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3.7. DEĞĠġKENLERĠN YORUMLANMASI

3.7.1. Biçimsel DeğiĢkenler

A segunda parte desta autoetnografia aconteceu em Viena, Áustria, de fevereiro a junho de 2009. Ao contrário do que ocorria em Milão, eu estava mais envolvida com grupo de estudantes CEMS, em um semestre de aulas na Vienna University of Economics and Business, referida aqui através de sua sigla, WU.

Entre a mudança de Milão para Viena, estive por dois meses em Nova York, onde encontrei a família para o Ano Novo. Em Nova York, por existirem pessoas de todas as origens, não me senti estrangeira, estava incluída na cidade de oito milhões de habitantes com grande diversidade cultural. No entanto, senti tais diferenças quando cheguei em Viena. Quando não estava nas áreas turísticas, tinha a sensação de ser observada e encarada na rua, de estar perturbando o ambiente, uma impressão que acontecia devido à diferença de cultura e das pessoas entre as duas cidades.

Ao chegar em Viena, fui diretamente à residência estudantil a qual havia sido designada: a Haus Döbling, na Gymnasiumstrasse 85. Chegando lá, tive um choque: tinha apenas visto fotos do exterior dos cinco prédios que compunham o complexo de quartos para estudantes e plantas sobre o interior dos quartos. A descrição dizia que eram “prédios dos anos 60, para estudantes que não têm um alto nível de exigência”, mas não sabia o que estaria me esperando. Os comentários que tinha escutado sobre os quartos daqueles prédios eram: “parece uma prisão”, “não é tão ruim assim”, “você vai ver quando chegar lá”, “é muito apertado”, “é claustrofóbico” e “eu nunca moraria lá”.

O espaço do quarto era realmente muito pequeno, com um chuveiro e uma pia no seu interior, delimitados apenas por uma cortina. O banheiro se encontrava no corredor, e seria compartilhado entre os 15 moradores do andar; assim como a única cozinha.

Como precisaria lidar com um quarto pequeno Figura 20 - Área comum na Haus Döbling Fonte: elaboração própria

de cor cinza e branca, com um chuveiro e uma pia, decidi que deveria melhorar o ambiente para que não ficasse insatisfeita com a sua aparência, e para que as palavras escutadas sobre a Haus Döbling não se tornassem as minhas palavras. Em minha nota, escrevo:

“Vi o colchão que parecia um sofá, as prateleiras vazias e uma cômoda pequena de canto. Já que este quarto seria meu, eu deveria organizá-lo do meu jeito: tirei o que tinha na mala e organizei. Coloquei a meia dúzia de livros que tinha comprado no aeroporto de Londres na prateleira, e o quarto foi ficando melhor. Comprei algumas coisas na Ikea, colei alguns pôsteres nas paredes e trouxe para o quarto as outras malas que havia deixado no porão de um amigo. A residência estudantil devia se tornar a minha própria casa, com o conforto que tinha enquanto estava no Brasil.”

Figura 21 - Planta de um quarto típico na Haus Döbling Fonte: Elaboração própria

Traduções

Fensterfront: Frente da janela Waschbecken: Pia Dusche: Chuveiro Bett: Cama Fensterablage: Balcão Tisch: Mesa Kasten: Armário Türe: Porta

Ao contrário dos estudantes que moravam na Arcobaleno, os vizinho da Haus Döbling vinham, em sua maioria, do leste europeu: Turquia, Bulgária, Albânia, Romênia, Hungria, Eslováquia ou mesmo da Áustria, assim como a maioria dos colegas na WU.

Os estudantes que moravam neste andar se conheciam, pois moravam juntos por anos. Por isso, tinham a iniciativa de contribuir no início de cada semestre com um fundo para comprar material de cozinha, além de discutirem a organização do

espaço público. Apesar de terem me conhecido por pouco tempo, também fui incluída no fundo, o que significava também inclusão no grupo. Apesar do espaço confinado, fui bem recebida pelos vizinhos na Haus Döblings. Tinha minha privacidade quando precisava e, mesmo sendo um prédio antigo, tudo funcionava sem defeitos.

Os cursos na WU não eram realizados ao longo de todo o semestre com uma ou duas aulas por semana, como é o formato que conhecia, mas sim por alguns dias (de três dias a uma semana inteira) com aulas de até nove horas de duração; por exemplo, um curso de cinco créditos era oferecido em cinco dias, com aulas de seis horas cada. Esse sistema tinha como consequência a exigência de grande preparação para a aula e alta carga de leitura. A falta de encontros regulares com os outros alunos tinha como consequência poucas oportunidades de formação de grupos e para conhecer melhor os colegas.

Por ser uma escola grande tanto em número de alunos quanto em espaço físico, era difícil encontrar colegas ao acaso. Sua biblioteca, por exemplo, estava sempre ocupada, e havia competição dos alunos por uma mesa. Dessa forma, fazia meus trabalhos na residência.

Com a chegada da primavera na cidade, começavam os eventos ao ar livre. Na WU, todas as tardes, os alunos se encontravam no Cocktailstand, uma barraca de drinks e bebidas que foi construída na porta de entrada da WU, no topo da escadaria principal.

Em uma ocasião, quando estava com um grupo de trabalho formado por um Americano e um Escocês, houve um incidente que deixou o Americano irritado. O Escocês, que desde o princípio não havia demonstrado nenhum tipo de empatia pelos membros do grupo, ignorou quando o Americano foi lhe apertar a mão para se despedir, o que levou ao comentário posterior: “Você viu o que ele fez? Nos EUA, quando alguém quer te cumprimentar apertando a mão e você vai embora como ele

Figura 22 - Tarde no Cocktailstand Fonte: elaboração própria

acabou de fazer, pode dar briga! Poderia ir bater nele, se fosse o caso! É muito sério!” Para acalmá-lo, disse que talvez o escocês não entendesse o quão grave era não apertar a mão de volta e que estava claro que não era muito amigável, o que tinha sido percebido desde a sala de aula.

Outro evento de primavera, dentre muitos outros, é o Sommernachtskonzert, que acontece no castelo Schönbrunn e é aberto para o público. Em 2009, o maestro foi Daniel Baremboim, conduzindo a orquestra da Filarmônica de Viena.

Como gostava de apreciar música clássica, convidei a amiga Romena para irmos assistir a este concerto, onde nos juntamos a uma platéia de pessoas em pé, mas que estavam vestidas de camisa e terno ou vestidos elegantes; era o uniforme que substituía as camisetas pretas de bandas no Woodstock. Após o pôr do sol, a orquestra começou a tocar peças de Mozart, Strauss e outros compositores, que apreciamos silenciosamente e distante dos colegas. No dia seguinte, perguntei à Russa como havia sido o concerto para o grupo que foi junto, ao que ela me respondeu: “Não conseguimos escutar nada. Alguém teve a idéia de ir sentar no gramado que ficava no elevado atrás do palco e o som não ia para lá, então, fomos embora”.

Pensava que era importante fazer algumas atividades do meu jeito, pois Viena tinha um significado maior além dos estudos em administração, ela me oferecia oportunidades que precisavam ser aproveitadas, sobretudo com a música clássica. Este foi um exemplo de que, caso tivesse cedido à pressão e me juntado ao grupo, teria tido uma experiência frustrante de ver um dos meus artistas favoritos.