KEŞŞÂF TEFSİRİ’NİN İLMÎ BAĞLAMI
3.2. DİNÎ İLİMLERE YAKLAŞIMININ YANSIMALARI
3.2.1. Tefsir İlmine Kavramsal ve Metodolojik Yaklaşımı
3.2.1.3. Tefsir Bid‘atleri ve Kur’ân Yorumunda Tahrife Yönelttiği Eleştiriler
Uma interpretação literal da norma em questão permite inferir que o legislador indicou requisitos alternativos à inversão do ônus da prova, uma vez que utilizou a partícula “ou” (conjunção alternativa) para unir a hipossuficiência à verossimilhança (art. 6º, VIII, CDC, segunda parte: “[...] com a inversão do ônus da prova, a seu favor, no processo civil, quando, a critério do juiz, for verossímil a alegação ou quando for ele hipossuficiente, segundo as regras ordinárias de experiência [sem grifo no original]”.
A propósito do dispositivo citado, distintos são os posicionamentos da doutrina acerca da utilização, pelo legislador consumerista, da partícula disjuntiva “ou” e não da aditiva “e”, demonstrando a indicação de requisitos alternativos e não cumulativos. Diversos autores afirmam que o legislador estabeleceu requisitos alternativos, bastando, portanto, o preenchimento de um deles para a aplicação da regra de inversão. Outros, entretanto, sustentam que esta interpretação poderia dar margem a situações injustas e contrárias à finalidade da lei, de modo que se deve entender que são tratam – a verossimilhança e a hipossuficiência – de requisitos cumulativos. Conforme esta corrente, teria o legislador se equivocado ao usar a partícula “ou”, quando pretendeu dizer “e”.
José Geraldo de Brito Filomeno173 perfilha do primeiro entendimento, ou
seja, aquele que sustenta que o legislador estabeleceu requisitos alternativos para a aplicação da regra de inversão. Assim também entendem Nelson Nery Junior e Rosa Maria de Andrade Nery174 quando afirmam que: “A inversão pode ocorrer em
duas situações distintas: a) quando o consumidor for hipossuficiente; b) quando for verossímil sua alegação. As hipóteses são alternativas, como claramente indica a conjunção ou expressa na norma ora comentada”. Da mesma forma se posiciona Cláudia Lima Marques175: “Note-se que a partícula ‘ou’ bem esclarece que, a favor
173 GRINOVER, Ada Pellegrini et al. (coords.). Código Brasileiro de Defesa do Consumidor
comentado pelos autores do anteprojeto, p. 157.
174 NERY JUNIOR, Nelson; NERY, Rosa Maria de Andrade. Leis Civis Comentadas, p. 190.
175 MARQUES, Cláudia Lima; BENJAMIN, Antônio Herman V.; MIRAGEM, Bruno. Comentários ao
Código de Defesa do Consumidor. 2. ed., rev. at. e ampl. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2006. p.
do consumidor, pode o juiz inverter o ônus da prova quando apenas uma das duas hipóteses está presente no caso”.
Entendimento diverso, sustentado por outros autores, conclui que é inafastável o preenchimento de ambos os requisitos, tendo em conta a finalidade da regra de inversão, que pressupõe não somente que a alegação seja verossímil, mas também que haja dificuldade para provar.
Antonio Gidi176, ferrenho defensor da ideia de que os requisitos devem coexistir para a aplicação da regra, afirma que a alegação deve sempre ser verossímil, já que a hipossuficiência, por si só, não respaldaria uma atitude tão drástica como a inversão do ônus da prova. O autor traz como exemplo, a hipótese de um mendigo que, alegando que seu veículo, que estava estacionado, foi furtado com todas as suas compras de Natal, poderia acionar um shopping center luxuoso e requerer a inversão do ônus da prova em função de sua hipossuficiência, para que o réu provasse que não havia compras em seu carro. Afirma, ainda, que a verossimilhança da argumentação do consumidor também não se prestaria à inversão do ônus da prova, se não houvesse hipossuficiência, ou seja, dificuldade em produzir determinada prova.
Érico de Pina Cabral177 e Anselmo Prieto Alvarez178 partilham desse
mesmo entendimento quando sustentam que a presença de apenas um dos requisitos poderia ensejar situações absurdas que, na realidade, levariam à preponderância dos interesses do consumidor frente aos interesses do fornecedor. O segundo autor ressalta que a admissão da inversão lastreada em apenas um dos requisitos levaria ao desvirtuamento do direito básico do qual ela decorre, “pois a verossimilhança ou a hipossuficiência, por si só, não caracterizariam o desequilíbrio entre consumidor e fornecedor”179.
Em rigor, não se pode negar a coerência do raciocínio expendido por estes autores, na medida em que, de fato, não seria razoável impor-se ao fornecedor o ônus de provar fatos integrantes de alegações inverossímeis ou, ainda,
176 GIDI, Antonio. Defesa do consumidor: aspectos da inversão do ônus da prova no Código do
Consumidor, p. 26.
177 CABRAL, Érico de Pina. Inversão do ônus da prova no processo civil do consumidor, p. 379-383.
178 ALVAREZ, Anselmo Prieto. As repercussões extraprocessuais e processuais (competência e
inversão do ônus da prova) da facilitação da defesa de direitos do consumidor, como garantia básica do sistema, p. 178.
no caso de o consumidor ter meios para produzir a prova e, portanto, quando não pudesse ser considerado hipossuficiente.
Ocorre que o legislador, por certo, não teve a intenção de dar margem a interpretações restritivas desta ordem, já que, de forma clara e contundente, indicou requisitos ligados pela partícula “ou”, impondo, assim, ao julgador a aplicação da regra da inversão do ônus da prova quando preenchido qualquer um deles, não lhe cabendo exigir a presença simultânea de ambos180.
Desse modo, a interpretação literal da lei afigura-se a mais adequada com os princípios que regem o CDC.
Carlos Roberto Barbosa Moreira181, revendo posição anteriormente manifestada, afirma que a exigência do preenchimento de ambos os requisitos é entendimento que deve ser evitado: “em primeiro lugar, porque se estaria adotando, entre duas possíveis exegeses, a menos favorável ao consumidor, o que não parece razoável”. Mais adiante, analisando o exemplo trazido por Antonio Gidi, qual seja, o caso do mendigo que propõe demanda em face do luxuoso shopping center, e que teria a inversão do ônus da prova em seu favor, unicamente em razão de sua hipossuficiência, já que as alegações por ele expendidas não são dotadas da mais remota aparência da verdade, o autor conclui que: “[...] inconvenientes deste jaez serão evitados adequadamente se o Judiciário vir na hipossuficiência algo além da mera indigência financeira, e se, além disso, for bem manejado o novo instrumento [...]”182.
Resta claro, portanto, que o exemplo do mendigo não pode ser considerado como situação injusta, desde que não se atribua a hipossuficiência exclusivamente às condições financeiras do consumidor.
180 Neste sentido: "Preclusão - Ação civil pública - Alegação de ilegitimidade ativa e inadequação do
procedimento adotado - Preliminares já analisadas em anterior agravo de instrumento entre as mesmas partes na mesma causa - Preclusão caracterizada - Não conhecimento. Prova - Perícia - Deferimento do pedido de inversão do ônus da prova - Caracterização de relação de consumo no contrato de cartão de crédito - Hipossuficiência dos consumidores representados pela associação- agravada caracterizada - Desnecessidade de prova da verossimilhança das alegações - Requisitos do art. 6o, VIII do CDC alternativos e não cumulativos - Inversão do ônus probatório que se refere aos fatos alegados pela autora na inicial, cabendo ao juiz analisar a pertinência e necessidade das provas requeridas - art. 130 do CPC - Recurso improvido." SÃO PAULO. Tribunal de Justiça. 1º.TACSP. Agravo de Instrumento n. 1.184.641-4. 4ª. Câmara. Relator J. B. Franco de Godói. Julgado em: 27/08/2003. Disponível em: <www.tj.sp.gov.br>. Acesso em: 16 fev. 2009.
181 MOREIRA, Carlos Roberto Barbosa. Notas sobre a inversão do ônus da prova em benefício do
consumidor, p. 301. 182 Idem.