1.3 Tarihsel Gelişim
2.1.5 Netice
A verticalização do ensino (aspecto mencionado por todos os entrevistados como elemento positivo, não só na formação de professores, mas para a formação ofertada na instituição nos diferentes cursos, níveis e modalidades), é um tema ainda incipiente no campo acadêmico brasileiro, pois se trata de uma característica de um novo modelo de instituição, proposto com a criação dos IFs.
Ao falar em verticalização, inicialmente remete-se a duas questões: à possibilidade de atuação docente nos diferentes níveis e modalidades abarcados pelos IFs, e de o aluno construir o seu itinerário formativo nessas instituições desde o ensino técnico até a pós-graduação. Além disso, tal característica remete à possibilidade de integração curricular, por meio do tripé ensino, pesquisa e extensão.
Encontram-se reflexões sobre o significado e a potencialidade da verticalização do ensino, basicamente, nos PPIs dos institutos federais, e nos documentos da SETEC. No entanto, é válido citar que há um estudo de Moraes (2012), professora do IFRS, o qual tem como objetivo investigar as concepções dos docentes dos IFs quanto ao conceito de verticalização, a fim de construir indicadores e critérios para as práticas de verticalização do ensino, no âmbito dessas instituições.
A pesquisa da referida autora não tem resultados publicados, apenas resumos com discussões preliminares. Nestas sínteses, relata-se como resultados parciais o fato de que a verticalização é reconhecida pelos professores como um diferencial dos IFs, que tem relação com a atuação do corpo docente em diferentes níveis e com a possibilidade de os alunos construírem um percurso formativo do ensino médio à pós-graduação (dentro de uma mesma instituição), e que ela se expressa nos projetos de pesquisa e extensão. Todavia, apesar de o termo “verticalização do ensino” representar algo familiar para os docentes dos IFs, a autora ressalta que existe um significativo obscurecimento em relação a este conceito, o que, na sua opinião, gera o enfraquecimento dessas instituições, do ponto de vista do seu reconhecimento social.
No PPI do IFRS, há um tópico específico dentro do capítulo das políticas de ensino, que aborda a verticalização. Nesta parte do documento, ressalta-se que:
A partir da verticalização do ensino, a circulação e a interlocução dos saberes entre os diferentes níveis pode ocorrer com maior ênfase através de projetos integradores, eventos, flexibilização das organizações curriculares. A verticalização do ensino também pode possibilitar que os educandos realizem seus estudos, progredindo na área de formação inicial na mesma instituição, possibilitando desta forma a construção e reconstrução contínua de saberes (PPI – IFRS, 2011, p. 25).
De acordo com o documento do MEC (2010, p. 27), que apresenta a proposta dos IFs, com a verticalização:
[...] os profissionais têm a possibilidade de, no mesmo espaço institucional, construir vínculos em diferentes níveis e modalidades de ensino, em diferentes níveis da formação profissional, buscar metodologias que melhor se apliquem a cada ação, estabelecendo a indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão.
Assim, um dos principais ganhos que se pode ter com esse arranjo estrutural dos IFs, que atende diferentes níveis e modalidades, é a possibilidade de corpo docente transitar pelos diferentes níveis, e haver propostas pedagógicas que os integre. Tal possibilidade, referente aos cursos de licenciatura, parece especialmente interessante, uma vez que permite a interlocução com a educação básica, tanto por parte dos alunos quanto por parte dos professores formadores, abrindo o novo horizonte em relação às propostas formativas, à possibilidade de inovação pedagógica; é essa a perspectiva que tem o Pró-Reitor de Ensino da Instituição investigada:
Veja a riqueza do espaço de formação que nós temos, e acho que nos cabe é saber se utilizar disso, não é? É saber como construir esse processo de integração das licenciaturas com os outros cursos, sobretudo os cursos integrados. Porque veja que nós estamos num laboratório vivo onde o estudante da licenciatura pode tranquilamente contribuir com aulas de reforço, com apoio aos professores dos cursos integrados. Por outro lado, o professor do curso integrado, o professor de Matemática lá do curso integrado, ele dá aula na licenciatura. Ele transita, exatamente, ele transita, ele tem essa noção da realidade do estudante do ensino médio, da educação básica e ao mesmo tempo ele vai trabalhar os seus estudantes, os seus acadêmicos lá da licenciatura, exatamente, essas temáticas. Então é uma questão de nós construirmos esses espaços de integração e de interação dos diversos níveis que nós atuamos (PROE).
Outros entrevistados também compartilham dessa visão otimista, quanto ao potencial da verticalização na formação de professores:
Eu acredito que os Institutos Federais têm condições totais de oferecer as licenciaturas e, ainda, com uma propriedade maior que é conseguir ter na mesma instituição outros níveis de ensino. Tu estás preparando, estais auxiliando na formação daquele professor que vai atuar lá nos anos finais do ensino médio, que vai atuar nos anos finais de ensino fundamental, no
nosso caso. E eles podem inclusive partilhar experiências com os alunos de ensino médio aqui dentro da própria instituição (D.E. CAXIAS).
Como é que se cria a tradição de formação de professores dentro de um espaço que era um espaço, digamos assim, especificamente técnico? Eu acredito que hoje a gente consiga visualizar, principalmente aqui no campus Bento, muito mais essa integração, por causa dessa verticalização, então o nosso professor ele está em vários outros lugares que não é só na licenciatura. Eu acho que seria um grande problema se a gente fizesse a segregação, então um professor que dessa aula só na licenciatura, só na licenciatura; o que dá no ensino médio, só no ensino médio técnico. Aí eu acredito que seria um complicador, porque lá da graduação da licenciatura, eu não conseguiria ter essa visão da Educação Básica, que é técnica, e que está sendo ofertada na mesma instituição (D.E. BENTO).
A estrutura verticalizada da instituição pode não ser apenas um “laboratório” para os licenciandos, mas um meio dos próprios professores formadores reverem suas práticas, em função de atuarem no nível de ensino para o qual estão preparando docentes. Tal aspecto também foi salientado como uma potencialidade em alguns estudos sobre as licenciaturas nos IFs (FLACH, 2012; PASSARDI, 2013; LOMB; FLORES, 2013), apresentados no Capítulo 2, desta tese. No entanto, este mesmo ponto foi visto de maneira negativa por outros pesquisadores, que entendem que este largo espectro de atuação dos IFs poderia comprometer a qualidade dos cursos ofertados, inclusive da própria licenciatura (SOUSA; BERALDO, 2009; SOUSA, 2011).
A visão de que a atuação em diferentes níveis e modalidades compromete a qualidade, talvez possa ser uma realidade se tal elemento não for foco de discussão dentro da instituição. É preciso, pois, entender melhor as possibilidades que essa diversidade de currículos e públicos proporciona, e pensar nas melhores formas de tirar proveito desta característica para a aprendizagem dos alunos. No documento em que são apresentados os resultados da avaliação institucional do IFRS, o Relatório da CPA (2014, p. 32), consta como uma das metas, no contexto das políticas de ensino, pesquisa e extensão: “Priorizar implementação de política de capacitação de docentes, para a melhoria da qualidade das ações de ensino, pesquisa e extensão, em especial no que se refere à verticalização do ensino, da pesquisa e da extensão”.
Neste Relatório, há um questionamento proposto à comunidade do Instituto (discentes, docentes e técnicos administrativos), quanto à sua percepção sobre a afirmação “A instituição oferece a possibilidade de participar de projetos que integrem docentes, discentes e técnico-administrativos da educação básica, técnica
e superior”. Mais da metade, isto é, 62%, concordaram com a afirmação. No documento, destaca-se que se trata de um avanço significativo, em termos das ações e percepções das propostas de verticalização do ensino, pois, no ano anterior, 50% concordavam. A avaliação demonstra que a instituição tem buscado fortalecer e incentivar o aspecto da troca e da integração que a verticalização proporciona.
No questionário aplicado com o grupo de alunos das licenciaturas das unidades investigadas, uma das questões de múltipla escolha, relacionada a este aspecto (da promoção da verticalização), perguntou-se se eles tinham participado de alguma atividade pedagógica com alunos de outros níveis: 4 (quatro) alunos dos 7 respondentes do Campus Bento Gonçalves, e 7 (sete) alunos dos 9 (nove) respondentes do Campus Caxias do Sul, disseram que sim.
A interlocução com a educação básica dentro da mesma instituição realmente faz desta um “laboratório”, pois existe um lugar para a permanente aplicação da prática e dos conhecimentos didáticos trabalhados com os licenciandos, o que permitiria a contextualização do conhecimento, a possibilidade de pesquisa aplicada (com base em investigações sobre o conhecimento), e a transposição didática do saber.
Observa-se que há, na verticalização, um grande potencial, o qual pode ser expresso por meio de projetos que conjuguem “ensino, pesquisa e extensão”. Acerca das formas de colocar essa verticalização em prática, uma iniciativa do IFRS, que poderá ser profícua, é o desenvolvimento, de maneira institucional, de projetos de ensino, destinando verbas a eles, assim como é feito, atualmente, para a extensão e para a pesquisa. Sobre essa questão, o Pró-Reitor de Ensino coloca:
[...] E, enfim, para além só da pesquisa, a gente tem outros processos que acontecem no próprio ensino que precisam de um espaço diferente e que talvez não fique localizado na pesquisa e nem na extensão. Sei lá, é uma metodologia nova de ensino e, sei lá, de Matemática, alguma coisa desse tipo, utilização de laboratório, alguma técnica para a utilização de laboratório que potencialize o processo de ensino e aprendizagem, ensinagem, né? [...] Nós estamos abrindo essa possibilidade de que os trabalhos desenvolvidos, projetos de ensino sejam inseridos nesse sistema [refere-se ao SIGPRoj, sistema utilizado pelo IFRS para cadastrar os projetos de extensão e pesquisa], e que em algum momento também a gente consiga contar com recursos para apoiar esses projetos. [...] Acho que isso potencializa aqueles professores e estudantes que [...] e eu acho que é interessante a gente colocar isso para as licenciaturas [...] E, de fato, potencializar até essa interação entre os diferentes níveis de ensino que a gente atua. Então é isso, está em andamento, esse processo, a gente acredita que em seguida a gente já tenha isso pronto. E eu acho que vai ser também uma importante
ferramenta para a gente trabalhar e ter um diferencial nessa questão do desenvolvimento dos projetos de ensino (PROE).
Verifica-se que a Instituição, portanto, tem buscado meios de proporcionar a verticalização. A iniciativa de dar visibilidade aos projetos de ensino é, também, com a intenção de incentivar propostas neste sentido, isto é, projetos que envolvam alunos de diferentes níveis e componentes curriculares. Esse é um espaço que eles poderiam ocupar, mas, para tal, é preciso que o corpo docente desses cursos discuta e desenvolva propostas de um ensino realizado com pesquisa, como coloca Cunha (1996, p. 32): “[...] incorporando os processos metodológicos dessa atividade, e tendo a dúvida como referência pedagógica.” Nesse caso, conforme salienta a referida autora, o aluno deverá ser o ator principal da ação, e no qual ocorrerá o processo indissociável entre ensino, pesquisa e a própria extensão. Dessa forma, este ensino seria baseado em procedimentos que:
Enfocam o conhecimento a partir da localização histórica de sua produção e o percebem como provisório e relativo; estimulam a análise, a capacidade de compor e recompor dados, informações, argumentos e ideias; valorizam a curiosidade, o questionamento exigente e a incerteza; percebem o conhecimento de forma interdisciplinar, propondo pontes de relações entre eles e atribuindo significados próprios aos conteúdos, em função dos objetivos acadêmicos; entendem a pesquisa como um instrumento do ensino e a extensão como ponto de partida e de chegada da apreensão da realidade (CUNHA, 1996, p. 32)
Na formação de professores, ao discutir as práticas pedagógicas, geralmente costuma-se falar acerca do desenvolvimento do trabalho com os alunos (por meio de projetos), como uma forma de possibilitar um aprendizado significativo. A proposta de desenvolver conteúdos, temas com projetos que envolvam a possibilidade de uma aprendizagem pluralista e permitam articulações diferenciadas de cada aluno envolvido no processo. De acordo com Behrens e José (2001, p. 3):
Ao alicerçar projetos, o professor pode optar por um ensino com pesquisa, com uma abordagem de discussão coletiva crítica e reflexiva que oportunize aos alunos a convivência com a diversidade de opiniões, convertendo as atividades metodológicas em situações de aprendizagem ricas e significativas. Esse procedimento metodológico propicia o acesso a maneiras diferenciadas de aprender, e, especialmente, de aprender a aprender.
A prática pedagógica através de projetos é um tema difundido no âmbito da educação infantil e básica, e um dos principais autores que tratam dessa questão é Hernandez (1998). Mas, por que não pensar com essa lógica no contexto do ensino universitário e, mais especificamente, na formação dos licenciandos? Projetos que
envolvam diferentes componentes curriculares, com ações que provoquem a produção de conhecimento individual e coletivo? E, no caso dos IFs, com diferentes componentes curriculares e níveis de ensino.
A verticalização do ensino, aliada à pesquisa e à extensão, são elementos em potencial dos IFs, e podem contribuir para o desenvolvimento de práticas e propostas curriculares inovadoras. Isso, definitivamente, não é um problema, um aspecto negativo, mas, sim, um desafio, conforme coloca o Pró-Reitor de Ensino:
[...] Então, o grande desafio hoje, a grande dificuldade é que a gente pode verificar no nosso plano de curso, é quase uma reprodução das licenciaturas que nós fizemos na universidade e que ainda conta muito pouco com as possibilidades que o instituto pode oferecer. A própria questão dessa interação entre ensino, pesquisa, extensão, eu acho que a gente conseguir trabalhar isso de forma mais concreta. Então, como eu falava antes, acho que o discurso da nova institucionalidade sempre foi esse de: “olha, é o diferente, é algo diferente, somos diferentes da universidade, mas a gente não sabe que diferença é essa.” Então está na hora de a gente começar a discutir essa diferença. Bom, o que queremos fazer de diferente? [...] Eu acho que o instituto tem sim a possibilidade de trazer inovação na formação desse professor pelo espaço didático- pedagógico que se forma numa instituição como essa [...] enfim, com o formato dos institutos, que trabalha com a formação verticalizada [...]
Na fala destacada aparece um comparativo entre os IFs e as universidades, um aspecto que, conforme comentado no Capítulo 4, é comum ocorrer, posto que, na própria lei de criação dos IFs, estes são equiparados às universidades federais, em termos de regulação, avaliação e supervisão das instituições e dos cursos de educação superior. Além disso, acrescenta-se o fato de as pessoas que passaram a compor essas instituições, ou que já compunham aquelas que foram abarcadas pela Rede Federal, trouxeram a bagagem que tinham, a fim de entender essa nova proposta, com a “lente” que possuíam, isto é, fazendo um movimento que é comum nos sujeitos: tentar enquadrar o novo, aquilo que lhe é estranho, dentro dos referenciais que se tem, muitas vezes, até tentando modificar este objeto, para que se ajuste às concepções já construídas. Daí a necessidade de haver a promoção de reflexões, de forma sistemática, sobre as características desse novo modelo institucional dos IFs, e a melhor maneira de aproveitá-las em prol da aprendizagem dos alunos.
7.1.3 O fomento a diferentes esferas de aprendizagem: pesquisa, extensão,