TÜRK BORÇLAR KANUNU’NA GÖRE GENEL TEHLİKE SORUMLULUĞUNUN HUKUKSAL NİTELİĞİ VE KOŞULLARI
C- Önemli Ölçüde Tehlikeliliğin Ölçütleri
III- Karakteristik Rizikonun Gerçekleşmesi
A Imagem de autor em Recordação do Escrivão Isaías Caminha, de Lima Barreto, se localiza na fronteira paratópica do discurso literário, lugar onde sustenta a enunciação na mesma medida em que é sustentada por ela. Esse atrito entre sustentar e ser sustentado é gerado pela enunciação literária, que une unidades reconhecidas como práticas circunscritas na história, que podem ser admitidas ou não, no extrínseco e no intrínseco enunciativo discursivo: as unidades tópicas e não tópicas. Observar essas unidades, a partir da análise enunciativo-discursiva que perceba, por aparelhos linguísticos, traços dessas unidades é inferir formas de representação da imagem de autor. O termo representação não pode ser entendido como “ o que o autor cria representando o mundo na enunciação literária”, mas como o autor que participa do mundo revelando na enunciação literária parte dessa participação como sujeito que viveu experiências próprias de um lugar e de um tempo.
A partir desse pressuposto, nossa análise caminha em direção à circulação da fronteira paratópica constituída na cenografia por meio da circulação das unidades tópicas, aquelas que se mostram na enunciação como princípio de interação aos que estão envolvidos com ela, e as formações discursivas, atualizadas por Maingueneau (2008) como unidades não tópicas, que são as unidades direcionadas pelo olhar do analista, mas que estão circunscritas na memória da coletividade, por comportamentos, enunciados, gestos, que não são tolerados e que, mesmo assim, não deixam de ser propagados no underground enunciativo, em nosso caso, no discurso racista.
Consideramos que as unidades tópicas e não tópicas nos darão forte aparato para empresa de nosso trabalho de pesquisa que é o de delinear, no discurso literário Recordações, a imagem de autor que pôde ser atribuída a um opus
que não se encerra no discurso, que nos interessa nesta pesquisa, mas que passa e depende dele.
Nossa análise tem interesse pela cenografia, pois ela é o ponto de acesso do co-enunciador ao discurso literário (Maingueneau,2006). A cenografia está associada ao extrínseco do discurso, como rotinas do quotidiano empírico, por conseguinte, a cenografia engendra unidades tópicas e não tópicas as quais podemos perceber por meio da compreensão das condições sócio-históricas de produção do discurso. Desta maneira, nesse capítulo, delineamos as unidades tópicas e não tópicas, mas retomamos o que está extrínseco e intrínseco ao enunciado, pois é a cenografia a fonte do discurso e aquilo que ele engendra (Maingueneau, 2004). Consideramos, ainda, particularmente, as unidades não tópicas, fonte de representação que, interdiscursivamente, pertence ao fora e ao dentro do enunciado em Recordações, pois são os discursos racistas representações que
o narrador-protagonista, Isaías Caminha, declara que não é ambição literária que o impele a dar ao mundo suas memórias, mas que, mediante elas, espera modificar a opinião de seus pares, fazê-los pensar de um modo diferente, para que sejam menos hostis quando encontrarem gente como ele, com ambições como as que ele tinha havia dez anos. Em prólogo, Isaías informa-nos que resolveu contar trechos de seu passado para refutar a tese de que um dia ele tinha lido num fascículo publicado por uma revista nacional: o mulato era inferior e estava fadado a fracassar na vida por falta da capacidade de resistência inerente ao mestiço. (OAKLEY 2011: 50.)
Os interesses do escritor de Recordações e de Isaías Caminha são, em suma, os desejos de muitos jovens mestiços e negros do final do século XIX e início do século XX. Essa interseção é mostrada, de maneira simbiótica, por Lima Barreto, quando diz a um amigo o quanto concordava com a publicação de Recordações, aceitando não ganhar pela produção do documento, na época, fator que traria a Lima Barreto status de autor
Fizeste bem em lhe autorizar a imprimir o livro. Não tenho pretensão alguma de lucro com Caminha. Além de saber que um primeiro livro tem fortuna arriscada, sabes muito bem que penso sobre essa cousa de make money com livros. Decerto, se eu estivesse aí, em Paris,
havia de guardar bem escondida a pretensão de ter um castelo com o produto das minhas obras; mas aqui, dentro do Brasil e da língua portuguesa, as minhas pretensões são mais razoáveis. (1998: 213) Vemos, em Lima Barreto e em Isaías Caminhas, as mesmas pretensões e as mesmas realidades que confluem em Recordações. Não é a ambição literária, ou a criação de fortunas, que fazem com que a enunciação ganhe um potencial artístico, mas, como o próprio Lima acreditava, a excitação em dizer sobre as coisas e, principalmente, as coisas que, de alguma forma, representassem a formação sócio-histórica-política do final de um século e do início de outro, marcados profundamente pelo preconceito da cor.
A análise baseada apenas nas unidades tópicas, como vimos, não é o único ponto a ser observado neste trabalho. Trata-se também de um estudo que relaciona as unidades, que não possuem propriamente um território e que são construídas historicamente e delineadas pelo olhar do analista. Em Recordações, vemos circular, na enunciação, a condição do homem negro como foco do sentimento de frustração pelo qual o enunciador, Isaías Caminha, passa em seu percurso de vida. Essa frustração, inclusive, justifica a indignação com a qual Isaias Caminha inicia suas recordações. Não se pode supor que, na enunciação, esteja explícito onde está representado o preconceito racial que o narrador logra, pois o discurso literário não lida com o que está explícito, mas com o que se percebe no processo enunciativo dos que tomam contato com o enunciado. Desta maneira, podemos recorrer ao texto de Oakley acima referido, e notarmos a condição determinista pela qual passava o jovem Isaías e com a qual se inconformava. Essa era parte do que a sociedade supunha para os homens negros e mulatos. Circulavam periódicos no final do século XIX e início do século XX, discutindo a “ incapacidade do negro em relação ao branco”.
Como vemos, nossa análise circula pelos aspectos de vida do escritor de Recordações, que se comprova ativamente na enunciação e nas condições de produção desse discurso. A época que produziu Recordações, Lima Barreto também reproduziu as condições de produção, que são exibidas na enunciação. Assim, Recordações é uma sombra da sociedade brasileira no final do século XIX e início do século XX, pois não surge como representação
social, mas tem a sociedade como motivo que a faz existir da maneira que existe.
3.2 A imagem de Autor como sombra literária: análise do intrínseco em