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KEŞŞÂF TEFSİRİ’NİN İLMÎ BAĞLAMI

3.1. ZEMAHŞERÎ’NİN BİLGİYE YAKLAŞIMININ YANSIMALARI

3.1.5. Alimlerin Sahip Olması Gereken Özelliklere Dair Görüşleri

A noção de hipossuficiência deve ser obtida a partir da finalidade da lei que a indica com um dos requisitos necessários à inversão do ônus da prova, qual seja, facilitar a defesa do consumidor em juízo em matéria probatória. Deve relacionar-se com as dificuldades encontradas pelo consumidor em sua tarefa de produzir provas, de modo que não há como se atrelar a condição de hipossuficiência exclusivamente ao aspecto econômico do consumidor, já que ela guarda estreita relação com o aspecto técnico154.

Portanto, aquele que tiver melhores condições para produzir a prova, certamente não será considerado hipossuficiente, de sorte que se este for o consumidor, não será aplicada a regra da inversão do ônus da prova, sob o mesmo fundamento.

153 MOREIRA, Carlos Roberto Barbosa. Notas sobre a inversão do ônus da prova em benefício do

consumidor. Revista de Processo 86/295, p. 302.

154 Em sentido contrário manifesta-se José Geraldo Brito Filomeno, quando sustenta que a

hipossuficiência indicada pelo legislador refere-se exclusivamente ao aspecto econômico do consumidor, de modo que é considerado hipossuficiente o consumidor que não pode arcar com as custas do processo e sobretudo com o pagamento de honorários de um perito. Cf. GRINOVER, Ada Pellegrini et al. (coords.). Código Brasileiro de Defesa do Consumidor comentado pelos autores do

No tocante à produção probatória, importante observar que a inferioridade do consumidor em relação ao fornecedor repousa na desigualdade que existe quanto à detenção de conhecimentos técnicos inerentes à atividade produtiva e este, em rigor, deve ser o aspecto observado quando se trata de hipossuficiência como requisito necessário à inversão do ônus da prova.

Quando a produção da prova for, portanto, mais fácil para o consumidor, ele não será considerado hipossuficiente em relação ao fornecedor e, assim, não preencherá o requisito da hipossuficiência para efeito de inversão do ônus da prova. Como exemplo, pode-se indicar a hipótese de o microcomputador de um técnico renomado em informática apresentar vícios. Neste caso, não há que se falar em dificuldade para a produção das provas necessárias à solução do litígio, ainda que o consumidor seja infinitamente menos abastado financeiramente que o fornecedor. Situação inversa é a de um indivíduo multimilionário que se depara com um vício em seu automóvel e tem de litigar em face da montadora. Flagrantes as sérias dificuldades que enfrentaria o consumidor, a despeito de sua fortuna e da capacidade de suportar as despesas do processo ao ter de comprovar a ocorrência de vício de fabricação do veículo, dificuldades estas que não enfrentaria a montadora-fornecedora. O mesmo se diz de um indivíduo, igualmente abastado financeiramente, que contrai grave infecção após uma transfusão de sangue e é obrigado a comprovar, em juízo, o nexo de causalidade entre a infecção e o ato clínico.

Forçoso afirmar, com apoio em Kazuo Watanabe155, que a

hipossuficiência de que trata a lei não é puramente econômica, de modo que seu conceito não se confunde com o preceito contido no art. 2º, parágrafo único, da Lei nº 1.060/50, relativamente à assistência judiciária gratuita, e assim dispõe: “Considera-se necessitado, para os fins legais, todo aquele cuja situação econômica não lhe permita pagar as custas do processo e os honorários de advogado, sem prejuízo do sustento da própria família”.

Se a intenção do legislador cingisse-se a viabilizar a produção da prova pelo consumidor desprovido de recursos financeiros suficientes, poderia

155 Kazuo Watanabe, revendo posição anteriormente adotada, comunga deste entendimento,

afirmando que a posição que sustentara não é de todo aceitável, já que aquela inteligência do dispositivo legal não propicia a plena consecução do objetivo colimado pelo legislador. Cf. GRINOVER, Ada Pellegrini et al. (coords.). Código Brasileiro de Defesa do Consumidor comentado

simplesmente atribuir ao fornecedor os encargos financeiros dela decorrentes. Demais, tal intenção não teria relevantes consequências práticas, na medida em que a Lei nº 1.060/50, no art. 3º, isenta do pagamento de despesas processuais, incluindo-se honorários periciais, a parte carente de recursos financeiros156.

A par disso, o fato de um consumidor gozar de boa situação financeira não significa que tenha melhores condições de provar suas alegações, notadamente quando envolvem questões técnicas atinentes à fabricação de um produto. Não seria razoável impor a este consumidor o ônus de produzir prova extremamente difícil e complexa, pelo simples fato de ser privilegiado financeiramente.

A lição de Antonio Gidi157 ratifica a assertiva: “[...] não parece, e não há nada em seu conteúdo que indique, que a filosofia do Código do Consumidor seja beneficiar o consumidor pobre, mas sim o consumidor em geral, sujeito vulnerável na relação de consumo”.

A hipossuficiência do consumidor deve ser analisada de forma abrangente, à luz de sua carência sócio-econômica, técnica e de informação158.

Segundo Erico de Pina Cabral159:

A hipossuficiência do consumidor consiste na ausência de conhecimentos técnicos específicos sobre o produto ou serviço colocados no mercado de consumo, das técnicas de venda, dos termos do contrato, bem como de condições sociais, econômicas e jurídicas para demandar juridicamente. É hipossuficiente a parte que tem, em relação à outra, acentuada dificuldade de produzir determinada prova: por falta de conhecimentos técnicos, por não deter informações sobre os fatos ou por ter maior dificuldade de

156 Neste sentido foi o julgamento proferido pela 20ª. Câmara de Direito Privado, do Tribunal de

Justiça do Estado de São Paulo, no Agravo de Instrumento nº 7.289.629-6: “Prova Pericial - Despesas respectivas que competem à parte que a requereu. - A hipótese da hipossuficiência prevista no inciso VIII, do art. 6º do CDC, refere-se à dificuldade de se obter a prova pretendida, sem vinculação, em princípio, com as despesas judiciais para a sua produção. - Inadmissibilidade da inversão do ônus da prova para esse fim. Hipótese, ademais, em que o Banco, em face de sua responsabilidade objetiva, deve produzir as provas que entender necessárias para sua defesa, haja vista o disposto no artigo 14 do CDC (responsabilidade objetiva), independentemente de haver decisão antes do julgamento, pelo MM. Juízo de Primeiro Grau, sobre a inversão ou não do ônus da prova - Recurso provido”. SÃO PAULO. Tribunal de Justiça. AI nº 7.289.629-6. Relator Cunha Garcia, julg. em 17.11.2008. Disponível em: <www.tjsp.gov.br>. Acesso em: 18 fev. 2009.

157 GIDI, Antônio. Defesa do Consumidor: aspectos da inversão do ônus da prova no Código do

Consumidor, p. 26.

158 Neste sentido é o posicionamento de Nelson Nery Junior: “[...] a hipossuficiência de que fala o art.

6º, VIII, respeita tanto à dificuldade econômica quanto à técnica do consumidor em poder desincumbir-se do ônus de provar os fatos constitutivos de seu direito”. (Aspectos do processo civil no Código de Defesa do Consumidor, p. 217).

demonstrar a veracidade de um fato. Em relação a tais conhecimentos é que incide e se legitima a inversão do ônus da prova.

José Rogério Cruz e Tucci160 afirma que a hipossuficiência está ligada ao

monopólio da informação, considerando que o consumidor, em muitas hipóteses, não tem acesso às informações sobre as quais recairiam suas provas. Nesse sentido, o autor segue analisando que:

A informação, na conjuntura social moderna, é sinônimo de poder. Daí porque, por simples questão de lógica é que o autor fica, em princípio, dispensado de provar, carreando-se tal ônus ao produtor, que é quem possui o monopólio dos dados atinentes ao processo de fabricação161.

Importante frisar que a inversão do ônus da prova não importa em alteração da regra inserta no art. 33 do CPC162, na medida em que o pagamento das

despesas referentes à prova deve ser suportado por aquele que a tiver requerido. A inversão do ônus, ao reverso, significa que as consequências da não- produção de uma determinada prova devem recair justamente sobre aquele que tinha o ônus de produzi-la. Em outras palavras, pode-se dizer que, identificada como necessária a realização de perícia para a comprovação de defeito em um produto, o fornecedor não está obrigado a custear exame pericial eventualmente requerido pelo consumidor. No entanto, se não providenciar a realização da prova - arcando com os respectivos honorários periciais - e se a prova não for levada aos autos por outros meios – por obra do autor ou do juiz – o fornecedor suportará as consequências da não-comprovação do fato163.

160 TUCCI, José Rogério Cruz e. Código do Consumidor e processo civil. Aspectos polêmicos. Revista

dos Tribunais 671/32, p. 33.

161 Ibidem.

162 “Art. 33. Cada parte pagará a remuneração do assistente técnico que houver indicado; a do perito

será paga pela parte que houver requerido o exame, ou pelo autor, quando requerido por ambas as partes ou determinado de ofício pelo juiz.”

163 Neste sentido foi o julgamento proferido pelo Superior Tribunal de Justiça, em acórdão da relatoria

do Ministro Ari Pargendler: “Processo civil. Relação de consumo. Inversão do ônus da prova. A regra probatória, quando a demanda versa sobre relação de consumo, é a da inversão do respectivo ônus. Daí não se segue que o réu esteja obrigado a antecipar os honorários do perito; efetivamente não está, mas, se não o fizer, presumir-se-ão verdadeiros os fatos afirmados pelo autor. Recurso especial conhecido e parcialmente provido”. BRASIL. Superior Tribunal de Justiça. REsp. 466.604/RJ. 3ª Turma. Relator Min. Ari Pargendler. Julg. em: 7.4.2003. Disponível em: <http://www.stj.gov.br>. Acesso em: 16 fev. 2009.

Anote-se que o Código de Processos Coletivos para a Ibero-América, no art. 12, §1º, que dispõe sobre o ônus da prova em processos coletivos, determina que o ônus da prova incumbe “à parte que detiver conhecimentos técnicos ou informações específicas sobre os fatos, ou maior facilidade em sua demonstração”.