3.7. DEĞĠġKENLERĠN YORUMLANMASI
3.7.3. Haberde ĠĢlenen Temalar
A colega de quarto em Milão era uma Chinesa de Chengdu, uma província no centro da China. Chegou na residência de madrugada, fazendo barulho com os saltos, que me acordaram; então, veio ao meu quarto se apresentar e fazer perguntas. No primeiro dia, eu tentaria não acordar a colega de quarto nova a fim de não começar o semestre com conflitos, mas vi que para ela não importava: precisava de suas respostas com relação ao apartamento.
Quando nos apresentamos, ela disse seu nome em chinês e depois “mas pode me chamar de Carol”. Reconhecem que seus nomes são difíceis de serem pronunciados por ocidentais, por isso, adotam um nome americano.
Não interagimos muito durante o semestre, pois ela estava sempre na Bocconi ou ocupada falando com os pais e o namorado na China; os chineses não se misturavam com os outros estudantes, por isso, houve apenas duas ocasiões em que conversamos sobre diversos assuntos. Na primeira ocasião, ela me contou sobre seus pais protetores, pois era filha única, e também sobre seu namorado, que é filiado ao partido comunista chinês, e que estava estudando as regras e políticas do partido a fim de passar em um exame para ser aceito como membro efetivo. Perguntei a sua opinião sobre a possibilidade de a China tornar-se capitalista um dia, e ela – e assim como todos os outros chineses a quem fiz esta pergunta – respondeu que isto jamais aconteceria.
De certa forma, era o mesmo choque pelo qual passei em Berlim: estudar os fatos sobre o mundo, como a Segunda Guerra, o comunismo da China e o controle de
natalidade, é diferente de presenciar e ter contato com pessoas próximas que, em suas vidas, estiveram inseridas naqueles momentos e contextos.
Neste momento, percebi o quanto o Brasil é distante do mundo; temos pouca interação com fatos externos e a história de outros povos, ficando mais focados no universo ‘Brasil’. Notícias internacionais são apenas fatos que pareciam afetar menos a vida dos brasileiros. As condições na China afetam mais a Europa e os Estados Unidos do que o Brasil; por exemplo, devido às más condições de vida na China, há uma maior imigração para a Europa e para os Estados Unidos. No entanto, as questões chinesas não afetariam tanto o tamanho da população brasileira ou suas políticas, mostrando as diferenças nas dinâmicas do norte e do sul do globo.
Assim como os brasileiros se isolaram em seu grupo, havia também um grupo de chineses em intercâmbio na Bocconi que formavam um grupo fechado. Carol estava sempre acompanhada de uma amiga de sua universidade que, posteriormente, confessou-me ser um fardo. Disse que gostaria de participar mais do ‘universo ocidental’, mas que sua universidade havia lhe pedido para cuidar e acompanhar esta moça que era tímida, introvertida e tinha dificuldades de relacionamentos. Ela estava sempre em nosso apartamento, mas nunca havia pronunciado uma palavra para mim, mantinha os cabelos na frente do rosto e andava olhando para o chão.
Na segunda oportunidade que tivemos para trocar informações, Carol me contou sobre sua escola e a concorrência para se conseguir emprego na China. Disse que gostaria de ir aos Estados Unidos para fazer pós-graduação. Pensei, então, na quantidade de chineses que havia visto quando visitei faculdades nos EUA e entendi que ela tinha seus objetivos claros em mente: apesar de estar em Milão, tinha em mente seus próximos passos, que seriam nos EUA, não se deixando iludir com o lugar presente. Ela mostrou que tinha um foco maior em sua carreira, queria manter o namorado e comprou inúmeros presentes para levar para os familiares, sempre vinha me mostrar o que tinha comprado.
Ela utilizava bastante a frase “it doesn’t matter”, o que me deixava brava no começo. Por exemplo, uma vez que lhe pedi um favor na cozinha, ela respondeu “it doesn’t
matter”, o que me fez pensar “como não importa? importa sim!”. Então, um amigo americano explicou que em chinês existe uma expressão que eles traduzem literalmente para o inglês, mas que na verdade, significa “tudo bem”.
Outra interação que tive com chineses aconteceu em Viena, quando encontrei uma mulher que morava na Haus Döbling. Ela me perguntou:
- Where are you from? - I’m from Brazil. - What?
- Brazil
Percebi que ela não esperava uma resposta com a palavra Brasil, e como não entendia o que eu estava falando, fez um gesto com a mão e foi embora. Às vezes, encontrava-a jantando com alguns chineses na sala comum, e eles sempre me encaravam sem falar nada, o que me deixava desconfortável. Ela não entendia de onde eu era e preferia me ignorar; precisei aprender a conviver com isso, pois a encontrava frequentemente. Escrevi em minha nota:
Sentia que devia ser mais gentil com ela do que o contrário, já que começamos com um mal entendido. Então, cedia mais espaço para ela fazer suas tarefas, ou deixava o que estava fazendo para mais tarde. Até que ela começou a conversar comigo, e ficamos amigas no final. Queria até mesmo que eu a avisasse quando fosse viajar para poder ir junto – apesar disso nunca ter acontecido.
Foi difícil aprender a lidar com chineses; e, apesar de existirem muitos chineses no Brasil, o contexto no qual os encontrei era diferente. Eles estavam na Europa a estudo, enquanto que os chineses no Brasil imigraram a trabalho, realizando comércio de produtos ilegais, por isso, os relacionamentos e as reações eram diferentes àqueles a que estava acostumada. Uma entrevistada francesa nota:
“I can tell that it was difficult to get along with Chinese, because they were
so stubborn. Something that I didn't like is that we were working as a group and I said something and they started to speak in Chinese in front of me. Sometimes it can happen, because for example, we're in a group and if I have something to say to another French, I have the reflex to say it in French; but you feel really excluded when people do that, and they don't make efforts. For me it was really difficult to understand their culture. I don't know if it's because they are from a special school or something like this, but they are saying that Europeans are lazy. So, for me, it wasn't good. There's a time when you have to hold on to yourself.”(F.G.)
A distância cultural e o choque entre chineses e ocidentais é grande; é possível compreender que formem um grupo fechado, pois seu choque cultural com o mundo ocidental deve ser maior do que, por exemplo, para os brasileiros.