BÖLÜM V: SOĞUK SAVAŞ YANSIMALARIYLA YUNANİSTAN’IN
5.3 Yunanistan’ın Balkanlardaki Durumu
Além da interrupção das relações científicas internacionais, a Grande Guerra adiou projetos da diplomacia pública veiculados pelos próprios médicos alemães para a América Latina. O mais significativo foi o projeto de criação da Revista Médica de
Hamburgo. Essa revista circulou entre 1920 e 1928,191 mas foi idealizada, em 1914, por Ludolph Brauer, médico-cientista e diretor do Hospital Eppendorf. Ao ser lançada em 1920, a Revista Médica de Hamburgo tinha como editores Brauer, Bernhard Nocht e Peter Mühlens (1874-1943). Nocht era diretor do Tropeninstitut e Mühlens da instituição.
Essa revista cumpria o objetivo de aumentar a influência alemã na Espanha e na América Latina, favorecendo a propaganda, a indústria e o comércio da Alemanha no estrangeiro. Apesar da grande audiência dada à medicina tropical, a revista promovia a divulgação da ciência médica alemã como um todo e cumpriu papel importante na política cultural do país (Kulturpolitik) para a América Latina, ao abrir portas para a
189 Em 1904, Nissl assumiu a cátedra de Heidelberg e permaneceu até 1918, quando abriu mão do seu
posto, para voltar a trabalhar novamente com Kraepelin, em Munique. Karl Wilmanns (1873-1945), que era colaborador de Nissl em Heidelberg, foi escolhido o seu substituto e ali permaneceu até 1933. No Terceiro Reich, Carl Schneider (1891-1946) assumiu a cátedra psiquiatria de Heidelberg e ficou marcado pela estreita colaboração com o “programa T4” (eutanásia nazista) (Weiss, 2013, p. 177-178). Posteriormente, a escola de Heidelberg foi lembrada e exaltada pela abordagem fenomenológica da psicopatologia de Karl Jaspers (Janzarik, Viviani e Berrios, 1998) – corrente teórica muito em voga hoje. No entanto, não foram encontrados maiores registros de visitações de psiquiatras brasileiros a Heidelberg, depois da saída de Kraepelin.
190 HU Archiv UK/B046 (Bonhoeffer) Band 4, p. 17-32.
191 Essa revista mudou de nome em 1928 e passou a se chamar Revista Médica Germano-Ibero- Americana. Ela circulou até 1939. Sobre isso, ver Wulf (2013).
162 indústria farmacológica e as tecnologias médicas da Alemanha naqueles países (Sá e Silva, 2010; Wulf, 2013).
No entanto, os médicos de Hamburgo já estavam envolvidos em empreendimentos maiores da política externa alemã, antes mesmo da Grande Guerra, a exemplo do caso de saneamento da ferrovia Berlim-Bagdá, – um dos projetos mais importantes da Alemanha no estrangeiro, no qual o higienista Peter Mühlens esteve diretamente envolvido (Wulf, 2013). Nesse mesmo período, Brauer planejava exercer uma diplomacia pública – já que sua iniciativa, inicialmente, não fazia parte da política oficial – para integrar a medicina alemã à América do Sul, especialmente, aos médicos hispanofalantes (Sá e Silva, 2010; Wulf, 2013). Stefan Wulf (2013) cita o caso de um manuscrito, no qual foi sugerido o estabelecimento de uma pasta especialmente dedicada à América Latina no arquivo do Hospital Eppendorf, em Hamburgo. Ela serviria de ponto de informações e coleções sobre o desenvolvimento da medicina na América do Sul.
Tendo em vista as consequências devastadoras da 1ª Guerra Mundial, tais como a perda de colônias, pagamento de indenizações, crise econômica e o boicote à ciência alemã, a Revista Médica de Hamburgo passou a integrar um projeto maior, agora sim, da política diplomática oficial, segundo o qual a ciência alemã seria parte da política externa do país (Sá e Silva, 2010). Mas, para entender como a medicina e, em especial, a medicina mental passou a integrar a política cultural exterior alemã (Kulturpolitk), é preciso analisar profundamente o impacto do Ditado de Versalhes (Versailler Diktat) – como os alemães preferiam pejorativamente chama-lo – e o boicote à ciência alemã, organizado pelos cientistas franco-belgas.
Nesse contexto do pós-guerra, a imagem da Alemanha foi fortemente questionada no contexto internacional. Declarada culpada pela guerra, a Alemanha foi denominada como uma nação bárbara e huna, pela propaganda da França e de seus aliados. A ciência alemã foi acusada de envolvimento direto na beligerância europeia e sofreu os mesmos questionamentos que o exército alemão. Um pilar forte da acusação contra a ciência alemã foi utilização de armas químicas ao longo da guerra. Ao exército alemão, foram imputadas ainda diversas atrocidades durante a ocupação da Bélgica.
Com efeito, foi articulado um boicote à ciência alemã no pós-guerra, sob a iniciativa franco-belga. Os cientistas alemães foram excluídos dos congressos e instituições internacionais. A língua alemã foi proibida nos fóruns internacionais. Dessa forma, a Alemanha – assim como a Áustria e a Rússia – foi excluída do Conselho
163 Internacional de Investigações (International Research Council, IRC), criado em 1919 (Crawford, 1988).192 A exclusão da participação dos cientistas alemães no IRC e em congressos internacionais foi uma clara resposta ao manifesto dos 93 cientistas alemães a favor da guerra. As hostilidades e os nacionalismos dos cientistas refletem a exacerbação do ódio e das rivalidades regionais depois da guerra. Os acontecimentos posteriores à Versalhes serviram para abalar as relações entre os intelectuais alemães e seus colegas europeus.
Contudo, Crawford (1988) entendeu que isso inicialmente não gerou maiores efeitos ao trabalho científico. Nem todos os cientistas, segundo ela, eram entusiastas do Conselho de Investigação internacional.193 Além disso, nem todos estavam de acordo com o que era veiculado sobre a Alemanha. Um personagem importante e que teve atuação destacada em prol dos alemães foi o jornalista brasileiro Assis Chateaubriand (1892-1968). Em 1920, ele realizou uma viagem para a Europa, quando esteve na Alemanha. Segundo Chateaubriand, essa viagem ocorreu após sugestão de seu amigo e dono do jornal Correio da Manhã, Dr. Edmundo Bittencourt (1866-1943):
“em 1919, depois da assinatura da paz, o meu muito prezado amigo Dr. Edmundo Bittencourt me propunha uma viagem à Alemanha, para o Correio
da Manhã. Fixada para dezembro a minha partida, só me foi possível realiza- la, entretanto, na primavera do ano seguinte. O Correio fora, durante a guerra, a grande tribuna livre, onde, sem embargo do estado de sítio e da beligerância nacional, pude estudar a crise europeia com serenidade e independência, despido de preconceitos que a propaganda dos dois grupos em luta espalhava pelo mundo. (...) A torrente de calunias contra os vencidos de hoje, subia, e ele [Correio] nunca abdicou, ainda nas horas tormentosas, desse espírito crítico, mediante a qual lhe era lícito enxergar, melhor que os outros a face da verdade das coisas” (Chateaubriand, 1920, p. 05).
As impressões de Chateaubriand foram publicadas em formato de livro, em 1920, após sugestão do jornalista e diplomata Domicio da Gama (1862-1925).194 Seu interesse, ao publicar o livro, foi “fazer compreender aos meus compatriotas o crime do Tratado de Versalhes” (Chateaubriand, 1920, p. 05). Para Chateaubriand, a República de Weimar “é sincera em suas intenções pacifistas”. Porém, “o jacobinismo vitorioso da
192 Segundo Crawford (1988), o Conselho Internacional de Investigações dizia respeito à decisão da
Tríplice Entente, após a guerra, de substituir a Associação Internacional de Acadêmicos (International
Association of Academies), fundada em 1899.
193 O Conselho refletiu os esforços para reunir cientistas de diferentes países, a fim de realizar congressos
e reuniões internacionais, além de estimular relações privadas, envio de estudantes, visitas de laboratório e troca de cartas sobre resultados experimentais ou de materiais. Finalmente, também se coadunava com o espírito internacionalista promovido pelas indicações ao Nobel – prêmio criado sob iniciativa da academia sueca, em 1901 (Crawford (1988)).
164 ‘Entente’ insulta-a, enxovalha-a, com represálias, ocupação militar, invasão em plena paz, dir-se-ia, pela sádica alegria de torturar o torturado” (Chateaubriand, 1920, p. 06).
Além disso, Chateaubriand rejeitou os argumentos dos vencedores contra a Alemanha sobe o ocorrido na Bélgica: “somente a minha voz era a de uma consciência impessoal e desinteressada, pronta a reconhecer que, qualquer dos beligerantes, França, Inglaterra ou Rússia, colocados na posição da Alemanha, marchariam contra o inimigo pela mesma estrada” (Chateaubriand, 1920, p. 06). Em outro momento, Chateaubriand (1920, p. 2011) afirma que “violações de leis internacionais, praticaram-nas todos os beligerantes”.
O livro de Chateaubriand representa um importante relato produzido no imediato pós-guerra sobre a realidade política, econômica e científica da Alemanha, com a fundação da República de Weimar e a assinatura do “Tratado de Versalhes”. Chateaubriand mostra-se otimista com as tendências à esquerda surgidas durante a Revolução Alemã de 1919195 e faz críticas à incapacidade francesa de entender as novas forças políticas que surgiram na Alemanha: “o erro da França (...) tem consistido em tratar o Reich como se o governo de Berlim ainda fosse hoje a coalização reacionária dos grupos de direita” (Chateaubriand, 1920, p. 17). Sobre Versalhes, Chateaubriand (1920, p. 17) defendeu que a “França perdeu, porém, todo o sentimento de medida”.
Outro tema importante destacado por Chateaubriand foi a propaganda anti- germânica. Em sua opinião, “a Alemanha foi profundamente caluniada”, pois “pintaram-se todos os seus homens da elite como celerados, partidários da guerra a todo transe; e, portanto, a cultura alemã como a única responsável pelo bloqueio” e pela “fome, que devastou o país, levando a inanição e a morte de centenas de milhares de inocentes” (Chateaubriand, 1920, p. 207). A propaganda anti-germânica deve importante papel para a derrota alemã, segundo Chateaubriand (1920, p. 210):
Não há dúvidas, escreve Arnold Rechberg, na Tägliche Rundschau, que Lord Northcliffe contribuiu largamente para a vitória da Inglaterra na guerra mundial. A maneira como ele dirigiu a propaganda britânica encontrará um dia o seu lugar na história (...). E entre os neutros? Como agiu ele [Northcliffe] a fim de organizar uma mentalidade internacional, não só de repulsa, mas de horror à Alemanha? (...) Conhecem-se, todavia, alguns dos métodos de propaganda, concebida com tanto talento e realizada com tamanho engenho pelo proprietário do ‘Times’” (Chateaubriand, 1920, p. 210).
165 Por fim, Chateaubriand destaca o anti-germanismo durante o Tratado de Versalhes, lembrando que, pela Declaração dos Direitos de 1789, o castigo só pode ser legal por uma lei promulgada antes do delito. Por essa razão, a Alemanha não quis entregar seus oficiais e a Holanda tampouco entregou o Kaiser. Assim, Chateaubriand (1920, p. 219) destaca que “a resistência do governo de Haia foi interpretada por escrúpulos jurídicos” e a “do Reich como um gesto de proteção ao militarismo”, numa arma “brandida pela campanha anti-germânica, a qual funcionava depois da paz, com o propósito de desmoralização do novo regime da Alemanha”.
Em entrevista concedida a Chateaubriand, August von Wassermann (1866-1925) fez duras críticas aos franceses e fez um forte desabafo sobre os crimes imputados à Alemanha e à ciência alemã, motivadores do boicote no pós-guerra:
“(...) não lhe digo que soldados não tenham cometido excessos, punidos aliás severamente pela disciplina militar. Numa massa de seis ou sete milhões, haverá forçosamente brutos, criminosos e tarados. O que esses degenerados fizeram contra os belgas e franceses, praticaram contra os próprios alemães. As cortes marciais francesas estavam condenando frequentemente, como as nossas, soldados passíveis de penas por crimes de direito comum. Entretanto, esses crimes, nas fileiras do nosso exército, eram, grosseiramente transformados numa monstruosa série de delitos, sistematicamente perpetrados contra velhos, mulheres e crianças, em cumprimento às doutrinas de guerra terroristas elaboradas pelo Estado-Maior de concerto com a ciência alemã! Fui médico do exército em campanha. Fiz serviço de guerra. Dou-lhe o meu testemunho pessoal da correção das nossas tropas e do respeito que lhes inspirava o inimigo, sobretudo as mulheres, as crianças e os feridos. Os nossos inimigos malsinam a ciência alemã, quando lhe devem centenas de milhares de vidas, poupadas durante a guerra, graças a esta ciência diabólica. Os ingleses e os franceses enfrentaram as nossas tropas brancas com verdadeiros exércitos coloniais, trazidos de regiões onde o tifo e o cólera são endêmicos. A Europa é salva destas duas pragas, por que? Devido à descoberta de Koch! Os raios, que permitiram localizar no corpo humano, os projéteis recebidos em combate, quantas vidas de soldados inimigos pouparam? É Roentgen, o outro salvador da existência de nossos adversários. A descoberta do soro antitetânico, que número incalculável de feridos não arrebatou à morte certa? É Bhering, quem lança mais essa ancora à vida do adversário! E lembre-se agora que a ciência alemã não fez nenhuma dessas descobertas privilégio seu. (...) Sem falsa modéstia, sei que, com o resultado de minhas pesquisas, grande número de doentes recobraram a saúde. Agi sempre com os meus colegas: recusei-me comercializar as ideias científicas. O sábio alemão é um homem que paira acima do grosseiro materialismo dos nossos dias. (...) Nós aproveitamos descobertas francesas, inglesas, como as de Pasteur, Lyster; (...) e porque a Alemanha lutava contra a França e a Inglaterra, aqui nunca pretendemos que seus homens da ciência fossem bárbaros. Entretanto, do outro lado, se apresentava a Alemanha ao mundo como uma nação abominável de hunos, que pretendiam destruir o patrimônio da civilização europeia, como se não tivéssemos os mesmos sentimentos de generosidade dos nossos inimigos, e como se aqui não se encontrassem homens, que haviam dado o espírito, o trabalho e a vida, a todas as nações, isto é, a humanidade. O que lamento, como cientista, é que as paixões se hajam de tal forma exacerbado nesta guerra que, mesmo em inteligências de escól, a eliminação da faculdade de julgamento se processou de modo
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deplorável. Para o progresso científico, a barreira que se levanta entre a Alemanha e seus antigos adversários, representa uma perda ideal, que fere tanto à ciência alemã quanto à ciência universal. Para o bem da humanidade, ela deveria desaparecer” (Wassermann apud Chateaubriand, 1920. p. 352- 352).
Assis Chateaubriand (1920, p. 354) também mostrou a sua indignação com o boicote à ciência alemã, citando o caso de Oskar Vogt como ilustrativo de que o
Manifesto dos 93 gerou controvérsias entre aqueles que assinaram o documento:
“o célebre neurologista, prof. Vogt, cuja autoridade o mundo inteiro reconhece, pelos seus trabalhos sobre a constituição dos nervos estriados, e cuja esposa, pesquisadora notável e francesa autêntica, foi com ele expulsa da Sociedade de Neurologia de Paris, como ‘bárbara’, já narrou a história do manifesto dos 93. A maior parte dos professores que subscreveram, fizeram- no por telegrama, sem lhe conhecer o texto. (...) E quando alguns viram os termos do manifesto retiraram a adesão já dada. Entre eles, contam-se Erlich, Wassermann, Vogt. Todavia, as exclusões feitas pelos franceses de sábios alemães, das suas sociedades, são em massa” (Chateaubriand, 1920, p. 354).
Magali Sá e André Silva (2010) destacaram que muitos cientistas alemães se mostram relutantes a estabelecer gestos de conciliação frente à política deliberada de exclusão da ciência germânica. Stefan Kühl (2002) citou o caso do Segundo Congresso Internacional de Eugenia, que ocorreu em Nova Iorque, em setembro de 1921, sem a participação dos cientistas alemães. O eugenista norte-americano Charles Davenport chegou a enviar uma carta aos seus colegas germânicos para tentar desfazer, sem sucesso, o embaraço criado. Ele afirmou que iria trabalhar para que tudo já estivesse resolvido numa próxima conferência internacional.
Segundo Kühl, o influente Charles Davenport – que havia sido recentemente eleito presidente do Comitê Internacional Permanente em Eugenia (Permanent
International Committee on Eugenics) – desempenhou um papel central no processo de reintegração e fortalecimento dos higienistas raciais alemães no movimento eugênico internacional. Apesar do apoio de dois famosos cientistas escandinavos, os intentos de Davenport só alcançaram os esforços esperados, entre 1924 e 1925.196 Em 1923, Erwin Baur197 – famoso biólogo e geneticista da Universidade de Berlim – e Fritz Lenz
196 Segundo Kühl (2002, p. 19-22), a participação da Alemanha no movimento internacional eugênico só
foi restaurada, em 1925, através de ações dos eugenistas norte-americanos do Eugenics Record Office. Em 1927, sob a presidência de Davenport na Organização Internacional das Federações Eugências, a Sociedade Alemã de Higiene Racial recebeu e aceitou o convite de associação.
197 Ao lado de Fritz Lenz e Eugen Fischer, Baur publicou um manual de eugenia que era considerado uma
167 rejeitaram o convite para integrarem um encontro da organização internacional. Em sua justificativa, Baur afirmou que os higienistas raciais alemães não assumiriam um assento em um mesmo comitê que franeses e belgas, enquanto as tropas dessas nações permanecessem ocupando o vale do Ruhr (Baur apud Kühl, 2002, p. 19). Fritz Lenz também se lembrou da ocupação e afirmou que nesse contexto “não há tempo para congressos internacionais” (Lenz apud Kühl, 2002, p. 19).
Esses exemplos mostram que os próprios cientistas alemães teriam assumido a dianteira das relações internacionais do país, através da concepção de ciência como “instância compensadora do poder político e militar destroçado (Machtersatz)” (Sá e Silva, 2010, p. 11). A ciência deveria ser a “ponta de lança de uma política externa independente, antigovernamental e genuinamente nacional” (Sá e Silva, 2010, p. 11) que se tornou uma realidade institucional, em março de 1920. Isso ocorreu graças à fundação da divisão cultural (Kulturalabteilung) do Ministério das Relações Exteriores (Auswärtiges Amt)198, nos primeiros anos da República de Weimar, sob o contexto da “Reforma Schüler”199 entre 1919 e 1920 (Conze, 2013).
No interior do Auswärtiges Amt, foram criadas seções regionais (Länderabteilungen) que coordenariam a política-diplomática da Alemanha direcionada a áreas específicas do mundo (Regionalsystem). Segundo Conze (2013, p. 52), foram inicialmente fundadas seis novas seções regionais. Europa Ocidental (Abteilung II), Sudeste Europeu (III), Europa Oriental (IV), Grã-Bretanha e Império Britânico (V), América, Espanha e Portugal (VI) e Leste Asiático (VII). Em 31 de julho de 1920, organizou-se uma divisão para relações econômicas internacionais da Alemanha (Abteilung X). Em cada uma dessas seções havia um relator responsável (Referat) por determinado país ou grupo de países.
Posteriormente, foram criadas outras divisões: a Divisão I (Pessoal e Administração), o departamento jurídico (VIII) e a Divisão XI – Alemão no Exterior e Cultura (Deutschtum im Ausland und Kultur). Esta última esteve vinculada à Política
Erblichkeitslehre und Rassenhygiene). Em 1923, o manual chegou a sua segunda edição, revista e ampliada (Baur, Fischer e Lenz, 1927, p. VI).
198 Segundo Eckart Conze (2013, p.06), o Ministério das Relações Exteriores foi fundado em 1870, na
federação norte-alemã, existindo entre 1871 e 1945, durante os regimes do Kaiserreich (II Reich alemão), República de Weimar e Terceiro Reich.
199 Ela recebeu esse nome, em virtude do papel exercido pelo diplomata Edmund Schüler (1873-1952).
168 Cultural Exterior (Auswärtigen Kulturpolitik), bem como às ações voltadas para os alemães residentes no exterior (Deutschtum).200
Com relação à América Latina, Stefan Rinke (1997) observou que as condições do contexto do pós-guerra levaram a América Latina a fazer parte dos interesses da política exterior, de tal modo que pela primeira fez foi organizada uma “política latino- americana” (Lateinamerikapolitik). Isso ocorreu, pois os imigrantes alemães na América Latina alcançaram seu auge no início dos anos 1920. Os campos da tecnologia de comunicação, da Kulturpolitik e da aviação favoreceram as relações teuto-latino- americanas. A partir da metade dos anos 1920, as atividades foram expandidas com novas fontes de patrocínio da política exterior e com o intermédio de especialistas alemães em governos latino-americanos (Rinke, 1997, p. 357).
Por todo o exposto, fica claro o esforço por isolar e acusar a ciência alemã no imediato pós-guerra, bem como as estratégias da diplomacia oficial e semi-oficial promovida pelos alemães, em contrapartida. Essas estratégias objetivavam também fazer frente às dificuldades econômicas que atingiam as instituições de pesquisa e ensino superior do país, durante a ocupação franco-belga do vale do Ruhr e a crise inflacionária de 1922-1924. O apoio de intelectuais estrangeiros foi fundamental para os cientistas alemães. Após o retorno de Chateaubriand ao Brasil, ele organizou um grupo de trabalho para arrecadar fundos de socorro à ciência alemã e austríaca. Uma das primeiras iniciativas de Chateaubriand resultou em uma doação no valor de 100 Contos de Reis (RM 1.000.000).201
No alvorecer de 1922, foi formada uma comissão composta por Miguel Couto (1865-1934), Abreu Fialho, Juliano Moreira, Aloysio de Castro (1881-1959), Assis Chateaubriand, Rocha Fragoso, Fernando Magalhães (1878-1944), entre outros, para angariar donativos e ajuda financeira à ciência experimental alemã e austríaca. A soma total de fundos seria enviada a Notgemeinschaft Deutsche Wissenschaft, 202 responsável
200 Além desses, existiram o Departamento de Imprensa (Presseabteilung, P) e o Departamento da Paz
(Abteilung Frieden, F). Segundo Conze (2003), ao todo foram criados no início da República de Weimar doze departamentos contra os cinco existentes no ano de 1914. Essa organização foi, eventualmente, alterada por reformas posteriores. Do ponto de vista arquivístico e de acesso à documentação, os pesquisadores encontram as referências atualizadas no site do Arquivo Político do Ministério das Relações Exteriores da Alemnha (PAAA), por onde são realizados os pedidos de consulta.
201 Carta de Georg A. Plehn, Gensandtschaft Rio de Janeiro, ao Auswärtiges Amt. Rio de Janeiro,
13/01/1921. PAAA R64928.
202 Trata-se de uma associação de cientistas alemães, com sede em Berlim, responsável pelo fomento à
pesquisa científica alemã. Segundo Wagner (2010), essa instituição passou por algumas mudanças de nome, até que, em 1935, ganhou efetivamente o nome atual de Deutsche Forschungsgemeinschaft (DFG).
169 pela ulterior distribuição dos recursos.203 Essa iniciativa beneficiou a DFA, em Munique.204 Em 04 de abril de 1922, Kraepelin enviou uma carta a James Loeb, na qual conta com estusiasmo que seus colegas de Chicago e do Brasil aceitaram o pedido de ajuda financeira à DFA.205 A sociedade alemã de medicina em Chicago enviou uma quantia em torno de RM 82.000.206 Já Juliano Moreira conseguira arrecadar RM
100.000, em uma ação no Rio de Janeiro, em fins de 1922.207
Em agosto daquele ano, foi fundada a Sociedade de Amigos da Cultura