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4.1. Araştırmada incelenen unsurlar

4.1.13. Hektolitre ağırlığı (kg)

O curso evolutivo da língua portuguesa, conforme já demonstrado na seção anterior, contou com a influência de diferentes culturas que aqui se instalaram durante e após a colonização. Sobretudo de negros, índios e brancos-europeus, o que fez com que nossa língua incorporasse diferenças históricas, regionais e de classes sociais. Mas será que esse processo refletiu igualmente nas diferentes modalidades da língua no processo de formação do português no Brasil? Silva Neto (1976), conforme já discutido, argumenta de forma contundente sobre as contribuições das línguas indígenas e africanas, além de outras, na formação do português. No entanto, o mesmo autor postula

Se assim é na língua falada, importa acentuar que na língua escrita os fatos são muito diferentes. Esta, graças ao seu caráter conservador e tradicional, e à dependência do ensino gramatical, está acima de todas as variedades sociais e regionais, dominando e absorvendo tudo (SILVA NETO, 1976, p. 21).

Rodrigues (1968/2002, p. 15) explica as razões para essa diferença entre o processo evolutivo na fala e na escrita do português no Brasil, argumentando que é no ensino nas escolas e nos livros didáticos que vamos encontrar mais forte consciência e maior consenso sobre uma língua padrão escrita. A escola é, portanto, a grande responsável pela uniformização da língua e, consequentemente, pela redução das diferenças regionais, fato que sobressai na modalidade escrita da língua. Na sua concepção de língua, o professor pode difundir a ideia de uma língua pronta e acabada e negara, assim, a coexistência das variedades linguísticas.

Até a luta pela independência do Brasil, houve uma preocupação em imitar, na língua escrita, os modelos de Portugal. Era uma espécie de rejeição pela língua que tomava corpo em terras brasileiras. Só a partir da independência do Brasil, em 1822, é que surgem escritores sem preconceitos e temores capazes de usar a linguagem dos meios urbanos na literatura nacional (SILVA NETO, 1976). Porém, mesmo depois da independência, o mesmo autor afirma que “a fidelidade à pureza da língua manteve-se. Fidelidade que muitas vezes chegou ao exagero, numa atitude de purismo intransigente. (p.146).

Segundo Faraco (2002), a padronização da norma padrão no Brasil não considerou a norma culta dos brasileiros como referência, pelo contrário, foi construída “de forma excessivamente artificial” e mais: “a elite letrada conservadora se empenhou em fixar como nosso padrão um certo modelo lusitano de escrita, praticado por alguns escritores portugueses do Romantismo” (p.42-3). E isso, segundo o mesmo autor, refletiu o desejo da elite de viver num país branco e europeu. Ele ainda acrescenta:

Nesse sentido, a reação a um certo abrasileiramento da norma-padrão (conforme propunha, por exemplo, José de Alencar) se fazia no mesmo tom com que se combatia os fenômenos linguísticos identificados como “português de preto” ou “pretonês”, essa “língua de negros boçais e de raças inferiores” (FARACO, 2002, p. 43).

Esse comportamente da sociedade brasileira da época reflete-se até hoje em diferentes segmentos sociais, sobretudo no ensino da língua, como veremos ao longo deste trabalho. A escola desde o início da escolarização e nas práticas de leitura e escrita subsequentes tenta deixar de fora os traços dialetais, sejam eles decorrentes de razões sociais, geográficas ou geracionais. Tal prática já é rejeitada pelas orientações curriculares que respaldam o ensino da língua considerando a diversidade linguística e as diferenças existentes entre a língua escrita e a fala.

Há na primeira metade do século XX, por parte dos modernistas brasileiros, uma tentativa de criação da “língua brasileira”, porém

O fato de já se ter proposto uma “língua brasileira” foi arroubo que coloriu romanticamente e patrioticamente nossa história e criou muitos belos textos e muita poesia, mas mais representou enlevo e encantamento do que real insubmissão, ou desagrado da língua em si. (NEVES, 2010, p.21).

A autora apresenta um estudo sobre as tentativas de abrasileiramento da língua portuguesa, tanto no campo literário, quanto na ação escolar, desde as investidas de escritores românticos e modernistas até a publicação de projetos de leis apresentados à Câmara Federal. Contudo, todo esse esforço não surtiu grandes efeitos no estabelecimento de um padrão para a língua portuguesa no Brasil, pelo menos no que diz respeito à modalidade escrita da língua, uma vez que o seu ensino na escola continua negando as diferenças entre as variedades da língua portuguesa no Brasil e a norma padrão estabelecida pela língua europeia.

A constituição da língua na modalidade escrita se pautou na escrita literária portuguesa, a saber, distante da fala da elite letrada brasileira aqui já referida. Tal atitude conservadora da época colonial faz nascer “a posição normativista que até hoje dirige os olhos do nosso povo no julgamento dos usos” (NEVES, 2010).

A normatização da língua padrão contribui para aumentar a distância entre a escrita e a fala de seus usuários, mesmo daqueles considerados como usuários da norma culta. A norma padrão tem, na escrita, a intenção de uniformizar os usos da língua,

Uma tal uniformização, mesmo que sempre relativa, tem indiscutível relevância em sociedades do porte da nossa, no sentido de garantir uma base de comunicação suprarregional, transtemporal e multifuncional; ou como diz Haugen (2001[1966] p.110), aquele ideal de língua caracterizado pela variação nínima na forma e máxima na função (sociocultural). (FARACO, 2002, 47).

A língua na modalidade falada permite mais fluidez, embora exista também esforço por parte de “conselheiros gramaticais” de padronização no uso nas diferentes modalidades. Essa fluidez faz com que a língua do falante brasileiro apresente muito mais marcas das diferentes culturas que aqui se desenvolveram do que a escrita. Além da distância entre o português que aqui se fala e o português europeu, estão presentes também as diferenças regionais, sociais, etárias e históricas dentro do território brasileiro.

Enquanto a escrita tenta apagar as marcas dialetais muito presentes, a fala emerge como marca identitária das diferentes camadas sociais do nosso país. “O padrão não conseguirá jamais suplantar a diversidade, porque, para isso, seria preciso o

impossível (e o indesejável, obviamente): homogeneizar a sociedade e a cultura e estancar o movimento e a história” (FARACO, 2002, 42).

Por essa razão é possível perceber na fala do povo brasileiro diferentes traços que marcam a diversidade linguística. Porém essa diversidade aparece na escrita com bem menos evidência. O que na fala já é considerado como mudança que caracteriza a evolução natural da língua, na escrita ainda enfrenta resistência, sobretudo na ação escolar, ou seja,

A mudança linguística é certamente um dos pontos mais complicados a ser enfrentado em qualquer debate sobre a língua, em especial sobre a norma- padrão, porque o sentimento geral dos falantes é de que a língua (identificada, em certo imaginário social, com o padrão) é estática; e, desse modo, eles tendem a confundir a mudança com uma ideia de decadência, degeneração, desintegração da língua. (FARACO, 2002, p.49).

Os traços que marcam as diferenças entre fala e escrita estão presentes nos diferentes níveis da língua. No nível fonológico identifica-se desde a elevação dos fonemas /e/ e /o/ para /i/ e /u/, respectivamente, até a possibilidade de vocalização do /lh/ e a monotongação dos ditongos /ow/ e /ai/ em vários contextos fonológicos. No nível morfossintático, também podemos encontrar diferentes traços que marcam a distância entre essas duas modalidades. Sobretudo no que diz respeito à colocação pronominal e a concordância e regências verbais. Não escapa também o nível semântico que apresenta nos diferentes usos lexicais da língua a distância entre o que se fala e o que se escreve. Esses fenômenos serão explicados mais detalhadamente em seção posterior.

Isso tudo contribui para que o Brasil tenha nas suas diferentes regiões e até nas unidades federativas dentro da mesma região traços que o definem como um país de língua ao mesmo tempo aglutinadora e heterogênea. Ou seja, temos como língua oficial o português, que é usado pela grande maioria da população e que permite a comunicação entre seus usuários, em grande parte, sem muitos embaraços; e temos as variedades linguísticas, que fazem com que esses mesmos usuários se sintam diferentes, prestigiados ou não, de acordo com a variedade que usam. Essa situação foi construída a partir da educação jesuítica, a qual oferecia catequese para os índios e instrução elementar que permitisse a comunicação, enquanto para os filhos dos senhores dos engenhos era dada educação letrada, “contribuindo ambos os caminhos para a formação de uma minoria culta e letrada, e para uma realidade linguística polarizada” (ARAÚJO e ARAÚJO).

O estudo da fala no Brasil tem levado muitos pesquisadores a se dedicarem ao assunto. Na lista que pode ser arrolada, é importante ressaltar os pioneiros no estudo da dialetologia no Brasil, i. e.(i) Antenor Nascentes, autor de um dos primeiros estudos monográficos, O linguajar carioca em 1922, que descreve de forma detalhada o falar do Rio de Janeiro, com informações de ordem fonético-fonológica, morfossintática e lexical. (ii) o já citado Serafim da Silva Neto, um grande incentivador da realização do atlas linguístico do Brasil sem deixar, porém, de enfatizar a importância dos estudos dialetais nas suas diferentes manifestações. (iii) Celso Cunha que tinha muito clara e presente a necessidade de empreender-se a execução do atlas linguístico do Brasil, e por último, mas não menos importante, (iv) Nelson Rossi, pioneiro na aplicação da Geografia Linguística no Brasil e colocando-se entre os que se empenharam na implantação dos estudos dialetais. (CARDOSO, 2009).

A partir desses pioneiros, vários estudos foram implementados nas diferentes partes desse imenso território. Tais estudos possibilitam observar que muito diferente da língua na modalidade escrita, a língua portuguesa na modalidade falada se manifesta com traços peculiares a depender da região geográfica em que se encontram seus usuários ou da posição social que ocupam. Além disso, há diferenças genéricas, etárias e estilísticas.

Bortoni-Ricardo (2005), valendo-se dos aportes teóricos da sociolinguística, propõe, em 1985, “uma distinção entre a heterogeneidade relacionada a fatores estruturais (dicotomia rural/urbano; região geográfica; redes de relações sociais etc) e fatores funcionais (grau de formalidade, registros etc)”. Posteriormente, a pesquisadora brasileira amplia sua proposta analítica para a sociolinguística do português do Brasil para um modelo de três continua, a saber, rural-urbano, oralidade-letramento e monitoração estilística. (ver seção 1.3).

Pela natureza desta pesquisa, que é observar o processo de apropriação da língua escrita na escola por crianças oriundas de meios predominante orais, não é possível tratar de todas as diferenças linguísticas na fala do brasileiro. No entanto, faremos na próxima seção breves comentários sobre a natureza dos traços linguísticos que começam a apontar como traços de identidade da comunidade de fala de Brasília para melhor compreender o processo de apropriação da língua na modalidade escrita por crianças nascidas nesta unidade da federação, porém pertencentes a famílias oriundas de diferentes partes do país, conforme demonstrado em Caxangá (2007) e, assim,

compreender melhor a importância da escola na ampliação do grau de letramento desses alunos.