A. Bireyden Devlete Keyfilikten Hukuka Diyalektik
4. Yasa ve Kahraman
Este eixo aponta para os sentidos e percepções dos cuidados vivenciados por nossos sujeitos nos serviços de Saúde Mental por onde transitaram em busca de assistência.
Na intenção de apreender se o cuidado recebido nos serviços de Saúde Mental por onde os sujeitos transitaram possibilitou o fortalecimento da autonomia, ou seja, forneceu subsídios para o enfrentamento do transtorno mental, observamos uma sintonia e complementaridade nos discursos apresentados.
Desta maneira, os sentidos produzidos em relação aos cuidados recebidos permitem a consideração dos seguintes temas:
● Restabelecendo o Equilíbrio Biopsíquico ● Amparo Econômico e Social.
Estes temas serão apresentados nas discussões que se seguem.
6.3.1.1 Restabelecendo o Equilíbrio Biopsíquico
As pessoas trazem marcas decorrentes do processo de adoecimento mental, em que a doença é responsável por uma desorganização nas várias esferas da vida. A presença e a intensidade das sintomatologias psicopatológicas afetam negativamente os indivíduos, contribuindo em perda de autonomia e marcando a trajetória de vida destes com danos, desabilidades e deficiências, colocando-os em desvantagens nos contextos sociais. Portanto, o adoecimento mental, também, repercute negativamente, nos contextos familiares, sociais e de trabalho;
Vemos que os discursos estão impregnados de vivências que contextualizam estas questões, sugerindo que o adoecimento psíquico produz na vida das pessoas importante desestabilização biopsíquica e social.
Ao relembrarem as vivências e os vários locais por onde passaram em busca de cuidados, os sujeitos destacam uma nítida divisão entre os momentos de crise e aqueles de melhor estabilidade psíquica. Os sujeitos relataram cuidados recebidos durante os momentos de crise, em que o local suposto de tratamento foi a internação em Hospital Psiquiátrico e os cuidados após a internação, em que o tratamento continua em serviços extra-hospitalares.
Quando os sujeitos remetem suas lembranças às situações de crise, estas são identificadas como momentos críticos e negativos em suas vidas, em que, principalmente, o aparecimento de sintomas psicopatológicos se manifesta em desorganização, confusão, comportamentos violentos e falta de controle.
“... quando você está em crise, né, não sabe o que você está fazendo, cara, mesmo que você tenha noção, não sabe o que você tá fazendo, porque você tá em crise, você tá nervoso, você tá cheio de problemas, é... é difícil porque, quando cê tá em crise, você não enxerga nada além de sua raiva, seu rancor, do seu ódio, você põe tudo aquilo pra fora...” (Jorge)
“...porque nas vezes que eu tentei contra a minha vida, eu estava fora de mim, né. Não estava no meu, digamos, juízo perfeito. Eu não sabia o que eu estava fazendo.” (Tereza)
“Eu fiquei pele e osso. Sabe, eu fiquei quase sem vida. O que eu lembro é que eu pulava muito, que eu gritava muito, que eu cantava muito.”(Pedro)
Segundo Moraski e Hildebrandt (2005) as manifestações agudas da doença mental são danosas e assustadoras devido à complexidade dos sintomas apresentados. Portanto, as autoras identificam que é, muitas vezes, nesta fase, que os próprios familiares e outras pessoas ao presenciarem tal situação acabam por rotular o portador da doença mental de “louco”.
Crise, segundo Dell’Acqua e Mezzina (2005), pode ser conceituada como situações nas quais se identificam, ao menos, três dos seguintes parâmetros: grave sintomatologia psiquiátrica aguda; grave ruptura das relações familiares e/ou sociais; recusa e afirmação da não-necessidade das intervenções psiquiátricas (remédios , internação, programas terapêuticos), porém, aceitação de contato com a equipe; recusa de qualquer forma de contato; situações de alarme no contexto familiar e/ou social e incapacidade de enfrentamento.
Portanto, a situação de crise é permeada por situações complexas, que solicitam intervenções que considerem essa complexidade. No entanto, nestes momentos críticos, nos quais, a exacerbação de sintomas se instala, vemos que,
para os sujeitos deste estudo, o lugar suposto de tratamento tem sido a internação em Hospitais Psiquiátricos. Nestes, a dimensão subjetiva da experiência do adoecimento e seus aspectos relacionais ainda parecem dar lugar a um cuidado que tem como foco principal a dimensão sintomatológica do adoecimento psíquico.
A busca pelas histórias dos sujeitos inseridos neste estudo, revela que todos têm uma longa experiência com o adoecimento mental, que já passaram por várias situações de crise, culminando no encaminhamento para a internação em Hospital Psiquiátrico, como possibilidade de tratamento.
No Brasil, o processo de reforma psiquiátrica tem se estruturado no sentido de redução progressiva dos leitos psiquiátricos, privilegiando e incentivando a qualificação, expansão e fortalecimento da rede extra-hospitalar. A proposta se centraliza na construção de uma rede de atenção à saúde mental de base comunitária, com potencial coletivo de resolubilidade e promoção da autonomia e da cidadania às pessoas com transtornos mentais (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2007).
No entanto, para nossos sujeitos, nos momentos de crise, o Hospital Psiquiátrico, ainda, representa o que Saraceno (1999) denuncia: o eixo da assistência psiquiátrica, o lugar suposto de tratamento, onde a reprodução da doença e da psiquiatria ainda prevalece.
Segundo Dell’Acqua e Mezzina (2005) o momento de atenção à pessoa em crise pode ser identificado como a simplificação máxima de uma relação, em que, por um lado, o sujeito já reduziu a um sintoma a complexidade existencial de seu sofrimento e, por outro, o serviço equipa-se para perceber e reconhecer somente o próprio sintoma.
O conflito manifestado com a crise redimensiona a periculosidade construída historicamente acerca do doente mental, que passa a representar perigo e ameaça e, portanto, necessitado de controle, contenção e isolamento social, ou seja, internação. Assim, os sujeitos explicam suas internações:
“Este emocional da gente ficando, é... preso e nunca sendo solto para fora e quando você solta de uma forma muito brusca, muito forte, é... as pessoas acabam se assustando e internando a gente. Mas foi necessário, no meu caso, a internação...” (Jorge)
“...mas mesmo assim os sintomas se repetiam, né, e a medicação cada vez mais aumentando, né. Aí o tempo foi passando e eu acabei voltando paro o hospital dia, numa nova internação, onde já estava com o quadro meio que agravado, né... e num descontrole lá no Hd, eu fui encaminhada paro o Cantídio.” (Tereza)
“... na época em que eu saí do HD, na situação que eu saí e fui para o Cantídio, eu fui com raiva... Eu não gostei, eu fiquei com raiva, eu não queria, enfim, foi um choque. (Lúcia)
As falas aqui apresentadas nos remetem à Basaglia (1982) quando este reflete que a internação psiquiátrica representa ao portador de transtorno mental a destituição de seu poder de escolha e a necessidade e única alternativa de submissão ao poder dos outros.
Saraceno (1999) enfatiza a importância da construção de instrumentos que trabalhem sobre o paciente e sobre seus contextos de vida, como a escuta, a solidariedade, a afetividade, o experimentar gerar confronto entre interesses do paciente e do contexto familiar, a possibilidade de modificar o contexto material de vida cotidiana, a possibilidade de favorecer trocas afetivas entre pacientes e outros.
No entanto, para os sujeitos deste estudo a internação, necessária nos momentos de crise e agudização dos sintomas, apesar de representar tratamento, as variáveis propostas por Saraceno (1999) não aparecem enquanto instrumento de cuidado.
Neste modelo de tratamento vemos que a condição de crise nos serviços que atenderam estes sujeitos, não é compreendida enquanto uma complexa situação existencial e, que, portanto, os recursos utilizados para o enfrentamento da crise também não são complexos. As narrativas sugerem que o cuidado recebido durante as internações se efetiva por meio do controle e busca pela normalização dos sintomas decorrentes do transtorno mental.
“Eu era um rapaz nervoso e passei ser um rapaz mais calmo, mais tolerável, que tem dois ouvidos: um para ouvir e um para soltar. Eu tenho dois ouvidos, um para ouvir e outro para filtrar coisas boas e então, a gente vai aprendendo isto, entendeu?” (Jorge)
O recurso da internação em Psiquiatria, nas situações de crise, é determinado, geralmente, por decisão técnica, com base na gravidade, e por demanda administrativa, social e pessoal, tomando como referencial a periculosidade social e pessoal. A internação exclui as pessoas de seus próprios contextos e a subordinam a regras institucionais, ou seja, a própria observação clínica limita o interesse específico à área sintomatológica tornando-se incompatível com a vida integral do paciente (DELL’ACQUA; MEZZINA, 2005).
Além disto, de acordo com Furlan e Ribeiro (2011) o cuidado que se centraliza apenas no controle do transtorno mental passa a ser percebido como uma entidade a parte do sujeito e, portanto, perpassa a condição existencial de ser cuidado e implica em receber do profissional a atenção para um cuidado apenas intencional. A assistência prestada, basicamente, se centraliza na higiene, na alimentação e na administração de medicamentos.
“O cuidado que eu recebia era só alimentação, passar por consultas de psicólogos e os medicamentos. A alimentação, só, mais nada. A roupa que a gente tomava banho e trocava todo dia. E... a higiene, tudo.” (Ana)
De acordo com Machado e Colvero (2002) a supervalorização de conhecimentos técnicos favorece a instalação de rotinas,em que a ação passa a ser direta, bloqueando as reflexões, o pensar, a ética, a criatividade e a importância do estabelecimento de um cuidado centrado na subjetividade, tanto por parte de quem cuida como de quem é cuidado.
As narrativas, também, trazem contradições em relação à internação: ao mesmo tempo em que os sujeitos identificam o Hospital Psiquiátrico como local de tratamento e de cuidado, também, sugerem que este ainda é cenário de violência, onde ao portador de transtorno mental compete aguardar pelo fim da internação, que sempre é determinado pelo outro. Estas questões estão veladas nos discursos, ditas entrelinhas, em que ser bom torna-se condição necessária para receber um bom cuidado, em que o cenário de violência ainda persiste. Desta maneira, Beatriz se reporta à sua última internação, que durou cerca de oito meses:
“Chegou um momento que eu falei, meu Deus, eu não saio mais daqui...(risos). Porque eu já tinha sido internada, mas não por tão longo tempo. Então, foi uma lição de vida para mim.” (Beatriz)
Nas falas de Pedro e Tereza, abaixo, observa-se a vivência com práticas de cuidados pautados no modelo manicomial, onde o cuidado é fragmentado, as relações de poder e disciplinar estão presentes e se traduzem por meio de condutas invasivas e violentas.
“O cuidado que eu recebi... foram maravilhosos, porque todos os enfermeiros e as enfermeiras, doutores, que cuidaram de mim, gostam de mim até hoje. Quer dizer, eu não fui um mal paciente...O ambiente é ruim, não são os enfermeiros. Os enfermeiros estão ali para a gente, sabe. A única coisa que eu fiquei sabe de, de, de, de ruindade, foi que uma enfermeira falou, olha, Pedro, fulana de tal, aquela morena, coisa assim, deu uns tapas em você. Um dia que você não estava muito bem. Mas eu relevei, eu estava na cama aquele dia. Mas eu não sei quem é essa Clara, não quero saber, não tô a fim. Mas eu relevei, porque na noite que eu passo, todas as noites, até ficar bom, eu cantava que nem galo, sabe? Cantava que nem galo. Então, eu... eu achei que... eu abusava um pouco demais, cansava eles, né, deixava cansado.” (Pedro)
“Mas assim, a parte que digo que choca é você ver o paciente nu pelo corredor, todo sujo, enfim, você tem vontade de fazer alguma coisa e a cada dia você se pergunta, né, o que é que eu estou fazendo aqui, né, entendeu?” (Tereza)
“O lado ruim é você ver alguém, é, que dificilmente vai sair daquela condição, porque já é uma situação grave, né, talvez até definitiva e, o lado das outras pessoas que você vê que elas têm condições de melhorar, mas, às vezes, aquilo até afeta na possibilidade da melhora, porque... aquilo mexe muito com a gente, né?” (Tereza)
Apesar de tudo, Pedro, diferente de Tereza, parece não demonstrar resistência à estrutura manicomial, mesmo identificando nestas, posturas rígidas.
Para Pedro a internação psiquiátrica foi uma boa forma de tratamento, apesar das contradições encontradas em sua narrativa. Os registros demonstram que Pedro tem várias internações em Hospitais Psiquiátricos, e que, apesar de uma longa história de adoecimento mental, está inserido em um serviço extra-hospitalar há pouco tempo, experimentando, somente agora, a possibilidade de rompimento com esta cadeia de reinternações anteriores. Já Tereza possui uma única experiência de internação em Hospital Psiquiátrico, sendo que a maior parte de seu tratamento se deu em serviços substitutivos.
Isto nos remete à Salles e Barros (2007) quem, com o objetivo de identificar o cotidiano de pessoas com transtornos mentais, apontam que a ideologia manicomial ainda persiste na sociedade, já que a concepção e as formas de tratamento das doenças mentais são construídas historicamente, e, portanto, o surgimento de outros modelos de cuidado, como a Reabilitação Psicossocial, por si só, não garante a desconstrução do antigo modelo de cuidado centrado na internação.
Por outro lado, observamos que Jorge almeja um “outro lugar” para seu tratamento, sugerindo a necessidade de outro tipo de cuidado, em que possa, talvez, encontrar acolhimento e escuta para o sofrer psíquico.
“Então, emocional é isto, quando você se abala, você entra em choque, e este choque muitas vezes acaba sendo que você é levado para o Cantídio ou internação, vamos supor, como se tivesse um CAPS III e talvez eu não teria que ir para o Cantídio, mas eu fui, fiquei dois meses lá, fez bem para mim, no caso.” (Jorge)
Ou seja, apresentam o tratamento como bom, porém, nem tão bom assim, já que as narrativas sugerem ser um ambiente pouco tolerável aos comportamentos diferentes, em que a violência e as relações de poder ainda persistem. Portanto, o desejo por outro modelo de cuidado é apontado.
Assim, os sujeitos identificam a necessidade ou única possibilidade da internação psiquiátrica, que apesar de representar para eles um cuidado centrado na remissão de sintomas e com pouca oferta de um cuidado terapêutico, em que o relacionamento interpessoal é o instrumento principal, como fator que também é importante no resgate da estabilidade biopsíquica.
Passado os momentos de crise, os sujeitos continuam relatando seus singulares percursos em busca de tratamento. Agora, não mais internados, falam sobre os cuidados recebidos quando voltam a fazer parte do grande cenário da vida. Neste momento, o local de tratamento se desloca dos Hospitais Psiquiátricos para locais abertos, de atenção comunitária, como Centro de Atenção Psicossocial e Associação “Arte e Convívio”.
Um elemento que apareceu com frequência nas narrativas é o tratamento medicamentoso, sugerindo que esta terapia é valorizada pelos sujeitos já que é vista por estes como um instrumento que ajuda no controle de sintomas e que diminui as recaídas.
“... o cuidado que eu recebi foi medicamentoso... E com a medicação, eu sou uma pessoa normal.” (Jorge)
“A partir do momento que eu comecei a tomar esta medicação, eu fui ficando mais calma. Então, por mais que eu quisesse ter uma reação, eu não conseguia, os remédios não deixavam...” (Beatriz)
A medicação psicotrópica é parte importante no processo de tratamento, já que possibilita a remissão e ou redução da sintomatologia e auxilia o restabelecimento biopsíquico em uma crise. É a possibilidade, segundo nossos sujeitos, de voltar a ser normal, de se encaixar na sociedade, de não necessitar mais da internação psiquiátrica e até mesmo de se levantar.
“Esses remédio do CAPS, vão me levantar, agora.” (Pedro)
A remissão e ou redução de sintomas também auxilia na organização do mundo interno do paciente, facilitando sua reintegração a realidade externa (SALLES; BARROS, 2007).
No entanto,
“...e os remédios, né, que me ajudou muito, neste meu tratamento que faz anos já, que, que, e que gostaria agora, com 58 anos, que já se encerasse. É ruim a gente ficar na dependência de médico, de
remédio... Dá a impressão que você não tem uma vida própria, que você não consegue fazer as coisa sozinho, né...” (Tereza)
Assim, entendemos que o controle da sintomatologia psicopatológica é fator importante para o restabelecimento da autonomia. No entanto, deve-se estar atento ao controle que se limita a numerar, reconhecer e controlar sintomas, descartando a subjetividade e a complexidade envolvidas na experiência do adoecimento mental. Portanto, Serpa Junior et al (2007) sugerem uma assistência que possibilite além da remissão de sintomas, o auxílio às pessoas em sofrimento a criarem novos modos de viver e de dar continuidade à própria vida, apesar do adoecimento psíquico.
As narrativas apontam que os sujeitos parecem ser interlocutores de modelos assistenciais pautados em paradigmas racionalistas, onde a hegemonia médica é predominante e assume para si, de forma absoluta, apenas a doença, reduzindo-a a objeto de sua competência exclusiva. Portanto, medicação e a internação são representativas de cuidado por nossos sujeitos.
“Terapia e medicamento. Foi o cuidado que eu recebi. E... só isso, porque... não teve outra... não teve outros meios, assim, né. O tratamento foi este.” (Ana)
No entanto, a medicação e a internação não foram as únicas formas de cuidados identificadas por nossos sujeitos. Para o restabelecimento da estabilidade biopsíquica, os sujeitos valorizam e identificam cuidados que vão além da remissão de sintomas, construídas por meio de estratégias baseadas no acolhimento, na escuta e na consideração da subjetividade. Neste momento, remetem as lembranças aos cuidados vivenciados nos momentos em que não estão em crise, quando retornam à convivência social e à reconstrução da própria vida.
“E assim eu fui me levantando, de novo...” (Beatriz)
Na assistência em Saúde Mental a pessoa acometida pelo transtorno mental necessita de uma abordagem que esteja atenta às várias dimensões da vida humana. Nesta abordagem, o cotidiano da vida passa a fazer parte do cuidado,
onde a atenção é construída junto com o indivíduo, na reconstrução de sua vida, ultrapassando as terapias medicamentosas e as psicoterapias (PANDRONI; PADILHA, 2006).
Os sujeitos descrevem suas percepções sobre a importância da variável serviço na evolução das consequências que o adoecimento psíquico imprimiu em suas vidas. Nas narrativas, os serviços são vistos como espaços que possibilitaram intervenções importantes na vida, como lugares onde encontraram acolhimento necessário para iniciarem o processo de se refazerem novamente, onde se sentiram ajudados em suas demandas e, portanto, fortalecidos para a retomada da autonomia.
“E a Luana sempre me apoiando, sempre falou, não, você vai conseguir, tenha paciência. Os profissionais analisando, olha nós estamos achando que você tá melhorando.” (Beatriz)
De acordo com Ferreira e Pereira (2012) o acolhimento entendido como ato ou efeito de acolher, expressa, por suas várias definições, uma ação de aproximação, um “estar com” e um “estar perto de”, ou seja, o acolhimento se constitui em uma atitude de inclusão, que implica, por sua vez, estar em relação com algo ou alguém.
Nesta ótica, Pereira (2003b) destaca que mediante a pluralidade trazida pelos sujeitos envolvidos no cuidado, é inerente a solicitação de formas de atuação que sejam adequadas, pois, torna-se necessário encontrar possibilidades singulares a cada pessoa. Desse modo, a relação humana é veículo para se compreender a dimensão simbólica do sofrimento.
Pedro destaca que as abordagens assistenciais em saúde, de acordo com suas vivências, constituem um processo relacional, entre quem cuida e é cuidado, na qual:
“A turma que trabalha na área... da saúde é um povo que dedica o amor deles para a gente e eu quando eu fico bom eu dedico o meu amor para eles também. É uma troca, sabe...” (Pedro)
Neste sentido, Merhy (2007) considera que a assistência em saúde é estabelecida por um encontro entre duas pessoas, onde há atuação de uma sobre a outra, produzindo um jogo de expectativas e produções. Para o autor, neste processo, o paciente ocupa o papel de alguém que procura uma intervenção, que lhe permita recuperar ou produzir determinados graus de autonomia no seu modo de conduzir a própria vida. Partindo desta concepção, o cuidado em saúde é compreendido como encontro, onde a intervenção se centraliza na construção de projetos de vida.
Nesta relação entre trabalhadores da área de saúde e pacientes o acolhimento emerge como produto, passando pela consideração da subjetividade, pela escuta das necessidades dos sujeitos, possibilitando a construção de um processo de reconhecimento, de responsabilização entre serviços e pacientes, além da possibilidade de construção de vínculos (BUENO; MERHY, 1996).
Neste cenário, a família ocupa papel fundamental na manutenção do doente mental fora dos Hospitais Psiquiátricos, emergindo a necessidade desta estar inserida nos projetos terapêuticos dos serviços, já que seu papel consiste em cuidar, incentivar e ser suporte, pois, é neste cenário que seus integrantes procuram apoio, compreensão e possibilidades.