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A. Bireyden Devlete Keyfilikten Hukuka Diyalektik

3. Somut Bir Kişi Olarak Devlet

“Corpos não sofrem, pessoas sofrem”

(Eric CasselI)

Continuamos na tentativa de apresentar nossos sujeitos, nos aproximando de suas histórias de vida. Apesar de nomes fictícios, os indivíduos deste estudo são pessoas reais, que vivenciam e enfrentam as adversidades decorrentes de um adoecimento mental. Uma aproximação com suas histórias e seus percursos nos aproximará de uma ideia de quem são esses sujeitos, de como, singularmente, passam pela experiência de um adoecimento mental e de como cada qual a sua maneira estão inseridos na vida.

A seguir, um pouco de cada um deles, Jorge, Lúcia, Ana, Pedro, Tereza e Beatriz.

“Preciso de um lugar calmo para que o cérebro não reproduza as vozes e assim possa diferenciar o que é real.” (Jorge)

Conheci Jorge no dia da entrevista que havia sido previamente agendada pela equipe da Associação Arte e Convívio, no próprio serviço. Quando cheguei ele estava na calçada fumando com outros pacientes e, espontaneamente, abordou-me perguntando se eu era a entrevistadora e dizendo que estava me esperando.

Chamou-me a atenção sua jovialidade, o sorriso em seu rosto e seu jeito bem humorado, acolhedor, receptivo e comunicativo. Jorge, logo foi me recebendo e tentando encontrar uma sala para a nossa conversa. A entrevista foi realizada na sala de televisão da Associação “Arte e Convívio”, local escolhido por ele próprio.

Jorge tem 28 anos, é solteiro, mora em Botucatu com a mãe, possui o ensino fundamental completo. Tem uma irmã de trinta anos que é casada, com quem ele tem um bom relacionamento. O pai mora em outra cidade e tem outra família. Apesar da separação dos pais, sempre manteve um bom vínculo com o pai e morou com ele em um período de sua adolescência.

Apresentou um desenvolvimento psicomotor normal, sempre foi muito inteligente, brincava e tinha muitos amigos, desde a infância.

No início da adolescência começou a mudar a maneira de se comportar. Começou a fazer uso de drogas, não conseguia prestar atenção nas aulas e foi reprovado por várias vezes. De um menino calmo e carinhoso passou a um adolescente muito agressivo, principalmente, com a mãe e a irmã, agredindo-as, frequentemente, de forma verbal e física.

Até então, sua mãe compreendia que seu comportamento era decorrente da adolescência, de um temperamento mais nervoso, e, até mesmo por consequência de alguma falha sua no processo de educação de Jorge. Por volta de 15 anos, a mãe solicitou ajuda do pai, quando Jorge morou com ele por um período de dois anos. Nesta época, de maior contato como o pai, este identificou a necessidade de intervenção médica, achando que seus comportamentos não eram apenas manifestações de um adolescente. No entanto, sua mãe sempre apresentou muita dificuldade em entender e em aceitar a condição do filho enquanto portador de um transtorno mental. Os pais procuraram atendimento ambulatorial, quando Jorge recebeu o diagnóstico de esquizofrenia. Porém, pela dificuldade da mãe em aceitar a condição do filho não havia aderência aos tratamentos.

Aos 16 anos apresentou o primeiro surto psicótico, apesar de relatos de aparecimento de sintomas a partir dos 13 anos de idade. Nesta época, foi internado de forma involuntária em um Hospital Psiquiátrico em Botucatu, com crítica prejudicada, não se achava doente, com ideias de religiosidade, alterações de comportamento e agressividade, sendo necessária a contenção física e medicamentosa por várias vezes durante a internação. Permaneceu internado por quatro meses, melhorando com o uso de antipsicóticos. Durante a internação a mãe

não conseguia visitá-lo, se descontrolava emocionalmente em vê-lo internado e precisou de muito apoio para sustentar a internação e não retirá-lo por alta a pedido. Desde a alta, foi encaminhado ao Centro de Atenção Psicossocial II (CAPS II), serviço responsável pela sua assistência por nove anos. No momento, devido à sua melhora, está sendo encaminhado ao Ambulatório de Saúde Mental do Centro de Atenção Integral à Saúde para acompanhamento médico.

Ter uma profissão e trabalhar sempre foi importante na vida de Jorge, como possibilidade de inserção na sociedade. Desde os sete anos de idade já trabalhava como ajudante em uma lanchonete. Mais tarde, após seu adoecimento, ajudava o padrasto em um bar.

O relato de Jorge denota que este sofria por apresentar padrões de comportamento que diferem do esperado pela sociedade, sentindo-se incapaz, sem autonomia e com desvantagens nas relações interpessoais, e, portanto, não conseguia encontrar seu lugar no mundo.

Nos serviços por onde passou encontrou acolhimento para o processo de se refazer, sendo ajudado em suas demandas e fortalecido para a organização de sua vida, inclusive de suas relações familiares, encontrando a possibilidade de mudanças significativas.

A compreensão e a aceitação do adoecimento de Jorge por sua mãe foi fundamental para o restabelecimento de seu equilíbrio. Isto somente foi possível pelo envolvimento e acolhimento da mãe nos serviços por onde Jorge passou.

O interesse de Jorge em mudar a vida e ocupar novos lugares também foi fundamental neste processo de transformação.

Atualmente, ele se mantém financeiramente com o auxílio doença, mora com a mãe, não tem apresentado agressividade, consegue ouvir e ser ouvido.

O trabalho na Associação “Arte e Convívio”, como artesão na oficina de Mosaico e vendedor na loja e a relação com os outros pacientes é visto por ele como possibilidade de inserção social. Neste espaço, onde se sente capaz, aprende a importância e exerce o respeito às diferenças. Portanto, hoje, Jorge, apesar do adoecimento, encontrou seu “lugar calmo” onde consegue “se encaixar”, onde é acolhido, ouvido e respeitado.

“De louco cada um tem um pouco.” (Lúcia)

Conheci Lúcia em 2009, quando ela esteve em tratamento no Hospital Dia

de Psiquiatria. Nesta época, encontrava-se bastante desorganizada e rompida com as tarefas de vida diária, não conseguia trabalhar, cuidar da casa e nem de si própria. As relações familiares estavam fragilizadas pelo seu adoecimento, pois, Lúcia mostrava-se cada vez mais dependente de cuidados por parte do marido e da mãe. Assim, deixou de ter controle sobre sua própria vida, não conseguia fazer escolhas, perdeu o controle sobre sua ansiedade, solicitando atenção e companhia o tempo todo. Portanto, vivenciava um momento de rompimento em sua trajetória de vida, em que “tocar” a própria vida havia se tornado um fardo pesado demais.

Nossa entrevista foi agendada na Associação “Arte e Convívio”, um dos locais por ela frequentado atualmente, pela equipe deste serviço. Era um início de tarde ensolarado e de muito calor. Ela me aguardava e parecia ter se preparado para me receber. Apresentava-se, visivelmente melhorada, animada e exibindo esta melhora com muito orgulho. O ânimo e a melhora eram visíveis no sorriso, na fala determinada e na postura. Encontrava-se muito bem vestida, maquiada e com um novo corte de cabelo. Mostrou-se disponível em colaborar com o trabalho. Além disto, estava ansiosa e satisfeita pela oportunidade de poder ser ouvida sobre sua trajetória, suas batalhas e conquistas nos últimos quatro anos após sua alta do Hospital Dia de Psiquiatria. Ficamos com a percepção de que para ela era muito importante relatar e mostrar que conseguiu melhorar e voltar a ter controle sobre sua vida.

Lúcia tem 44 anos. Seus pais mudaram-se de Pernambuco para a cidade de São Paulo há mais de quarenta anos. Portando, ela nasceu em São Paulo e nesta cidade viveu a maior parte de sua vida. É a terceira filha de uma família de cinco irmãos. Na infância era tranquila, tinha muitos amigos, gostava de brincar e sempre apresentou bom desempenho escolar. Desde pequena sempre foi preocupada com os irmãos e os amigos e cuidava de todos eles. Seu pai era uma pessoa muito importante em sua vida e seu falecimento, há 10 anos, foi marcado por muito sofrimento. A mãe também é muito presente em sua vida e mora atualmente em São Manuel. Na fase em que Lúcia adoeceu foi ela quem dividia o cuidado com seu marido. Nesta época, Lúcia passava grande parte do dia na casa da mãe para não ficar sozinha.

Casou-se em 1999, com o atual marido. Relata pouco sobre a relação com ele e em seus prontuários encontramos relatos de que sempre tiveram um bom relacionamento, mas que ele ficou sobrecarregado com seu adoecimento. Não tem filhos, porém, o desejo de ser mãe a acompanha há muito tempo. Realizou vários tratamentos de fertilização, sem sucesso. Engravidou uma única vez, mas teve um abortamento. Ao mudar-se para Botucatu o tratamento de fertilização foi interrompido. O casal chegou a pensar em adoção, mas não concretizaram.

Sua vida profissional teve início aos catorze anos. Neste percurso exerceu várias funções, como balconista, auxiliar de escritório e auxiliar administrativa. O último trabalho foi em uma editora de revistas, onde atuou como auxiliar administrativa por catorze anos e somente pediu demissão porque se mudou de cidade.

A mudança da capital para uma cidade do interior sempre esteve nos planos de Lúcia e de seu marido. Porém, em 2008, quando seu marido foi transferido por seu trabalho, para a cidade de Botucatu e este planejamento se concretizou, esta mudança passa a representar um marco importante em sua vida e todo seu processo de adoecimento é atribuído a este fato. Lúcia deparou-se com dificuldades para adaptar-se à nova fase da vida, e as expectativas em relação à nova cidade não foram contempladas. Na nova experiência, deparou-se, principalmente, com a dificuldade em encontrar um novo emprego. Além disto, fazia um luto pelo rompimento com o trabalho anterior, o qual apreciava e era valorizada pela atuação. Passava o dia todo em casa, não conhecia ninguém. Quando terminou de arrumar a casa após a mudança, a solidão, a falta de uma ocupação e a necessidade de adaptação a uma cidade completamente diferente da sua, foi deixando-a desanimada, desvalorizada e a vida ficando cada vez mais sem sentido.

Neste contexto, no início de 2009, começa a apresentar queixas somáticas como crises de labirintite, náuseas e diarreias. Assim, busca por ajuda de médicos clínicos para um diagnóstico e tratamento. Os sintomas psíquicos, como choro fácil, desânimo, tristeza, medo de ficar sozinha, irritabilidade, anedonia, angústia, perda do sono, diminuição do apetite, lembranças recorrentes dos acontecimentos tristes de sua vida, não demoram a incorporar-se aos sintomas somáticos. Por este motivo, inicia a procura por um cuidado voltado à saúde mental. Este cuidado, à princípio, é buscado em um Centro de Saúde Escola, onde o

tratamento caracteriza-se por consultas médicas, terapia medicamentosa e psicoterapia. Este momento é descrito por Lúcia como um momento em que:

“Começaram as terapias, as medicações, a troca, cada vez mais de medicamentos, né, ver o que encaixava. E a cada terapia a situação ia se agravando, porque ia mexendo cada vez mais nas feridas e assim eu não conseguia sair daquele estágio. Porque a conversa que eu tinha com a psicóloga, na época, ela, era sempre batida na mesma tecla. Ela falava sempre do mesmo assunto, ouvia alguns conselhos, e assim aquilo não entrava na minha cabeça, e eu entrava chorando e saía, às vezes, até medicada porque não conseguia, é...controlar. Saía bem pior do que eu chegava....Então,

aquilo foi se agravando cada vez mais, aumentando a medicação”

(Lúcia)

A hipótese de diagnóstico médico encontrada em seu prontuário é de um

transtorno dissociativo conversivo. Assim, Lúcia circulou por vários serviços da cidade, como o Centro de Saúde Escola, o Hospital Dia de Psiquiatria (duas internações), médicos particulares, Hospital Psiquiátrico e Associação “Arte e Convívio”. Tinha dificuldade em assumir o papel de sujeito ativo no processo saúde- doença e atribuía toda a perspectiva de melhora e piora aos serviços e, principalmente, no tratamento medicamentoso. Apesar da busca incessante por um cuidado efetivo, sua vida manteve-se sem melhora significativa por cinco anos.

Ao falar dos locais de tratamento por onde circulou, sugere falta de acolhimento e empatia por parte dos profissionais que a atenderam. Nestes espaços relatou que sempre assumia o papel de cuidadora em relação aos outros pacientes.

A internação psiquiátrica, em março de 2011, imprimiu um marco importante nesta trajetória em busca de cuidados. Percebe-se que, apesar desta ter sido realizada de forma voluntária, Lúcia não considera a internação como um cuidado efetivo e acredita que esta foi desnecessária, afirmando que não era esta a sua necessidade. Percebemos que ela aproveitou a oportunidade da entrevista para verbalizar seu protesto, já que esta internação foi conduta tomada, na época em que esteve no Hospital Dia de Psiquiatria.

Apesar disto, nunca desistiu, mantendo a esperança e o desejo de melhorar, com planos para o futuro: desejo de ser mãe, ter mais poder de

autocontrole, poder de decisão e independência para suas ações, voltar a trabalhar e resgatar suas atividades.

Atualmente parece que Lúcia está voltando a encontrar sentido em seu viver. Está mais adaptada à cidade, fez novas amizades, voltou a trabalhar e consegue fazer escolhas. Em relação a seu papel no processo saúde-doença mental se coloca como protagonista principal. Prossegue com a psicoterapia e frequenta a Arte e Convívio, por opção. A procura pela consulta médica se restringe aos retornos e, no momento, negocia com seu médico a retirada gradativa dos medicamentos psiquiátricos usados até então.

“E hoje eu vou aonde eu quero, eu vou, passeio, viajo, viajo até sozinha...” (Ana)

Ana tem 40 anos, é solteira, ensino médio incompleto, possui dois filhos (um menino de vinte anos e uma menina de treze anos). Natural de Botucatu, onde reside atualmente com sua irmã mais velha. Está em tratamento psiquiátrico há oito anos; esteve internada em Hospital Psiquiátrico por oito meses e por três anos frequentou o CAPS II. No momento está em tratamento no Ambulatório de Saúde Mental do Centro de Atenção Integral à Saúde e frequenta a Associação “Arte e Convívio”, onde exerce a ocupação de costureira em uma oficina de geração de renda.

Agendei a entrevista com Ana em um dia em que ela estava na Associação “Arte e Convívio”, com a ajuda da equipe daquele local. O dia da entrevista foi meu primeiro encontro com ela. Encontrei uma pessoa de fala mansa, aparentemente reservada. Contou-me sobre a triste história de sua vida com um leve sorriso no rosto, não de indiferença, mas de alguém que conseguiu transpor as dificuldades e que muito aprendeu com elas, de forma tranquila e coerente.

Ana é de uma família de três irmãs, os pais se separaram quando ela era ainda criança. O pai mora, atualmente, em Campinas e constituiu outra família. A mãe faleceu há cinco anos. O relacionamento com a mãe foi marcado pela ausência de diálogo, por rigidez e controle. Sua mãe sempre foi reservada e ficava isolada em casa, tentando fazer o mesmo com as filhas. Ana gostava de sair com os amigos, de se divertir e de visitar o pai, porém, não tinha a permissão da mãe. Além disto, o relacionamento com seu ex-companheiro e sua primeira gravidez nunca teve o apoio

da mãe. Nos momentos em que Ana estava desamparada e passando por situações difíceis foi abandonada por ela.

Engravidou do primeiro filho aos 19 anos, sem planejamento, sem conhecimento de métodos contraceptivos e sem apoio de sua família. Nesta época foi expulsa de sua casa pela mãe, que não aceitava sua gravidez e nem o seu relacionamento com o namorado, que era de nível sócio-econômico inferior ao seu. Portanto, ela foi morar na casa dos sogros e, com muito pesar, interrompeu os estudos. Depois de um tempo compraram a própria casa. Ela auxiliava o marido em uma estamparia. O marido mantinha relações extraconjugais e, há treze anos, na segunda gravidez de Ana, a abandonou para morar com outra mulher. Enquanto ainda estava grávida, em uma das visitas ao filho primogênito, o ex-marido levou-o embora para outra cidade e ela perdeu contato com ele, desde então. Sua vida ficou bastante difícil nesta época. Grávida, sem apoio da família, sem o filho mais velho, sem emprego fixo, ficou sozinha para tocar a própria vida. Por dois anos passou por importantes dificuldades financeiras, principalmente, após o nascimento de sua filha. Ana relata que chegaram a ficar sem comida.

Em 2006, completamente desamparada, e sem ter o que comer em casa resolveu pedir comida para a mãe, e ela, como sempre fazia, negou ajuda. Esta situação tornou-se insuportável para Ana, que neste dia perdeu o controle, mostrando-se agressiva e culpando a mãe por sua situação, quebrou as vidraças da casa dela com pedras. Foi necessária a intervenção da polícia militar que a encaminhou ao pronto socorro, culminando em sua primeira e única internação em um Hospital Psiquiátrico em Botucatu. Esta internação durou cerca de oito meses, sendo-lhe atribuído o diagnóstico médico de esquizofrenia paranóide. Em seu prontuário encontra-se a descrição de história de agressividade e ideias paranóides: Ana relatava que sequestraram seu filho mais velho. Apesar desta ter sido sua primeira e única crise, há relatos da família, em seu prontuário, de que Ana já apresentava uma história de adoecimento desde os vinte anos de idade e que sua mãe apresentava quadro semelhante ao dela.

Ana atribui seu adoecimento ao abandono da família e às dificuldades que precisou enfrentar em sua vida, contando que tudo iniciou quando o ex- companheiro levou seu filho embora.

Após a alta desta internação, Ana, que já estava em um processo de desestruturação da vida, passa a vivenciar, de forma mais enfática uma cisão em

sua trajetória, em seus projetos, em seus desejos, saindo desta internação sem família, sem casa para morar, com a vida totalmente destruída e vista como incapaz pelos familiares. Os vínculos familiares estavam mais abalados e o rompimento com a mãe se efetivava. A filha mais nova estava sendo cuidada por sua irmã, que havia requerido a guarda da mesma. A família não assumiu os cuidados que ela necessitava. Então, o auxílio doença foi a possibilidade dela ter um lugar para morar, uma casa de repouso. Este período foi marcado por muita tristeza, solidão e desamparo.

Há cinco anos, após a morte da mãe, foi reconduzida à vida familiar por sua irmã e cunhado, que são tutores dela e de sua filha, quando se muda para a casa deles e os laços familiares começam a serem reconstruídos, com o auxílio do CAPS II e da Associação “Arte e Convívio”. Apesar de tantas dificuldades e adversidades, Ana nunca desistiu e hoje passa por um processo de resgate de sua própria vida. Tem retomado, aos poucos, o papel de cuidadora da filha, trabalha na Associação “Arte e Convívio”, tem momentos de lazer, tem amigos, visita o pai, tem uma casa para morar e uma família para interagir. Enfim, parece que neste momento, ela vivencia um processo de resgate de autonomia, circulando e melhorando as relações interpessoais, tentando mostrar que é capaz de voltar a conduzir sua vida.

“Eu tô sozinho... nada, eu tô com deus. deus vai me dar uma força tão grande que eu vou me levantar...” (Pedro)

Meu primeiro encontro com Pedro foi em 2008, quando ele estava em um dos episódios de mania, no Hospital Dia de Psiquiatria. Ele não se lembrou deste encontro, afirmando que estava muito desorientado naquela época. Reencontrei Pedro no dia da entrevista, no CAPS II. Neste dia, fim de tarde, ele já havia participado das atividades do serviço e estava lá apenas me aguardando. Emagrecido, bem vestido, comunicativo e receptivo a colaborar com o trabalho. Contou sobre sua história de vida, respondeu à entrevista, aproveitando este encontro como um espaço de escuta e acolhimento para seu sofrimento, já que neste momento estava bastante fragilizado, havia saído recentemente de sua última internação no Hospital Psiquiátrico e vivenciava dificuldades em retornar ao trabalho e consequentemente, dificuldades financeiras, além do afastamento da família, amigos e clientes.

Pedro tem 45 anos, é solteiro, possui ensino fundamental incompleto, é cabeleireiro. Nasceu em uma cidade do interior do Paraná, Xambre. É o nono filho de uma família de dez irmãos. Os pais eram extremamente rígidos. O pai faleceu há quatro anos devido a um acidente vascular cerebral. A mãe mora, atualmente, com uma de suas irmãs e é portadora de Alzheimer.