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Antes de analisarmos o aspecto proposto, cabem algumas informações sobre três religiões: judaísmo, cristianismo e islamismo. Atualmente existem no mundo nove grandes religiões, e o cristianismo é a maior delas, com cerca de quase 2 bilhões de adeptos. Tanto é comum ao judaísmo como ao cristianismo a idéia de que há um só Deus todo-poderoso, criador do universo, como a

convicção de que o homem foi criado à imagem de Deus e que ele enviaria um Messias à terra. Com o nascimento de Cristo, porém, houve uma ruptura, já que os judeus não reconheceram Cristo como Messias. A partir desse fato, surgiu um grupo de pessoas que acreditava em Cristo como verdadeiro Messias e aceitava a sua ressurreição após a crucifixão. Portanto, Cristo, um judeu, acaba se transformando no fundador do cristianismo, que seria consolidado pelo apóstolo Paulo. Este grupo que aceitou Jesus como o Messias profetizado nas escrituras judaicas foi chamado de cristão, e dessa forma nasceu o cristanismo. Os cristãos seguem a palavra e o exemplo de Jesus Cristo que morreu na cruz pela humanidade, aceitam a ressurreição do Filho de Deus, pregam a fraternidade, a promessa da salvação e a vida eterna. Entre os 2 bilhões de adeptos, cerca de 1 bilhão são católicos. A Igreja Católica cresceu a partir da primitiva comunidade cristã em Roma e trezentos anos depois já era a religião oficial do Império Romano, passando de 1000 devotos no ano 40 para mais de 30 milhões três séculos depois.61

São religiões cristãs, o catolicismo, os protestantes históricos e os evangélicos que se dividem em centenas de denominações. A maior parte dos cristãos se concentra nos continentes americano e europeu. Os chamados cristãos

fundamentalistas acreditam que a Bíblia é a palavra exata de Deus, que o mundo

foi criado em seis dias e que não tem mais de 8.000 anos de idade.62 Por outro lado, o judaísmo é considerado uma das mais antigas religiões do mundo e sua história começou por volta de 1800 a.C. com Abraão.63 Possui quase 14 milhões de pessoas, divididos entre ortodoxos, conservadores, reformados e

61 CARDOSO, M., Jesus 2000 - os desafios do cristianismo às portas do novo milênio, p. 174. 62 Conforme O Livro das Idéias, op. cit, p.85.

63 Para informações mais detalhadas sobre o judaísmo consultar O Livro das Idéias, op. cit, p. 226 –

228, O Livro das Religiões de Jostein Gaarder, p. 98-117 e Cultura Religiosa – as religiões do

reconstrucionistas, adotam como livro santo a Torá, que abrange o Antigo Testamento, ou os cinco primeiros livros deste, chamado Pentateuco, escritos por Moisés. Julgam-se o povo escolhido de Deus, não aceitam Cristo como Messias e continuam a aguardar o Messias que crêem virá restaurar o reino davídico. Concentram-se nos Estados Unidos, Israel e Europa.

O islaminismo também denominado de maometismo ou muçulmanismo possui cerca de 1,3 bilhão de seguidores, especialmente na África e na Ásia, espalhados por quase 60 países, constituindo a segunda maior religião do planeta depois do cristianismo. Adoram a Alá - o Criador - e seguem os ensinamentos de Maomé64, profeta árabe, nascido em Meca, no século VII d.C. Seus preceitos foram influenciados pelo judaísmo e pelo cristianismo. Maomé, segundo o islaminismo, é sucessor dos profetas hebreus, e o islã, substituto de todas as religiões. Os muçulmanos têm como livro sagrado o Corão que reúne as revelações de Maomé e islã significa submissão a Alá. Eles seriam os descendentes religiosos de Ismael, antepassado de todos os árabes, filho de Abraão com a escrava Hagar. Concetram-se no Norte da África e no Oriente Médio; seu credo poderia ser resumido em Não há Deus senão Alá e Maomé é

seu profeta. A religião foi fundada por Maomé, na cidade de Medina, em 622

d.C. Acreditam que a primeira revelação veio com Moisés, a segunda com Cristo e a terceira e principal com Maomé. Crêem nos mesmos patriarcas dos judeus: Adão, Abraão, Moisés, Davi. Ora, em última análise os judeus e árabes são irmãos, basta que se creia no episódio bíblico entre Sara/Abraão e Agar.

Ainda sobre o islaminismo é Rohmann quem esclarece:

64 Para maiores esclarecimentos sobre a vida de Maomé e sobre a religião islâmica, consultar O Livro

A palavra ‘islã’ significa ‘submissão’ a Deus; ‘muçulmano’ significa ‘aquele que se submete’ (...)

Os ensinamentos do islã estão contidos principalmente no Corão, do qual se diz que foi revelado por Deus a Maomé, e a Suna, que é o conjunto dos usos e costumes fundamentados nos preceitos de Maomé e em seus atos exemplares. O Corão prega que o islã é a religião dos profetas hebreus e a religião natural dos povos (...) Cada indivíduo deve adorar a Deus e viver segundo seus mandamentos para escapar do fogo do Inferno e entrar no Céu no dia do Juízo Final. (2000, p. 219)

Interessante notarmos que Alá se relaciona etimologicamente com a palavra hebraica El, que é usada para nomear o Deus dos hebreus. Portanto, Alá e Jeová são nomes diferentes do mesmo Deus. Tanto islamismo quanto cristianismo são religiões fundamentalistas e monoteístas, têm um fundamento, um livro escrito, Alcorão e a Bíblia respectivamente, e crêem que aquilo que está revelado, escrito, é a verdade. Mais de 1400 anos de rivalidade permeiam as relações entre as duas religiões, entre altos e baixos para ambas as partes. Após a sua fundação, o islamismo se lançou com sucesso a conquistas de terras e almas. Por volta de 1500, no entanto, os europeus cristãos partiram para a conquista do Oceano Atlântico, com os portugueses à frente, e acharam a rota marítima para as cobiçadas riquezas da Ásia, começando o declínio da civilização islâmica.

Feitos estes esclarecimentos, voltemos à análise da obra. A trama do livro é a seguinte: uma editora lisboeta encomenda ao revisor Raimundo Silva a correção de um livro de História: A História do cerco de Lisboa. Esta obra, que deverá ser revisada, trata de um fato histórico: em 1147 – século XII, Lisboa recebia influências de Castela e ainda estava sob o domínio dos mouros que se estendia há exatos 358 anos e tinha sua soberania ameaçada. Quando os mouros se apoderam da cidade, destroem tudo o que encontram pela frente. O rei Afonso Henriques decide colocar um ponto final nessa dominação e derrubar o domínio

muçulmano, tarefa para a qual contará com ajuda dos cruzados que, entre outros objetivos políticos e econômicos, faziam expedições com propósito religioso. Os soldados da fé católica65 - que tinham a missão de combater em nome de Cristo os infiéis muçulmanos - com vontade e valentia ajudam os portugueses e juntos retomam Lisboa para a cristandade. A guerra para os cruzados era uma guerra santa:66 Sobre a história da retomada de Lisboa pelos portugueses, Saraiva informa:

... as forças militares portuguesas eram tão poucas que para as expedições organizadas contra eles [os mouros] foi várias vezes necessário recorrer à ajuda das tropas que, vindas do norte da Europa a caminho da Palestina, faziam escala nos nossos portos. O rei mandava propor-lhes a colaboração em empresas guerreiras contra as cidades de que se queria apoderar; os diplomatas encarregados dessas missões eram os bispos, que deveriam convencer os chefes dos cruzados

que tão santa era a guerra contra os infiéis de Espanha como a cruzada para libertar o Santo Sepulcro e ao mesmo tempo

ofereciam, como pagamento pela intervenção, o saque das cidades se elas caíssem em seu poder. Foi desse modo que D. Afonso Henriques conquistou Lisboa, em 1147. (1993, p. 60)

Saraiva esclarece que na época de Camões, já havia uma crença encontrada inclusive em Zurara, segundo a qual “os Portugueses cumpriam uma missão providencial, dilatando tanto o Império como a Fé: eram os Cruzados

por excelência” (Saraiva, 1995, p. 335). Destarte, essa crença segundo a qual os

portugueses eram uma nação eleita é muita antiga na História de Portugal. O

65 Cabe lembrar aqui que no Auto da Barca do Inferno de Gil Vicente só os cruzados – cavaleiros

santos – conseguem a aprovação do anjo e entram na Barca que conduz ao céu.

66 Sobre a ideologia e os parâmetros que regem uma guerra santa, sobre as relações do Oriente e

Ocidente, do islamismo e cristianismo, consultar interessante e oportuno artigo de Umberto Eco intitulado “Simplificação gera guerras santas” publicado pela Folha de São Paulo, em 07 out. de 2001, p. 24-25.

problema é que esta dilatação do Império e da fé fazia-se sempre acompanhada ela espada.

Antes de analisarmos as guerras in nomine Dei, cabem aqui algumas colocações sobre o narrador na História do Cerco de Lisboa: