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§ 13 UZLAŞTIRMANIN AŞAMALAR

C) UZLAŞTIRMA TUTANAĞI VE İÇERİĞİ

Desde seus primeiros escritos, Borges evitou tratar a linguagem como meio transparente de representação. Em cada página borgeana, a partir de seu primeiro livro, a coletânea de poemas Fervor de Buenos Aires (1923), vislumbra-se uma consciência implacável de que linguagem e mundo são ordens que não coincidem. Isto é: a mímesis é um processo necessariamente imperfeito – ou seria melhor dizer: incompleto, na medida em que é aberto e pede a coparticipação do leitor (COSTA LIMA, 2000). Se nossa hipótese é correta, a literatura produzida por Borges faz desse drama da incompletude da mímesis um leitmotiv que encontra seu ponto reflexivo culminante no conto “O Aleph”. Os grandes momentos da literatura borgeana contemporânea ou posterior àquele conto serão, quase sempre, reescritura dele, o símbolo Aleph sendo substituído por equivalentes – a biblioteca, a loteria, a memória, o congresso, o livro, as malhas de um tigre etc. Mas, se digo que “O Aleph” é ponto culminante, devo apresentar antecedentes; o desejável, talvez, fosse deslindar cuidadosamente o fio que esbarra naquele conto, esquadrinhando sua trajetória até aquele ponto máximo. Mas seria isso possível? Parece-me que não. Primeiro, porque a pletora de material a ser levado em consideração – poemas, contos, ensaios, prólogos – tomaria mais página que o esperado e produziria menos uma certeza de verdade do que enfaro e bocejos. Segundo porque, como já nos alertou Michel Foucault (2007), genealogias lineares, demasiado apegadas às “solenidades da origem” (p. 18), quando não são francas teogonias, acabam produzindo mitificações de pouca valia. Não me parece valer à pena construir aqui a falsa narrativa de uma mente literária que, de degrau em degrau, sem recuos e hesitações, chega ao cerne de um problema.

O que, então, fazer? Confesso que, por algum tempo, seduzido pelas “solenidades de origem”, procurei o texto, aquele texto lá da juventude, que em geral os escritores não incluem em obra alguma; aquele texto que foi publicado num jornal provinciano ou numa revista de pouca expressão, mas que o olhar obcecado e diligente desse ou daquele pesquisador acaba por encontrar. Percebi, ao fim, que

esse texto-arquétipo, ao menos em Borges, inexiste. Mas, ao mesmo tempo, percebi quão longeva é a preocupação de Borges com o problema da mímesis e da autorreflexividade. Ela brota seja em poemas, seja em contos ou ensaios; ocupa a mente do jovem Borges mas também a do Borges maduro. E carrega consigo um conjunto de implicações que só no capítulo seguinte, no processo de análise de alguns contos de Borges, poderá ser mais bem explicitada. Na falta, pois, desse texto-arquétipo, é possível escolhermos um texto do jovem Borges a que será impossível atestarmos que se trata da primeira semente mas que, com toda certeza, constitui um elo cediço e basilar da cadeia que por sinuosos caminhos desembocará na reflexão contida em “O Aleph”. Trata-se do poema “A rosa”, publicado originalmente em 1923 no livro de estreia de Jorge Luis Borges, Fervor de Buenos Aires:

A ROSA A rosa,

a imarcescível rosa que não canto, que é peso e fragrância,

a do negro jardim na alta noite,

a de qualquer jardim e qualquer tarde, a rosa que ressurge da tênue

cinza pela arte da alquimia, a rosa dos persas e de Ariosto, a que sempre está só,

a que sempre é a rosa das rosas, a jovem flor platônica,

a ardente e cega rosa que não canto, a rosa inalcançável.

(OCI, 1998, p. 23)

O que nesse poema prefigura o estilo e as preocupações que serão refinadas no conto “O Aleph”? Notório que naquele poema um elemento basilar do estilo do Borges maduro não se faz presente: o humor paródico. Porém, já ali se vê o recurso da enumeração e a forte base livresca da inspiração. E a função desses dois elementos não difere muito do que se verá no Borges de produções posteriores: dar à representação uma consciência autorreflexiva e dramatizar uma impossibilidade, a de uma mímesis total, uma representação que narre o Todo. Adiante, na obra mais madura, esta ambição de narrar o todo se resolverá, muito frequentemente, pela paródia do relato de experiência mística ou da poesia de gênero épico.

“A rosa” é composto de um único período, significativamente longo, formado de enumerações de caráter determinativo – apostos e orações adjetivas explicativas. A técnica das enumerações, que em Borges, segundo Ana Maria Borrenechea (1967), provém da leitura da Bíblia e de Walt Whitman, recebeu dos críticos borgeanos distintas interpretações43. Borrenechea enfatiza ser papel delas sugerir a

vastidão do universo, “la grandiosidad del espetáculo por series de objetos siempre elegidos con extraordinaria eficacia poética” (1967, p. 116). Por outro lado, Silvia Molloy (1999) vê as enumerações borgeanas como recurso para denunciar a arbitrariedade que está no bojo de qualquer tentativa de classificação do universo; mais radicalmente, tais enumerações podem sugerir a falta de um sentido orgânico ao universo. Observando o poema de juventude “A rosa” a tendência é concordar com Borrenechea, o que não ocorreria se o texto em escopo proviesse de obras maduras como os contos de Ficções ou de O Aleph, onde o recurso produz certa vertigem diante da inabarcával complexidade do universo.

A sugestividade da “vastidão do universo”, o desejo de abarcar via linguagem este vasto mundo, no poema “A rosa”, é efeito do caráter heterogêneo de suas enumerações. O histórico, o cotidiano e o livresco se enlaçam fazendo com que uma peça breve, de apenas 13 versos, fale de uma experiência sem limites espaço- temporais definidos. É a eternidade que está em jogo; e a impossibilidade de a linguagem comunicá-la. Borges, desde cedo, recusa aproximar a poesia da experiência mística, pródiga no contato do homem com o Absoluto; ainda que pertença a uma tradição que deu ao mundo Teresa d’Ávila e Juan de La Cruz, poetas que atingiram via verso a fruição do Absoluto, a comunhão com o mundo e com Deus, Borges recusa esta tradição. Em seu lugar desponta a consciência da inalcansabilidade da rosa, que só deixa uma alternativa: comunicar a incomunicabilidade, representar o drama da não-representabilidade, nas antípodas da tradição da poesia mística que logra, ou supõe lograr, comunicar o inefável. O Todo que é sugerido em Borges, a rosa que está em todos os lugares, que é símbolo e objeto concreto, que é una e múltipla, não pode ser abarcado. O Ser é cantado num poema que afirma a impossibilidade de cantá-Lo. Uma mímesis

43 O próprio Borges fez diversas referências à enumeração e à sua função. Sua opinião pode ser

colhida neste trecho de ensaio dedicado a Walt Whitman: “[...] a enumeração é um dos procedimentos poéticos mais antigos – recordem-se os Salmos da Escritura e o primeiro coro d’Os Persas e o catálogo homérico das naves – e que seu mérito essencial não é a extensão, mas o delicado ajuste verbal, as “simpatias e diferenças” das palavras. Walt Whitman não o ignorou” (OCI, 1998, p. 218)

substantiva, que faça coincidir o real e a linguagem, não é possível, mas o escritor, ainda assim, tentar ordenar o mundo em seu discurso. Como dirá Borranechea, “al mismo tiempo que siente tan vivamente la insensatez del universo, [Borges] reconoce que como hombre no puede eludir el intento de buscarle un sentido” (1967, p. 63).

É preciso dizer que este dilema que se delineia em “A rosa”, ou talvez em texto anterior não descoberto por mim, e que percorre a obra de Borges recobrindo diversos símbolos, dos quais o Aleph é talvez o mais complexo e bem realizado, nunca afastou Borges de um equilíbrio clássico. Embora para Borges o fundo da existência humana seja trágico, embora Schopenhauer tenha sido um de seus filósofos prediletos, seu estilo corteja a sobriedade e seu cuidado na elaboração de enredos atraentes – que copiam, nas camadas superficiais, a linha dramática dos contos policiais e gêneros similares – amortece as tensões que enformam, em última instância, seus textos. Borges expressa, enfim, a ininteligibilidade final de mundo na linguagem mais inteligível possível, no que se aproxima de Kafka, embora no argentino o peso de noções teológicas como o pecado original não seja relevante. Os símbolos que Borges tece com cuidadosa diligência servem apenas para replicar, em tom de sutil vingança, a desordem do mundo.

Faltam ao poema “A rosa” a complexidade de estrutura e o humor corrosivo que se verá no conto “O Aleph”, mas o essencial em termos de elaboração de uma visão acerca do problema do mundo e da linguagem já se mostram com clareza. No campo ficcional, essa rosa de 1923 estará madura no livro Ficções, de 1944, onde ela se desdobrará em símbolos como a loteria (“A loteria em Babilônia”), a biblioteca (“A biblioteca de Babel”) e a memória (“Funes, o memorioso”).