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2.5 Suçun Özel Görünüş Biçimleri

2.5.2 İştirak

Alguns dos entrevistados atribuíram determinados problemas com os cursos de licenciatura, como a evasão, o desinteresse dos alunos, e o desprestígio da carreira docente. O diretor de ensino do Campus Bento Gonçalves tangencia este aspecto, ao falar do contexto econômico da região onde a unidade se localiza, a qual tem uma boa oferta de emprego, com salários acima da média nacional:

[...] tu, hoje, por exemplo, trabalhares dentro do comércio, receberes 1.500 reais para atuar dentro de Bento Gonçalves, aí tu vens aqui à noite, e

126Se em vez de focar a atenção no processo educativo olharmos os resultados, quer dizer, ao que

ocorre com os egressos uma vez que saem da universidade, podemos obter uma informação que pode levar as IES a reconsiderar seus objetivos, a forma de abordar os processos de ensino- aprendizagem e o modelo educativo. A observação da experiência dos egressos e o impacto que essa teve sobre eles aparece como elemento chave na melhora da qualidade dos processos, em especial o do ensino-aprendizagem e do modelo de formação” (tradução nossa).

estuda, faz uma licenciatura. Quando tu vês, tu estás contratada do Estado, trabalhando 40 horas, por 1.300, menos do que tu ganhava no comércio, e tu não concluiu ainda a tua licenciatura, e tu não pode participar de uma bolsa, e tu não pode participar de um evento, e tu não pode participar de tal coisa [...] Qual é a visão que tu tens? Aí, realmente, tu vai reafirmar o discurso do professor coitado. Poxa, eu não terminei a graduação, eu estou ganhando menos do que eu ganhava, e estou trabalhando mais do que eu trabalhava (D.E. – BENTO).

O que o diretor de ensino salienta é que essa realidade dos baixos salários para professores da educação básica influencia na hora de o aluno fazer escolhas em relação ao curso que, talvez, enriqueçam a sua formação, como optar por se envolver com atividade extraclasse. Essa realidade que não é passível de ser controlada pela instituição, de alguma forma, interfere na qualidade da formação dos licenciandos, que poderia ser melhor, caso pudessem participar, de maneira efetiva, das oportunidades de aprendizado que a instituição oferece além da sala de aula.

A questão da desvalorização da profissão docente, associada ao desinteresse e possível evasão dos alunos, também é apontada como elemento que leva à baixa procura pelos cursos de licenciatura:

[...] Pois é, eu acho que também é uma conclusão que em algum momento, se a gente observar um pouco do próprio censo da educação de ensino superior nós vamos observar o quanto em, sei lá, um período de 10 anos nós tivemos o crescimento de instituições de cursos de ensino superior. Agora, ao mesmo tempo a gente vai ver uma procura reduzida nas licenciaturas, as pessoas, hoje, preferem, sei lá, ir para uma engenharia. Se tem aptidão para as exatas, hoje, você vai escolher ser professor da educação básica ou fazer uma engenharia civil e ter um salário dez vezes maior do que um professor? Então, realmente, passa por essa questão da valorização (PROE).

[...] Não é muito alta e, eu vou te dizer que a maioria que procura não é para a docência. Vem, faz Matemática, para ter um curso superior. Alguns conseguem ser persuadidos, durante o curso. Eu até li, hoje de manhã, num dos questionários, que o aluno colocou assim: “eu entrei no curso, e eu não queria ser professor, mas agora (ele já está fazendo estágio) eu entendi o processo, e eu quero ser professor, sim.” Então, quer dizer, muitos estão aí para ter um curso superior, para depois ir para um mestrado e um doutorado, mas nunca pensando em ser professor, e outros sim [...] (COORD. DE CURSO – BENTO).

A desvalorização da carreira docente É inegável, eu compreendo alguém que diz “olha, eu não quero ser professor para ganhar o que Estado do Rio Grande do Sul paga, eu prefiro fazer um curso técnico de contabilidade, o é o que diziam lá para a gente, e ganhar o dobro. É legítimo, né”? O que eu vou dizer para uma criatura dessas? Como é que a gente dissuadir que quer evadir com esse argumento? Dizendo que tem que sustentar filho, dizendo tem que pagar [...]. Não tenho argumento para ele (PROP).

[...] Porque é isso, se as pessoas não vislumbrarem a profissão de professor como um atrativo... E ai tu ouves na imprensa todos os dias os professores que apanham em sala de aula, apanham dos pais, agora não apanham só

dos alunos apanham dos pais, desvalorizados, desmotivados. Então é muito difícil tu conseguir reverter essa imagem do professor mal pago, desvalorizado, sem condições de trabalho, enfim. Isso é uma cultura que já está entranhada na nossa sociedade [...] (PROEXT).

De fato, no que concerne ao IFRS, dados sobre inscritos para o último processo seletivo, realizado no final de 2013, indicam um baixo índice de densidade de candidatos por vaga. O pró-reitor de ensino da instituição disponibilizou as informações de alguns cursos, somente relativas às vagas disponibilizadas no processo seletivo próprio127:

Tabela 15 - Densidade de candidatados inscritos para alguns cursos de licenciatura, no processo seletivo unificado 2014/1, ofertados no IFRS

PROCESSO DE SELEÇÃO UNIFICADO 2014/1 BENTO GONÇALVES

Curso Vagas Densidade

Física 17 1,53

Matemática 17 2,71

CANOAS

Curso Vagas Densidade

Matemática 20 1,65

CAXIAS DO SUL

Curso Vagas Densidade

Matemática 20 4,45

IBIRUBÁ

Curso Vagas Densidade

Matemática 17 1,29

SERTÃO

Curso Vagas Densidade

Ciências Agrícolas 15 0,93 Fonte: Pró-Reitoria de Ensino do IFRS (2014).

Já no final do Capítulo 4, ao falar sobre os índices de inscritos, matrículas, e concluintes dos cursos de licenciatura, destacou-se que os dados do Censo da Educação Superior (2013) indicam que o problema não está na falta de vagas, mais, sim, na demanda por essas vagas. Entre os principais motivos para essa baixa procura, está a pouca remuneração dos professores da educação básica. Segundo

127 O IFRS oferta metade das suas vagas por meio do Sisu. O Sistema de Seleção Unificada (Sisu) é

o sistema informatizado gerenciado pelo Ministério da Educação (MEC), no qual instituições públicas de ensino superior oferecem vagas para candidatos participantes do Exame Nacional de Ensino Médio (Enem). Disponível em: <http://sisu.mec.gov.br/>. Acesso em: 3 nov. 2014.

documento do próprio MEC, o Plano Nacional de Educação 2010-2020 (BRASIL, p. 53):

A defasagem na remuneração dos profissionais da educação tem sido indicada como um dos resultados de um passado de não valorização desses profissionais, além de ser apontada como um dos principais motivos do declínio do número de universitários em cursos de formação de professores. A queda do número de pessoas interessadas pela formação para o magistério na educação básica, assim como sua evasão, põe em risco a meta de universalização e ampliação da obrigatoriedade da educação básica, além de ser contrária às necessidades de educação da população brasileira.

No referido documento, diz-se ainda que:

O problema salarial docente associa-se à discussão sobre a qualidade da educação no país e sobre a atratividade da carreira e permanência nela. Não é trivial a perda de bons quadros de pessoal da educação, em favor de outras áreas profissionais e dentro das próprias redes educacionais escolares (PLANO NACIONAL DE EDUCAÇÃO 2010-2020, 2014, p. 143).

A questão dos baixos salários atribuídos aos professores é um problema amplamente discutido em toda a América Latina. Segundo Gatti et al. (2010), em estudos como o de Limarino (2005), observa-se que os salários dos docentes brasileiros são bem menores do que os de outros profissionais com o mesmo grau de formação. Ainda, conforme a autora, outros estudos internacionais e nacionais corroboram a sinalização da baixa remuneração, comparativamente, como também mostram as discrepâncias regionais.

Pinto (2009), pesquisador que se dedica ao estudo de questões referente ao financiamento da educação no Brasil, ressalta que só em 2008, com a aprovação da Lei nº 11.738, de 2008, que se previu um piso salarial nacional para os profissionais do magistério, que passou a avançar, concretamente, na perspectiva da valorização dos professores, nesse sentido.

Dentre os aspectos que caracterizam esse descaso em relação à remuneração dos docentes, Pinto (2009) menciona o fato de a elite não colocar os filhos na escola pública, e esta passar a ser a escola “do filho do outro”, o que reduz sua valorização social e leva os licenciados, muitos deles formados em boas instituições públicas, a atuarem fora de sua área de formação. Para o autor:

Muito além de melhorar a formação inicial ou continuada dos professores, é preciso dar à profissão o prestígio que, em geral, ela nunca teve no Brasil, salvo em alguns casos isolados (rede federal ou escolas privadas de elite, por exemplo). E o melhor indicador de prestígio de uma profissão é o salário pago àqueles que a abraçam como fonte de vida e sustento. Quando se fala

em valorização salarial, contudo, há que se ter claro de que a medida não é, necessariamente, um valor muito acima, mas, simples e tão somente, o que já é pago por outras profissões (PINTO, 2009, p. 60).

O que se tem defendido para superar essa problemática é que haveria a necessidade de se destinar percentual maior do Produto Interno Bruto (PIB) nacional para essa área, considerando a importância da educação para todos os aspectos da vida social: saúde, trabalho, exercício da cidadania, cuidados financeiros, planejamento de vida, enfim, sustentabilidade de uma existência digna em uma nação respeitável.

Consta como meta 17 do PNE (2010-2020, p. 53), até o final do 6º ano de vigência deste, a intenção de valorizar os (as) profissionais do magistério das redes públicas de educação básica de forma a equiparar seu rendimento médio ao dos (as) demais profissionais com escolaridade equivalente. No documento está indicada uma série de estratégias, com vistas a alcançar tal objetivo, dentre os quais, a referida Lei nº 11.738/2008, que aprovou o Piso Salarial Profissional Nacional para os Profissionais do Magistério Público da Educação Básica (PSPN); implementar, no âmbito da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, planos de carreira para os profissionais do magistério das redes públicas de educação básica, observados os critérios estabelecidos; ampliar a assistência financeira específica da União aos entes federados, para implementação de políticas de valorização dos profissionais do magistério, em particular o piso salarial nacional profissional, entre outras.

Acrescentam-se, à baixa remuneração, outros fatores, como aqueles destacados por Esteve (2004), mencionados no Capítulo 3: a ruptura do consenso social sobre educação (não existe um consenso claro sobre os objetivos das instituições escolares e os valores que devem fomentar), a mudança de expectativas em relação ao sistema educativo, num contexto em que professor deve lidar com uma ampla diversidade, mas o sistema ainda está organizado para lidar com a ideia de massificação, uniformização dos sujeitos; existe um decréscimo da motivação do aluno para estudar e da valorização social do sistema educativo. O resultado é a retirada do apoio unânime da sociedade, e consequente abandono da ideia de educação como promessa de um futuro melhor, pelo menos no que diz respeito à educação básica, uma vez que só ela não basta para se conseguir um emprego com

melhor remuneração, pois o mercado está cada vez mais exigente quanto ao nível de formação; o professor fica no centro dessa problemática.

A qualidade da educação não envolve somente dimensões intraescolares; há, também, fatores extraescolares que interferem direta ou indiretamente nos resultados educativos. A questão da baixa remuneração, além de outros elementos, como as condições de trabalho dos professores da educação básica em nosso país, que levam ao desprestígio da carreira docente, interferem diretamente na qualidade da formação dos professores, pois causa desmotivação, desistência. Todavia, posto que as instituições formadoras não têm gerência sobre isso, o que fazer?

A desvalorização da profissão docente, muitas vezes, está dentro da própria IES, quando esse entende a função de formar professores como algo menor. Ao citar Menezes (1986) e Candau (1998), destaca-se que esta situação é uma realidade em algumas universidades. Assim, uma IES que queira formar professores de maneira qualificada, precisa assumir este papel para si, fortalecendo ações de ensino, pesquisa e extensão neste sentido; no caso dos IFs, fortalecendo, também, a verticalização. Acerca deste protagonismo, o pró-reitor de pesquisa do IFRS tem uma interessante posição. Ao ser questionado como via a presença das licenciaturas nos IFs, disse:

Mais que positiva. Eu acho que via como positiva há cinco anos atrás quando surgiu. Hoje eu já vejo [...] nicho, talvez seja uma palavra forte, mas eu já vejo como uma porta de entrada muito forte para a gente ser importante. Se é que tu me entendes [...]. De consolidar a marca, o nome, a posição na sociedade que a gente tem que ocupar. E para mim, eu achava há cinco anos atrás que nós seríamos isso pelos cursos superiores de tecnologia [...]. A gente tem um alinhamento, eu acho, não sei nem se foi pensado ou não, mas se construiu um alinhamento (PROP).

Este “alinhamento” do qual fala o pró-reitor de pesquisa é o fato de haver, atualmente, duas propostas de cursos de pós-graduação do IFRS em trâmite na CAPES, na área da Educação; e também a tendência, percebida por ele, do corpo docente buscar formação em Educação. É válido ressaltar que existiu um programa estabelecido entre o IFRS e uma grande universidade privada do Rio Grande do Sul, com vistas à qualificação do corpo docente. Por isso, o pró-reitor ressalta: “[...] o que eu, olhando de fora, estou vendo? Pô! Estou jogando para dentro do Instituto 16 mentes formadas para produzir, para pesquisar, para orientar, para serem excelentes professores” (PROP).

Há, portanto, indícios de que as licenciaturas acabem por assumir um papel de destaque dentro do IFRS, contrariando, de certa forma, as intenções do governo federal, ao criar os IFs. Essa tendência se confirmará? Seria isso um problema? Ainda não há respostas para tais questões, mas uma reflexão que fica é: seria um problema ter instituições com foco na formação de professores (nesse modelo do IF), ou seria uma possibilidade de inovação do processo formativo de professores desenvolvido, até então, nas IES?