3.3. Operasyonel Risk ve Yönetimi
3.3.6. Operasyonel Risk Yönetimi ve Bu Riski Azaltma Yöntemleri
A vitória política dos Vargas nas eleições municipais de outubro de 1915 provocaria uma guinada no contexto político local, agora favorável aos Vargas. Borges de Medeiros, que atentamente observava os acontecimentos que ocorriam no município de São Borja, não deixaria de notar a atuação expressiva de Getúlio na defesa dos interesses políticos de sua família. Desse modo, reconheceria as estratégias e as atuações de Getúlio Vargas e nesse mesmo ano o convidaria para ocupar o cargo de chefe de polícia do estado. Compreende-se que se deve pensar esse convite no contexto de reaproximação de Borges com os Vargas. Segundo uma notícia do jornal O Maragato de 25 de setembro de 1915, na seção “Casos”, Borges de Medeiros iniciaria um movimento político de aproximação para que voltassem às fileiras do PRR os chefes políticos dissidentes. 320 A respeito dessa possibilidade de acomodação das dissidências, há uma interessante observação de Gunter Axt:
Se muitas rupturas eram irreversíveis, reconciliações, entretanto, não eram impossíveis. Podiam até ocorrer com certa freqüência, a exemplo do sucedido com os Neves da Fontoura, os Flores da Cunha e os Vargas, que, em diversos momentos, incorreram em distanciamentos do líder, mas recompuseram as relações oportunamente [...].321
Com o intuito de reaproximação dos Vargas, o poder estadual enviaria dois telegramas em caráter de urgência para Getúlio, um assinado por Salvado Pinheiro e outro pelo próprio Borges, nos dias 23 e 24 de novembro de 1915, consecutivamente, oferecendo-lhe a nomeação e solicitando sua resposta. Eis os dois telegramas:
1º Telegrama. Urgente. Dr. Getúlio Vargas 23 de novembro de 1915.
Impossibilitado continuar funções dedicado amigo Thompson Flores, eu e Dr. Borges desejamos vos nomear cargo onde prestareis relevantes serviços. Aguardo urgente solução. [...] Salvador Pinheiro.
320 O MARAGATO. 25 de setembro de 1915. Casos.... 321 AXT, Gunter. 2001b. op.cit.p. 110-111.
2º Telegrama. Dr. Getúlio Vargas 24 de novembro de 1915 Vice-presidente eu
acordamos vossa nomeação cargo chefe político esperamos não recusareis honrosa investidura [...] Borges de Medeiros.322
Getúlio, contudo, não aceitaria a nomeação e, logo em seguida, daria sua resposta também por meio de telegrama:
Agradeço profundamente desvanecido convite. Momento atual relevantes motivos impendem-me sair daqui. Fala-o-ia com sacrifícios caso não houvesse como há quem melhor desempenhe elevado cargo, somente não dizer-se sobreponho interesse regionais aos interesses gerais partido representado seus dignos chefes. 323
Julga-se que Getúlio Vargas teria rejeitado o convite por três motivos principais. O primeiro, por não querer se submeter ao poder palaciano, o que significava dever favores clientelistas a Borges de Medeiros. Talvez isso significasse para Getúlio abandonar seus planos locais de liquidação da grei comandada por Rapahel Escobar e ceder aos desígnios de Borges em “suas manias de conciliações” políticas. Em segundo lugar, Getúlio precisava se manter no âmbito local para fortalecer o poder político dos Vargas, e aceitar essa nomeação seria refutar todas as suas ações políticas de enfrentamento ao poder estadual realizadas desde a sua renúncia em outubro de 1913. Para Getúlio, não seria na primeira tentativa de cooptação política que os Vargas se submeteriam aos desígnios do poder borgiano, pois talvez ele pensasse como seu amigo João Neves da Fontoura, que na carta de 5 de dezembro de 1916 enviada a Getúlio, comentando a situação política de São Borja, salientaria que “[...] mais vale, entretanto, andar a gente fora dos altares a ter de fazer diariamente as reverências do protocolo, que gastam a espinha... e às vezes o caráter.[...]”.324 Em terceiro lugar, Getúlio percebia que ainda não era a hora certa de retornar ao cenário político estadual, pois possuía a intenção de pôr em prática os já citados planos de destituição do vice-intendente Apparício Mariense Filho.
Com a negativa de Getúlio Vargas à oferta da função de chefe de polícia, Borges lhe enviou outro telegrama em 29 de novembro de 1915, no qual deixava em aberto novas oportunidades de reaproximação com os Vargas e Getúlio. Nas palavras do líder palaciano:
322FGV- G V c – 1915. 11.23. Correspondência sobre convite de Borges de Medeiros a Getúlio Vargas para que
assuma a chefia de polícia em Porto Alegre. Porto Alegre, São Borja.
323
FGV- G V c – 1915. 11.23. Correspondência sobre convite de Borges de Medeiros a Getúlio Vargas para que assuma a chefia de polícia em Porto Alegre. Porto Alegre, São Borja.
324 FGV – GV c 1916.12.05. Data: 05/12/1916. Carta de João Neves da Fontoura a Getúlio Vargas comentando
notícias de sua ida à Cachoeira do Sul; situação política de São Borja vitória de Getúlio Vargas em questão judicial. Cachoeira do Sul.
Atendendo vossa escusa justificada, resolvemos nomeação Vieira Pires. Apreciando, porém vossos dotes pessoais e prestimoso concurso cívico, terei sempre satisfação em concorrer vossa elevação política, para o que aguardarei apenas necessária oportunidade. Saudações afetuosas. Borges de Medeiros. 325
Esse telegrama evidencia o reconhecimento por Borges das ações que Getúlio realizara em São Borja como articulador, estrategista e defensor dos interesses de sua família. Essa nova oportunidade ofertada pelo presidente do Estado de contar com os “dotes pessoais” de Getúlio se configuraria no ano de 1917, com o retorno deste à Assembleia dos Representantes.
Assim, o jornal A Federação publicaria no dia 26 de janeiro de 1917, com o título “Representantes à Assembleia do Estado”, os nomes escolhidos para a lista de candidatos à eleição que se realizaria no dia 26 de fevereiro para a renovação do mandato. Esta lista seria submetida à consulta dos diretores locais, o que era apenas mera formalidade, visto que quem decidia a nominata era Borges de Medeiros. Nesta lista constava o nome de Getúlio Dornelles Vargas, advogado em São Borja. A eleição, regulada pela lei nº. 153, de 14 de julho de 1913, e pelo decreto expedido por Borges nº. 2235, de 17 de janeiro de 1917, garantia, entre outros aspectos, a representação de todas as opiniões políticas na medida proporcional às suas forças eleitorais. Aplicada a regra da proporcionalidade, o PRR garantiria 29 representantes, e os opositores federalistas ocupariam três vagas nessa legislatura. Um desses representantes do PRR seria Getúlio Vargas, eleito deputado para a 8ª legislatura com 79.724 votos; em contrapartida, um dos representantes da minoria seria Gaspar Saldanha, deputado federalista que acenderia os debates políticos dentro da Assembleia dos Representantes, rompendo com o marasmo de um parlamento que só discutia a temática orçamentária.
Pondera-se ser conveniente tecer algumas considerações que se apresentaram ao longo da análise documental sobre a questão do retorno de Getúlio à Assembleia dos Representantes em 1917. Na carta de João Neves da Fontoura enviada a este em 28 de maio de 1917, o missivista descrevia o constrangimento com que Getúlio havia aceitado a inclusão de seu nome na lista de candidatos. Fontoura narrava assim sua percepção pessoal da situação: “[...] vejo pela tua carta o enorme constrangimento com que aceitaste outra vez a candidatura à duminha e bem justifica que o campanário te obrigasse outra vez a ceder. [...]”.326
325 FGV- G V c – 1915. 11.23. Correspondência sobre convite de Borges de Medeiros a Getúlio Vargas para que
assuma a chefia de polícia em Porto Alegre. Porto Alegre, São Borja
326 FGV – GV c 1917.05.28. Data: 28/05/1917. Carta de João Neves da Fontoura tecendo comentários à situação
A afirmação do missivista levanta algumas incertezas quanto ao retorno de Getúlio à Assembleia dos Representantes: seria apenas um discurso construído por Getúlio para disfarçar seu retorno ao poder e a cooptação de Borges em vista de sua posição anterior, de enfrentamento com o líder palaciano junto ao seu amigo? Teria realmente ele decidido voltar à Assembleia por pressões políticas de seus familiares? Ou pesara a possibilidade de galgar postos mais elevados dentro do cenário político? Acredita-se que as colocações de Getúlio em relação ao constrangimento, na verdade, foram um discurso construído para encobrir sua reaproximação com Borges de Medeiros. Afinal, há também que se considerar que, no contexto em questão, aqueles que possuíam a pretensão de continuar sua trajetória político- partidária sabiam que necessitavam do consenso de Borges, como bem demonstra Luiz Alberto Grijó:
[...] cabe salientar novamente que os percursos políticos aqui em questão deram-se atrelados à Borges de Medeiros [...], tal atrelamento foi com efeito decisivo para todos os casos na medida em que permitiu a esses políticos o alcance de posições cada vez mais importantes [...]. Mesmo sendo tais relações com Borges bastantes tensas ao ponto mesmo de terem ocorrido rupturas, principalmente por questões de disputas de poder em nível local e que envolviam os grupos familiares, as resoluções desse conflito abriram as portas para a atuação nos planos estadual e federal que estavam estreitamente controlados por Borges de Medeiros. [...] Por outro lado, o controle do poder local por familiares próximos e/ou por eles próprios constituíam ‘bases’ importantes de apoio e índice de prestígio que os constituía [...].327
Outra carta que também possibilita diferentes interpretações sobre o retorno de Getúlio à “duminha” foi enviada por Flores da Cunha a Getúlio Vargas em 26 de junho de 1917. Nesta correspondência observa-se que ambos estavam elaborando estratégias para o retorno de Getúlio ao cenário político estadual. Escrevia Flores da Cunha:
[...] as cousas lá por Porto Alegre correm já bem melhoradas! Houve momentos, meses atrás em que muito temi pela vossa pobre sorte! Sabes lo que te quero decir!!... Quando digo nossa eu quero referir a tua e a minha, bem se vê!!! Hoje porém julgo tudo suavizado. O Pereira da Cunha está, tanto ou mais do que eu, informado do que ocorreu e do que ainda poderá ocorrer!.... Conviria assas uma entrevista nossa antes de tua ida a Porto Alegre. Penso que só devereis ir por ocasião da abertura da duninha, et four cause!!... [...] 328
327 GRIJÓ, Luiz Alberto. 1988. op.cit. p.192.
328 FGV – GV c 1917. 06.26. Data: 26/06/1917. Carta de Flores da Cunha a Getúlio Vargas sugerindo um
encontro entre ambos antes da sua (GV) ida para Porto Alegre e recomendando que só viaje por ocasião da abertura da Assembleia. Uruguaiana.
Faz-se importante ressaltar algumas evidências que essa correspondência permite: a) confirma as afirmações de que os Vargas e Borges haviam acertado as divergências políticas entre ambos; b) ilustra bem as relações sociais de Getúlio que o favoreciam, na medida em que o informavam da “politicagem” que grassava na capital gaúcha, o que lhe permitia se posicionar perante o líder palaciano; c) não se sabe o teor desse possível encontro, nem mesmo se ocorreu, mas, pelo retardamento de Getúlio em ocupar seu lugar no parlamento estadual, é possível que tenha havido entre Flores da Cunha e Getúlio a combinação dessa estratégia.
Diante do exposto, acredita-se que, por meio das mais diversas estratégias utilizadas por Getúlio – como mediador dos interesses dos Vargas; utilização das relações sociais com figuras importantes do cenário político estadual e mesmo regional; o exercício da advocacia; a arregimentação de eleitores em outros municípios; a defesa de sua família através da imprensa local e estadual –, esse personagem fortaleceu o poder dos Vargas no âmbito local, iniciando um novo período de relacionamento com o poder estadual, o que lhe possibilitaria ser convidado por Borges a ocupar uma vaga na Assembleia dos Representantes no ano de 1917.
Getúlio havia cumprido a tarefa que se propusera ao renunciar ao seu mandato, ou seja, tinha conseguido defender o poder político de sua família. Sagrava-se vitorioso, com o nome e o prestígio assegurado, elogiado e reconhecido pela sua rede de relações sociais como verdadeiro defensor de sua família e, se antes seu prestígio era escudado na herança política de seu pai, agora era consagrado pelos seus amigos e correligionários como verdadeira “alma heroica da resistência”. Tinha, pois, se revelado um hábil político, estando pronto, segundo o grupo que lhe prestava apoio, a ocupar posições maiores no cenário da política estadual. Getúlio consolidou-se politicamente durante a sua ausência do cenário estadual nos anos de 1913 a 1917, tendo suas ações reconhecidas por Borges a ponto de este nomeá-lo como o líder informal da bancada do PRR na Assembleia dos Representantes em 1917, a qual enfrentava forte oposição dos federalistas, que tinham na figura de Gaspar Saldanha o principal opositor e contestador do PRR e do poder de Borges de Medeiros. A partir de então, a trajetória política de Getúlio começaria a alçar postos cada vez mais elevados dentro do PRR, a ponto de se tornar, em 1928, presidente do Rio Grande do Sul e estar à frente da Revolução de 1930, tornando-se, então, presidente do Brasil.