D. KLİNİK İLAÇ ARAŞTIRMASININ TEMEL HUKUKİ DAYANAKLARI
1. Klinik İlaç Araştırmaları ile İlgili Temel Uluslararası Belgeler
O tempo no romance é psicológico, de duração interior, predominando sobre o tempo cronológico. Ele simplesmente não passa; aliás, a sensação que temos é que estamos diante de uma acronia, ao contrário do espaço que é muito bem delimitado. O narrador estabelece mediante descrições o espaço, utilizando a ambientação franca30. A atmosfera da quinta é escura e a natureza influenciará o estado de espírito de Leonor, o que nos reporta ao romance realista naturalista, porquanto um dos seus pressupostos era a influência do meio sobre o indivíduo. Nos primeiros capítulos predomina uma atmosfera escura, com relâmpagos, chuva e barro, porque o problema ali abordado é a morte. A partir do quinto capítulo o espaço se torna abafadiço e indolente, sugerindo que o problema central do romance será a sexualidade. Na casa respira-se um ar pesado e o espaço passa a ser determinante da ação, imbrincando-se um sobre o outro. Observemos novo diálogo entre Leonor e Viegas:
Sinto que me estou tornando preguiçoso. Nesta casa respira-se indolência (...)
Maria Leonor sorriu.
- Aqui respira-se mais que preguiça, doutor. Respira-se entre estas paredes um ar de tragédia grega. Anda por estas salas, oculta nas sombras dos desvãos e nas pregas dos reposteiros....
- O médico interrompeu, sem cerimónia, resmungando: - Fantasias!...
- É possível! - respondeu Maria Leonor. - Mas a verdade é que eu sinto no ar que respiro uma viscosidade estranha, como se nele andasse dissolvida uma presença material. Se quisesse fazer literatura, diria que anda por aqui a Fatalidade, a mesma que cegou Édipo e o fez
esposo da própria mãe. Desloco-me pela casa como por entre um nevoeiro espesso e frio, que me traz arrepios... (TP p. 214- 215).
Osman Lins em obra já mencionada levanta em seu livro uma importante questão: onde acaba o personagem e começa o espaço? É justamente isto que constatamos nesta obra. É difícil dizer em que lugar acaba Leonor e onde começa o espaço, tal é a importância do espaço na obra, visto que há um nexo poderoso entre os dois. O espaço propicia uma atmosfera própria para que Leonor se envolva sexualmente com os dois homens já citados. Às vezes, o narrador utiliza a ambientação reflexa31; é por meio de Leonor que as coisas, os fatos são percebidos: as estátuas da Virgem, de Eros e Psiquê, a casa, enfim, os objetos revelam e afetam psicologicamente a personalidade do personagem. A ambientação dá ao romance um tom naturalista, porquanto a própria natureza passa a ter um aspecto selvagem e sexual: vento quente, atmosfera morna e abafadiça, campos sombrios, troncos retorcidos, animais que relincham, as núpcias do solo e da água, os frutos suculentos (melancias e melões), as figueiras-do-inferno abrindo seus frutos negros e espinhosos, o sol redondo e vermelho. A natureza reflete uma atmosfera sexual, como se o cheiro de sexo atravessasse a quinta, o quarto de Leonor, seu corpo, se espalhasse pelos sofás vermelhos, pelo palheiro, onde os criados mantêm relações sexuais, e saltasse pelas páginas do romance: "Sobre a terra ia um mal-estar indefinido, uma expectativa ansiosa. Os animais tremiam de excitação” (TP, p. 230).
O narrador privilegia o espaço e o descreve com uma técnica quase pictórica e cromática. A casa é um verdadeiro labirinto de significado com suas estátuas, seus oratórios, seus quartos, suas bibliotecas. Minuciosamente o narrador, através da ambientação franca, colore detalhadamente o texto com
cores vivas, variando entre o negro e o vermelho, como se o espaço compusesse um grande quadro, não só emoldurando a ação, mas propiciando-a. O espaço reflete uma certa Idade das Trevas, é escuro, chove demais, o sol não aparece, refletindo a tensão da trama de sofrimento, angústia, opressão. O fato de ser um romance de personagens, faz com que o espaço seja melhor explorado pelo narrador. O espaço parece ter vida própria, mover-se por si só.
O fogo aparece várias vezes neste romance: fogo sagrado da vida (p. 77), fogo que parece queimar Leonor (p. 154), o fogo provocado pelo raio que cai no palheiro e, por fim, o fogo que se transforma em raio de sol. O fogo é uma presença constante no romance e “o mundo do fogo é um mundo de demônios malignos como os fogos-fátuos, ou espíritos irrompidos do inferno...” (Frye, 1973, p. 151). Na Bíblia geralmente é usado como sinédoque para a destruição e como indício da cólera de Deus, como, por exemplo, na destruição de Sodoma.
Interessantes também são as questões do espaço público e particular, do interdito e do prazer. Se a quinta é o espaço interditado ao prazer, o mesmo não ocorre com o palheiro. A própria Benedita que é a guardadora da moral da quinta, e que impede que a lascívia ali entre, não se importa muito que os criados tenham relações sexuais no palheiro. Leonor, que é severa consigo própria, também é complacente com o amor da criada Tereza e o namorado. Nesse sentido temos dois espaços. A quinta que é o espaço do interdito (privado), portanto sob o signo da pureza da Virgem imaculada, e o palheiro, o espaço do prazer - sob o signo de Eros.
Seguindo o pensamento de Antônio Candido32, poderíamos falar em espaço sacralizado (Quinta) x espaço espúrio (Palheiro). Leonor é uma enclausurada do mundo e dos prazeres da carne, só lhe restando assistir através
da janela aos amantes se dirigirem ao palheiro. Ensandecida de desejo, Leonor, ao sondar o casal de empregados pela janela, desfruta um prazer que não é seu, desfruta o prazer alheio, dos amantes, do espaço público, do outro lado do Éden, espaço este que lhe é interditado. Ela continua na janela a observar os carinhos e a despedida dos amantes. Depois, "absurdamente, atirou-se para os lençóis, a dormir um sono pesado e longo, como o duma fêmea saciada e exausta" (TP, p. 131, negrito nosso). Eis aí o desejo de ser outra, de tentar se livrar do papel que a sociedade lhe impôs: viúva virtuosa.