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AVRUPA BİRLİĞİ’NDE ENGELLİ HAKLAR

2.1.3 Avrupa Birliği’nde Engellilerin Topluma Tam Katılımının Sağlanmasına İlişkin Hizmet ve Uygulamalar

2.1.3.3 Engellilerin Bilgiye Ulaşımının Sağlanması

O livro (no sentido restrito do termo)144 desempenhou e desempenha um importante meio de divulgação do conhecimento. Podemos dizer que o livro foi o formato que mais se difundiu com a criação dos tipos móveis gutenberguianos, tornando-se o principal sustentáculo da cultura letrada a ponto de ser considerado a representação material desta, um símbolo. Por sua importância, o livro passou a ser o pivô de um novo setor produtivo com a criação e o aprimoramento do labor editorial e livreiro que se desenvolveu sob a influência dos avanços tecnológicos (sobretudo, após a Revolução Industrial) e com o crescimento do mercado, em particular, nos países centrais capitalistas. Ademais, a praticidade de manuseio e a facilidade de carregar são apenas alguns dos atributos que fizeram o livro perdurar durante séculos e continuar sendo, ainda hoje, um dos principais meios de informação − sobrevivendo e sobressaindo, em alguns casos, em relação a outras tecnologias aparentemente mais sedutoras, como as mídias eletrônicas.145

É claro que a biblioteca, enquanto o lugar “por excelência” do livro, também se modificou e ganhou maior importância social após o advento da imprensa. Por exemplo, após a Revolução Francesa (e sua conseqüente influência sobre outros países), as bibliotecas aumentaram em quantidade, pois ocorreu uma resposta burguesa (pautada no ideário iluminista) à concepção medieval de que somente a Igreja poderia deter o domínio ou o fácil acesso ao “conhecimento” contido nos livros. Ademais, as bibliotecas aumentaram também em tamanho, exigindo uma readequação da atuação profissional frente à necessidade de

144 Abordaremos de forma mais detalhada os diferentes conceitos de “livro” no item 3.3.

145 Otlet apresentou no Ciclo de Conferências sobre Modernas Bibliotecas, realizado em dezembro de 1910,

preocupações sobre as novas formas documentais que a humanidade presenciaria no futuro, ou seja, Otlet se preocupava, entre outras coisas, com a adaptação da humanidade à invenção e à incorporação de novos suportes informacionais. Para tanto, o teórico explicitou o impacto da invenção do suporte papel e, em particular, da criação do formato livro, tecnologias essas que modificaram profundamente a relação entre homem e conhecimento nas suas formas de registro e difusão. A esse respeito o autor comentou “[...] Mare magnum. Estas duas palavras foram colocadas por Marucelli no encabeçamento do catálogo em que ele se esforçava por registrar as obras conhecidas em seu tempo. Se já no século XVII os livros, por sua variedade e abundância, davam a impressão de um imenso oceano, que diríamos de nossa época de invasão do papel. Que idéia podemos fazer do que sobrevirá nos próximos [séculos]?... Do ponto de vista social, o livro chegou a ser, por excelência, o nexo entre as inteligências. Uma sociedade organizada não somente tem a necessidade do poder executivo, legislativo e judiciário: precisa também de um poder informador.” (OTLET, 1911, p.275, tradução livre).

estoque e de organização da crescente massa de material bibliográfico impresso. Assim, a atividade de organização do conhecimento, principalmente a elaboração de bibliografias,146 passou a requerer, após o século XVIII, o trabalho de “bibliotecários”/“documentalistas”, tendência que, por sua vez, se acentuou no decorrer do século XIX. Santos ressaltou (2006, p. 13) que

[...] as Bibliografias especializadas, geralmente elaboradas com o patrocínio de associações de pesquisadores, ganham força e importância, acompanhando o amplo desenvolvimento das ciências. É nesse contexto que não só são aprimoradas as técnicas bibliográficas como também nasce um campo disciplinar que, no curso da história, recebe diversas denominações, sendo as mais conhecidas a Biblioteconomia, a Documentação e a Ciência da Informação.147

Portanto, a Bibliografia pode ser considerada uma “ciência” antiga e a palavra “bibliografia” remete à atividade de elaboração de repertórios de títulos. A sua primeira manifestação impressa fora registrada em 1494, decorrente do advento da tipografia, mas a sua forma manuscrita é de origem remota. Datados ainda do século X, há registros de um repertório criado por Claude Galien chamado De libris propriis; mais tarde, essa técnica foi usada para listar os títulos de livros impressos.

No século XVIII, foram criados diversos repertórios bibliográficos denominados “bibliotheca”, “inventarium”, “index”, etc.; porém, o termo “bibliografia” teve a sua primeira aparição em 1663, no trabalho de Gabriel Naudé. Aos poucos, a atividade bibliográfica se expandiu e se modificou em uma função bibliográfica específica e especializada, passando a sofisticar os seus métodos e técnicas. Essa atividade cresceu ainda mais com o aumento da produção dos livros impressos. (BLANQUET, 1993, p.200).

Segundo descreve Woledge (1983, p.266), em 1633 a palavra latina “bibliographia” referia-se a uma espécie de guia discursivo composto por uma lista de títulos. Essa expressão foi empregada na Alemanha até o ano de 1705. Outros termos também foram usados, como

146 De acordo com Santos (2006, p.12), “[...] originada dos catálogos de bibliotecas, a Bibliografia está

relacionada à comunicação e ao fluxo da informação. As bibliografias têm, certamente, origem remota. A primeira de que se tem notícia foi elaborada pelo médico grego Galeno, no século II. Galeno arrolou cerca de quinhentas obras no que se chamou De libris propriis liber. A produção dessas listas prossegue na Idade Média, não tendo sofrido alterações significativas até a invenção da imprensa, que permitiu sofisticá-las.” Segundo Woledge (1983, p.267), o termo Bibliografia foi cunhado no século XVII. Já no século XVIII, o bibliotecário francês Jean-François Née de La Rochelle definiu Bibliografia como “[...] o conhecimento do mundo literário e a descrição de seus elementos.” Conforme mostrou Blanquet (1993), La Rochelle reinvidicou, em 1782, que a Bibliografia tivesse um status de ciência autônoma (com funções de pesquisa, descrição e classificação de documentos impressos).

147 Abordaremos, no capítulo 4, a relação entre Biblioteconomia e Documentação e, igualmente, como tal relação

foi o caso da palavra “bibliotheca”, empregada como sinônimo de guia e não como sentido de lista de livros. Contudo, a palavra “bibliographia” e as palavras equivalentes eram, entre 1641 e 1710, utilizadas para designar listas de livros. (WOLEDGE, 1983, p.266).

Nos séculos XVII e XVIII,148 as “bibliografias” eram usadas como guias para história literária, particularmente para a localização de livros, servindo, portanto, como veículo de informação. (WOLEDGE, 1983, p.266). 149

Concomitantemente à especialização no campo científico, notam-se os primeiros estudos bibliográficos criados para subsidiar técnica e instrumentalmente essa própria premência da ciência mediante a produção de produtos documentais (bibliografias) estratégicos para esse fim. Além disso, a própria conseqüência da especialização levou a um aprofundamento de tais estudos, os quais foram teoricamente sistematizados com a criação disciplinar da Bibliografia. Citamos, por exemplo, as investigações realizadas pelo bibliotecário francês François Née de La Rochelle, em 1782, que buscou justificar a Bibliografia enquanto uma disciplina específica e autônoma; e os estudos do historiador Charles-Victor, os quais alertaram que o foco principal da atividade bibliográfica era tornar acessível o grande acúmulo decorrente da enorme produção de obras impressas e, em particular, disponibilizar a literatura científica. Essas questões, mais tarde, foram abordadas

148 No século XVII, na Alemanha e na França, as listas bibliográficas eram compostas de títulos ou da descrição

de uma classe de livros e tais listas eram apreendidas como o registro dos escritos ou das “coisas relevantes”. (WOLEDGE, 1983, p.266). Nos séculos XVII e XVIII, na Alemanha, a expressão do latim que designava “bibliografia” era notitia librorum, ou “informação nos livros” (information on books), expressão essa que tinha como equivalentes as palavras germânicas Bucherkenntnis e Bucherkunde. (Ibid., p.267). No século XVIII, na França, o termo latino bibliographi, ou bibliógrafo, era usado como um catálogo de assunto (heading) para uma seção contendo uma lista de livros; já a palavra bibliographie era apreendida como a representação de um campo do conhecimento ou a arte de trabalhar com as informações contidas nos livros, mediante, por exemplo, a catalogação e a classificação. (Ibid., p.267). Após a Revolução Francesa, observaram-se alguns problemas, pois muitos livros foram confiscados e, algumas vezes, a prática de fazer bibliografias não era aceita passivamente pelos revolucionários, que a associavam a uma prática antiquada ou uma velha “História Literária” do então antigo regime aristocrático que acabara de ser deposto. (Ibid., p.267). Contudo, a palavra bibliographie, aos poucos, foi se tornando conhecida e passou a ter diferentes significados. Por exemplo, na França ela designava listas bibliográficas e, também, representava algumas das atividades biblioteconômicas; e na Alemanha era concebida sinonimicamente como “listas bibliográficas” (lists of literature), sendo também chamada de

Bucherkunde. (Ibid., p.267).

149 Foi no final do século XIX e no início do século XX que o movimento bibliográfico cresceu

exponencialmente com a criação de importantes bibliografias, sintéticas ou analíticas, tendo uma repercussão internacional em diversas disciplinas. Criaram-se diferentes associações que resultaram em diferentes publicações: Alemanha – Archaologische Bibliographie (1889); Inglaterra – Science Abstracts (1898); França –

Année sociologique (1894); Estados Unidos – Index Medicus (1879), etc. Essas bibliografias não consideravam

somente os livros, mas também os artigos de periódicos que já haviam se estabelecido enquanto a principal forma de comunicação científica. Nesse contexto, o prefixo “biblio” se restringia somente ao formato livro, o que levou, por vezes, a mudarem o nome de instituições “bibliotecas” para “mediatecas”, designação que abrangia também outros tipos de documentos. (MEYRIAT, 1993, p.193).

pelos documentalistas como o principal problema que define “o porquê” da própria “Documentação”. (BLANQUET, 1993, p.200).

O ensaio intitulado “Something about Bibliography”, escrito por Paul Otlet150 em 1892, foi considerado um texto referencial para a criação do movimento bibliográfico do final do século XIX e início do XX. Nesse texto, Otlet mostrou que a função da Bibliografia consistia em auxiliar na identificação e na organização do material bibliográfico. O movimento bibliográfico otletiano foi o “primeiro passo” para a criação de um abrangente sistema de processamento documental (documentary processing), que posteriormente seria a base para a criação de uma rede internacional de documentação. (RAYWARD, 1994, p.237).

Otlet propôs que a literatura bibliográfica deveria ser analisada em quatro categorias de informação: fatos, interpretação de fatos, estatísticas e fontes de informação. Localizados os “pedaços” dessas informações, estas poderiam ser minuciosamente divididas em cartões visando relacionar os assuntos por afinidades temáticas. Assim, tinha-se as partes (assuntos em fichas), as quais comporiam o todo, ou seja, a “base de dados” (agrupamento ordenado dessas fichas). Como veremos mais adiante, Otlet contou com o importante instrumental da Classificação Decimal de Dewey (CDD), que fora criada e desenvolvida pelo bibliotecário estadunidense M. Dewey para auxiliar em tal organização temática. (RAYWARD, 1994, p.237).

Dessa forma, iniciou-se com esses trabalhos uma ruptura no campo da informação, pois como a função principal do movimento bibliográfico consistia em “memorizar” o conhecimento registrado, tal iniciativa, mesmo despropositadamente, forneceu parâmetros importantes (tais como a função de “difusão” e de “acesso” à informação) para a criação disciplinar da Documentação. (BLANQUET, 1993, p.201).

Conforme pontuou Blanquet (1993, p.200), a Documentação fora consagrada disciplinarmente pelas inúmeras publicações e reuniões científicas e pela criação de associações e foros de debates acadêmicos, podendo ser observados três períodos que marcaram a sua constituição acadêmico-disciplinar. Tais períodos são perceptíveis, segundo Blanquet, se observadas as diferenças e particularidades entre Bibliografia e Documentação, a saber:

150 Paul Marie Ghistain Otlet nasceu em Bruxelas em 1868. Estudou em colégio jesuíta e teve a influência do seu

tio Edmon Picard e do fisiólogo Paul Héger, além da influência industrial e comercial provinda das atividades de seu pai. Formou-se jurista e cientista social nas universidades de Lovaina e de Paris, respectivamente. Foi altamente influenciado pelas idéias positivistas de Comte, de Spencer e de Fouillée, dentre outros pesquisadores do final do século XIX. Tendo a ciência como referência intelectual, Otlet partiu para a investigação empírica, algo essencial para que delineasse suas hipóteses investigativas e, em particular, para subsidiá-lo teoricamente para a proposição disciplinar da Bibliografia e da Documentação. (PERIS BONET, 2001, p.2).

9 1890: vigoraram questões sobre “bibliografia”;

9 1910: na ocasião de um colóquio, o termo “documentação” apareceu concomitantemente ao termo “bibliografia”;

9 1930: o termo “bibliografia” cedeu lugar ao termo “documentação”.

A definição de Bibliografia apreendida como sinônimo de “ciência do bibliógrafo” (science du bibliographe), que serviu de inspiração para Paul Otlet idealizar e criar o Instituto Internacional de Bibliografia (IIB), em 1895, fora desenvolvida por seu contemporâneo Langlois, que concebia a Bibliografia como uma “[...] parte da ciência dos livros que trata de fornecer informações sobre as fontes.” (BLANQUET, 1993, p.200).

Nesse contexto, o IIB definiu as quatro operações que constituiriam a Bibliografia, a saber: pesquisar (rechercher), assinalar (signaler), descrever (décrire) e classificar (classer) o material impresso. Com esses princípios, o IIB buscou desenvolver o Repertório Bibliográfico Universal (RBU). Para facilitar o seu desenvolvimento, Otlet e La Fontaine elaboraram a Classificação Decimal Universal (CDU), inspirada na CDD. (BLANQUET, 1993, p.200-201). A criação do RBU foi importante na medida em que evidenciou os avanços técnicos instrumentalizados para a elaboração de repertórios e inventários manuscritos. Além disso, esse repertório foi relevante para o avanço da bibliografia científica que influenciou Otlet a propor disciplinarmente a Documentação em um outro momento. Nessa perspectiva, Peris Bonet (2001, p.10), reafirmando as idéias de Terrada e López Piñero (1980), nos mostra os três aspectos teóricos e profissionais desenvolvidos por Otlet na ocasião em que propôs o RBU:

1. ampliou “[...] os limites do livro e das demais publicações, formulando o conceito geral de documento, como portador ou suporte de informação”;

2. demonstrou “[...] que o trabalho nesse campo não podia ser já competência de um indivíduo, instituição ou grupo isolado, demonstrando a necessidade de organizá-lo com base na cooperação internacional”;

3. iniciou “[...] o estudo científico-social da produção e do consumo da informação científica.”

Na opinião de Arnau Rived (1993, p.190), a Documentação foi criada tendo dois homens enquanto “pedra angular”, a saber, Melvil Dewey e Paul Otlet, os quais, apesar da

distância espacial (pois Dewey era estadunidense e Otlet era belga), compartilhavam aspirações convergentes na medida em que “[...] existia uma completa sinonímia entre eles.” Vejamos, sinteticamente, alguns pontos destacados pela autora quando comparou essas duas personalidades:

9 Diante de um interesse classificatório, eles desenvolveram grande parte de seus trabalhos tendo como parâmetro o sistema métrico decimal, que foi a base classificatória criada por Dewey (para o desenvolvimento da CDD) a qual serviu de referência para Otlet criar a CDU. Esse trabalho foi inspirado por um “[...] desejo de encontrar um ordenamento fácil e de uso universal nas produções do conhecimento humano”;

9 Grande trânsito internacional (essencial para o desenvolvimento de suas idéias); 9 Enfrentaram certa dificuldade de viabilização de seus projetos;

9 Uma formação, em grande medida, autodidata;

9 Grande diálogo entre ambos (principalmente por correspondência); 9 Acumularam cargos e compromissos;

9 Tendência de formar museus.

Após explanar sobre as convergências teóricas e profissionais desses autores, Arnau Rived (1993, p.190) argumenta que Dewey e Otlet foram os responsáveis por revolucionar o mundo bibliotecário, “[...] transformando-o, universalizando-o, ordenando-o, modernizando- o, unificando-o, elevando-o, dando a ele um prestígio e um novo fazer que até então não havia tido.” (tradução livre).

Porém, o termo “Documentação” apareceu acompanhado do termo “Bibliografia” de forma complementar com dois significados: o primeiro expressando uma linha contínua em ambos os conceitos; e o segundo expressando um novo conceito. Tanto a “Documentação” como a “Bibliografia” tiveram uma origem comum, de uma mesma família e com funções idênticas ou análogas, pois ambos os termos se estabeleceram tendo como objeto de trabalho o “documento.” (BLANQUET, 1993, p.201).

Segundo explica Meyriat (1993, p.201), a concepção de Documentação proposta por Otlet,151 comparada à concepção de Bibliografia adotada pela UNESCO,152 diferenciou-se da Bibliografia por uma função primordial: a difusão da informação.

151 Conforme explicou Meyriat (1993, p.201), Otlet definiu a Documentação como processo, evidenciando os

oito elementos que a compõem no sentido da organização para a disponibilização de todos os tipos de fatos expressos nas informações documentais. Tais elementos expressarão, para Otlet, a “objetividade” na informação documental, pois elas se apresentarão como: “[...] 1º universais quanto ao seu objeto; 2º seguras e verdadeiras; 3º

Dessa forma, enquanto a Bibliografia tinha o seu trabalho voltado, principalmente, aos registros bibliográficos (em formato livro), a Documentação se interessou por toda a informação documentada considerando os documentos de natureza múltipla, ou seja, todos os tipos de documentos em todos os suportes de informação. (BLANQUET, 1993, p.201). Por outro lado, o objetivo da Bibliografia era coletar dados bibliográficos e constituir repertórios para conservar o patrimônio cultural bibliográfico.

Continuando tal comparação, enquanto a Bibliografia se destinava a facilitar a pesquisa intelectual, a Documentação se interessou em, além disso, disponibilizar da melhor forma possível as informações, sejam elas bibliográficas ou não. Enquanto a Bibliografia tinha um público específico (geralmente, aquele inserido em um contexto acadêmico), a Documentação, ao contrário, pretensamente buscou democratizar a informação de maneira ampla, pois, embora o contexto acadêmico-científico fosse valorizado, ele não foi o enfoque único. Portanto, a essência da Documentação reside na pesquisa e na busca de informações e, também, na sua comunicação.

Desse modo, a Documentação nasceu impulsionada pelo movimento bibliográfico e se apresentou como um novo modelo visando atender às necessidades informacionais de sua época. Para tanto, Otlet buscou propor uma nova perspectiva de organização do conhecimento, considerando as novas tecnologias e técnicas emergentes. Enquanto a Biblioteconomia “clássica” não conseguia lidar com os novos formatos e suportes do conhecimento, a Documentação questionou a “linearidade” histórica que a humanidade na Idade Moderna vinha se pautando, em particular, quando elegeu referencialmente a biblioteca “tradicional” e deu exclusividade quase absoluta ao livro153 em detrimento de outros formatos e suportes.

completas; 4º rápidas; 5º atuais; 6º fáceis de obter; 7º reunidas previamente e prontas para serem repassadas; 8º colocadas à disposição do maior número possível de pessoas.” (tradução livre).

152 Para a Unesco, a Bibliografia “[...] se baseia na pesquisa, na indicação, na descrição e na classificação de

textos impressos ou multigrafados com o objetivo de constituir repertórios de livros destinados a facilitar a pesquisa universal.” (UNESCO apud MALCLÉS apud MEYRIAT, 1993, p.201, tradução livre).

153 Por um lado, a Documentação nasceu com o aprimoramento de atividades profissionais e com as técnicas

documentais específicas, sendo que a Bibliografia foi fundamental para ampliar o seu conceito (MEYRIAT, 1993, p.193); por outro, essa disciplina surgiu como uma alternativa à concepção “clássica” de Biblioteconomia (que concebia a instituição biblioteca com o enfoque no estoque de materiais bibliográficos). A Documentação propôs, assim, a criação de instituições com uma função até então desconhecida (de pesquisa especializada de temas específicos para diferentes setores da sociedade), nos espaços chamados “Centros de Documentação”. (MARCOS RECIO; NUÑO MORAL, 2000, p.655). Iniciou-se, com isso, uma relação conflituosa entre a Documentação e a Biblioteconomia, pois a Documentação não se desenvolveu enquanto uma atividade específica de bibliotecários, e sim, de profissionais especializados, ou “homens de ciência”, que tinham um conhecimento específico nas áreas que buscavam inter-relacionar com a Documentação. (MEYRIAT, 1993, p.193).

Em relação à ampliação do conceito de documento proposto por Otlet comparativamente às concepções de livro na Biblioteconomia “clássica” e na Bibliografia, podemos dizer que com a Documentação não existiu um rompimento, mas uma adição de valores. Destarte, o conhecimento passou a ser compreendido como algo que poderia se expressar artificialmente não apenas na unidade livro (concebido de forma restrita), já que este conhecimento poderia ser encontrado também em diversos outros formatos e suportes.

Assim, Otlet propôs ampliar o conceito documento justamente no período que fora marcado pelo crescimento vertiginoso da produção de documentos, a qual tornou-se, assim, um problema que apontava para a necessidade da mudança das técnicas biblioteconômicas tidas como ultrapassadas, pois nesse momento postulava-se que os documentos necessitariam ser selecionados, analisados e classificados com um método concreto. (MARCOS RECIO; NUÑO MORAL, 2000, p.655). Nesse contexto, independentemente dos suportes informacionais, o que interessava era a recuperação de seus conteúdos.

A Documentação do início do século XX apresentou aspectos distintos que eram praticados nas bibliotecas gerais tradicionais, tais como a ampliação dos tipos de materiais tratados em seus sistemas, emprego de novos métodos de tratamento da informação, desenvolvimento de análise mais aprofundada dos conteúdos dos documentos, emprego de trabalho cooperativo e uso de tecnologias emergentes. (SANTOS, 2006, p.14).

A Documentação, na década de 1930, ganhou autonomia teórico-disciplinar, adquirindo identidade própria quando assumiu como enfoque principal a comunicação e a transferência da informação. (BLANQUET, 1993, p.201). Cabe suscitar que Otlet foi o responsável por delinear e justificar teoricamente a Documentação como disciplina científica. (PERIS BONET, 2001, p.1).154

No final da década de 1940, a Documentação se adequou às novas necessidades sócioeconômicas provindas do desenvolvimento industrial. Com a multiplicação da produção de documentos e de suas tipologias, foi necessário criar novos serviços, centros e oficinas de documentação. Segundo salientou Meyriat (1993, p.194), o que “[...] importa é tornar o conteúdo utilizável pelos atores econômicos, o mais rápido possível e por todos os meios apropriados.” (tradução livre).

Quando a Documentação estava começando a ser apreendida como disciplina acadêmica e a se estabelecer como atividade profissional em países como a França, a

Inglaterra, a Alemanha, etc.; notaram-se as respectivas denominações para os profissionais da área: “documentaliste, documentalist, Dokumentar”, baseadas nas delimitações teórico- conceituais do Traité de Otlet e, posteriormente, no “Congrès Mondial de la Documentation Universelle”, ocorrido em Paris em 1937. (MEYRIAT, 1993, p.194).

Seguindo essa linha de raciocínio, Meyriat argumentou que frente aos problemas decorrentes da destruição de bibliotecas, centros de documentação, etc., ocasionada durante o