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O Brasil foi “descoberto”, pela então civilização, em 1500, ou seja, quando o país entrou para a história mundial, a civilização cristã já contava com quinze séculos.

76 SECCHI, Bernardo. A Cidade do Século Vinte, trad. Marisa Barda, São Paulo: Perspectiva, 2009, p. 32. 77 Importante destacar no presente trabalho, ainda que brevemente, como ocorreu o desenvolvimento das cidades no Brasil, para posteriormente, traçar pequenos apontamentos sobre o desenvolvimento e, formação de Cuiabá, que é o objeto do presente trabalho, até porque a história da concepção de cada cidade, de cada país é diferente, o que aliás, é apontado por Bernardo Secchi: “É, porém, evidente que a história urbana, como, por exemplo, dos Estados Unidos durante o século vinte, tem ritmos diferentes da europeia (sic) e que ainda mais diversa é a história de países como o Brasil [...], isto é, de países que durante esse século registraram um crescimento importante de suas cidades segundo modelos originais e de grandíssimo interesse.” (SECCHI, Bernardo. A

Cidade do Século Vinte, trad. Marisa Barda, São Paulo: Perspectiva, 2009, p. 260). Além disso, como apontado por Nestor Goulart Reis Filho, “[...] as formações urbanas brasileiras devem ser objeto de interêsse (sic) científico; que não constituem um conjunto de dados aleatórios mas são parte de uma estrutura dinâmica – a rêde (sic) urbana – que deve ser compreendida, quando se almeja o conhecimento daquelas. Que essa estrutura está sujeira a um processo de origem social – processo de urbanização – que determina o aparecimento daquelas formações, cuja explicação exige o conhecimento do sistema social da Colônia, no qual se desenvolve, e da política de colonização portuguesa, no seu sentido mais amplo. Que as relações entre a política de colonização e o processo de urbanização expressam-se por uma ordem eventualmente elaborada em teoria mas necessàriamente (sic) elaborada na prática, que é a política urbanizadora.” (REIS FILHO, Nestor Goulart.

Apesar da “descoberta”, apenas em 1500, as terras já eram habitadas pelos nativos, indevidamente denominados de índios, ou indígenas (em alusão às Índias), os quais viviam, de forma primitiva, e, se organizavam de modo tribal. No Brasil instalou-se um sistema colonial, contando, inicialmente com a exploração de pau-brasil. Posteriormente, Portugal cultivou a cana-de-açúcar, o que possibilitou a ocupação definitiva do litoral.

O Rei D. João III, preocupado com as invasões e, com a exploração das riquezas, por parte de países estrangeiros, resolveu, em 1532, criar postos de defesa, instituindo, assim, as capitanias hereditárias, entregando-as a fidalgos e capitães portugueses.

Foi dividido o paiz (sic) em lotes de cincoenta (sic) léguas de costa e pela terra- dentro até á linha de demarcação. Cada lote d´estes (sic) coube a capitão-mór (sic) (e ás vezes mais de um lote), o qual deveria cuidar da povoação e prosperidade das suas terras, exercendo sobre ellas (sic) direitos senhoriaes (sic) quasi (sic) absolutos. Essas capitanias eram hereditárias (sic) e os seus donos gozavam de privilégios excepcionaes; voltava-se assim ao regime odioso das sesmarias do tempo de D. Fernando, o ultimo rei da Dynastia (sic) de Borgonha. Era um regresso ao feudalismo.78 (grifo do autor)

Apesar dessas doações, muitas capitanias sequer foram visitadas por seus “proprietários” e, portanto, sequer povoadas, em virtude de diversos fatores, em especial em decorrência de que os beneficiados não possuíam patrimônio suficiente para sustentarem suas terras, mesmo com todos os benefícios adquiridos para tal intento, como a possibilidade de cobrança de impostos (dízimos), da escravização dos índios, da divisão das terras em sesmarias e, ainda, de que deviam responder ao rei, somente, e, em pessoa.

Todavia, o sistema criado não se mostrou exitoso e, a divisão em quinhões, os quais foram seccionados em quinze lotes à treze donatários, foi um fracasso, por vários motivos (um deles acima relatado; a falta de recursos), dentre os quais se destaca a imensidão das áreas de cada capitania, incapazes de resistir aos perigos representados pelos invasores, além disso, as capitanias não demonstravam unidade e interesse comum (até porque elas eram independentes entre si e os donatários eram senhores absolutos nas suas terras). Diante do insucesso, a coroa portuguesa, em 1548, dezesseis anos após a instituição das capitanias hereditárias, suprimiu inúmeros privilégios destas, subordinando-as a um governo central.

A despeito dessa pequena intervenção portuguesa, as capitanias ainda detinham grande poder, mas ainda não havia grande contingente de população mesmo após vinte anos de sua instituição.

Apesar de toda dificuldade, os colonos que decidiram pela permanência na colônia, logo se estabeleceram e acabaram se integrando. Todavia, essa integração teve percalços que tiveram que ser enfrentados pelos colonos, dentre os quais se destaca os conflitos com os índios (em face de diversos fatores, como a não aceitação dos indígenas com a tentativa de imposição da escravidão, por parte do “homem branco”), dos quais nem sempre saiam vencedores, e, ainda, se deparavam com ataques de corsários franceses, os quais atacavam as povoações assolando-as. Diante dessa situação, o desbravador se encontrava sitiado entre o litoral (e os perigos vindos do mar – com a frota francesa) e, a terra (em decorrência da hostilidade dos índios), tendo optado, assim, por se estabelecer afastado (ainda que não muito), da embocadura dos rios e a certa distância da floresta. Desse modo, se verifica que as cidades no Brasil foram concebidas de modo diferenciado de outros locais, já que teve como embrião a instalação em locais afastados do litoral e, dos leitos dos rios:

As primeiras cidades do Brasil começam pelos morros e só tarde descem á planície e nunca se formam á borda do mar e, mesmo nos rios, só nos lugares onde não chega o navio de longo curso – essa é a prudencia (sic) dos fundadores no século (sic) XVI e no seguinte, que foram uma lucta (sic) interrompida pela posse da terra. Assim fundaram-se S. Christovão, Olinda, S. Vicente, longe-perto do oceano, Bahia e Rio (Morro do Castello) nas eminências, cidades á bôca (sic) do oceano como Fortaleza, Maceió, Desterro, Aracajú, etc. são recentíssimas. Esse problema foi logo resolvido em S. Vicente por Martin Affonso, que ao lado d’esse porto creou (sic) logo depois Piratininga, no Planalto, serra acima, asylo (sic) contra o corsario (sic) do mar e guarda avançada contra a floresta povoada de índios.79

Além disso, as cidades, no Brasil colonial, se desenvolveram, em regra, à luz da pátria mãe, Portugal, não mantendo, assim, características próprias (na sua grande maioria), distanciando-se, portanto, dos costumes locais.

Apesar de todos os problemas, não há que se considerar totalmente desastrosa o tipo de colonização eleita para ser utilizada no Brasil, já que tendo em vista o foco da mesma, que era a necessidade de povoamento, tendo sido salvação para a colônia, já que não havia outra metodologia a se utilizar naquele momento. Mas, a grande maioria das capitanias não se desenvolveu da forma esperada, sendo que somente duas delas podem ser consideradas

prósperas (apesar de que se tentou de todas as formas o desenvolvimento, sendo que, inclusive, foi aplicado o sistema de sesmarias, quando são concedidos à particulares tratos de terra – sesmarias -, sendo que os particulares, desse modo, passam a dever vassalagem aos proprietários das terras), a pertencente a Duarte Coelho (Pernambuco), contendo engenhos de açúcar e, a de Martin Affonso (São Vicente), a qual foi rapidamente povoada.

É claro que o método empregado não trouxe apenas benefícios, trazendo, também malefícios, os quais se encontram até hoje impregnados no seio da sociedade.

Ainda hoje o Brasil recente os germens das oligarchias locaes que, como então, apenas toleram o protectorado do principe, vencedoras umas vezes, vencidas outras. Toda a nossa historia é o desenvolvimento d’esse duello original. Revezam-se cada seculo. As capitanias apparecem no seculo XVI: a união necessaria pela guerra hollandeza domina no seculo XVII; o espirito das capitanias volta de novo a emancipar-se no seculo XVIII, com as minas; a união com a monarchia subjuga-se no seculo XIX. Se o seculo XX se abriu de novo com o particularismo feudal (e pelo menos muito se fala das oligarchias) já se entrevê pela federação o predominio do sentimento unitario.80 (sic).

Outro marco na colonização brasileira se deu por intermédio dos Bandeirantes, os quais desbravaram o interior do país, auxiliando, assim, no povoamento. As bandeiras81 eram expedições armadas que partiam em geral da Capitania de São Vicente, em direção ao interior e, que tinham por finalidade a exploração das terras e índios82, e, diante disso embrenhavam- se seguindo o curso dos rios, sob a orientação de bússolas e, ainda, com a assistência das noites estreladas. As bandeiras eram compostas de diversas pessoas, entre elas crianças,

80 RIBEIRO, João. História do Brasil, 5. ed., rev., melh., Rio de Janeiro: Francisco Alves & Cia., 1914, p. 81-82. 81 “13. Expedição armada que partindo, em geral, da capitania de São Vicente (depois, de São Paulo), desbravava os sertões (fins do séc. XVI e começos do séc. XVIII) a fim de cativar os gentios ou descobri minas.” (FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa, coord. Marina Baird Ferreira; Margarida dos Anjos, 4. ed., Curitiba: Positivo, 2009, p. 261.)

82 “Ilha do bananal, atual Estado de Tocantins, ano de 1.750. Um grupo de homens descalços sujos e famintos se aproxima de uma aldeia carajá. Cautelosamente, convencem os índios a permitir que acampem na vizinhança. Aos poucos ganham a amizade dos anfitriões. Um belo dia, entretanto, mostram a que vieram. De surpresa, durante a madrugada, invadem a aldeia. Os índios são acordados pelo barulho de tiros de mosquetão e correntes arrastando. Muitos tombam antes de perceber a traição. Mulheres e crianças gritam e são silenciados a golpes de machete. Os sobreviventes do massacre, feridos e acorrentados, iniciam, sob chicote, uma marcha de 1.500 quilômetros até a vila de São Paulo – como escravos. Foi assim, à força, que os Bandeirantes conquistaram o Brasil. Caçadores profissionais de gente com os quais Pedro Álvares Cabral nem sonharia. Nas andanças em busca de ouro e índios para apressar, descobriram o Mato Grosso, Goiás, Minas Gerais e Tocantins. Percorreram e atacaram povoações espanholas nos atuais Peru, Argentina, Bolívia, Uruguai e Paraguai. Espalharam o terror entre os povos do interior do continente e expandiram as fronteiras da América portuguesa. Uma história brutal. Mas se não fossem eles, você talvez falasse espanhol hoje.” (FELIX, Pedro Carlos Nogueira; FELIX, Giseli Dalla Nora. História de Mato Grosso, 2. ed., rev., atual., Cuiabá: KCM, 2009, p. 16).

idosos, índios e padres, além dos animas (domésticos ou não). Na realidade, pode-se dizer que eram “uma cidade que viaja com os seus senhores e seus governados.”83

E, em decorrência de inúmeras dessas incursões, foram descobertos metais preciosos, o que acarretou uma corrida pelo ouro, atraindo diversos aventureiros à região, mais tarde conhecida como Minas Gerais, propiciando o surgimento dos primeiros arraiais, iniciando o povoamento das áreas conquistadas, o que ocorreu, também, no Estado de Mato Grosso. Na seqüência, surgiram os mercadores, que vendiam roupas, comidas e escravos conformando uma sociedade essencialmente urbana.84

O desenvolvimento da economia colonial, após o ouro e, a subsequente queda da produção do metal, prosseguiu e, em diferentes regiões, outras riquezas naturais foram cultivadas, como o fumo, na Bahia; o algodão, no Maranhão e no Pará; e, ainda, a pecuária, que teve um avanço significativo para o interior, deixando o litoral. No Pará e, em Minas Gerais, nota-se, ainda que timidamente, o surgimento a indústria têxtil. Já, em São Paulo, surge a siderurgia na segunda metade do século XVIII.

A colônia se diversificara. As formas de ocupação que haviam garantido a presença portuguesa entre os séculos XVI e XVII, ou seja, o latifúndio e a monocultura, passaram a conviver crescentemente com outras atividades econômicas. [...] Sua imensidão territorial gerou, contudo, o aparecimento de comerciantes volantes [...] Paralelamente às diversas formas de comércio volante, a urbanização havia, sobretudo, incrementando o comércio fixo. Este se dividia em lojas e vendas. As primeiras, grandes, encontravam-se nos centros urbanos, as segundas, menores, nas periferias. [...] A vida urbana também trouxe para a cena outros atores. Os artesãos, por exemplo.85 (grifo nosso).

O comércio teve papel de relevo no processo de urbanização brasileiro, auxiliando no progresso das cidades. Assim como os centros urbanos, o campo também sofreu modificações. No final do século XVIII, os grandes senhores de escravos e os pequenos proprietários passavam por situações precárias, apenas colhendo cada qual para seu sustento. Todavia, era na cidade que se notava pobreza maior, já que não tinham sequer a possibilidade (do campo) da agricultura de subsistência, vivendo muitos da caridade alheia86.

83 RIBEIRO, João. História do Brasil, 5. ed., rev., melh., Rio de Janeiro: Francisco Alves & Cia., 1914, p. 226. 84 RAMOS, Duílio. História da Civilização Brasileira, 5. ed., São Paulo: Saraiva, 1965, p. 127/132.

85 PRIORE, Mary del; VENANCIO, Renato. Uma Breve História do Brasil, São Paulo: Planeta do Brasil, 2010, p. 135/138.

86Sobre essa época, Mary Del Priore e Renato Venancio, questionam: “Como eram as cidades do tempo de nossos arquiavós?” E, apontam que os documentos colônias não deixam pairar dúvidas acerca de como as cidades, sendo estas, “Para além de um ‘ajuntamento de homens no mesmo lugar com casas contíguas ou vizinhas’ [...] Muitas cidades portuguesas, assim como suas congêneres coloniais, eram o cenário de uma

Apesar desse cenário, importante destacar que “no Brasil, a organização municipal foi o ponto de apoio para o processo de colonização”87, sendo que Nestor Goulart Reis Filho aponta, que a organização municipal sempre teve papel de relevo na política de colonização aplicada por Portugal, no Brasil, que acaba por receber, como herança, desde o início, uma espécie de organização que corresponde a:

“[...] um estado mais complexo, x que superou os limites da Cidade-Estado e se organizou em nação, com uma organização social também mais complexa, cujos interesses mais profundos estão ligados a uma burguesia mercantil nacional e internacional,” 88

E, essa burguesia, tenta, ao máximo, passar despercebida nos núcleos urbanos do país. Assevera, ainda, Nestor Goulart Reis Filho, que Portugal transferiu o seu legado ao Brasil, no que se relaciona com a organização municipal, já que a organização municipal brasileira, por meio das Ordenações era o mesmo modelo português, com “suas raízes romanas e suas funções político-administrativas e judiciárias.” E, continua, assinalando que o papel de destaque exercido pelos municípios teve seu momento de declínio, ao terminar a segunda década do século XVII.89

Nesse período as propriedades eram auto-suficientes, o que resultava em um prejuízo para o desenvolvimento econômico e urbano, já que produziam tudo que era necessário para o sustento e, o que excedia era praticamente todo exportado (além de que os produtos oriundos dessas propriedades não era trocado e, sequer beneficiado nas vilas e/ou cidades), o que impedia o incremento do mercado urbano e, auxiliava na manutenção da economia rural. Dessa forma, é possível afirmar que “até meados do século XVII as atividades econômicas urbanas não foram suficientemente produtivas para adquirirem uma dinâmica própria.”90 Somente após esse período que se vislumbra o surgimento de camadas sociais urbanas, com o comércio um pouco mais fortalecido (se relacionando tanto os grandes quanto pequenos comércios) e, os ofícios mecânicos. “Ainda que não houvesse nos núcleos brasileiros uma economia urbana própria senão na segunda metade do século XVII, existiam atividades

tremenda desordem, espaço de permanentes disputas e conflitos sociais. Além disso, as cidades reuniam os grupos mais empobrecidos da sociedade. [...] Prolongando a tradição medieval, nossas cidades, na sua grande maioria, foram construídas não em áreas planas [...] mas em lugares altos e de difícil acesso. Morro abaixo, serpenteavam ruelas e becos sobre os quais aglomeravam-se casas toscas.” (Idem, p. 85/86).

87 REIS FILHO, Nestor Goulart. Evolução Urbana do Brasil: 1500/1720, São Paulo: USP, 1968, p. 22. 88 Idem, p. 22/24 e 28.

89 Idem, p. 28. 90 Idem p. 38.

econômicas regulares, de caráter urbano, que correspondiam à parcela permanente de sua população.”91

O Brasil passa a oferecer regiões de intensa e agitada vida urbana, em contrapartida à vida rural, em decorrência de diversos fatores, como, por exemplo, a descoberta de veios auríferos em Minas, sendo que a população das minas era predominantemente urbana, vivendo no entorno da cidade e, próxima das minas.

A formação da rede urbana é iniciada em 1532, com o estabelecimento do regime das capitanias e a fundação de São Vicente. Até 1650, quando se inicia a centralização político-administrativa, foram fundadas 31 vilas e 6 cidades, no intervalo de 120 anos. [...]

Duas etapas de mais intensa urbanização podem ser verificadas: a primeira compreendida entre 1530 e 1570, correspondendo à instalação das capitanias da costa leste. Seu momento de maior intensidade estava situado entre os anos de 1530 a 1540. Os dois decênios que medeiam entre 1565 (data da fundação de São Sebastião do Rio de Janeiro, cuja instalação foi efetivada em 1567) e 1585, data da fundação de Filipéia de N. Sra. das Neves de Paraíba, marcam um intervalo durante o qual terá ocorrido apenas a instalação de Iguape [...]

O segundo período de urbanização pode ser considerado como correspondente aos anos compreendidos entre 1580 e 1640. [...]

O ritmo de crescimento reflete-se na média de criação de vilas e cidades entre os anos de 1540 e 1630, aproximadamente igual a duas por decênio. [...] Entre 1610 e 1670 em São Paulo, nos territórios das antigas capitanias de São Vicente e Santo Amaro, levantaram-se dez novas vilas. Assim, mesmo nas áreas mais afastadas dos programas de economia de exportação, verifica-se crescimento demonstrando que, à margem dos programas de urbanização estimulados e previstos pela metrópole, a nova terra já iria encontrando caminhos próprios.

Entre 1650 e 1720 foram fundadas trinta e cindo vilas, elevando-se duas delas à categoria de cidades: Olinda e São Paulo. Ao fim do período, a rede urbana estava constituída por um respeitável conjunto: sessenta e três vilas e oito cidades.

[...] Podem ser assinadas três etapas de mais intensa urbanização. A primeira mais modesta em São Paulo, entre 1650 e 1660, com a fundação de vilas na área do atual Estado e duas mais ao Sul. [...] A segunda etapa corresponde à fundação de sete vilas, entre os anos 1690 e 1700, justamente quando ocorrem as autorizações régias para que os governadores promovam a fundação de vilas. [...] A descoberta de ouro no interior promoveu um afluxo da população da própria Colônia e de Portugal, provocando na região das minas a terceira etapa de urbanização intensa entre 1670 e 1720, com a fundação de oito vilas.

O exame da distribuição geográfica da rede revela concentração em determinadas regiões. Uma área intensamente beneficiada foi São Paulo [...] [...] Apenas o norte, com uma economia menos desenvolvida, revelaria um crescimento mais modesto. Em setenta anos sua rede urbana ganhou somente três vilas, sendo que uma no Piauí, outra no Ceará e uma apenas em toda a Amazônia: Icatu no Maranhão, com data discutível.

A população dos núcleos principais aumentou de modo significativo. [...] Os centro menores sofreram um lento aumento demográfico e com freqüência diminuição, perdendo habitantes para as minas. Dependendo de um meio rural com produtividade mais ou menos limitada, o afluxo de população provocaria a ocupação de novas terras, onde seriam criadas novas paróquias e em seguida vilas mas não seria possível ocorrer uma concentração maior [...].92

91 REIS FILHO, Nestor Goulart. Evolução Urbana do Brasil: 1500/1720, São Paulo: USP, 1968, p. 38. 92 Idem, p. 80/84.

Verifica-se, pelo acima apontado, que os centros urbanos vão-se desenvolvendo no decorrer do período colonial, sendo que a população dos centros principais aumentou significadamente, e, alguns casos (como Salvador), duplicaram de tamanho. Ressalta-se que um dos fatores mais importantes, para o desenvolvimento, ou não, de uma região, foi o elemento econômico, além claro da distribuição geográfica (o que demonstra as razões para o crescimento de São Paulo). Além disso, com o desenrolar, o país começa a deixar o campo e se voltar para os centros urbanos.

Frisa-se que a urbanização, no Brasil, seguiu caminho diverso da Européia, pois, no período colonial, enquanto a colônia voltava-se para o mercado rural, a Europa desenvolvia-se (com os subsídios das colônias, especialmente, dentre as quais se encontrava o Brasil) largamente seus núcleos urbanos.

No Brasil,

Os padrões de construções urbanas refletiam claramente as condições de evolução das aglomerações. Os edifícios dos primeiros tempos, de modo geral, até os da metade do século XVII, evidenciam, na sua simplicidade, a modéstia da vida urbana e a severidade das condições das épocas de instalação da Colônia. [...] Dois traços eram característicos da maior parte das habitações urbanas no Brasil: a presença dos escravos e a ausência dos proprietários. [...] A isso acrescia-se o costume das famílias mais abastadas, de residir em chácaras, na periferia, aumentando, em consequência, o êxodo da população urbana93 e, como decorrência, o caráter intermitente da vida urbana. Pode-se dizer que, quase sempre, a maioria do espaço ficava reservado para o uso dos proprietários rurais. Na sua ausência, as vilas e mesmo a cidade ficavam semi-paralisadas. [...]. As casas dêstes