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BÖLÜM II: SOĞUK SAVAŞ YANSIMALARIYLA BULGARİSTAN’IN DIŞ

2.1 Türkiye’nin Bulgar Dış Politikasına ve Sovyet Etkisine Bakışı

2.1.3 Bulgar–Yugoslav İlişkileri

“(...) Nós só podemos avançar lenta e arduamente na psiquiatria, na qual precisamos, primeiramente, criar nossa Anatomia, Fisiologia e Anatomia patológica em um órgão, que no emaranhado em sua construção e na fineza da estrutura de seus elementos supera tudo o que a natureza criou. Onde a Química ainda não ajuda, onde temos muito que ver com sintomas, que, como todos os psíquicos são fugidios e impossíveis de deter, e que nós, devido à falta de nossa metodologia, que ainda nem no início de sua elaboração se encontra, dificilmente podemos desmembrar e julgar em seu significado. (...) Assim temos que ampliar ainda nossas ciências auxiliares muitas vezes, frequente ainda esperar, como se desenrolam os casos patológicos, que observamos hoje. Às vezes seguiremos também caminhos, os quais se mostram mais tarde como transvios. Finalmente, a psiquiatria

61 Breslau é hoje uma cidade da Polônia (Wroclaw, em polonês).

62 Erwin Rohde (?-?) pupilo de Kraepelin em Munique (1907), assistente da clínica psiquiátrica em

Munique, chefe do laboratório químico até mudar-se para a Universidade de Heidelberg, onde deu classes de farmacologia (Hippius, Peters e Ploog, 1987).

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alcançará também o que a medicina remanescente alcançou, a saber, ordenar os casos patológicos em doenças que através de suas causas e sua essência são determinadas com relação a sua aparência e seu desenlace dentre de determinados limites. Por fim, haverá sempre mais questões polêmicas em uma área tão complicada como a da demarcação dos distúrbios psíquicos particulares (...). Teremos assim que nos decidir compreensivelmente ainda mais do que em outro lugar diante de posições contrárias. A disputa, entretanto, tem a vantagem de que nos obriga sempre, outra vez, a procurar novos caminhos e fatos, que facilite o julgamento” (Alzheimer, 1910, p. 19).

Até o momento, falamos sobre diferentes níveis construção da psiquiatria como ciência moderna. Perseguimos entender como e por que Kraepelin se tornou quem se tornou. Por isso, analisamos detalhadamente seu projeto profissional, sua agenda de pesquisa, suas estratégias e itinerários políticos. Nesse percurso, analisamos a trajetória de Kraepelin e a trajetória coletiva dos diferentes atores que contribuíram para cimentar o edifício da psiquiatria alemã, de modo que ela tenha se tornado uma referência internacional.

Na segunda metade do século XIX, a psiquiatria alemã havia deixado de ser construída no trabalho clínico das instituições asilares, passando a ser, primordialmente, uma produção acadêmica das universidades alemães e de suas clínicas hospitalares. Nas instituições asilares, os alienistas eram seguidos por diversos estudantes e médicos auxiliares que, eventualmente, tornaram-se discípulos. A passagem do alienismo para a psiquiatria acadêmica tornou o saber cada vez mais um trabalho de equipe, tendo como eixo central e referencial o professor catedrático de psiquiatria e em neurologia. Ele estava no topo da hierarquia acadêmica e, por isso, colhia frutos através de seu trabalho individual, mas também do trabalho coletivo coordenado por ele.

Como chefe de laboratório, o cientista publica dados em colaboração com o seus subordinados. Kraepelin era chefe do laboratório de psicologia experimental, mas era o catedrático de psiquiatria e neurologia em Munique. Por estar no topo da hierarquia, colhia frutos diversificados que eram utilizados nas diversas edições do seu Tratado de

Psiquiatria que, em 1910, chegava a sua oitava edição.

Mas, para entender o trabalho coletivo, através do qual, Kraepelin se nutria, devemos anlisar seus principais colaboradores e o processo de escolha dos personagens que integram as equipes de pesquisa acadêmica. Uma resposta para essa investigação histórica está na universidade alemã. Sem compreender o seu sistema de funcionamento, dificilmente conseguiremos compreender a produção do conhecimento científico e psiquiátrico. Dentre as questões a serem destacadas, selecionamos a hierarquia acadêmica, a carreira universitária e o modo de preenchimento das vagas.

69 Tendo em vista o recente surgimento de ciências auxiliares na pesquisa psiquiátrica, nem sempre as novas vagas podiam ser preenchidas por nomes já referendados de colaboradores de longa data de Kraepelin, como no caso de Nissl e Alzheimer. Eram vagas novas. Kraepelin havia ampliado o escopo da pesquisa científica e, por essa razão, precisou estimular jovens pesquisadores a ocupar as vagas que estavam sendo abertas. Tomemos como exemplo o caso do jovem médico de origem suíça, Dr. Ernst Rüdin. Ele havia se especializado no tema da psiquiatria forense, através de estudos sobre as psicoses carcerárias. Por causa delas, Rüdin despertou desde longa data para temas como alcoolismo e a hereditariedade. Por essa razão, Kraepelin o convidou para trabalhar com a psiquiatria genética.

Porém, como vimos, Alzheimer e Nissl foram antigos e imporantes colaboradores de Kraepelin, desde Heidelberg. Alois Alzheimer e Franz Nissl se conheceram em 1889, na Clínica de Psiquiatria da Universidade Frankfurt e, deste então, iniciaram uma longa parceria que culminou na edição dos “Trabalhos Histológicos e Histopatológicos do Córtex Cerebral” (Histologische und

histopathologische Arbeiten über die Großhirnrinde), de 1904-1921. Em Frankfurt, Nissl teria mostrado suas técnicas de coloração, seu material de teste e seus resultados experimentais para convencer Alzheimer da exatidão e da importância dos métodos de neuro-histopatológicos para pesquisa em doenças psiquiátricas (Hippius et al., 2008).

“fundador da anatomia de doença mental, Franz Nissl, descobriu o método para o exame microscópico do sistema nervoso, a partir do qual foi possível, pela primeira vez, observar os desvios sutis da estrutura normal do aparelho nervoso”(Spielmeyer, 1927, p. 13).

Influenciado por Nissl, Alzheimer iniciou, ainda em Frankfurt, seus estudos em neuropatologia, a partir dos quais ele descobriu a enfermidade que posteriormente ganharia o seu nome: a doença de Alzheimer (Hippius et al., 2008; Mauer e Mauer, 2006).63 Segundo Kraepelin (1922b), Alzheimer, Nissl e Korbinian Brodmann (1868- 1918) foram três pesquisadores “pioneiros no campo de trabalho mais importante para o nosso maior conhecimento, que deve tornar claro para nós a base somática para distúrbios mentais”. Ao discorrer sobre as contribuições de cada um deles, Kraepelin produziu a seguinte memória:

63 Segundo Mauer e Mauer (2006), Alzheimer entendia as doenças psíquicas como doenças do cérebro,

no momento em que a psicanálise começava a ganhar força. No congresso de psiquiatria de 1906, em Tübingen. Alzheimer apresentou o paper sobre o caso Auguste D., primeiro capítulo da Doença de

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“Foi Nissl, o maior dos três, que, trabalhando de forma abrangente e construtiva e com objetivo firme, estabeleceu as premissas para a anatomia patológica do córtex cerebral e, auxiliado por todas as técnicas científicas, esforçou-se para procurar o plano estrutural e o significado do tecido mais desenvolvido do corpo. Alzheimer, seu discípulo mais fiel e companheiro de trabalho, lutou incansavelmente, com inesgotável paciência e auto-sacrifício para estabelecer, através de um número infinito de investigações individuais, as mudanças corticais correspondentes às diferentes formas de perturbação mental. Ele procurou, desta forma, possibilitar ao clínico (...) testar suas hipóteses e mostrar (...) a medicina como a mais poderosa alavanca do progresso. Brodmann64 tinha estabelecido a si mesmo a tarefa de descobrir a

divisão celular no córtex e, assim, preparou o solo para o futuro trabalho que deveria informar-nos sobre a extensão localizada do processo da doença no córtex e também a importância das áreas de tecido individuais atacadas por ela” (Kraepelin, 1922b, p. 91).

Desde longa data, diversos médicos alemães se esforçaram para encontrar o fundamento físico e somático da doença mental para, assim, colocar em prática a velha frase de Wilhelm Griesinger. Nissl e Alzheimer realizaram grandes contribuições para a pesquisa científica e universitária germânica, portanto, foram peças fundamentais para o sucesso da Escola de Kraepelin, dentro e fora da Alemanha.

Edward Shorter (1997, p. 66) considerou Kraepelin “de longe, o mais proeminente dos psiquiatras acadêmicos alemães” de sua época. Mas, ao naturalizar o tamanho do reconhecimento recebido por Kraepelin ao longo de sua trajetória, Shorter deixou de explicar aos seus leitores como isso foi possível. A localização cerebral das doenças mentais era um sonho antigo e entendido como passaporte de entrada no hall das ciências. Permitiria, na visão dos médicos da época, que a medicina mental seguisse o caminho da bacteriologia na defesa da cientificidade da medicina em relação às ciências físico-químicas, tornando-a uma fisiologia experimental, como já defendia Claude Bernard (1944), em 1865. Por que foi então o nome de Kraepelin, e não o de Nissl ou o de Alzheimer, que se sobressaiu como o mais proeminente dessa geração? Uma explicação imediata pode ser busca na hierarquia do sistema universitário alemão.

Norbert Elias (1997), em seu estudo sobre a evolução do habitus alemão nos séculos XIX e XX, relaciona a hierarquia acadêmica e os padrões de conduta no interior da universidade alemã à carreira militar: sua hierarquia rígida e seus códigos de conduta. De fato, pode-se dizer que a carreira acadêmica alemã tinha uma estrutura

64 Foi em Berlim, na Neurologische Zentralstation (embrião do Instituto Kaiser Wilhelm de Pesquisas do

Cérebro), que Brodmann desenvolveu estudos sobre o mapa cortical (topografia histológica) que os neurologistas chamam hoje de Áreas de Brodman (Holdorff, 2004). Ele só se juntou à equipe de Kraepelin em 1918, pouco antes de falecer.

71 rígida e extremamente hierarquizada, desde o século XIX. Além disso, os estabelecidos na universidade – tomando de empréstimo o termo cunhado por Elias e Scotson (2000) – eram indivíduos de origem social mais abastarda. Essa estrutura acadêmica permaneceria quase inalterada até a tomada de poder por parte dos nazistas, em 1933 (Grüttner, 2003).

Segundo Michael Grüttner (2003), a carreira acadêmica se inicia com a tese de doutorado (Dissertation), mas é com a habilitação (Habilitation) que o intelectual se tornava docente universitário (Professur) e passa a ocupar o cargo de professor instrutor (Privatdozenti).65 Este seria o primeiro título e posto (Titel und Rang) da carreira universitária alemã. Uma vez professor instrutor, o indivíduo se tornava um especialista no sistema universitário alemão, tendo os mesmos direitos e obrigações acadêmicas, sem, contudo, possuir uma remuneração regular. Para subir na carreira universitária, ele precisaria aguardar em regra geral, cinco ou seis anos, e ser lembrado para se tornar um

nichtbeamteter auβerordentliche Professor (professor extraordinário não-titular). Nesse

sentido, o professor extraordinário não-titular ainda possui um status incerto, não fazendo parte do quadro permanente da universidade. Assim como o professor instrutor, o professor extraordinário não-titular é um candidato a ser incluído no círculo do professor catedrático (ordentliche Professor) (Grüttner, 2003).

Abrindo uma vaga, o acadêmico necessita ser convidado para assumir uma cátedra e se tornar assim professor catedrático. Contudo, deve se pontuar que não há garantias a priori de que esse convite será realizado. Dependia muito não só do surgimento de uma nova vaga, mas também do reconhecimento dos méritos do trabalho que o professor instrutor vem realizando. Ao ser nomeado professor catedrático, o indivíduo passa a fazer parte permanentemente do corpo docente de uma dada universidade e a ter, assim, remuneração regular. Ao lado do professor catedrático, segundo Grüttner (2003), haveria um pequeno grupo de professores titulares (planmäβige auβerordentliche Professoren). Depois de muitos anos na carreira, o

docente ainda pode receber o título de professor honorário (Honorarprofessor).

Nesse sentido, há que se destacar que Kraepelin recebeu sua primeira cátedra em 1887 e era o catedrático de Psiquiatria (ordentliche Professor) em Heidelberg, quando Nissl e Alzheimer ingressaram em sua equipe. Esse é um dado importante, levando em

65 Sigo aqui a tradução presente na versão brasileira do livro de Ringer (2000), quando o termo Privatdozent foi traduzido por instrutor – ainda que a palavra em português não corresponda bem com as especificidades do Privatdozent, isto é, o fato dele não ser um efetivo na universidade. Falaremos novamente sobre isso, no Capítulo 3.

72 conta o caráter altamente hierárquico das universidades alemãs, como bem destacou Norbert Elias (1997). Kraepelin era, portanto, o superior hierárquico de Nissl e Alzheimer e, esses dois, eram apenas professores intrutores (Privatdozenten) daquela universidade. Isto quer dizer que nenhum deles detinha o estatus de professor permanente no meio universitário alemão, até começos do século XX.

No entanto, Nissl e Alzheimer se tornariam, posteriormente, professores titulares de psiquiatria em outras universidades alemãs. Nissl realizou sua habilitação somente em 1896, um ano após a sua chegada em Heidelberg, para trabalhar com Kraepelin.66 Em 1901, foi elevado a um posto intermediário entre o professor instrutor (Privatdozent) e o professor catedrático (ordentliche Professor), tornando-se professor extraordinário (ausserordentlicher Professor). Após a curta passagem de Bonhoeffer67 em Heidelberg, Nissl assumiu, em 1904, a cátedra de psiquiatria que por treze anos fora dirigida por Kraepelin (Jahnel, 1920).

Sobre o período de Nissl na cátedra de Heidelberg, Kraepelin nos dá um importante relato:

“Agora de uma vez todas ele tinha se tornado um clínico e teve que suportar todo o peso da direcção médica, das instruções e exames. Esse foi o mais desastroso para ele, já que ele não entendia como facilitar as coisas para si mesmo, deixando que os outros trabalhassem para ele” (Kaepelin, 1920, p. 212).

Apesar das dificuldades de Nissl ao assumir a missão de dirigir a clínica psiquiátrica de Heidelberg, Kraepelin lembrou que Nissl realizou grandes esforços para o desenvolvimento das pesquisas histológicas e topográficas:

Apesar dessas responsabilidades, ele era incansavelmente dedicado no trabalho de fazer avançar a ciência que ele havia fundado juntamente com Alzheimer. Ele trouxe a coleção de trabalhos histológicas e histopatológicas que eram, antes de tudo, a imagem das alterações anatômicas em paralisia

66 Nessa época, não havia universidade em Frankfurt, portanto, Nissl e Alzheimer não precisavam realizar

a habilitação para trabalhar com Sioli. Embora a clínica de Sioli também tivesse laboratórios e pesquisa científica, não era uma clínica universitária como Heidelberg.

67 Karl Bonhoeffer (1868-1948) realizou seus estudos médicos em Tübingen e sua prática, em Breslau,

onde foi assisente de Wernicke. Em 1897, habilitou-se (Habilitation) com um estudo sobre “Os estados mentais do delírio alcóolico” (Die Geisteszustände der Alkoholdeliranten) Em 1903, foi convidado a assumir a cátedra de Psiquiatria da Universidade de Königsberg, quando se tornou professor catedrático (ordentlicher Professor). Em 1904, assumiu a cátedra de psiquiatria de Heidelberg, em substituição a Kraepelin. Após permanecer apenas um semestre em Heidelberg, Bonhöffer assumiria no mesmo ano a cátedra de Breslau, onde permaneuceu até 1912. Neste ano, aceitou o convite para assumir a cátedra de psiquiatria de Berlim, substituindo Theodor Ziehen (1862-1950) (Gaupp, 1949, p. 01-04; Jossmann, 1949).

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geral que foram trabalhadas em todas as direções por ambos os investigadores. Depois disso, ele retomou sua experimentação animal, para obter agora um alicerce seguro na solução das grandes questões que ele perseguia de perto, em relação aos significados da estratificação do córtex cerebral. A representação sem precedentes de Nissl sobre as várias formas de células nervosas veio a ser o ponto de partida da histologia cortical topográfica para bases citoarquitetônicas. Vogt e Brodmann obtiveram sucesso em limitar de forma puramente anatômica uma longa série de campos corticais diferentes em termos de estrutura, o que em parte poderia ser usado como um guia para a localização das funções mentais especiais. Através dos esforços de Nissl, a Escola de Heidelberg colocou certa soma à disposição de Brodmann para serem utilizada na realização dessas pesquisas (Kaepelin, 1920, p. 212).

Conforme já destacado, boa parte da equipe que Kraepelin montou em Heidelberg o acompanhara até Munique. Nissl teve que montar sua própria equipe em Heidelberg. No período de Nissl como diretor da Clínica de Heidelberg (1904-1918), passaram por lá importantes nomes da história da psiquiatria alemã: K. Jaspers, H.W. Gruhle, A. Homburger, A. Kronfeld, W. Mayer-Gross, O. Ranke. Karl Jaspers, inclusive, escreveu ali seu conhecido Manual de Psicopatolgia (Lehrbuch der

Allgemeinen Psychopathologie), publicado em 1913 (Janzarik, Viviani e Berrios, 1998). Em carta a Kraepelin, Nissl falou sobre o trabalho que estava sendo realizado em sua clínica, sua satisfação e dificuldades em relação aos seus assistentes:

„eu estou em geral satisfeito com meus assistentes. Eles têm, em todo caso, boa vontade, no entanto talentoso me parece ser apenas Willmans e, quem sabe, também Merzbacher. Nosso método atual do exame clínico, - o assim chamado ‘Motzung’ – não é como nada apropriado para formar um juízo sobre seus assistentes. As anotações adquiridas aqui nos fornecerá material para o ‘diagnótisco de falta/erro/deficiência’. É, contudo, de fato uma alegria observar com que tamanho zelo os senhores se dedicam nestas horas de trabalho. Discutimos cada ponto obscuro no diagnóstico pormenorizadamente. (...) Também nosso laboratório já está em funcionamento. Nesse momento, trabalham nele somente o filho de Erb (Arterioesclerose), Lenowa und Merzbacher. Este último é sem dúvidas o mais inteligente, embora faça ideia alguma sobre histologia no sentido que empregamos. Eu preciso dispender muito tempo com o objetivo de lhe iniciar nesses mistérios. Ele parece entender. Os meros detalhes nervosos histológicos ele [contudo] domina bem. Coisas cotidianas para nós, como tumor progressivo da Glia, a mais simples alteração dos vasos sanguíneos, sobre as quais Alzheimer e eu não precisamos perder uma sequer palavra, são para ele detalhes dos mais altos graus. Percebo que eu não sou ainda suficientemente um mestre.68

Além disso, Nissl fez a Kraepelin alguns desabafos sobre a vida como catedrático e diretor do hospital da clínica psiquiátrica da Universidade de Heidelberg

68 Carta de Franz Nissl a Emil Kraepelin. Heidelberg, 14/10/1904. MPIP-HA K33/13 Nissl apud

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“O mais importante de tudo, a clínica, chegará agora também o mais breve até os meus pés. Por isso, rondam-me sorrateiramente preocupações medonhas. Eu sei como é difícil manter uma clínica organizada. Que raro senti no semestre de inverno passado o alívio, quando a clínica estava organizada. Desculpe-me, Sr. Professor, que eu desabafo longamente em toda parte. Mas a quem eu deveria dizer isso tudo? E, no entanto, tenho uma necessidade de, pelo menos, chamar a atenção para o que me preocupa. Quando chego à noite em casa cansado, faço besteiras. Já não posso mais trabalhar decentemente”.69

Mesmo com todas as dificuldades enfrentadas por Nissl em sua tarefa como professor catedrático e diretor do hospital psiquiátrico da universidade de Heidelberg, ele permaneceu firme em suas funções e investigações científicas. Contudo, em 1917, Nissl decidiu abdicar de sua cátedra para trabalhar novamente Kraepelin (Jahnel, 1920). Poucos anos depois viria a falecer. Sua morte, em agosto de 1919, representou uma grande perda para os novos empreendimentos de Kraepelin em Munique – conforme veremos no capítulo seguinte.

Enquanto Privatdozent em Munique, Alzheimer assumiu a função de consultor sênior de Kraepelin, entre 1904 e 1909. Neste último ano, Alzheimer decidiu renunciar a função de consultor sênior, para se dedicar exclusivamente à pesquisa científica. Em seu lugar, foi indicado o nome do médico assistente, Ernst Rüdin.70 Em fins de 1909, Alzheimer foi elevado a professor extraordinário (auβerordentlicher Professor), na carreira acadêmica.71 Três anos mais tarde, Alzheimer foi convidado para substituir Karl Bonhoeffer (1868-1948) em Breslau (Spielmeyer, 1916).

Em 04 de março de 1912, Alzheimer estava na lista dos quatro indicados para assumir a cátedra de psiquiatria e neurologia, em Breslau. Em 16 de julho, Alzheimer recebeu a sua nomeação, após encerrar as negociações contratuais e entrar em acordo com governo local. Em agosto de 1916, Alzheimer deixou Munique e assumiu sua cátedra e a direção do Hospital Clínico Psiquiátrico da Universidade de Breslau, em 15 de agosto daquele ano (Maurer e Maurer, 2006).

Na viagem para Breslau em 1912, Alzheimer adoeceu. Muito embora a dedicação de Alzheimer continuasse elevada, seu estado de saúde se deteriorava. Em Breslau, Alzheimer deu continuidade as suas pesquisas científicas no campo da neuropatologia, associadas aos problemas clínicos que ele investigava desde os tempos

69 Idem.

70 Carta de Wehner ao Senado da Universidade de Munique. Munique, 20/03/1909. UAM E-II-728. 71 Carta do Reitor da Universidade de Munique a Alois Alzheimer. Munique, 30/12/1909. UAM E-II-728.

75 de Frankfurt, mas especialmente, em Munique. Com esse objetivo em mente, ele montou sua equipe pesquisadores para auxiliá-lo.

Entre os seus colaboradores, estavam Ludwig Mann (1866-1936), Ottfried Förster (1873-1941) e George Sterzt (1878-1959) – seu mais fiel seguidor que, inclusive, entrara para família ao casar com sua filha. Sterzt foi convidado por Alzheimer para ocupar o lugar de chefe clínico (médico sênior), já em, 1912. Em 1914, o trabalho junto a Alzheimer fez com que ele se tornasse professor catedrático extraordinário da Universidade de Breslau (Maurer e Maurer, 2009).72

Mas, individualmente, Nissl e Alzheimer não conseguiram repetir ou superar em suas cátedras o sucesso que Kraepelin alcançara em Heidelberg e, principalmente, em Munique. Como vimos, Kraepelin seguiu um caminho distinto dos psiquiatras anatomo- patologistas de sua época. Ele não entendia a clínica como algo menor. Mas, isso não