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3.3.1 A teoria neoclássica da demanda por filhos

A fim de entender a relação entre filhos e mercado de trabalho, deve-se compreender, primeiramente, as motivações que levam os indivíduos a terem filhos e, por outro lado, aquelas que fazem com que os indivíduos decidam não tê- los. Tais motivações podem variar bastante dependendo do período, da região e do grupo populacional de estudo e isso pode ser verificado especialmente se

na força de trabalho ainda não ocorreu no Brasil, talvez porque as mudanças institucionais citadas por Engelhardt et. al (2004), relacionadas especialmente à disponibilidade de creches, não sejam uma realidade brasileira.

analisamos desde as primeiras teorias de crescimento populacional e de demanda por filhos.

A teoria da demanda por filhos de Becker (1960) teve sua origem na teoria de crescimento populacional Malthusiana, segundo a qual o tamanho da família estaria diretamente relacionado à sua renda. Becker (1960) generaliza a teoria de Malthus, introduzindo um novo elemento nessa discussão: a qualidade dos filhos12. Analisando a relação quantidade-qualidade dos filhos, Becker (1960) acredita que um aumento na renda deveria aumentar tanto a quantidade de filhos quanto a qualidade destes, sendo que a elasticidade-renda da quantidade, embora em geral, devesse ser positiva, seria pequena (o que difere da alta elasticidade-renda da quantidade na qual Malthus acreditava), especialmente se comparada à elasticidade da qualidade.

Desde então, diversos estudos têm procurado entender o trade-off entre a qualidade e a quantidade dos filhos (De Tray, 1973; Becker & Lewis, 1973; Becker & Tomes, 1976; Rosenzweig & Wolpin, 1980; Becker, 1991; Lundholm & Ohlsson, 2002). Com esse objetivo, Becker (1991) define os filhos como “bens produzidos” no interior da família por meio do consumo de bens e serviços de mercado e da dedicação de, pelo menos, parte do tempo dos pais, especialmente das mães. Em seu modelo, a demanda de uma família por filhos depende do preço relativo destes e da renda total familiar, de tal forma que um aumento relativo no preço das crianças reduz a demanda por filhos e aumenta a demanda por outros bens,

ceteris paribus.

De acordo com Becker (1991), o preço relativo dos filhos é afetado por diversos fatores como, por exemplo, pelos programas assistencialistas. Na medida em que esses programas oferecem ajuda às mães de filhos dependentes, o custo de oportunidade do tempo gasto com os filhos diminui e, dessa forma, a mãe passa a ter um incentivo para não trabalhar. Outro fator que, segundo Becker (1991), afeta significativamente o custo relativo dos filhos é o valor do tempo das mulheres casadas, já que o custo do tempo da mãe compreende a maior parte do custo total de produção e criação dos filhos.

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Entendendo por qualidade da criança, o capital humano investido pelos pais e acumulados por elas, especialmente em termos de saúde e educação.

Aqui, observamos a relevância da teoria da demanda por filhos de Becker (1991) para o desenvolvimento do presente estudo. No seu modelo, o tempo despendido pela mãe no cuidado com os filhos compreende a maior parte dos custos envolvidos com a sua produção e criação. Por isso, segundo Becker (1991), fatores como o aumento nos salários femininos no último século, aumentaram o custo de oportunidade de ter filhos e, dessa forma, contribuíram tanto para a maior participação feminina no mercado de trabalho quanto para a queda na fecundidade.

No entanto, considerando os filhos como bens que têm uma elasticidade-preço pequena já que eles não têm substitutos próximos, para Becker (1991), não seria de se esperar mudanças tão significativas na fecundidade em um curto período de tempo, como aquelas ocorridas em muitos países (fatores como o aumento salarial feminino, ou os programas assistencialistas não conseguem sozinhos explicar tal fato). Como exemplos o autor cita, entre outros países, os Estados Unidos e o Japão. Enquanto o primeiro experimentou um declínio na taxa de nascimento de 38% entre 1960 e 1972 e de 24% nos anos de 1920, no Japão a taxa de fecundidade total sofreu uma redução de 45% nos anos de 1950.

Becker (1991) acredita que a explicação para uma queda tão brusca da fecundidade está na interação entre quantidade e qualidade dos filhos. Seu argumento gira em torno do fato de que os pais são altruístas em relação aos seus filhos e, por isso mesmo, a utilidade dos pais depende não apenas do seu próprio consumo, mas também do número de filhos e da utilidade de cada um deles. Assim, dentro dessa perspectiva e retratando o trade-off qualidade- quantidade de Becker (1991), um aumento no preço relativo dos filhos pode explicar não apenas o significativo aumento na qualidade das crianças, como também o forte declínio da fecundidade (quantidade).

Vale destacar que essa visão economicista da demanda por filhos, embora seja muito influente na literatura, tem recebido várias críticas, especialmente dos sociólogos. Segundo Blake (1968), por exemplo, Becker peca por não considerar o contexto reprodutivo institucional no qual a família está inserida, já que, para ela a utilidade envolvida na decisão de ter filhos depende, em grande medida, desse contexto. Corroborando com sua crítica, a autora verificou, utilizando dados para

os Estados Unidos, que o sinal da relação entre renda e demanda por filhos varia entre católicos e não católicos. Gauthier (2001), outro crítico do modelo de Becker, acredita que as principais hipóteses do modelo são muito questionáveis. Primeiramente, porque de acordo com o modelo clássico, os indivíduos têm acesso à informação completa sobre os custos e benefícios de se ter um filho (quando na verdade, um contexto de informação imperfeita parece ser o caso) e, em segundo lugar, porque essa é uma decisão economicamente racional (quando a racionalidade depende não apenas dos contextos econômico e social, mas também, da percepção individual).

Assim como essa discussão acerca da demanda por filhos revela a relação existente entre maternidade e trabalho feminino, as teorias de oferta de trabalho, por outro lado, também mostram essa relação. Nesse sentido, a próxima sub- seção pretende complementar os aspectos teóricos envolvidos na associação filhos-trabalho, versando agora sobre a teoria neoclássica de oferta de trabalho.

3.3.2 A teoria neoclássica de oferta de trabalho

De acordo com a teoria neoclássica de oferta de trabalho, a decisão individual de trabalhar é tomada com base em uma função de utilidade na qual os argumentos são a quantidade de bens e de lazer que se deseja consumir e os atributos individuais. A maximização dessa utilidade está sujeita a uma restrição orçamentária que, por sua vez, é influenciada pela renda do não-trabalho, pelo tempo total disponível e pelos preços dos bens e do lazer (Blundell & Macurdy, 1999). Assim, para compreendermos a decisão de participação no mercado de trabalho, precisamos saber, basicamente, o quanto o indivíduo exige de remuneração adicional para abrir mão de uma hora de lazer, quando não está trabalhando.

De outra forma, nesse modelo, um indivíduo se dispõe a trabalhar apenas se o salário oferecido pelo mercado, no mínimo, compensa a sua perda em termos do tempo que ele tem para realizar outras atividades extra-laborais. Esse valor

salarial mínimo necessário para que o indivíduo abra mão de uma hora de “lazer”13 é denominado salário de reserva.

Diversos fatores afetam esse salário e, conseqüentemente, a decisão individual de integrar a força de trabalho. Mulheres com filhos pequenos, por exemplo, tendem a exigir do mercado uma remuneração superior à daquelas que não são mães. Isto porque o salário das mulheres-mães deve compensar a sua menor disponibilidade para com os filhos ou permitir que eles sejam colocados em uma creche; por outro lado, um aumento salarial para as mulheres eleva o custo de oportunidade de se ter filhos, o que pode aumentar a participação feminina no mercado de trabalho (Scorzafave, 2001). Observamos, no entanto, que a mulher tem mais alternativas de uso do seu tempo em relação aos homens: enquanto a maioria destes divide seu tempo entre trabalho e lazer, as mulheres o dividem entre o mercado de trabalho, os trabalhos domésticos e o lazer (Killingsworth & Heckman, 1986). Dessa maneira, os modelos de oferta de trabalho que consideram a alocação do tempo entre os membros familiares, já revelam a incompatibilidade entre filhos e trabalho das mães, uma vez que os filhos demandam tempo e dedicação.

Com base nas teorias clássicas, tanto de demanda por filhos quanto de oferta de trabalho, observamos que a relação entre fecundidade e participação feminina no mercado de trabalho é tema de um intenso debate, especialmente no que se refere à direção causal dessa associação. Por isso, a seção seguinte.