eu tinha que viver de acordo com aquilo lá. Eu não poderia demonstrar muita coisa porque iria piorar a situação e eu perderia minha paz e meu sossego. Mas, ao ingressar na faculdade e ver tantas pessoas diferentes, coisa que lá na minha cidade seria tudo anormal, eu falei, não, se eles vivem bem com tudo que eles têm, eu posso viver também (Fernando, setembro de 2007).

Portanto, as histórias de vida desses sujeitos nos permitem também atribuir outros significados a essa “viagem” que não se restrinja somente a “um deslocamento entre lugares relativamente distantes”, percursos e trajetórias, mas, como sugere Louro (2004), pensar e refletir sobre uma distância cultural representada como diferença, no que é estranho, nos efeitos e transformações que essas partidas e chegadas podem desencadear nos sujeitos por representarem movimentos, encontros, misturas e também desencontros:

A viagem transforma o corpo, o “caráter”, a identidade, o modo de ser e de estar... Suas transformações vão além das alterações na superfície da pele, do envelhecimento, da aquisição de novas formas de ver o mundo, as pessoas e as coisas. As mudanças da viagem podem afetar corpos e identidades em dimensões aparentemente definidas e decididas desde o nascimento (ou até mesmo antes dele) (p. 15).

Remetendo aos aspectos discutidos na introdução e no capítulo II dessa pesquisa, Britzman (1996) comenta sobre a estreita relação culturalmente instituída entre as categorias gênero e sexualidade. O gênero é o condicionamento social de identificar-nos como homem ou como mulher enquanto a sexualidade representa a forma como vivemos culturalmente os desejos e prazeres do corpo. Assim, o ser masculino e o ser feminino foram construídos a partir de convenções biológicas e sociais que ao longo da história determinou a estreita relação entre natureza, sexualidade e gênero. Os sujeitos que transitam por essas fronteiras são tidos como transgressores/as, ou seja, os códigos e as marcas estampadas em seus corpos não permitem que outros sujeitos façam uma leitura linear e coerente com o esperado:

Essa confusão entre gênero e sexualidade parece ser mais notada quando, por qualquer razão, certos corpos não podem ser facilmente “lidos” e fixados como mais uma confirmação dos discursos da universalidade e da natureza. Estou chamando atenção, aqui, para aqueles corpos que são vistos como cometendo uma traição à “naturalidade” e, portanto, à normalidade do gênero e do sexo. A perturbadora questão “O que você é? Um garoto ou uma garota?” pode também significar “O que você é? Um gay ou uma lésbica?”. O pressuposto universal – ao menos até que seja perturbado – é que “todo mundo” é, ou deveria ser, heterossexual e que a heterossexualidade é marcada

171

através de rígidos binários de gênero. A transgressão de fronteiras generificadas resultará provavelmente no questionamento social da identidade do/a transgressor/a, bem como na penalizante insistência de que formas de masculinidades e feminilidades devem ser estabelecidas como rigidamente opostas, como desvinculadas do processo de construção social (BRITZMAN, 1996, p. 76-77).

Em meio à construção de suas identidades sexuais e de gênero, os seis sujeitos desta pesquisa também se construíram como docentes. O fato de estarem inseridos como professores e professoras no contexto escolar e a forma como se percebem neste espaço de inter-relações sociais consiste no ponto essencial das análises seguintes.