5. BEDİRHAN BEY’İN MERKEZLE İLİŞKİLERİNİN BOZULMASI
5.7. Han Mahmut İsyanı (1841) ve Bedirhan Bey’in Tutumu
“Vivenciado o texto”, diz de início o parágrafo anterior. Vivenciado no corpo já o sabemos, mas o quê do texto se faz vivência, se transporta para uma vida? Como um textual se faz responsividade, ritmo, intensividade, acontecimento na vida de alguém? Cabe agora que, a partir do textual, examinemos essa conexão do texto à vida.
Para tanto, as noções de texto “escriptível” (scriptible, writerly) e texto “lisível” (lisible, readerly) que Roland Barthes propõe em S/Z (Barthes, 1970), são especialmente úteis.
Essa partição escriptível/lisível constitui uma tipologia “primeira, fundadora” (id., p. 9, grifo meu), que Barthes constata ser a aplicável para a avaliação—ou valoração—de um texto. “Como postular o valor de um texto (literário)?”, ele se pergunta de início. A resposta que dá é bem relevante para quem vê na tradução, antes de tudo, uma prática:
Nossa avaliação não pode estar ligada a não ser a uma prática7, e essa prática
é a da escrita. [...] E o que a avaliação encontra é o seguinte valor: aquilo que pode ser hoje escrito (reescrito): o [texto] escriptível [le scriptible]. Porque o
6 O que está bem de acordo com o espírito do que Robinson diz, como vimos pouco mais acima: “not
to build a stable bridge, but get somewhere in an interactive way.” (vide p. 183 acima). Sobre o que se seguirá no texto acima, vide também Ozick (apud Oliveira, 2000, p.87, n. 33): “...the poem is not ‘translated’, but uncovered”.
7 E não a uma ciência “que não valora”, nem a uma ideologia, cujo valor “não produz”, apenas
escriptível é o nosso valor? Porque o desafio do trabalho literário (da literatura como trabalho) é fazer do leitor, não mais um consumidor, mas um produtor do texto. (id., pp. 9-10, itálico de Barthes).
Desde logo é possível reconhecer, nesse valor primeiro e fundador da tipologia de Barthes, a responsividade de Rosenzweig e Bakhtin, aqui posta em termos da capacidade que o texto escriptível por definição há de ter, de suscitar no leitor uma resposta produtiva. No caso, a produção de um novo texto—ou até do “mesmo” texto—pelo leitor, que é assim tornado autor.
Barthes tem então uma frase que é bem importante para o que aqui nos concerne, pois apresenta de maneira bastante clara a forma—ou pelo menos uma forma—pela qual um texto pode vir a tornar-se vida para alguém: “O texto escriptível
é um perpétuo presente”, diz Barthes, “[...] somos nós em vias de escrever [c’est
nous en train d’écrire]” (id., p.10, negritos meus, itálicos de Barthes). É nesse ímpeto de ação, ação que o texto escriptível suscita no leitor que está por se tornar autor, que se dá a conexão do texto à vida. Tem essa natureza a conexão texto-vida8.
No que se segue, acompanharemos então brevemente a argumentação de Barthes, na busca de entender exatamente o que, no nível textual ou sub-textual, propicia que isso, essa conexão texto-vida, se dê. Constataremos, como se verá, conceitos e preocupações que estão bem próximos daqueles que ditaram a Buber/ Rosenzweig a adoção, dentre outras, das técnicas mais inovadoras na tradução da Bíblia (a da colometria e, especialmente, a das Leitwörter). Assim, pode-se dizer, a
prática tradutória de Rosenzweig constitui-se num writerly turn in translation.
Vejamos o que nos autoriza a essa afirmação.
4.1 Pluralidade, conotação, comentário
Ao tipo “escriptível”, quase ideal (e quase inencontrável9) de textos, Barthes
contrapõe o tipo usual de textos, os de “nossa literatura marcada pelo divórcio imperdoável que a instituição literária mantém entre o fabricante e o usuário do texto”. O “contravalor negativo e reativo” do texto escriptível, é o texto “que pode ser lido, mas não escrito: o [texto] lisível [le lisible]”, aquele que condena o leitor ao ócio, ao papel de mero referendador, de ter gostado ou não de ler o texto. E Barthes esclarece: “chamamos de clássico todo texto lisível” (id., p. 10, itálico de Barthes).
8 Aqui fica evidente o paralelo com Meschonnic que, como visto no Cap. 6 (sec. 5, p. 168), ao valorizar
a tradução do ritmo e da oralidade do texto ante a do sentido, diz: “Eu me dirijo ao homem que, no mundo real, está em vias de falar [est en train de parler]” (Meschonnic, 1999e, p. 143).
9 Tais textos, segundo Barthes, são encontráveis “apenas por acaso, furtiva e obliquamente em algumas
obras-limites” (id.). O estranhamento, como nos textos traduzidos de Rosenzweig, há de estar neles presente.
É à análise de uma narrativa curta de Balzac (“Sarrasine”) que Barthes se dedica em S/Z. Análise de um texto clássico, portanto, e assim sendo, um texto lisível e não escriptível. Não obstante, essa análise de um texto lisível, mas de “qualidade incomparável” (p. 19), é conduzida por Barthes sempre com um olho no escriptível. A leitura escriptível, de um (incomparável) texto lisível de Balzac, é assim levada a cabo. E com isso, note-se, o “escriptível”, revela-se uma valoração que pode ser aplicada não somente a um texto, mas também a uma atitude, “produtiva”, de leitura (Ulmer, 1998, p. 117). E também, como já mencionado e como procuraremos demonstrar, a uma atitude de tradução.
Entretanto, dessa análise do texto de Balzac, que Barthes realiza de forma “disseminada” e “desnaturando o texto” (id.), não nos ocuparemos. O que nos importa para a conexão texto-vida que buscamos entender são alguns dos conceitos e operações que Barthes define e aplica, de forma a que possa garimpar o que há de escriptível no lisível de Balzac.
São eles:
1) Interpretação: a interpretação do texto (tal como Barthes a define), é uma “operação segunda” (id., p. 11, grifo meu) que a “tipologia primeira”, primordial, de valoração de textos, requer para ser aplicada ao texto lisível. Trata-se de uma interpretação sui generis que não busca dar um sentido ao texto, mas que “ao contrário, [busca] apreciar de que plural ele é feito”;
2) Conotação: Barthes busca então um “instrumento [apenas] modesto” (id. p.