• Sonuç bulunamadı

1.2. KĠMLĠKTE ĠNġA KATEGORĠLERĠ

1.4.3. Medyada Kolektif Kimliğin Temsil Edilme Biçimleri

Ao iniciarmos este trabalho, sinalizamos a longa trajetória de institucionalização de crianças e adolescentes no Brasil, principalmente procurando enfatizar como o Estado culpabilizava a família pobre, denominando-a incapaz de criar e educar seus filhos, o que acarretava várias consequências para a vida dos institucionalizados, bem como para a fragilização dos vínculos familiares. Mesmo a partir da promulgação do ECA e com as mudanças preconizadas por esse, relativas à internação de crianças e adolescentes, muita coisa ainda permanece como no passado. As instituições de acolhimento, que deveriam servir como um espaço provisório e escolhido como uma última medida, no caso da violação e/ou ameaça dos direitos de crianças e adolescentes, acabam se tornando um lugar em que esses sujeitos permanecem por um longo período, violando seu direito fundamental, de crescer e se desenvolver no seio de uma família.

Assim, nosso objetivo foi investigar como as crianças que se encontram abrigadas significam sua família, mesmo estando afastadas desse contexto familiar. Para tal percurso, inicialmente, verificamos a literatura e observamos que, embora a produção sobre família, principalmente, seja abundante, nos deparamos com poucas publicações referentes ao tema em sua conjunção criança/abrigo/família. Optamos por dar voz às crianças e deixamos que elas fossem protagonistas de suas histórias. Essa escolha de ouvir e dar espaço para que as crianças se posicionem frente às suas questões é apontada por Rocha (2008) como o “reconhecimento das crianças como agentes sociais, de sua competência para a ação, para a comunicação e a troca cultural” (p. 46). A autora supracitada ainda aponta que através da escuta de crianças

busca-se confrontar, conhecer um ponto de vista diferente do que os adultos seriam capazes de ver e analisar a partir de seu mundo social.

O caminho trilhado por nós foi, primeiramente, de imersão na literatura para um maior aprofundamento sobre a temática da institucionalização, bem como sobre a família. Sobre essas temáticas, procuramos não nos deter apenas no percurso histórico, visto que existe uma enorme quantidade de publicações que abordam essas discussões. Procuramos, portanto, enfatizar a família a partir dos conceitos mais atuais, trazidos principalmente pelo Plano Nacional, observando sempre essa instituição social como um direito que todas as crianças e adolescentes precisam ter respeitado e garantido.

Diante da complexidade e delicadeza com que o objeto deste estudo precisava ser abordado junto às crianças, a preocupação com os procedimentos de investigação para nós foi fundamental. Optamos, como já assinalado, pela pesquisa qualitativa, que nos permitiu “uma relação dinâmica entre o mundo real e o sujeito, uma interdependência viva entre o sujeito e o objeto, um vínculo indissociável entre o mundo objetivo e a subjetividade do sujeito” (Chizzotti, 1998; p. 79). Com isso, o objeto da pesquisa nunca será considerado neutro e sim repleto de significados e relações que os sujeitos concretos criarão em suas ações (Chizzotti, 1998).

Para desenvolvermos as atividades da pesquisa com as crianças adotamos instrumentos que possibilitassem uma maior espontaneidade e descontração, permitindo que nossos sujeitos estivessem à vontade para falar de aspectos tão delicados de suas vivências com ou sobre sua família. Recorremos a entrevistas semi- estruturadas, juntamente com os outros procedimentos expressos anteriormente no capítulo de métodos: uso do brinquedo Lego, colagens, desenhos.

A análise dos dados baseou-se na Análise de Conteúdo Temática. Considerando os objetivos da pesquisa, identificamos, em princípio, três categorias centrais que foram: Configuração do Espaço Geográfico, Composição familiar e a Dinâmica interna da família. Tentamos selecionar para análise apenas os segmentos dos discursos mais pertinentes ao objetivo de nosso estudo.

Mediante os discursos das crianças, pudemos participar um pouco de suas realidades, mesmo elas estando afastadas de sua família temporariamente e, assim, tivemos a oportunidade de conhecer alguns aspectos que refletem os significados atribuídos pelas crianças às suas famílias.

Os dados possibilitaram-nos compreender que, embora as crianças estejam institucionalizadas, os sentimentos ligados ao amor materno, afetividade, solidariedade estão presentes. Não encontramos apenas um único modelo de família, como já apontado na literatura, pois como sabemos, hoje existem diversas configurações familiares. Nos discursos emergiram exemplos relacionados às famílias extensas, às famílias monoparentais e às famílias nucleares, que é formada pelo pai, mãe e filhos. Como já assinalado, mesmo os pais das crianças estando separados de suas famílias, foram citados, ora podendo residir no mesmo domicílio que as crianças, ora fazendo parte do desenho da família. Quanto aos irmãos, esses sempre estiveram presentes em todos os contextos, levando-nos a compreender que existia amizade e/ou relação de companheirismo entre as crianças e seus irmãos.

Os educadores e algumas outras crianças também acolhidas na mesma instituição compareceram nos discursos, corroborando mais uma vez com os estudos que relatam a importância das relações e os resultados favoráveis que podem surgir

dessas afinidades entre as crianças abrigadas e as pessoas com que elas convivem no ambiente institucional (Barros & Fiamenghi Jr., 2007; Guará, 2006).

Os significados que emergiram dos discursos das crianças sobre sua família remetem-nos ao afeto pelas mães e pelos irmãos; ao pai, como aquele que fornece sustento financeiro. Vale ressaltar a forte presença de pessoas que não possuíam relações de parentesco com Mafalda, Batman e Robin, o que retrata a existência de vínculos de confiança, solidariedade ou mesmo de afinidade com as pessoas referidas em suas falas.

Podemos finalizar expressando a ideia de que os resultados do presente estudo representam mais uma contribuição sobre a importância que a família tem na vida de crianças, mesmo estando elas ausentes dos seus ambientes familiares. Observamos que não é colocada em questão a configuração familiar vivida pela criança; essa instituição continua servindo como uma referência em suas vidas.

Desse modo, mais uma vez enfatizamos que o direito à convivência familiar realmente precisa ser garantido e respeitado. Mas como podemos pensar em garantir o espaço afetivo, social, que deve existir no ambiente familiar das crianças ou mesmo na própria instituição de acolhimento? Como dar suporte às famílias que desejam ter seus filhos de volta? Questões como essas, que surgem no decorrer de nosso trabalho, são de difícil resolução. Tampouco, podemos visualizar soluções imediatas. No entanto, o que se observa é que esse desamparo existencial ao qual as famílias, muitas vezes, se encontram, tem pouca resposta por parte do poder público. A permanência das crianças no abrigo, para além, inclusive, do que prevê o ECA, é resultado desse desamparo.

Existe, porém, a necessidade de propostas políticas que possam efetivamente ampliar e procurar maneiras de garantir esse direito, para que a institucionalização seja realmente a última medida a ser adotada, não contrariando a excepcionalidade e provisoriedade que o ECA propõe.