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A pesquisa foi dividida em três etapas de produção de dados, conforme procedimentos e instrumentos distintos: aplicação de questionário, observações de campo e instrução ao sósia. A coleta de dados do questionário e das observações (primeira e segunda etapas) foi realizada de forma concomitante, em diferentes períodos da semana e do ano, entre os meses de janeiro a maio de 2013, para que pudesse contemplar toda a diversidade desse contexto, pois o comércio ambulante se diferencia em função da sazonalidade praiana.

Já a estratégia metodológica de produção dos dados da terceira etapa (instrução ao sósia) se deu de forma sequencial aos dados obtidos pelo questionário. Dessa forma, os resultados da análise dos dados da etapa quantitativa – obtidos através de análise de clusters – foram aproveitados para a seleção dos participantes da técnica de instrução ao sósia. Pode-se afirmar, então, que os dados estão conectados entre si pela análise de dados da etapa quantitativa com a coleta de dados da fase qualitativa.

6.3.1 Primeira etapa: questionários

A primeira etapa compreendeu a aplicação de um questionário socioprofissional para fins de delineamento da atividade de vendedor ambulante, num estudo descritivo de levantamento (tal instrumento encontra-se reproduzido no Apêndice A) Justifica-se seu uso tendo em vista um dos objetivos de pesquisa visados, qual seja, conhecer em linhas gerais o

perfil do trabalhador ambulante, e com o fim de selecionar categorias de participantes para a etapa de instrução ao sósia. Levando-se em consideração que a população pesquisada se apresenta bastante numerosa em estimativas não oficiais e que seu número fiel ainda não foi divulgado por órgãos oficiais, buscou-se apenas realizar uma aproximação do campo e dos sujeitos estudados, sem o objetivo delinear um grupo de participantes quantificável por critérios de amostragem ou de mapear exaustivamente as características do trabalho informal na praia.

O questionário foi composto por 18 perguntas de âmbito demográfico e profissional e aplicado a sessenta vendedores ambulantes atuantes na praia de Ponta Negra (conforme explicado em seção anterior – “participantes”), com a própria pesquisadora anotando as respostas, mediante adesão voluntária de vendedores da areia ou do calçadão, no período de 08h da manhã às 15h da tarde. Em decorrência da aprovação no comitê de ética em pesquisa, um termo de consentimento livre e esclarecido (TCLE) foi elaborado, explicado e entregue aos participantes. O tempo de aplicação de cada questionário variou entre 5 minutos até 40 minutos, dependendo do quanto o participante se estendia em suas respostas, inclusive para questões além das previstas no questionário.

6.3.2 Segunda etapa: observações de campo

Nesta etapa foram conduzidas observações diretas e assistemáticas da atividade, cujo objetivo era conhecer e caracterizar a categoria profissional do vendedor ambulante em linhas gerais. Foram realizadas no período de fevereiro a maio de 2013 – concomitante ao processo de aplicação de questionários – e, ainda, no período de outubro a dezembro do mesmo ano, época em que foi realizada a etapa de instrução ao sósia. As observações não obedeceram a

roteiro pré-definido, buscando-se atingir a diversidade de situações das atividades de trabalho na praia.

Cada ida à praia para coletar questionários estendeu-se das 08hs da manhã às 14hs da tarde e era neste período de tempo que também se observava livremente a dinâmica de funcionamento do trabalho na praia. Foram em média seis horas de observação em campo, por semana, de fevereiro a maio. Após a visita sempre se registravam as observações em diários de campo.

Durante a coleta de questionários e das observações, foi possível realizar “entrevistas

com conversas informais” (Gray, 2012). Alguns dos participantes da etapa dos questionários

tomaram a iniciativa de falar sobre seu trabalho (e também sobre a praia e outros assuntos, inclusive pessoais) e expor seus produtos. Em alguns casos, eles próprios tomaram a liberdade de falar livremente, em outros, a pesquisadora se sentiu à vontade para explorar as minúcias da atividade no momento em que aplicava os questionários. Eram geralmente perguntas que aprofundavam as questões do instrumento de pesquisa (sobre o processo de trabalho, as condições de trabalho na praia, as formas de se organizar a atividade, etc).

A escolha da observação permitiu contextualizar e caracterizar a atividade profissional dos ambulantes em articulação com outras técnicas utilizadas. Além disso, a observação constituiu um momento de familiarização com os participantes e com a atividade, permitindo à pesquisadora conhecer mais da atividade para que pudesse contextualizar o momento seguinte (instrução ao sósia), selecionando as situações de trabalho mais significativas para serem abordadas na técnica.

Ademais, considerando-se que as competências se expressam e devem ser avaliadas no contexto em que são utilizadas, a partir dessa técnica foi possível, portanto, observá-las no exato momento em que o trabalhador executava suas atividades, de forma espontânea, no

apreender uma atividade de trabalho que vá além de meros recortes e visadas parciais dos trabalhadores é necessário coletar informações no efetivo exercício da atividade. Assim, justifica-se a escolha pela observação, tendo em vista que a análise da atividade direciona-se para um trabalho como ele é em certo momento, nas condições específicas de sua realização.

Quanto ao papel da observadora em campo, baseou-se na visão de Angrosino (2009), de que a observação feita em campo, em cenários de atividade laboral real, junto a pessoas em suas relações sociais e atividades, supõe algum grau de envolvimento entre observador e quem se observa. Neste tipo, o pesquisador efetua observações a fim de estruturar um contexto para entrevistas ou outros métodos de pesquisa, sendo ele conhecido pelo grupo observado, mas mantendo somente a postura de pesquisador, sem se envolver profundamente na vida e atividade dos observados e nem chegar a executá-las, como supõem certos tipos de observação participante.

6.3.3 Terceira etapa: Instrução ao Sósia

A terceira a etapa, de caráter qualitativo, consistiu na técnica de instrução ao sósia (IaS). O roteiro da IaS baseou-se nos resultados do mapeamento das situações de trabalho realizado na fase anterior e nas observações, abarcando questões que conduziram a respostas mais específicas em relação às competências e habilidades. O método de instrução ao sósia constitui uma maneira simples, em termos logísticos, de acessar a atividade e foi desenvolvido pelo psicólogo italiano Ivar Oddone nos anos 70, no contexto de seminários de formação operária na Universidade de Turim (Clot, 2007), sendo mais recentemente desenvolvido e aperfeiçoado pela equipe de Yves Clot no campo da Clínica da Atividade, onde é utilizado com fins clínicos e de autorreflexão do trabalhador sobre sua atividade.

O procedimento da IaS foi aqui utilizado de acordo com a técnica original, mas com objetivos modificados, visando por meio da análise da atividade identificar as competências

mobilizadas pelo trabalhador. Através de tal técnica, solicitou-se ao participante que descrevesse em detalhes como operacionaliza sua atividade, tanto o habitual como os imprevistos. A técnica foi iniciada por uma questão posta ao trabalhador, simulando-se uma substituição dele por um sósia (a pesquisadora), durante um dia de trabalho. O trabalhador fez a descrição da ação passada em uma situação hipotética de substituição, onde supostamente a entrevistadora-pesquisadora fosse executar sua atividade por um dia (Clot, 2007).

A pesquisadora fez o papel do “sósia” e direcionou-se ao trabalhador buscando

conseguir tanto a descrição da situação como a da conduta a ser nela adotada. As questões colocadas conduziam a uma situação habitual para o instrutor e uma situação desconhecida para o sósia. O papel da pesquisadora-sósia foi de “desconhecedora” da atividade e, assim, colocava para o instrutor os possíveis obstáculos com os quais se confrontaria num dia de trabalho. Assim, enquanto ele descrevia sua ação habitual e se deparava com situações imprevistas colocadas pela pesquisadora, sentia-se conduzido a refletir sobre as escolhas que realiza quando se está numa determinada situação de trabalho e evidenciava o uso de diversas habilidades, inteligências práticas e saberes escolares e extraescolares necessários para a resolução de problemas. Dessa maneira, a partir do relato das atividades e dos respectivos comportamentos, foi possível inferiras competências mobilizadas.

As entrevistas de instrução ao sósia foram realizadas com quatro vendedores ambulantes, no período de outubro e novembro de 2013. Cada IaS foi realizada no próprio local de trabalho. Dois participantes – os ambulantes de areia – foram contatados previamente por telefone e houve hora marcada. No caso deles, foi essencial ter marcado um horário mais conveniente, pois os vendedores que circulam pela areia não se fixam num local e é difícil fazê-los parar no meio da atividade para participar de uma entrevista. Os outros dois – que trabalham no calçadão – não foram marcados previamente, sendo abordados na praia em

ocasiões em que já estavam próximos a ir embora e/ou quando estavam sem atender clientes11.

As entrevistas foram videogravadas e duraram em média 1 hora, sendo seguido o critério de saturação. Quando o participante já havia contado toda a rotina que a pesquisadora- sósia enfrentaria num dia de trabalho e o percurso começava a se repetir, sentia-se que já se tinha posse de suficientes subsídios para compreender essa atividade e as competências implicadas, embora se saiba que cada ida a campo e cada novo discurso trazem mais aspectos ainda não explorados do universo do comércio informal.

Por fim, foi realizado também um novo encontro entre instrutor e sósia para confrontar o trabalhador com suas próprias instruções – a entrevista de confrontação – conduzida após a análise das transcrições do material. Foi apresentado ao participante seu vídeo da primeira etapa editado com as principais falas definidoras de sua prática, bem como as competências implicadas. Nesta fase, teve-se como objetivo devolver ao participante as conclusões gerais pós-técnica e apresentar uma breve descrição das competências encontradas a partir de sua entrevista. Assim, ele pôde confrontar-se consigo mesmo, com seu modo de agir diante das situações, expor as principais impressões que teve dessa experiência e também complementar ou esclarecer alguns pontos. Como meio de registro dessa etapa, foi utilizada a gravação de áudio.

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Benzer Belgeler