3.1. Kredi Riski ve Yönetimi
3.1.2. Kredi Riski Ölçüm Yöntemleri
3.1.2.1. Kredi Riski Ölçümünde Geleneksel Yöntemler
Ao longo da Primeira República, as relações políticas entre poder local e poder estadual revelaram diferenciadas configurações, as quais seriam perpassadas por atritos, cooperação e cooptação, num constante jogo de interesses na ânsia pelo poder. Questões envolvendo rivalidades, desejo de poder, querelas políticas, ações sub-reptícias tangenciariam as ações dos envolvidos nos confrontos intrapartidários, expondo as conturbadas relações intestinas nas hostes do PRR.78
Na análise dessa relação entre poder estadual e poder local, encharcadas pelo sistema coronelista, acredita-se que as reflexões de Loiva Otero Félix fornecem subsídios para se entender o contexto político que intermediava as ações e estratégias dessa natureza. Segundo a autora, o Estado possuía força e eficiência perante os mandatários locais, os coronéis, mas não isso não era suficiente para eliminá-los. Assim, ambos os lados faziam concessões para se manterem; “partido/governo e coronéis, sobreviveram ajustando-se. Processou-se uma relação dialética e não linear no comportamento político dos dois grupos em sua partilha pelo poder”.79
Outra contribuição nesse sentido é fornecida por Gunter Axt ao destacar que
se o poder central delegava tão importante fonte de prestígio político e de cooptação aos coronéis era porque precisava muito do seu apoio, e porque o seu prestígio local seria conveniente para o regime. De qualquer forma, essa dialética
78 Cabe lembrar também que o Rio Grande do Sul vivenciava um contexto interno próprio para a política
regional. A “divisão de forças políticas” e a “bipolarização partidária” favoreciam a “coesão e a disciplina interpartidária”. A oposição estável que se formara desde a implantação da República também servia como fator aglutinador dos republicanos e de apologia, tanto em nível local como regional para unir o partido. Assim, o custo político de eliminar a oposição seria maior do que a necessidade de tolerá-la. TRINDADE, Hélgio.
Aspectos políticos do sistema partidário rio-grandense (1882-1937): da confrontação autoritário-liberal à
implosão da aliança político - revolucionária de 30. In: RS: economia e política. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1979, p.119-120.
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revela um aparelho de Estado infraestruturalmente frágil, que precisa delegar ao poder privado uma importante fonte de prestígio e cooptação porque, em parte, dele depende politicamente [...]. 80
Ora, ao concordar com essa afirmação, está-se ciente de que a disciplina férrea e a incondicional fidelidade partidária, propaladas nos discursos republicanos e até mesmo por opositores, revelam-se inconsistentes. Como já frisado, os estudos historiográficos realizados nos últimos anos fazem uma releitura da disciplina partidária e das disputas internas nas fileiras republicanas, apontando que o regime borgista estaria condicionado ao jogo de interesses pessoais e privados que agitava a rede de sustentação do poder.81
Essas vicissitudes políticas eram engendradas entre os mandatários locais, nos municípios do interior do Rio Grande do Sul, e o representante do poder regional Borges de Medeiros, que necessitava consultar aqueles. Nessa permanente tensão estrutural entre poder estadual/partido/poder local, o presidente do Estado e chefe do partido do PRR reconhecia a autoridade proveniente do coronel, admitindo seu poder político em âmbito local e, às vezes, regional. Ao reconhecer esse poder dos mandatários locais, Borges de Medeiros alicerçava nos municípios as bases de sustentação do regime borgiano.
Os coronéis, por sua vez, transformados em intendentes, participavam do jogo do poder valendo-se de sua força política pessoal e do prestígio em meio a seus “currais eleitorais”, possibilitando, assim, a arregimentação de votos.82 Em troca recebiam o respaldo para suas ações nos municípios, a garantia do continuísmo político, a consolidação de suas forças nas lutas interpartidárias locais, a permanência de privilégios e “carta-branca [...] em todos os assuntos relativos ao município, inclusive na nomeação de funcionários estaduais do lugar”.83 Em face desse desempenho também eram agraciados pela “tão conhecida “vista grossa” que os governos estaduais sempre fizeram sobre a administração municipal [...]”. 84
80 AXT, Gunter. 2001b. op. cit. p.138. 81 Idem, Capítulo I. Iluminando o objeto.
82 No Rio Grande do Sul, a “[...] ideologia dominante era ligada à filosofia positivista que desdenhava o
mecanismo do voto. [...] o voto era considerado pelos positivistas como instrumento de concepções metafísicas ultrapassadas. Tal menosprezo pelo sistema representativo manifestou-se na legislação eleitoral que tendia a favorecer as fraudes com a manipulação das eleições e a manutenção do sistema estabelecido. [...] Júlio de Castilhos, e mais tarde Borges de Medeiros, não suprimindo o mecanismo do voto, mas apenas seu conteúdo significativo permitiam a continuidade do papel funcional dos coronéis [...]”. FÉLIX, Loiva Otero, 1996. op. cit. p. 86-88.
83 LEAL, Vítor Nunes. Coronelismo, enxada e voto: o município e o regime representativo no Brasil. 2. ed. São
Paulo: Alfa-Omega, 1975, p.49.
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Com essas estratégias no âmbito local, Borges de Medeiros pretendia reforçar seu poder, ao mesmo tempo em que garantia a integração dos coronéis no Partido Republicano Rio-grandense. 85
Concomitantemente com as alianças entre o poder estadual e o poder local, a estrela maior do PRR, Borges de Medeiros, procurava intervir nos municípios.86 Para tanto, utilizava- se como um dos instrumentos de intervenção das prerrogativas contidas na Carta Constitucional gaúcha promulgada em de 14 de julho de 1891. A Constituição estadual trazia no seu Título III matéria que legislava sobre a organização municipal. Amística da autonomia municipal era efetivada por meio do sistema de cartas próprias, possibilitando que cada município elaborasse sua Lei Orgânica, respeitando os princípios da Constituição estadual. Sobre essa questão, Félix esclarece:
No Rio Grande do Sul, valorizava-se o município, dando-lhe a aparência de participação, mas na prática, como o presidente do Estado, enfeixava também a função legislativa, fazendo com que a Assembleia só tivesse poder ratificador e orçamentário, o domínio sobre o município tornou-se maior, embora não chegasse a suprimir o poder local, porque precisava dele para as atividades eleitorais. 87
Simultaneamente às prerrogativas constitucionais que expressavam certa autonomia aos municípios, criou-se um mecanismo jurídico que, em grande parte, anulava a pretensa autonomia municipal, deixando em aberto a possibilidade de interferência, por meio do Poder Executivo, nos municípios sempre que o sistema instituído corresse algum perigo. Essa interferência deveria somente ser utilizada “em casos de anormalidades políticas ou administrativas, porém tornou-se um mecanismo comum bastante freqüente durante o período”, 88 motivando, em conseqüência, o constrangimento da autonomia das localidades e rompimentos com os mandatários locais. 89
Os adversários políticos do Partido Federalista (PF), igualmente, reconheciam as intervenções de Borges de Medeiros nos municípios, acusando essa prática de arbitrária e
85 Borges de Medeiros, “[...] conforme os objetivos de preservação e fortalecimento do poder fazia e desfazia
alianças com os cabecilhas locais, compunha com o estrelato em potencial, esgalgando-lhe vitalidade sempre que possível. Para, além disso, Borges procurava, ainda, intervir sistematicamente nas situações municipais, moldando-as, na medida do viável, às razões de estado e aos altos interesses que lhes davam sustentação, nem sempre, entretanto, levando vantagem”. AXT, Gunter, 2001b. op. cit. p. 106.
86 Joseph Love aponta que ocorreram mais de duzentas intervenções nos processos eleitorais municipais para o
cargo de intendente municipal entre os anos de 1896 a 1923. ; LOVE, Joseph. op cit. p. 83.
87
FÉLIX, Loiva Otero. 1996. op. cit. p. 93.
88 COLUSSI, Eliane. Estado Novo e municipalismo gaúcho. Passo Fundo: Ediupf, 1996, p. 39.
89 Essas intervenções aconteciam com frequência, principalmente no período que antecedia os pleitos
municipais. A figura do intendente provisório era constantemente utilizada por Borges de Medeiros quando o resultado não era satisfatório para suas pretensões políticas em âmbito local.
absolutista, a ponto de causar confusões e disputas no seio do PRR.90 Para Wenceslau Escobar91, membro atuante do Partido Federalista e oposicionista ferrenho do PRR e, principalmente, da Constituição de 14 de julho de 1891, na busca pela obediência cega, Borges aniquilava todos os chefes locais, sobretudo aqueles que detinham alguma influência sobre os redutos eleitorais nos municípios, ou lhe eram desobedientes. Escobar vivenciou os acontecimentos políticos do período e, portanto, salientava que, para o “cezariano” Borges de Medeiros, prestígio e força política só uma: a sua. Na concepção de Escobar, Borges pautava suas ações dominado pela preocupação de poder único, não tolerando pruridos de independência e praticando um regime ditatorial. 92
Segundo Escobar, caso algum intendente ousasse se rebelar contra essa conduta autocrática, estava irremediavelmente perdido, pois era processado por crimes imaginados pela Justiça, instrumento às ordens do Executivo. Para Escobar, os municípios eram reduzidos à condição subalterna de feudos.93
Exageros partidários à parte, a narrativa de Escobar contribui para se entender a relação de poder efetivada por Borges de Medeiros. Contudo, há limitações nessas informações. O autor não percebe o jogo de interesses e a força que detinham os poderosos locais, a ponto de, como já destacado, Borges reconhecer o poder dos mandatários locais. A própria estratégia de interferência nos municípios era realizada de maneira a não romper definitivamente com os chefes locais, evitando-se, assim, o risco do enfraquecimento da organização partidária republicana nos municípios. Afinal, como bem ressalta Axt,
a intervenção palaciana importava sempre um recuo da autonomia local, mas jamais acarretava em controle absoluto por parte do poder central. Para que ocorresse, era necessário um misto de imposição do governo estadual e aceitação por parte das facções. [...]. As intervenções prolongadas, se num primeiro momento robusteciam o poder palaciano e equacionavam o clima de disputa local, enfraqueciam a organização partidária, refletindo sobre o desempenho da legião republicana nos pleitos estaduais e federais [...]. 94
90 O jornal federalista O Maragato, de Santana do Livramento, estampava quase que em todas as suas edições
notícias referentes às intervenções de Borges de Medeiros nos municípios.
91
Wenceslau Pereira Escobar (São Borja, 8/12/1857– Rio de Janeiro, 14/4/1938) era formado em Direito (São Paulo, 1880) e versado em direito constitucional. Atuou como advogado, promotor público e juiz municipal. Como político, foi deputado provincial (1881), integrou o Partido Federalista e foi deputado federal (1906-1908). Era também jornalista e dirigiu a revista A Lei (Porto Alegre, 1892). Escreveu diversas obras de cunho combativo à política castilhista-borgista.
92 ESCOBAR, Wenceslau. 30 anos de ditadura rio-grandense. Rio de Janeiro: Estabel. Graphica Canton &
Beyer, 1922, p. 109-115.
93 Idem, p. 125.
Essas ações praticadas por Borges de Medeiros visavam fortalecer seu poder político em detrimento dos poderosos locais, mormente daqueles que poderiam representar algum perigo a sua permanência no poder. Sua política de aliança ou rompimento com mandatários locais visava à preservação e ao fortalecimento do seu poder. Compunha com os poderosos locais em potencial, mas retirando sua força política sempre que possível.
Os “ventos das boas graças” da política borgiana eram constantemente “soprados” entre facções internas do Partido Republicano Rio-grandense, conforme os interesses pessoais do chefe do partido e a força eleitoral das greis em disputa. Chega-se, então, à conclusão de que Borges de Medeiros tomava o cuidado de não delegar poderes em excesso a um partidário local. Nas impetuosas “tempestades” que expunham as tensões entre poder local/poder estadual, o chefe republicano, provavelmente, pensasse que nas hostes do PRR cada partidário deveria ocupar seu devido lugar. Assim, o crescente poderio político que detinha Manoel Nascimento Vargas no município de São Borja não podia ser admitido por Borges de Medeiros, que observava nesse domínio local varguista um perigoso obstáculo a seus planos políticos de fortalecimento do aparato estadual.
Havia, portanto, uma constante dialética entre o poder local e o poder estadual. Nessa “guerra por posições” o poder local era forte, mas também o eram o Estado/partido. Constituíam-se em dois poderes intensos, que não podiam se anular. A solução para essa disputa de forças perpassava por diversos mecanismos, abrangendo acordos constantes entre ambas as partes, ou mesmo pela coerção aliada aos recursos ideológicos da cooptação, bem como pelos mecanismos político-institucionais, consubstanciados por intermédio de
[...] subchefia de polícia, órgãos policiais municipais, interferência na justiça. Legislação eleitoral deixando brechas no sistema para o falseamento sistema e uso da Brigada Militar para intimidar, reprimir e dar cobertura ao sistema, de modo a resguardar a dominação do aparelho ideológico do Estado positivista sobre a política municipal. 95
Salienta-se que, para este estudo, busca-se analisar essas relações político- institucionais num delimitado espaço geográfico do Rio Grande do Sul, o município de São Borja, região de fronteira com a Argentina. Tal escolha se justifica porque essa cidade seria palco das ações e estratégias de Getúlio Dornelles Vargas e sua família em relação às lideranças políticas estaduais nos conturbados anos de 1913 a 1917.