Segundo Cavalcante (2001), Habermas é o autor contemporâneo que propõe a racionalidade comunicativa como paradigma necessário à compreensão da sociedade
moderna e como devemos lidar com os seus desafios. O teórico acredita no projeto de uma humanidade emancipada, que utiliza seus conhecimentos como mecanismo argumentativo para mediação entre a razão6 e a esfera de poder. A autonomia política é derivada da independência de ação, que se alicerça na liberdade ou direito de fazer algo, tendo em vista a capacidade de concretizar esses direitos. Cavalcante (2001) cita o conceito de ação em quatro pontos nas teorias sociais:
• Ação teleológica: seu conceito chave é o plano de ação, que permite a correta
interpretação do ato para determinado fim, ao decidir entre as alternativas de ação;
• Ação normativa: refere-se à regulação das ações dos membros de um grupo social
por eles próprios através de acordos estabelecidos que visem interesses comuns. A palavra chave é obediência à norma;
• Ação dramatúrgica: voltado para a interação entre os participantes, formando um
público diante do qual a subjetividade se apresenta. A ênfase no ato se dá na função expressiva da linguagem assimilada às formas de expressão artística;
• Ação comunicativa: é a síntese das ações anteriores, este modelo se baseia na
interação entre dois ou mais indivíduos capazes de alcançar o entendimento sobre uma situação, coordenando os planos e as ações. O cerne deste modelo é a interpretação da situação, numa busca pelo consenso após a negociação da definição das normas. A linguagem é o mecanismo utilizado para o entendimento objetivo e subjetivo.
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A racionalização é tratada aqui segundo a idéia de um “processo que possibilita, no mundo moderno, a ampliação do saber empírico, a capacidade de previsão e também o domínio instrumental e organizativo sobre os processos empíricos” (CAVALCANTE, 2001, p.34).
A análise habermasiana da sociedade ocidental moderna baseia-se na definição da racionalidade, uma vez que não acredita que apenas a ação instrumental é suficiente para caracterizar a sociedade, abarcando, também, a ampliação das normas que regularão as bases consensuais da ação. O reconhecimento social do indivíduo, “em última instância, se dá por intermédio dos mecanismos de entendimento presentes na razão comunicativa” (op. cit, p. 194).
Nesse sentido, a conceituação se separa em duas dimensões. Uma é a racionalidade sistêmica, voltada à objetificação das estruturas econômicas e administrativas (poder), numa clara demonstração da maximização dos interesses individualistas através da ação metodicamente planejada para um fim. A outra possibilidade defendida pelo autor se refere à racionalidade comunicativa, calcada na interação e discussão entre os atores sociais que compartilham interesses e buscam o entendimento.
Para Avritzer (2002), a coordenação das ações pelos resultados que se podem auferir norteia a idéia habermasiana dos subsistemas presentes na sociedade: se na esfera econômica as relações têm o respaldo do chamado “código positivo” da recompensa, temos no aspecto administrativo as relações estruturadas pela lógica do poder e pelo “código negativo” da sanção. Com isso a interação social parte da ação comunicativa para atingir o ideal de consenso normativo, estabelecendo relações distintas com estas estruturas sistêmicas (Mercado e Estado) e a esfera pública (Sociedade Civil), numa tentativa de Habermas em explicar a busca das sociedades contemporâneas em se libertar da coerção decisória imposta pelo sistema político-administrativo, bem como das demandas econômico-financeiras levantadas pela sociedade produtiva.
A centralidade na idéia de racionalidade comunicativa permite a Habermas ampliar as bases do conceito de sociedade, a partir das “esferas do sistema” e o “mundo da vida”,
conforme denomina, bem como os movimentos emancipatórios, mecanismos de entendimento ou acordo racional presente nas práticas democráticas. Essa “estrutura
teleológica vai antecipar os conteúdos normativos por meio da ética do discurso”
(CAVALCANTE, 2001, p.160). Habermas propõe o rompimento com a teoria comunicativa, tanto da vertente idealista por não concordar com a centralização no Estado de toda a sociedade, quanto a visão realista, ao discordar da regulação do equilíbrio entre os interesses diversos através das normas constituídas pelo Mercado. A nova teoria atua como um processo que envolve as redes informais constituintes da esfera pública e também os atores deliberativos da administração pública, pressupondo um entendimento isento de repressão e utilizando o recurso lingüístico como meio de obter o consenso sobre a regulação de questões relevantes para a coletividade.
Surge nesse momento um terceiro elemento necessário para a manutenção das interações: além do dinheiro e do poder administrativo, a solidariedade representa a força integradora presente na formação de opinião pública e que descentraliza o poder administrativo. No domínio democrático, as decisões políticas devem ser tomadas coletivamente, através da esfera pública vitalizada e conectada às redes formais de poder público. Entretanto, “ao nível da esfera pública, a racionalidade do processo participativo não leva à constituição imediata de propostas administrativas, mas conduz apenas a um processo democrático de discussão.” (AVRITZER, 1999, p.32).
Portanto, a legitimidade fica a encargo da discussão que permite a definição das regras e não sobre a norma de maneira estrita, refletindo os interesses da coletividade organizada e participante dos fóruns de debate de políticas públicas. A importância dos atores sociais está além dos procedimentos definidos para a montagem desse grupo, deve– se, na verdade, buscar compreender quais são os elementos que os capacitam a influenciar
na definição das propostas deliberativas, como as discussões e a persuasão. Surge, então, a idéia de soberania popular, que transcende a definição centralizada nas massas ou no poder anônimo constitucional, sendo, na verdade, a junção dos desígnios jurídicos com os agrupamentos sociais mobilizados para defender um bem comum (FARIA, 1996).
A racionalidade comunicativa presente na prática cotidiana deve gerar o consenso, necessário para o fortalecimento e manutenção do sistema político democrático, entretanto, ela não impede a ocorrência das divergências, que devem reacender as discussões num outro estágio, mais argumentativas e que permitam esclarecer as pretensões através da avaliação da fala dos sujeitos participantes do processo. Esse é o “procedimento educativo” a ser vivenciado no ambiente coletivo, uma vez que permite o redirecionamento discursivo diante das falhas apontadas numa discussão e a definição de política deliberativa, resultante da integração dos anseios democráticos constituídos no ambiente formal com a informalidade resultante das discussões nos espaços externos a essas instituições.
A partir desse ponto, tornam-se aparentes as divergências de pensamento entre as correntes teóricas representativa e discursiva. Para Faria (1996), enquanto a primeira teoria se inspirava na racionalidade instrumental e suas práticas políticas como capazes de resolverem os problemas que emergem da sociedade, apontando as limitações quanto à extensão da participação política da Sociedade Civil (ao defender a intervenção restrita a um pequeno grupo político) e o grau de legitimidade das decisões, na segunda vertente a participação política depende da virtude dos cidadãos em se devotarem aos interesses coletivos, sem a institucionalização de procedimentos, com as convicções éticas previamente definidas. A teoria discursiva trata da convicção quanto à ampliação da experiência em um domínio não governamental, atingindo o nível de política nacional e
favorecendo a sua “eficiência política” na definição de regras em instituições políticas formais, tornando-se, portanto, uma política discursiva e voltada para o interesse público.
Conforme as teorias expostas é possível pensarmos num período de superação da teoria representativa ou que vem ocorrendo apenas a incorporação de alguns elementos da teoria participativa na definição das ações políticas? As mudanças vislumbram uma intervenção mais direta da sociedade em situações onde a representação é necessária, como nos casos dos Conselhos Gestores de Políticas Públicas? E a estrutura de poder público está sendo democratizada? Se o escopo for assegurar os interesses pessoais, a representação consegue o desempenho esperado, mas se a finalidade é aumentar a participação popular, reestruturando a percepção pessoal e de manutenção dos empreendimentos, não há clareza da adequação desta proposta (PITKIN, 1985). A finalidade desse estudo é a verificação de uma prática institucional mais participativa e dialógica, resultando em medidas mais reflexivas e consensuais.
Se ainda não é possível falarmos na revisão da racionalidade instrumental, esperamos ao menos perceber o questionamento da sua preponderância, principalmente em sociedades marcadas por longos períodos de ausência participativa dos cidadãos, onde a liberdade cerceada fez com que grupos sociais se mostrassem questionadores quanto à necessidade de empregar práticas participativas para a manutenção de um sistema político administrativo viável. Falar da prática participativa como reivindicação social servirá de indicativo para compreender a modernização das relações sociais no processo de redemocratização no Brasil.
2.2 A redefinição de poder nas relações sociais democráticas: a participação