Os processos descentralizadores nos anos seguintes vão adquirindo novos contornos, conforme o adensamento das teses neoliberais, com a chegada ao governo de teóricos e técnicos formados pela Escola de Chicago. Se Collor era outsider, Fernando Henrique Cardoso era credenciado pelas lutas democráticas, o que dava a ele legitimidade para impor as reformas que seu grupo político achava necessárias:
A inspiração da reforma gerencial é muito mais republicana que do que liberal. Seu objetivo central é o de assegurar condições mais propícias para a defesa da res
publica, para proteção dos “direitos republicanos”. Seu princípio diretor é a necessidade de reverter a privatização do Estado e promover modalidades de controle por parte dos cidadãos. Longe de “minimizar” a esfera pública, que se faz é robustecê-la (Cardoso apud Bresser Pereira, 2001, p. 7).
Essas palavras, ditas por FHC, compõem a introdução do livro de Bresser Pereira (2001), quando ministro do governo FHC e encarregado da condução do que Behring (2003) considera como o mais nefasto plano de reforma já implementado no Brasil. Estabeleceu-se um novo pacto social no país, tendo, como responsáveis, o próprio presidente e três de seus competentes ministros: Bresser Pereira, Pedro Malan e Paulo Renato. Todos eles comprometidamente defensores das doutrinas de mercado americanas, que orientam a economia do país rumo à efetiva e irrestrita dependência ao capital financeiro internacional. Dessa forma, as palavras de Fernando Henrique Cardoso anunciam a chamada reforma gerencial que foi posta em curso durante seu governo.
Hoje, pode-se aquilatar o que representaram, no cenário político, econômico e social, as reformas efetivadas em sua gestão7. O que ocorreu em nada se aproxima do que o governo declarava. O Governo FHC implantou, de forma definitiva, as reformas neoliberais. No entanto, FHC e sua equipe insistiram em chamar seu projeto político ora de social democrático, ora de social liberal. Mas, o que se delineou foi
(...) uma realidade bastante diferente dessa que se apresenta na erudita e aparentemente convincente conferência8 de Cardoso. Tão somente aquilo que tornaria o Estado um órgão reprodutor do capital, no qual a iniciativa privada substituirá o governo para que este pudesse investir na área social, fora realizado, para torná-lo adaptado, competente eficaz e eficiente, capaz de dar rumos e metas à sociedade, enquanto na área social o que se viu foi a transformação do Estado em um Estado forte, centralizador, gestor, avaliador e caritativo, ainda assim, sem ao menos atenuar a profunda crise social em que vivemos provocada pela degradação de nosso processo civilizatório e pela banalização da vida (Silva Jr, 2002, p. 44).
7 Fernando Henrique Cardoso tem seu primeiro mandato de 1995 a 1999 e o segundo de 1999 a 2003.
8 Aqui o autor se refere ao discurso proferido pelo então Presidente FHC, na abertura do seminário promovido
pelo MARE (Ministério de Administração e Reforma do Estado), realizado em parceria como BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento) e da ONU, do qual participaram vários intelectuais. O foco temático consistia no tema da necessidade da reforma do Estado e da mudança do paradigma de administração pública em face da universalização do capitalismo.
O Governo FHC pôs em curso a mais radical reforma do estado que este país já havia vivido. Os laços com o capital financeiro internacional foram definitivamente estreitados. A descentralização proposta por esse governo tornou os estados e municípios responsáveis absolutos pelo financiamento das políticas sociais. Estava em curso, assim, o Estado regulador, que tinha por função a privatização do Estado, por meio de medidas que não diferenciavam o público do privado.
Para implementar tais medidas, o Governo FHC cria o Ministério de Administração e Reforma do Estado – MARE, cujo Plano Diretor tinha orientações para consolidação das reformas institucionais, objetivando a reforma do Estado. Dentre os argumentos que justificavam a reforma, estava o que apontava o Estado como o responsável pela grave crise econômica, pelo tamanho que tinha, pela burocracia patrimonialista e ainda pelo caráter intervencionista. Todavia, a pressão externa e a mundialização da economia, assim como os interesses do grupo dominante brasileiro, configuraram o quadro que impulsionou essa reforma.
Para os formuladores da política de Estado, o Estado social liberal não seria um Estado burocrático e tampouco um Estado clientelista-patrimonialista, mas sim um Estado ágil, eficiente.
Por isso oferece uma combinação de instrumentos administrativos e políticos, apostando dessa forma logrará superar a ineficiência e o autoritarismo da burocracia e oferecer uma alternativa ao individualismo radical da nova direita neoliberal (Bresser Pereira, 2001, p. 106).
Vale ressaltar que a adoção da política econômica neoliberal, encaminhada pelo Governo FHC, não se dá apenas pela pressão e vontade do capital internacional. Fernando Henrique, pelas credenciais que apresentava, foi responsável pela formação e conformação de uma coalizão de poder político de centro-direita, em que a enorme maioria dos membros eram políticos que deram sustentação ao governo militar.
Para autores como Silva (2003), a adoção das políticas neoliberais por setores sindicais, o chamado sindicalismo de resultados, defendido, por exemplo, pela Força
Sindical criada em 1991, cumpriu um importante papel de apoio ao Governo FHC, contribuindo efetivamente para a hegemonia neoliberal nos setores trabalhistas no Brasil.
A autora indica ainda que os setores mais avançados do sindicalismo sucumbiram à política ofensiva desencadeada pelo Governo FHC, com “a idéia da inevitabilidade das reformas. Em agosto de 1995, FHC encaminha para o Congresso Nacional, o Projeto de Emenda Constitucional nº 173 sobre a reforma do aparelho do Estado brasileiro” (Silva. 2003, p.71).
Essa reforma tinha como ponto de origem reduzir o custo Brasil9, solucionar a crise
da economia brasileira e garantir as condições para a entrada na economia globalizada. Dessa forma, fazendo uso do discurso ideológico, o governo apresentou, no bojo das reformas, os direitos sociais como privilégios, alegando que esses direitos se constituíam em entraves ao desenvolvimento econômico. O Governo FHC, entre as principais medidas, desregulamenta a economia, flexibiliza a legislação do trabalho, diminui os gastos públicos, privatiza as empresas estatais e abre o mercado aos investimentos transnacionais (Silva, 2003).
Ainda segundo Silva (2003, p. 80),
o Governo em seu projeto de “reconstrução do Estado” identificou quatro grandes problemas que o Estado deveria enfrentar: o tamanho do Estado; a necessidade de redefinição do papel regulador do estado; a recuperação da governace; a
governabilidade. Com o objetivo de sanar esses problemas e de supostamente “quebrar com o clientelismo e burocratismo” o governo utilizou como idéias forças e parcerias, a flexibilização e a privatização.
Todavia, o estado social liberal lançou mão de uma série de medidas descentralizantes, apoiadas em teses que defendiam a saída do estado de funções que não eram de sua competência, e a retomada do que deveria ser sua “função maior”, ou seja, regular as relações Estado/mercado (Bresser Pereira, 2001).
9Dominick (2005) define que o “Custo Brasil” é o custo de se produzir no Brasil. Não há uma tentativa de
medida tão concreta quanto à do “Risco Brasil”, mas é uma medida mais facilmente compreendida, porque existe de fato internamente e é sentida claramente por todos os empreendedores.
O chamado custo Brasil é a capacidade que o país tem de oferecer ao investidor nacional e estrangeiro garantias de lhe render um lucro maior na sua produção, levando em consideração diversos fatores. É o chamado investimento direto. E isso inclui tanto os cenários nacionais e os internacionais, ou seja, tudo o que acontece no Brasil e no mundo.
1.6. As medidas descentralizadoras e a posição do Estado frente às organizações