3. HAKİKAT
3.3. W James‘te Hakikat
3.3.7. Din ve Hakikat
Crônica da casa assassinada. O título do romance anuncia a história do
aniquilamento de uma família, caso se interprete a palavra ―casa‖ em sua acepção de reunião de membros sob a mesma descendência, remetendo também à destruição física de uma casa, construção, moradia. A família em questão é a Meneses, composta por antigos fazendeiros de Minas Gerais, a qual, com a chegada dos novos tempos — tempos de crise financeira mundial, seguida da crescente urbanização e industrialização do Brasil, décadas de 1930, 1940 e 1950 — experimenta o incômodo da falência econômica, sobrevivendo do patrimônio acumulado e da força do sobrenome dos antepassados. A casa enfocada é a chácara dos Meneses, com sua arquitetura destacada logo na primeira página do romance, em um esboço de planta.
A edificação segue os moldes das grandes casas de fazenda. Ilhada por vasta quantidade de terras, plantações, pastos e jardins, além de uma construção lateral, afastada da principal, batizada de pavilhão, a casa possui vários quartos (indício de famílias numerosas); cozinha ampla, para abrigar os empregados; espaço considerável para recepções sociais com sala e varanda de grandes dimensões; além de um escritório, reservado para os assuntos confidenciais. Em posição horizontal, formando um retângulo, para quem a vê do portão de entrada, os cômodos se distanciam da esquerda para a direita numa escala decrescente de importância social, começando com o escritório (local para acertos de negócios e política, região masculina por excelência) e terminando com a cozinha (região de ação feminina, baseada em receitas de assados e quitutes mineiros).
Ambas, família e construção, serão destruídas, juntamente com sua moral católica, sua política financeira, baseada na especulação e na usura, e seu patriarcalismo, mesclado de coronelismo tardio e mediocridade indisfarçável. O leitor começa a se aproximar de tal quadro desde antes de abrir o livro, em função de seu título. A surpresa reside em como essa extinção se dá.
O agente desse processo de destruição é a mulher, nas figuras de Nina e Ana. Como a história da decadência que perpassa CCA está suficientemente apontada pela fortuna da obra126, a leitura agora empreendida busca interpretar a ação dessas mulheres na concretização da transgressão máxima: assassinar a família mineira, representante, dentro da prosa de Lúcio Cardoso, do conservadorismo, da hipocrisia e da mediocridade.
Tal perspectiva impõe a necessidade de circunscrever essas personagens femininas diferentes nas várias maneiras de ser mulher, mas unidas pela multiplicidade, traço próprio do feminino. Se, num primeiro olhar, Nina e Ana não possuem nada em comum, por viverem a feminilidade de maneiras distintas, a leitura orientada pelo saber psicanalítico vislumbra semelhanças entre elas. A primeira parte deste capítulo, subdividida em quatro tópicos, trata das principais características das personagens femininas que favorecem novas interpretações do romance.
A primeira delas é a indicação de que a feminilidade se efetua no âmbito da multiplicidade, não havendo um único modo de ser mulher, mas vários, o que as reúne na diferença127. A segunda semelhança trata da urgência de expressar-se enquanto mulher, a invenção do discurso sobre si. Nina alcança sua meta pela moda e pela repetição do ato de partir; Ana, por sua vez, escreve sua história, alcançando patamares únicos em termos do feminino que assume, na prosa de Lúcio Cardoso, a voz em primeira pessoa para falar sobre si. O terceiro ponto em comum é tornar-se, justamente por ser mulher, o alvo de ataque do mais Meneses dos Meneses: Demétrio, um misógino, imbuído da missão de proteger a família da perigosa influência feminina, uma tarefa árdua, já que seu recurso é recalcar o feminino e o material recalcado, como se sabe, sempre retorna. A quarta similaridade é a transgressão, que, na esteira do exercício do mal, promove a derrocada dos Meneses.
O mal é novamente evocado nos moldes lacanianos, conforme apresentado no capítulo anterior, como força de destruição para expressar discordância e dar lugar ao novo. Também serão recuperados os conceitos de repetição e de cadeia significante, mencionados no terceiro capítulo, quando Ida, de Mãos vazias, estava em questão. Com uma diferença: no capítulo sobre Ida, o elemento literário em diálogo com a psicanálise
126 Carelli (1988), Rosa e Silva (2004), Santos (2005) e Brandão (2006), entre outros.
127 A multiplicidade do feminino presente em CCA foi indicada por Brandão (2006), em trabalho sobre a
era, prioritariamente, o espaço; aqui, o elemento beneficiado pela interpretação guiada pelo feminino será o tempo.
A segunda parte do capítulo traz uma discussão sobre o foco narrativo, abordando as múltiplas vozes que compõem CCA. Os dez narradores-personagens do romance têm a companhia de um décimo primeiro narrador, que, pretensamente, organiza os relatos formadores do livro. Esses dois níveis, simultâneos e inseparáveis, agem enquanto, artifício de verdade, na simples reunião de documentos pessoais, e elemento de verossimilhança presente na organização textual. Por meio dos narradores- personagens, simula-se a imparcialidade, devido ao tom verídico dos relatos- documentos-pessoais, para que, em outro nível, com o mesmo material, seja negada a existência da verdade, revelando-se a inexatidão do texto manipulado pelo décimo primeiro narrador, nomeado aqui de narrador-regente128.
Tais pontos são importantes tanto para se interpretar a questão de CCA ser, ou não, um romance polifônico, como também para a abordagem dos aspectos envolvendo a verossimilhança. Pois esse universo de dúvida e ambiguidade está a serviço da destruição e se realiza no âmbito da feminilidade indecifrável das personagens, o que faz de Nina e Ana enigma e (possível) resposta para a obra mais relevante de Lúcio Cardoso.